quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Jornalista apaixonado, trabalhava por uma sociedade de pessoas livres, por Fabricio Corsalette - FSP

 Conrado Dasan Benito Corsalette Lopes, ou Conrado Corsalette, um dos mais brilhantes jornalistas da sua geração, morreu no dia 8 de janeiro, aos 47 anos. Mas como medir o tempo de uma vida? No seu caso, relógios não resolvem nada. Conrado viveu 47 anos e uma eternidade, embora quiséssemos que ele vivesse mais.

Sua grandeza e generosidade foram notícia em todos os jornais. No velório, as faixas das coroas de flores falavam em senso de justiça e ética admirável. Do lado de fora da capela, amigos da rua e do trabalho lembravam histórias loucas ou ternas, tantas vezes hilárias.

Conrado nasceu em 1978 em Santo Anastácio, interior de São Paulo, mas cresceu na vizinha Presidente Venceslau. O pai, Orestes, era professor de educação física e um agitador cultural da região. A mãe, Vânia, com quem manteve uma relação especial até os últimos dias, era professora de redação. O mais velho dos Três Mosqueteiros, depois dele vieram Caio e Camilo.

Homem de camisa xadrez azul e branca sentado em frente a computador em escritório com várias mesas e computadores. Ao fundo, mulher também trabalha em computador, ambiente com iluminação artificial e organização típica de ambiente corporativo.
Conrado Corsalette (1978-2026) - Rodrigo Fiume/Arquivo pessoal

Bom aluno, bom de bola, bom de violão e bom de papo, o Conrado adolescente era bem parecido com o Conrado adulto: um cara honesto e encantador, que falava olhando nos olhos do outro, interessado. Às vezes dava a impressão de não ter tido infância, de ter nascido pronto. Lia romances. Ouvia rock, jazz e MPB.

Aos 18 anos veio para São Paulo, estudante de jornalismo na Cásper Líbero. Seu primeiro emprego foi como estagiário na ZDL, uma agência de comunicação. De lá pulou para a editoria de cidades do jornal Agora São Paulo, em 1999, e então para O Estado de S. Paulo, quando começou a escrever sobre política.

Em 2004 tornou-se repórter na coluna Painel e, anos depois, editor-adjunto de Cotidiano, na Folha. No jornal conheceu Julia Monteiro, com quem teve duas filhas, Antonia e Dora, e foi casado por quase 18 anos.

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Em 2012 voltou para o Estado, onde foi editor de política. Ser rigoroso na apuração das informações e perseguir uma linguagem clara e objetiva eram lemas que ele levava a sério.

Em 2015, apostando alto, tornou-se cofundador do jornal online Nexo, cujo formato final, com contexto, dados, gráficos e tecnologia, deve muito a ele. No Nexo criou também os podcasts Durma com Essa e Politiquês: Uma crise chamada Brasil, que deu origem ao livro "Uma Crise Chamada Brasil" (Fósforo Editora, 2023). Durante o último ano, Conrado atuou como secretário de redação-adjunto do site Poder360.

Homem de meia-idade com cabelo curto e barba rala, usando óculos de armação escura, camisa branca e paletó preto, posando contra fundo preto.
O jornalista Conrado Corsalette, que era secretário de redação-adjunto do site Poder360 em São Paulo - Sérgio Lima/Poder360

No discurso que improvisou no velório do irmão, Caio disse mais ou menos o seguinte: "Conrado era um vanguardista da vida. Um apaixonado pelo jornalismo, pela música, pela família, pelos amigos e pelas filhas. Um demolidor de clichês. Um libertário que trabalhava por uma sociedade de pessoas também livres".

Formou três bandas de rock: Esfinge, de covers, em Venceslau, e Barra Mundo e Portnoy, de composições próprias, em São Paulo. Chamava cada amigo de "parceiro" e usava muito a palavra "fantástico".

Tinha beleza, charme, carisma. Abraçava forte, com doçura. Adorava festa, debate polêmico, arroz com ovo frito. Nunca deixou de fazer o que quis. Amou sem medo e recebeu todo o amor. Pertencia à classe dos perdulários existenciais.

Conrado foi a Estrela Generosa que iluminou nossas vidas e as enriqueceu. Sem ele, nós que com ele convivemos estamos muito mais pobres e muito mais tristes.

Imóveis do INSS serão doados para moradia popular, FSP

 Embora o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) não tenha vocação de administrar ou gerir ativos imobiliários, o fato é que ao longo do tempo e por diferentes razões centenas de bens imóveis foram parar no seu nome. Estima-se que existam 5.100 imóveis do INSS. Destes, uma parte está ociosa.

