quinta-feira, 12 de março de 2026

Cony aos incríveis 100 - Ruy Castro _FSP

 Já contei esta história. Em 2012, coordenando um ciclo no Sesi, em São Paulo, sobre o centenário de Nelson Rodrigues, convidei Carlos Heitor Cony a participar de um dos debates. Cony, com 86 anos, tinha um câncer linfático crônico, cujo tratamento lhe provocava um enfraquecimento que o obrigava à cadeira de rodas. Mas sua cabeça continuava atilada, surpreendente e com a molecagem intacta. Aceitou e tomou o avião no Santos-Dumont.

Ao chegar de carro ao prédio da avenida Paulista, onde se daria o debate, Cony foi recebido na garagem pelas moças da produção. Elas o observaram ser descido a custo do veículo e colocado na cadeira de rodas. Uma delas perguntou, aflita: "Está tudo bem, Dr. Cony?". E Cony, grave, quase tumular: "Não passo desta noite".

Ruy Castro e Carlos Heitor Cony em Frankfurt, Alemanha, em 2013
Ruy Castro e Carlos Heitor Cony em Frankfurt, Alemanha, em 2013 - Heloisa Seixas

Deu-se um alarido. Elas acreditaram e acharam que ele podia morrer ali mesmo, na porta dos elevadores, ou no meio do evento. Uma quase começou a chorar. Tive de me meter e dizer que Cony estava brincando, que estava ótimo, nada aconteceria. E, de fato, não só nada aconteceu como Cony roubou a noite na mesa do debate, usando Nelson Rodrigues como pretexto para falar de jornalismo, censura, coragem, liberdade de opinião —o que, de certa forma, era a história dele próprio.

Cony parecia ver a morte como uma pândega. Em começos dos anos 90, recém-saído de um câncer de próstata mais do que resolvido, ele às vezes aparteava a si próprio para dizer: "Você sabe, Ruy. Sou um homem terminal". Minha ignorância a respeito de câncer me fazia achar que ele estava falando sério. Mas os anos se passavam e o homem terminal parecia cada vez mais inaugural. Em 1995, seu romance "Quase Memória", o primeiro em mais de 20 anos de silêncio no gênero, devolveu-o com estrondo à literatura e o fez atravessar, vivíssimo, as muitas noites de que dizia que "não passaria".

Cony morreu em 2018, às vésperas dos 92 anos, ativo até demais. Custo a crer que, neste sábado (14), ele faria 100. Por um motivo: Cony seria o primeiro a desmoralizar o seu próprio centenário.

Na estrada para se tornar imenso canavial de novo- acervo OESP

 31 de Ago de 2006

Na estrada para se tornar imenso canavial de novo

Marcos Sá Correa*

A distância entre o futuro e o passado às vezes depende do ponto de vista. Por exemplo: no Brasil, há filas de dois meses para comprar o Honda Civic, lançado em abril. Ele é idêntico, por fora, ao modelo que circula no resto do mundo.

Descende de uma linhagem nascida nos anos 70 no Japão, ao embalo da primeira crise do petróleo. Pouco poluente, era um modelo de virtudes cívicas. Daí o título que leva na lataria.

A versão básica do novo Civic nacional, com 140 cavalos debaixo do capô, que prometem cobrir 7,5 quilômetros com um litro de gasolina, sai por R$ 62 mil. Com o logotipo EXS e seus devidos penduricalhos, custa R$ 78 mil.

Faltam-lhe, no entanto, detalhes incorporados a seu irmão gêmeo que circula lá fora, como piloto automático e, sobretudo, o logotipo AT-P2EV. Em inglês, a sigla designa um veículo com "tecnologia avançada de baixa emissão". No caso, um automóvel híbrido, com dois motores - um convencional, a explosão, outro elétrico, de 93 HPs - que se alternam, para levá-lo o mais longe possível com o mínimo de combustível. Sua bateria dura 10 anos. O consumo fica na faixa dos 22 quilômetros por litro.

Ele bebe três vezes menos que o similar brasileiro e é quase 50% mais barato que o nosso, mesmo equipado com sistema eletrônico de navegação por satélite. Anuncia-se nos EUA como o carro de gente que sabe o que é ser esperto.

