terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Na transição energética, prever não é futurologia, mas disciplina, Joisa Dutra- FSP (definitivo)

 Em 2025, um dos podcasts mais instigantes sobre transição energética teve seu melhor ano. O Redefining Energy, apresentado por Laurent Segalen e Gerard Reid —que conheci no Fórum Econômico Mundial— passou a figurar entre o 0,5% mai ouvido do Spotify. Nada trivial para um tema especializado, técnico e, muitas vezes, árido.

Sagazes e pouco afeitos a modismos, os anfitriões dedicam tradicionalmente o último episódio do ano a um exercício simples e raro no setor: olhar para trás. Revisam o que previram no ano anterior, confrontam expectativas com fatos e, só então, arriscam previsões para o futuro. O episódio 210 traz as apostas para 2026.

Mais do que acertar o futuro, o exercício serve para aferir a direção da viagem da transição energética — um processo caro, incerto e intensivo em capital, no qual correções de rota são inevitáveis. Algumas chamam atenção —e não surpreendem.

A imagem mostra uma fileira de turbinas eólicas em um campo aberto, com um céu azul e algumas nuvens ao fundo. As turbinas estão alinhadas em uma linha reta, com suas lâminas girando ao vento.
Turbinas eólicas na cidade de Uibaí, na Bahia - Rafaela Araújo - 9.mar.25/Folhapress

O oásis do hidrogênio de baixo carbono se mostra cada vez mais miragem. O sonho do hidrogênio verde a US$ 1/kg simplesmente não se materializou. Os projetos que avançam trabalham com custos de US$ 6 a US$ 8/kg —isso em países com custo de capital significativamente menor que o brasileiro. Ao redor do mundo, petroleiras cancelaram ou suspenderam cerca de 60 projetos.

Embora as energias solar e eólica tenham, de fato, reduzido custos de forma impressionante nos anos recentes, colocar hidrogênio de baixo carbono no mercado exige muito mais do que eletricidade barata. Há o custo dos eletrolisadores, da baixa taxa de utilização deles, da infraestrutura, da logística. Hidrogênio não é apenas uma molécula: é uma cadeia complexa —e cara. Substituir o hidrogênio de origem fóssil revelou-se bem mais difícil do que sugeriam os discursos políticos, ainda mais em um mundo em que os orçamentos de defesa sobem, dificultando a criação de subsídios.

Outro freio de arrumação importante aparece nos data centers —a previsão é de que 50% dos anunciados não serão construídos. A demanda por computação segue crescendo, mas provavelmente não na escala anunciada inicialmente. Preços elevados de energia incentivam ganhos de eficiência na indústria, enquanto avanços em software e arquitetura digital reduzem o consumo por unidade de processamento. Somam-se a isso restrições sistêmicas: dificuldades de conexão e necessidade de investimentos pesados elevam prêmios de risco e encarecem o capital. Menos capital, menos projetos.

As renováveis continuam crescendo, mas com menos fôlego. A expansão da solar tende a arrefecer mesmo na China, não por perda de competitividade, mas por restrições sistêmicas —licenciamento, redes, integração. Há tempos repito: renováveis não existem sozinhas. Elas exigem redes e armazenamento. E essa conta é elevada. A África deve acelerar sua expansão, partindo de uma base baixa, mas esse avanço não será suficiente para compensar a desaceleração em outros mercados.

Por que confiar nas previsões desses anfitriões? Primeiro, porque são investidores, que costumam walk the talk (agir de acordo com o que dizem). Segundo, porque têm a coragem de revisitar seus erros. Algo ainda raro no setor elétrico brasileiro, onde previsões de preços de curto prazo dificilmente são reavaliadas. Fica o desafio.

Mas nem tudo desce. Algumas tecnologias sobem —e com força.

Armazenamento e baterias aparecem como grandes vencedores para 2026. Não porque sejam "verdes", mas porque resolvem problemas reais do sistema elétrico. São rápidas de implantar, modulares e eficazes para lidar com curtailment, intermitência e adequação de capacidade. Funcionam bem combinadas com solar, com eólica e com arranjos híbridos incorporados nos contratos de compra de energia (PPAs).

E o que isso tem a ver com o Brasil? Tudo.

A transição energética está tornando, a cada dia, nosso sistema elétrico menos uma jabuticaba. Nossas dificuldades são cada vez mais próximas a problemas de outras geografias ao redor do globo. Com especificidades, vivemos as dores do crescimento da descentralização, impulsionada pela expansão exponencial da micro e minigeração distribuída. Baterias são companheiras naturais dessa jornada.