São espaços em endereços nobres que foram utilizados como agências previdenciárias e depois descontinuados, além de bens recuperados de devedores e criminosos para ressarcimento financeiro. A nova lei nº 15.343, sancionada pelo presidente Lula (PT), pode causar empobrecimento nos cofres previdenciários.

Fachada de agência do INSS no centro de São Paulo - Rafaela Araújo - 18.jul.24/Folhapress

Pela nova lei, o INSS transferirá a gestão dos imóveis sem uso para a Secretaria do Patrimônio da União. Além disso, a SPU poderá declarar a inviabilidade de vender o imóvel e doá-lo.

Os casos de doação dos imóveis do INSS são: uso comum do povo, ocupação consolidada por assentamentos informais de baixa renda, utilização pela própria administração pública federal e destinação a políticas públicas nas áreas de saúde, educação, cultura, assistência social, habitação, interesse socioambiental e adaptabilidade às mudanças climáticas.

Na prática, a nova lei confere poderes à SPU declarar o valor do imóvel como nulo e se desfazer dos imóveis do INSS.

Causa preocupação pelo valor dos bens e prejuízo nas contas públicas. Neste rol existem bens de alto valor. No caso da Máfia da Previdência, o patrimônio recuperado da ex-advogada Jorgina de Freitas e outros envolvidos englobam 193 imóveis. Alguns deles são mansões em cidades como Búzios, Petrópolis e Rio de Janeiro.

Todo esse patrimônio imobiliário integra o chamado Fundo do Regime Geral de Previdência Social, cujo objetivo é prover recursos para o pagamento dos benefícios do regime geral da previdência social. Além dos imóveis, o Fundo também é constituído por exemplo de bens móveis, valores, rendas do INSS, receitas de contribuições sociais, aplicação financeira etc.

Em levantamento do TCU (Tribunal de Contas da União), o INSS possui patrimônio imobiliário de 5.133 imóveis, dos quais são 1.605 terrenos, 745 salas e escritórios, 130 glebas e fazendas, 769 edifícios, 1.041 casas e apartamentos, 27 armazéns e silos e 816 outras unidades. Deste contingente, estima-se que 3.800 imóveis estão sem uso.

Esses imóveis ociosos do INSS são considerados como não operacionais, por serem ativos não usados diretamente na atividade principal. São imóveis fechados, abandonados e sem destinação. Isso decorre justamente pela falta de aptidão da autarquia em administrar bens, já que nem a própria atividade-fim ela faz adequadamente.

Além de trabalhoso, é onerosa a conservação e manutenção de tantos imóveis. Não foi por outra razão que desde 2004 o TCU vem se pronunciando para o INSS se livrar desses ativos. O problema é como fazer isso.

Ninguém é contra que uma prefeitura municipal busque o imóvel do INSS para construir uma escola, creche ou hospital público. Mas é preciso indenizá-lo, da mesma forma que ocorre numa desapropriação para fins sociais, de reforma agrária ou habitação popular.

A propósito, existem atualmente vários prédios do INSS que estão em ocupados em várias capitais pelo MLRT (Movimento de Luta e Resistência pelo Teto) ou MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto). Com essa nova lei, é questão de tempo que o patrimônio público seja doado.

De fato, o INSS não foi concebido para cuidar de imóveis. Mas esses imóveis, se vendidos, ajudariam na sua sustentabilidade.


Governo Lula contrata usina de sobrinho de Kassab por R$ 28 bi, FSP

 

Brasília

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou nesta quarta-feira (14) a contratação, por um preço 62% acima da média, da energia a carvão produzida por uma empresa de Pedro Grünauer Kassab, sobrinho de Gilberto Kassab –presidente do PSD. A compra vai render uma receita anual de pelo menos R$ 1,89 bilhão ao longo dos 15 anos de operação, o que representa R$ 28,3 bilhões a valor presente.

A energia virá do Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, em Santa Catarina, de propriedade da Diamante Energia e com capacidade instalada de 740 MW (megawatts), praticamente o mesmo que uma das 20 turbinas de Itaipu. A energia vai custar R$ 564 R$/MWh, enquanto a média das usinas a carvão em leilões é de R$ 347/MWh. Além da receita fixa, a empresa receberá repasses variáveis ligados a custo de combustível e tempo de operação.

A compra era, em tese, obrigatória devido a uma lei (14.299) criada pelo Congresso com um trecho adicionado especialmente para contratar a usina. Os detalhes do contrato ficaram a cargo do MME (Ministério de Minas e Energia), ao lado da estatal EPE (Empresa de Pesquisa Energética, ligada à pasta) e com participação da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). O ministro do MME, Alexandre Silveira, é aliado político de Kassab.

