quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Exportações de gado vivo voltam a superar 1 milhão de cabeças, FSP

 O Brasil voltou a superar a marca de 1 milhão de gado vivo exportado em 2025. Isso deu ao país a participação de 24% nas exportações mundiais desse mercado.

A transação internacional de gado em pé atingiu 4,3 milhões de cabeças no mundo, um número, no entanto, inferior ao de 2024, que foi de 5,5 milhões, segundo o Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).

Pelos números da consultoria Athenagro, com base nos dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior), as receitas obtidas com as vendas superararam US$ 1 bilhão. Em quantidade, a exportação de gado vivo foi a 1,05 milhão de cabeças, 26% a mais do que em 2024; em receitas, o valor atingiu US$ 1,05 bilhão, uma injeção média de R$ 5,84 bilhões na economia.

Grande quantidade de bois brancos com etiquetas coloridas nas orelhas aglomerados em curral de terra. Cercas delimitam o espaço e mais animais aparecem ao fundo em fileiras.
Gado em fazenda de Barretos (SP) - Joel Silva - 17.dez.25/Reuters

Ainda com base na Athenagro, o país obteve US$ 2,36 bilhões nos últimos três anos, com a colocação de 2,63 milhões de gado vivo no mercado externo.

É um avanço muito grande em relação aos anos de pandemia de 2021 e 2022, quando a transação comercial estava restrita, principalmente pelo preço do gado e pelo custo do frete marítimo. Naqueles dois anos, as receitas foram de US$ 261 milhões, com a exportação de 257 mil animais.

A exportação de gado em pé nem sempre é bem aceita, tanto por associações de defesa de animais como por parte da indústria frigorífica.

As associações destacam o longo percurso e as condições de remoção dos animais. Já os frigoríficos, em defesa própria, afirmam que a exportação de carne processada geraria um valor agregado maior para o país.

Essa modalidade de mercado, no entanto, favorece os produtores. Em regiões em que a presença de frigoríficos é menor, a comercialização de gado vivo dá maior sustentação aos preços pagos aos pecuaristas. Além disso, por questões religiosas ou por exigências próprias de manuseio da carne, alguns países preferem a compra do gado vivo.

O Pará é o líder nas exportações. Com receitas de US$ 575 milhões no ano passado, ficou com 55% do valor obtido pelo país. Rio Grande do Sul, São Paulo, Tocantins e Paraná vêm a seguir.

Já a Turquia foi a principal importadora, com compras de US$ 335 milhões em 2025. Marrocos, Iraque, Egito e Líbano completam a lista dos principais compradores. Até a Venezuela entrou nessa lista, com gastos de US$ 2 milhões. O país vizinho já foi muito importante para esse mercado brasileiro. De 2012 a 2014, 80% das receitas com as exportações de gado vivo pelo Brasil vinham da Venezuela.

Após o Brasil, os maiores exportadores mundiais de gado em pé são Austrália e Canadá, ambos com 740 mil animais colocados no mercado externo.

O RECUO DE TRUMP

Os dados de inflação dos Estados Unidos, divulgados nesta terça-feira (13) pelo Bureau of Labor Statistics, mostram o porquê Donald Trump voltou atrás nas taxas impostas a alguns produtos alimentícios do Brasil.

A inflação dos alimentos subiu 0,7% em dezembro nos Estados Unidos, em relação a novembro, acumulando 3,1% em 12 meses.

Carne bovina e café, dois produtos de elevado consumo, e que os Estados Unidos dependem muito do Brasil, receberam pesadas tarifas no segundo semestre de 2025. Por isso, foram os que mais impulsionaram o custo de vida dos americanos.

A carne bovina teve elevação média de 16,4% em 2025. Alguns cortes de maior preferência dos americanos chegaram a ficar 18% mais caros. Com rebanho reduzido e queda na produção, os Estados passaram a depender mais das importações, principalmente de carne magra, destinada à produção de hambúrguer.

O café, outro item de grande consumo no mercado americano, e que o país necessita de importações, também pesou no bolso do americano. Segundo o órgão responsável pela inflação, o café em pó teve alta de 20% nos supermercados no ano passado.

O de uso instantâneo subiu ainda mais, ficando 28% mais caro. Os americanos importam 23 milhões de sacas de café, e 33% desse volume saiu do Brasil em 2024. No ano passado, conforme dados até outubro, a participação brasileira caiu para 25%.

A inflação geral dos americanos subiu 0,3% em dezembro, acumulando 2,7% em 12 meses.

Cunhado de Vorcaro é preso tentando embarcar para Dubai em jatinho, FSP

 

Brasília

O empresário Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, foi preso nesta quarta-feira (14) quando se preparava para deixar o país, de jatinho, com destino a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Ele foi solto ainda pela manhã.

Zettel foi alvo de prisão temporária, com o objetivo de resguardar o sigilo da segunda fase da operação Compliance Zero.

Em novembro, Vorcaro também foi preso enquanto tentava embarcar para Dubai num jato particular. A PF suspeita que o dono do Master tantava fugir do país para escapar das investigações. A defesa do ex-banqueiro argumentava que ele viajaria para fechar a venda da instituição pra investidores árabes.