Falta, no entanto, clareza regulatória para incentivar sua adoção em escala. O leilão anunciado para 2026 é um bom sinal. Mas o debate internacional aponta também para algo maior: a combinação de tecnologias, a integração nos PPAs e novos arranjos contratuais como oportunidades a explorar na contratação do mercado livre —caso dos grandes consumidores comerciais e industriais, que explorei em coluna recente.

Em uma transição energética cara e incerta, errar o diagnóstico sai caro. Revisitar previsões não é futurologia —é disciplina.


A democracia americana é capaz de conter Trump?, Joel Pinheiro da Fonseca - FSP

 Quem diria que a independência do Banco Central morreria antes nos EUA do que no Brasil. Ainda é cedo para declarar o óbito, mas o vídeo do presidente do Fed Jerome Powell acusando as manobras jurídicas do governo Trump para persegui-lo é mais um passo preocupante nessa direção.

Os passos se sucedem. Além da pressão para que o Fed reduza a taxa básica de juros, temos ainda as seguintes medidas econômicas anunciadas por Trump: limite de 10% ao ano aos juros do cartão de crédito, limitações à compra de imóveis residenciais por grandes empresas, promessa de cheques de US$ 2.000 a cidadãos para estimular a demanda, ordenou que agências de crédito comprem US$ 200 bi de ativos lastreados em hipotecas para baratear o acesso a moradia. Um receituário perfeito para bagunçar ainda mais a economia, que já começa a sentir os efeitos do tarifaço.

Donald Trump, de terno preto e gravata vermelha, aponta com a mão direita enquanto conversa com Elon Musk, vestido de preto com colar, em sala com estante de livros e bandeira ao fundo.
O presidente Donald Trump, na Casa Branca - Roberto Schmidt - 14.mar.25/AFP

Trump não só capturou Maduro como importou também as ideias do ex-ditador. E o mais preocupante não está nem na economia. Enquanto leva adiante sua guinada heterodoxa na economia, a polícia imigratória, que conta com financiamento vitaminado em 2026, mata cidadãos na rua e vai se tornando uma espécie de milícia pessoal do presidente da República, defendida efusivamente pelo regime.

No plano global, Trump estraçalha qualquer ilusão de uma ordem internacional baseada em regras. É verdade que governos anteriores também descartaram o direito internacional quando lhes foi conveniente; por exemplo, na invasão ao Iraque. Diferentemente da invasão do Iraque, contudo, a intervenção na Venezuela não foi discutida previamente no Congresso americano, não buscou aprovação na ONU e não formou uma coalizão com outros países democráticos.

E agora novas intervenções se apresentam em Cuba e no Irã, talvez no México. Tudo isso parece de pouca monta quando consideramos a possibilidade da anexação da Groenlândia contra a vontade da Dinamarca. Se invadir —ou mesmo se forçar a Dinamarca a vender— a Groenlândia, é o fim da Otan e a da aliança militar que definiu a defesa do mundo democrático nos últimos 80 anos.

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O mundo parece estar em rápida transição. Não sabemos para o quê, mas está claro que não é para um mundo mais estável, democrático e pacífico.

Trump jamais poderia fazer isso sozinho. Se ele tem esse poder é porque uma fatia da sociedade está com ele. E não poderá levar o terremoto adiante sem passar pelas eleições do Congresso neste ano, que prometem ser decisivas.

Se, refletindo a queda de popularidade de Trump, os democratas retomarem o controle do Congresso, isso imporá limites claros ao presidente e deve marcar o início da derrocada do governo. As eleições pontuais de 2025 deram algum fôlego à oposição. A democracia é assim: entre trancos e barrancos o povo vai testando e aprendendo.

Se, ao contrário, os republicanos conquistarem as duas Casas, Trump não sairá apenas fortalecido, mas legitimado. Atacou o Banco Central, dobrou o Congresso, desmoralizou alianças históricas, promoveu o caos econômico, alimentou a violência de sua guarda pretoriana, levou a corrupção a novos patamares e usou da força sem pudor em nome da ambição nua e crua; e, mesmo assim, é aclamado por uma maioria do povo. Nesse caso, o que vimos até agora e o que veremos até outubro terá sido apenas o começo…

Para os homens do século 21, é muito melhor ser uma vítima do que ser um herói, João Pereira Coutinho _FSP

 Aconteceu em 2015. Pela primeira vez na história da França, um presidente, François Hollande, considerou conceder a Legião de Honra —a mais alta condecoração da República, destinada a celebrar feitos valorosos de militares ou civis— às vítimas do atentado terrorista no teatro Bataclan, em Paris.