"Fica prorrogada, pelo prazo de quinze anos, a contar de 1º de janeiro de 2026, a outorga de autorização para geração de energia elétrica do Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, localizado no Município de Capivari de Baixo, Estado de Santa Catarina", afirma o despacho desta quarta, assinado por Gustavo Cerqueira Ataíde, secretário nacional de Transição Energética do MME.

Conforme mostrou a Folha, os dados usados para calcular a remuneração da usina foram majoritariamente fornecidos pela própria Diamante. Membros da pasta defendem o procedimento dizendo que o poder público não tinha expertise para fazer o cálculo e, por isso, houve dependência dos números apresentados pela empresa. A lei de 2022 estabeleceu que a usina teria todos os custos cobertos pelo contrato.

Dois homens de terno e gravata vermelha conversam próximos, um deles aponta para frente enquanto o outro escuta atentamente. Fundo desfocado em tons verdes e madeira.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da segunda reunião extraordinária do Conselho Nacional de Política Energética, no Ministério de Minas e Energia. Na imagem, fala com o ministro ALexandre Silveira - Gabriela Biló - 25.jun.2025/Folhapress

Entre os custos informados pela Diamante, está a necessidade de um investimento total de R$ 2,7 bilhões no complexo. Além disso, foram incluídas despesas anuais fixas com operação e manutenção de pelo menos R$ 302,7 milhões. Também entraram na conta despesas da empresa com pesquisa e desenvolvimento, depreciação e impostos.

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A área técnica pediu que os dados da Diamante fossem verificados por uma empresa independente, e por isso a empresa contratou a Promon Engenharia e a EY (Ernst & Young). Mas a EY disse à reportagem que não fez auditoria, mas sim prestou consultoria à usina.

A EY também fez ressalvas nos documentos do processo sobre sua participação, segundo relato da EPE, dizendo que "não foram feitas verificações independentes sobre a integridade e a precisão das informações disponibilizadas pela Diamante" e que "a EY também não conduziu nenhuma inspeção física dos ativos".

O processo passou por duas consultas públicas conduzidas pelo MME. No total, a Diamante teve a maioria de suas contribuições aceitas pela pasta: de 30 sugestões da companhia, 17 foram acolhidas total ou parcialmente.

Dados obtidos pela Folha com base na Lei de Acesso à Informação mostram que a Diamante teve ao menos 25 reuniões com o MME desde o começo de 2023 até a conclusão do processo. Nos encontros, a empresa pedia alteração de detalhes a serem colocados em contrato.

Como resultado das decisões iniciais, o preço de energia considerado pela EPE subiu 5%, o equivalente a uma receita anual extra de R$ 93 milhões ao empreendimento –ou quase R$ 1,4 bilhão ao longo do contrato.

Mesmo com a legislação, em tese, obrigando a contratação, o governo tinha a possibilidade de questionar a compra da energia em uma ADI no STF (Supremo Tribunal Federal) de PSOL, Rede e PSB que questiona a lei. O caso ficou na relatoria do ministro Gilmar Mendes.

A ministra Marina Silva (Meio Ambiente) se posicionou nos autos dizendo "concordar fortemente" com a inconstitucionalidade da lei. Já o MME se posicionou pela validade, e integrantes da pasta afirmam que não podiam se posicionar de forma diferente no STF porque a pasta, no governo anterior (de Bolsonaro), já tinha se posicionado a favor.

Procurado nesta quarta, o MME não se manifestou. Na época da aprovação do contrato, a pasta afirmou que o processo passou por duas consultas públicas e que todas as contribuições "foram analisadas pelos técnicos da pasta, com explicitação das motivações de seu acatamento ou indeferimento".

"Além disso, no processo administrativo de regulamentação da lei, como é praxe ao formulador de política pública, o MME recebeu em reuniões representantes da empresa Diamante Energia, outorgados do complexo –da mesma forma que recebe os demais agentes do setor", diz o MME.

Gilberto Kassab afirmou na época que "nunca atuou em assuntos relacionados ao tema ou à empresa e desconhece completamente as informações apresentadas pela reportagem, não tendo, portanto, condições de se manifestar".

A Diamante Energia afirmou nesta quarta que o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda "é a usina termelétrica não-nuclear que mais gera energia no Brasil, entregando energia firme e competitiva ao país, e contribuindo de maneira relevante para a segurança do sistema e para a redução dos custos ao consumidor final".

Os 15 anos de fornecimento terminam em 2040, mas um "jabuti" em tramitação no Congresso pode estender esse e outros contratos de usinas a carvão até 2050.