segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Cadê o nosso dinheiro aplicado no Banco Master?, Marcelo Rubens Paiva, FSP

 

Marcelo Rubens Paiva

Escritor e dramaturgo. Autor, entre outros livros, de "Feliz Ano Velho", "Malu de Bicicleta" e "Ainda Estou Aqui"

O negócio é transparente, com regras simples. Aplica-se num CDB por aplicativos bancários que até crianças sabem usar. Caso o banco quebre, o governo intervém, via Banco Central, e devolve o aplicado pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos) até o teto de R$ 250 mil por CPF.

Criado pelo governo Fernando Henrique em 1995, quando Steve Jobs ainda projetava o iPod e celular era apelidado de "tijolão", o fundo se modernizou e ganhou um aplicativo.

Assim que teve a intervenção do Banco Master, os investidores receberam emails da fintech responsável pela aplicação, indicando o passo a passo. Foram convidados pelo BC a se cadastrar no aplicativo FGC.

No entanto, ao abri-lo, o informe num gerúndio indigesto: "O FGC está aguardando o envio das informações pelo liquidante para iniciar o pagamento".

Fachada de vidro de agência do Banco Master com logo azul e branco e nome em letras metálicas fixadas na parede externa.
Fachada da sede do Banco Master, no bairro da Vila Olímpia, zona sul de São Paulo - Rafaela Araújo/Folhapress

Investidores do Banco Santos, Rural, BVA, Cruzeiro do Sul, que foram liquidados, receberam o que investiram. Os do Banco BRJ S.A. receberam em 27 dias. Os do Neon, em 14 dias.

Tudo muito simples. Porém, azedou o angu. No domingo dia 18, fará dois meses da quase intervenção do Banco Master. Além de nenhum investidor receber um tostão, nem ao menos uma balinha de Uber, toma preju.

Eu tenho um CDB no Master. Imagine o dinheiro que estou perdendo se eu tivesse recebido e aplicado em um título do Tesouro, nessa Selic de 15% ao ano.

Porém, os CDBs sumiram dos sites das fintechs e do aplicativo do FGC. Porque a intervenção virou uma "desintervenção", numa disrupção das regras republicanas e o disparo para todos os lados de descalabros.

Seria a maior operação de resgate de papel podre da história: R$ 41 bilhões para cerca de 1,6 milhão de CPFs e CNPJs.

O Master, cujos papéis eram oferecidos efusivamente por assessores da nossa personal fintech, pois pagavam mais, provou que uma das poucas instituições confiáveis foi retalhada pela corrupção orgânica.

O banqueiro ostentação Daniel Vorcaro, figurinha carimbada da tradicional sociedade mineira, descobriu os furos do queijo suíço brasileiro, o poder, para praticar o golpe do século, tão manjado quanto a ameixa de um manjar branco, e montou uma pirâmide financeira.

Bastava mimar com presentes (subornos?) figuras-chave da nossa República e vender aquilo que não tinha. Minou a confiança na nossa democracia e ameaça a instável estabilidade política.

Fez o que manda o manual do malandro, sem infringir a lei. Segundo esta Folha, se aproximou e patrocinou eventos que reunia empresários e políticos, de João Camargo, do grupo Esfera Brasil, a João Doria, do Lide, e Karim Miskulin, do grupo Voto.

Nos últimos três anos, eventos com poderosos foram patrocinados pelo Master. Na sua planilha de consultores, já estiveram os ex-ministros Ricardo Lewandowski, Gustavo Loyola, Henrique Meirelles e Guido Mantega, afundador-geral da República Dilma 2.

Patrocinou (ele nega) influencers para atacar o Banco Central. Até a jornalista Gabriela Priolli, ao anunciar que começará a fazer posts ligados ao mercado financeiro, defendeu o investimento no Banco Master e a compra do mesmo pelo BRB, acusando os grandes bancos de querer melar o negócio.

Ela entrou no grupo de suspeitas por internautas que analisaram cada uma de suas palavras e conselhos. Com um tom informal, explicou sem explicar e omitiu o fato de o BRB ser um banco público, sob o comando de Ibaneis Rocha, governador do DF; até agora, não se sabe como ele se livrou do inquérito da tentativa de golpe de Estado.

Gabriela incentivou seguidores a comprar um título que agora não está sendo pago. Não sabia da transferência de papéis podres do Master para o BRB, e de fundos de pensão de funcionários públicos, que viraram charutos cubanos?

Até a esquerda caiu no "caô" da desinformação, quando viu a jornalista Malu Gaspar denunciar o herói Alexandre de Moraes —ela que escreveu um dos melhores livros jornalísticos sobre corrupção, "A Organização", a ruptura da família Odebrecht, em que um pai sacrifica um filho, como o tratado arquetípico de Abraão e Isaque (Gêneses 22:6-12).