À primeira vista, a decisão poderia passar sem grande repercussão. Se existe fenômeno que define o nosso tempo é a elevação da vítima a um lugar cimeiro na imaginação moral dos contemporâneos.

Ainda assim, a repercussão veio —e Hollande recuou, optando por criar uma Medalha Nacional de Reconhecimento das Vítimas do Terrorismo. Fim da história?

Nada disso: o desconforto da primeira decisão permaneceu. E foi precisamente esse desconforto que levou o filósofo Pascal Bruckner a formular uma pergunta simples e perturbadora: por que motivo as vítimas são vistas como heróis?

É uma boa pergunta, a que Bruckner responde no ensaio "Je souffre donc je suis" ("sofro, logo existo"), recentemente publicado.

Ilustração de quatro medalhas da Legião de Honra alinhadas horizontalmente, alternando entre traços vermelhos e pretos. Cada medalha tem uma estrela de oito pontas com uma coroa de louros e uma fita dobrada acima.
Angelo Abu/Folhapress

As vítimas são vítimas, escreve o autor. Merecem empatia. Devemos recordá-las. Devemos honrá-las. A título de exemplo, Bruckner cita o memorial do 11 de Setembro, em Nova York, como a materialização poderosa dessa obrigação de memória.

Difícil discordar: aquele abismo central, engolindo a água, é uma metáfora solene sobre o terror que engoliu a vida naquela manhã. Quem viu não esquece.

Mas a memória não se confunde com o heroísmo. A memória reconhece uma ferida e, no limite do possível, procura curá-la. O heroísmo celebra uma ação que se inscreve acima da conduta normal.

Atribuir medalhas de heroísmo a quem esteve no lugar errado, à hora errada, significa confundir uma condição —trágica, obviamente— com um ato.

Claro que a centralidade da vítima na moral contemporânea não é um fenômeno recente. Para Bruckner, o cristianismo fundou-se sobre o sofrimento de um inocente —e esse gesto teve um impacto duradouro na ética e na jurisprudência ocidentais.

Pela primeira vez, o fraco, o humilhado e o oprimido, cuja relevância era secundária no mundo pagão, foram colocados no centro da moral.

Foi uma inversão decisiva: permitiu a revalorização dos mais frágeis, fundou uma ética de compaixão e lançou as bases da ideia moderna de dignidade humana.

Mas esse legado teve também uma face ambígua quando levado até o extremo do ressentimento (obrigado, Nietzsche). A impotência nem sempre é virtude e o sofrimento nem sempre atesta a superioridade moral do sujeito. Será preciso lembrar que há masoquistas malignos?

Por outro lado, é inegável que a mensagem cristã da igualdade radical dos homens deixou sua marca nas doutrinas modernas dos direitos humanos e nos movimentos sociais que lutaram —e lutam— contra a opressão de povos e minorias.

O problema surge quando essa atenção concedida à vítima deixa de ser um princípio de proteção e se transforma numa identidade metafisicamente elevada, virtuosa, digna de culto, capaz de suplantar os verdadeiramente heroicos.

Isso tem implicações políticas —ou, melhor dizendo, antipolíticas. Como lembrava Hannah Arendt, a política se organiza em torno da ação, da responsabilidade e do julgamento.

A vitimização é uma recusa da política. Já não se discute o que deve ser feito; compara-se quem sofreu mais, em hierarquias de dor que se expandem continuamente.

Esse "culto da vítima", segundo Bruckner, tem efeitos nocivos. Se todos somos vítimas por alguma razão, deixamos de distinguir o sofrimento real do sofrimento subjetivo e, muitas vezes, imaginário.

Pior ainda: o sofrimento deixa de ser um mal a reparar e passa a ser um capital simbólico que deve ser mantido, exibido e protegido. Superá-lo implicaria perda de status.

De vez em quando, os jornais da Europa trazem estudos e pesquisas sobre a disponibilidade dos europeus para defender seus países em caso de agressão militar externa. É uma preocupação que se agravou depois da invasão russa da Ucrânia.

Os resultados são sempre desanimadores: com raríssimas exceções, poucos estariam preparados para se engajar pessoalmente na defesa. Motivos para a deserção?

Os especialistas divergem. Uns falam da paz como normalidade histórica. Outros lembram a crise do Estado-nação como objeto de lealdade. E alguns atribuem ao hiperindividualismo essa relutância em defender o coletivo.

Eu, com a devida vênia aos especialistas, prefiro respirar o ar do tempo e concluir: para os homens do século 21, é melhor ser vítima que herói.