Dois agentes da Polícia Federal estão em um escritório. Um está sentado de costas, vestindo colete com a inscrição 'Polícia Federal', analisando vários documentos espalhados sobre uma mesa. O outro agente está ao fundo, inclinado sobre a mesa, usando máscara e manipulando um laptop. O ambiente é interno, com cadeiras ao redor da mesa e decoração clara.
Agentes realizam buscas em alvos endereços ligados a parentes de Vorcaro em nova operação da Polícia Federal - Divulgação Polícia Federal

Polícia Federal fez nesta quarta-feira (14) uma nova operação de busca e apreensão contra Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, na investigação sobre suspeitas de fraude envolvendo a instituição financeira.

Agentes realizam buscas contra o ex-banqueiro, que cumpre prisão domiciliar em São Paulo. São alvos endereços ligados a parentes de Vorcaro. Os mandados são cumpridos em São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.

Esta é a segunda fase da operação Compliance Zero. Vorcaro foi preso em novembro de 2025, acusado de liderar um esquema que criou carteiras falsas de crédito para inflar o patrimônio do Master e, em seguida, vender a instituição financeira ao BRB (Banco de Brasília). Em 17 de novembro, ele foi preso quando, segundo a PF, tentava fugir do país.

A defesa de Vorcaro disse que tem colaborado integral e continuamente com as autoridades competentes e que todas as medidas judiciais determinadas serão atendidas com transparência. Em nota, os advogados afirmaram que ainda não tiveram acesso aos autos.

Casado com Natalia Vorcaro, irmã do banqueiro, Zettel é pastor da igreja Lagoinha e vem ganhando destaque no mundo do empreendedorismo nos últimos anos com marcas como a rede de açaí Oakberry e a academia de luxo Les Cinq.

Além de Zettel, sua esposa também prega na Igreja Lagoinha Belvedere.

Formado em direito, Zettel é fundador e CEO da Moriah Asset, um fundo de investimento em participações (private equity). Por meio dela, ele é sócio de marcas como Frutaria São Paulo, Empório Frutaria e Néctar, além de Oakberry, Les Cinq, Desinchá e da Super Nutrition, de suplementos, como creatina.

Os empreendimentos de Zettel não estão ligados diretamente a Vorcaro no Master, mas ele já atuou em negócios relacionados ao banqueiro. Conforme reportagem publicada pela Folha em maio, foi diretor da Super Empreendimentos, empresa que em 2024 adquiriu a casa de R$ 36 milhões, que ficou conhecida como hub de Vorcaro em Brasília.

Em 2022, Zettel foi o sexto do ranking de pessoas físicas doadoras. Repassou R$ 3 milhões para Bolsonaro, a maior doação individual recebida pela campanha à reeleição, e R$ 2 milhões para a corrida de Tarcísio de Freitas, que venceu a disputa pelo governo de São Paulo. Pela lei eleitoral, pessoas físicas podem doar aos candidatos até 10% de sua renda bruta do ano anterior à eleição.

Leblon de Manoel Carlos, Ruy Castro_FSP

 De seus 92 anos de bonita vida, encerrados no sábado (3), Manoel Carlos morou 60 no Leblon. Digo bonita porque dedicou-a a gerar pessoas em sua imaginação, soprar-lhes vida e botá-las para andar, amar, sofrer, trabalhar, ter prazer e morrer —enfim, o receituário comum ao ser humano. Tudo isso num veículo que ele ajudou a tornar respeitável: a novela de TV. E, desde que morador do Leblon, nunca situou suas histórias em outro cenário.

Modestamente, também estou há 30 anos no Leblon, depois de temporadas menos ou mais longas na Glória, no Flamengo e em Botafogo e Laranjeiras. Assim como Manoel Carlos, tenho vivido de escrever, mas, por trabalhar com fatos reais, preciso buscar as histórias onde elas aconteceram: em Ipanema e Copacabana, no Catete, na Lapa, no centro da cidade e na zona norte. E, como trato do passado, poucas se deram no Leblon —acessível pela Lagoa desde os tupinambás, mas que só começou a se tornar o Leblon de hoje nos anos 1960.

Quando às vezes me refiro ao Leblon neste espaço, leitores o invectivam como o bairro dos fúteis, dos parasitas. Eu os convidaria a nos visitar. Não à noite, quando a turba da cerveja em pé, dos restaurantes e botequins, entope as calçadas e o asfalto da rua Dias Ferreira. Mas durante o dia, em qualquer dia da semana, quando seus habitantes curtem o que ele tem de silencioso, seguro, amoroso, quase provinciano. O que significa isso? Que o Leblon da má fama é o da night, de gente de fora do bairro, da cidade e até do país, que, de madrugada, volta feliz para seus burgos e nos devolve a paz.

Escritores gostam de sossego e talvez por isso o Leblon atraia tantos. Aqui já fui vizinho de Paulo Mendes Campos, Antonio Callado, Rachel de Queiroz, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Fonseca e, claro, Manoel Carlos. Não creio que se considerassem fúteis e parasitas.

Cruzava com eles nas nossas ruas e praças que, por acaso, levam nomes de grandes escritores: Humberto de Campos, Alberto Rangel, Arthur Ramos, Rodrigo Octavio e Antero de Quental.