Em Gainesville, na Flórida, incorporou-se como atestado ambulante de decência ambiental à frota da GRU, concessionária dos serviços municipais de água, esgoto, eletricidade, gás natural, telecomunicações, parques e jardins. Em Londres, é a radiopatrulha da polícia inglesa. Nos Estados Unidos, foi considerado o veículo "mais verde" de 2006.

Antes que alguém os confunda, convém avisar que os híbridos de lá pouco ou nada têm a ver com os "flexpower" daqui, apelido em inglês da tecnologia nativa. Os híbridos usam motor convencional para as arrancadas e elétrico para o resto. Recarregam-se andando. No caso da Honda, os pistões vão parando, um a um, dentro dos cilindros, à medida que alcança a velocidade de cruzeiro.

Gato por Lebre

Você ainda terá um? Ninguém sabe. Mas, na dúvida, não custa ficar de olho nos carros híbridos, para não embarcar no programa do etanol e no biodiesel, como se o governo Lula estivesse prestes a resolver os problemas do planeta. Para isso, o Brasil teria, no mínimo, que atear fogo às vestes. Ou seja, à sua cobertura vegetal.

E não seria a primeira vez.

Já fez isso há 500 anos, quando derrubou a cotação do açúcar no mercado mundial cortando árvores a torto e a direito na mata atlântica. Foi desse jeito que o Nordeste perdeu seus 36,8% de floresta nativa, e ganhou em troca o semi-árido, seu projeto de deserto artificial.

Naquele primeiro surto de desenvolvimentismo colonial, dizia o sociólogo Gilberto Freyre, "o canavial desvirginou todo esse mato grosso pelo modo mais cru", deixando em seu lugar o cenário "hoje tão nosso" que, "com um tanto de ironia", chamamos de "Zona da Mata" nordestina.

Aprendeu-se alguma coisa com a ganância dos engenhos? Quem dera. As últimas lembranças da mata atlântica que restavam em Alagoas nos anos 70 foram queimadas, com incentivos fiscais do Proálcool, na primeira febre de especulação no mercado das energias renováveis.

Agora, com o Wall Street Journal anunciando que o etanol brasileiro pode ser o melhor investimento da guerra no Oriente Médio e o Piauí está pronto para se converter em emirado da mamona, o economista Roberto Schaeffer adverte que, só para mover os 180 milhões de carros dos Estados Unidos, seria preciso encher de cana o dobro da área cultivada no Brasil.

Em outras palavras, fazer do país um imenso canavial. Dito assim, assusta. Mas, pela experiência pátria na matéria, não faltará quem goste da idéia.

*Jornalista e editor do site
O Eco (www.oeco.com.br)

OESP, 31/08/2006, Vida, p. A21

GPA, Raízen e Intercement: Por que tantas empresas têm entrado com pedidos de recuperação?, OESP

 Juros elevados por um período prolongado, somados a problemas de gestão em alguns casos e de governança em outros, estão por trás das crises que atingem grandes empresas brasileiras com dívidas bilionárias. Além da Raízen e do Grupo Pão de Açúcar – que pediram recuperação extrajudicial na terça-feira, 10 –, companhias como Ambipar, CSN, Intercement e Braskem também estão enfrentando uma fase turbulenta, o que tem exigido medidas adicionais para contornar a situação, como venda de ativos, negociação com novos sócios e reestruturação de débitos.

“Do segundo semestre do ano passado para cá, não tem sido fácil para as empresas, por uma combinação de fatores. Mas o juro é o principal deles. Só que juro não machuca quem não está endividado”, diz Renato Donatti, diretor de rating de empresas da agência de classificação de risco Fitch.

Para você

Na visão de Donatti, a taxa de juro é o denominador comum desses casos. Desde junho do ano passado, a taxa básica de juros (a Selic) está em 15% – no maior patamar em quase duas décadas. Para trazer a inflação para a meta de 3%, o Comitê de Política Monetária (Copom) endureceu a condução da política monetária, o que impactou diretamente o custo de financiamento das companhias. Isso afetou, principalmente, empresas que fizeram grandes investimentos quando o juro estava baixo com premissas que não incluíam uma Selic de 15%.

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Donatti destaca que a trajetória da Selic não só a partir de junho, mas desde 2022 tem afetado as empresas. Nos últimos quatro anos, a média da Selic ficou em 13%, e as projeções indicam que ela não cairá para menos de 10% até o fim de 2027. “É muito difícil para uma empresa aguentar a pressão de uma taxa de juro dessa por seis ou sete anos.”

Segundo cálculos da Fitch, empresas brasileiras que hoje têm uma dívida equivalente a três vezes sua geração de caixa operacional anual gastam 50% de sua geração de caixa pagando juros de dívida. Com os 50% restantes, ainda é preciso arcar com custos como impostos e capital de giro.

A diretora da agência de classificação de risco Moodys Patricia Maniero também destaca o juro como principal explicação para as crises. Ela pondera, entretanto, que há um grupo de companhias mais cautelosas – como as do setor de locação de veículos – que estão avançando apesar do juro elevado. “Tem empresas que reavaliaram sua estratégia financeira, ajustaram custos, repensaram a alocação de capital, e estão conseguindo navegar.”

Para o sócio-gestor do escritório de advocacia Pinheiro Neto, Fernando Alves Meira, crises no setor corporativo brasileiro não são uma novidade, mas, desta vez, o volume das dívidas chamam atenção. “Quando você vê o tamanho dessas empresas, é muito impactante”, diz. “O que frustra é que empresas não aprendem que têm de ser prudentes. Grupos que deveriam ser os mais fortes, com mais condições de se defender em um cenário adverso, estão com muita dificuldade.”

O tamanho do problema

Um levantamento realizado pela NEOT - uma plataforma que consolida os casos de recuperação judicial e insolvência - ajuda a dimensionar o tamanho da dificuldade das companhias brasileiras. No ano passado, foram 1.987 pedidos de recuperação judicial e 112 de recuperação extrajudicial.

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Em 2024, foram 2.146 pedidos de recuperação judicial e 95 de extrajudicial.

“O aumento da taxa de juros dificulta o acesso ao crédito no mercado bancário habitual”, afirma Júlio Moretti, CEO da NEOT. “E, para as grandes empresas, esse não é o maior dos problemas, mas torna muito mais cara a captação própria por meio de debêntures.”

Segundo Max Mustrangi, CEO da Excellance e especialista em recuperação judicial, a situação financeira das empresas foi corroída por dentro, após anos de juros elevados, crédito seletivo e margens comprimidas, em meio a um ambiente econômico “aparentemente estável”. “Se em 2016 a crise chegou de fora para dentro, agora ela vem de dentro para fora.”

Em 2016, destaca Mustrangi, a crise das companhias resultou de uma recessão profunda que paralisou a economia e desmontou cadeias inteiras de investimento.

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O alívio virá?

A grande dúvida é se o alívio dos juros vai mesmo acontecer.

No encontro de janeiro, o Copom manteve a Selic em 15%, mas indicou que o ciclo de corte poderia começar no encontro de março, que ocorre na semana que vem.

A ampla expectativa era de um corte de 0,50 ponto porcentual, mas a guerra no Irã e a consequente alta do preço do petróleo trouxeram dúvidas em relação aos próximos passos do Banco Central.

“A gente acha que começa (o corte de juros) em março, e o Banco Central tem espaço para conduzir um ciclo de queda”, afirma Tadeu Arantes, head de alocação da Ghia Multi Family Office. “Na nossa cabeça, o ciclo de corte é algo entre 2,5 pontos porcentuais e 3 pontos porcentuais, obviamente, se o cenário continuar conforme esperado, com inflação convergindo para a meta e o mercado de trabalho desacelerando um pouco.”

No último relatório Focus, do Banco Central, os analistas consultados estimam que a taxa de juros deve encerrar o ano ao redor de 12%. Para 2027, a expectativa é a de que os juros recuem para 10,50%. / Colaborou Márcia De Chiara