Vorcaro continuou sua trilha ao país das maravilhas, se aproximou de Ciro Nogueira, presidente do PP, e de Antonio Rueda, presidente do União Brasil, espalhando seu perfume no ciclone do centrão.

De resto, você já sabe. Contratou o escritório de familiares do ministro Alexandre de Moraes, o literal salvador da pátria, por um preço muito acima da tabela da OAB.

Dias Toffoli, ministro do STF, viajou de carona de jatinho com Augusto Botelho, advogado do Master, para ver em Lima, Peru, seu time tomar uma tunga na final da Libertadores (bem-feito).

Além disso, duas empresas ligadas a parentes de Toffoli tiveram como sócio um fundo de investimentos conectado à teia usada pelo Master em fraudes investigadas por autoridades, de acordo com documentos e dados oficiais analisados pela Folha.

Toffoli tentou uma absurda acareação entre os envolvidos da intervenção do banco de pilantras que pegou tão mal que retrocedeu e deixou a toga na lavanderia do tribunal (penduricalho que deve ser gratuito).

Vorcaro, que viu sua sede nos últimos andares do cafona prédio da baleia invadida pela PF, o símbolo "farialimer" de que sonhar com um pedaço de Dubai no Brasil é possível, que deu até em praia de surfe a metros do fétido rio Pinheiros, escritório com charutos cubanos climatizados e garrafas de Macallan, descolou um aliado inesperado, o TCU.

O desconhecido ministro Jhonatan de Jesus, até 2023 um deputado federal por Rondônia do Republicanos, filho do senador Mecias de Jesus, movido por um senso de justiça divina, decidiu atropelar o papel do BC e, no bojo da sua experiência de dois anos e sete meses no cargo, colocou a reputação do sistema financeiro no ralo.

Desinterviu o que não lhe cabia desintervir. Foi salvo por Vitalzinho, como é conhecido Vital do Rêgo, há 11 meses na presidência do TCU, médico como Jhonatan, filho de senador como ele.

Todos e todas acima podem ser inocentes, agiram de boa-fé, para defender os interesses e a poupança de brasileiros do bem. A investigação não parará aqui. Novas denúncias surgirão. Investigar a fundo é dever do Estado, para que não se repita. E vamos ao que interessa: cadê o nosso dinheiro?

De Lima Barreto ao Banco Master- Marcus André Melo, FSP

 Em "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", o personagem Genelício é o arquétipo do barnabé indolente, inepto, e diligente apenas na arte de parecer ocupado. Finge trabalhar enquanto se ocupa obsessivamente de regras obsoletas e protocolos irrelevantes. Dizia dedicar-se à redação de um monumental volume intitulado "Os Tribunais de Contas nos Países Asiáticos" —iniciativa tão inútil quanto o aprendizado do javanês em outro texto cáustico de Lima Barreto. O autor escrevia em 1911. Mais de um século depois, porém, o tema outrora exótico e quase irrelevante dos tribunais de contas converteu-se em questão central da agenda pública na atual conjuntura.

Fachada de vidro do Banco Master com o nome da instituição visível em letras brancas. Reflexo de um edifício antigo aparece na superfície do vidro.
Fachada do Banco Master na zona oeste de São Paulo - Rafaela Araújo/Folhapress

Rui Barbosa, em seu parecer sobre a criação do Tribunal de Contas da União, já advertia para o risco de que a instituição se transformasse em um "ornato aparatoso e inútil", um verdadeiro "Tribunal de Faz-de-Conta". O célebre jurista não poderia imaginar que o perigo seria ainda maior: o de os tribunais de contas se tornarem engrenagens auxiliares de uma trama protetiva de esquemas ilícitos de grande envergadura.

A sensação contemporânea é a de terra arrasada. Até a Polícia Federal, que ainda figurava como baluarte de credibilidade, começa a ser atingida. Praticamente todos os atores institucionais encontram-se sob suspeita. O affair Master abalou profundamente a reputação do Supremo —e não apenas a de dois de seus ministros. A CPI do INSS e os esquemas de blindagem por ela revelados agravaram ainda mais o desgaste do governo e do Legislativo como um todo. O presidente do Senado enfrenta denúncias, o vice-líder do governo foi alvo de busca e apreensão, e as investigações alcançam o círculo familiar do presidente da República. A exposição de milícias digitais em processos envolvendo corrupção tampouco é novidade absoluta —basta lembrar o episódio dos "blogs sujos"—, embora antes sua atuação estivesse mais circunscrita ao terreno político-partidário.

Como chegamos até aqui? A estrutura de incentivos mudou com o vale tudo pós-Lava Jato. Mas nada disso seria exatamente inédito se estivéssemos falando apenas da velha promiscuidade entre Estado e grandes interesses privados. A maior empreiteira do país mantinha um departamento inteiro de "operações estruturadas", dedicado exclusivamente ao pagamento sistemático de propinas a milhares de agentes públicos. A J&F, em escala semelhante, distribuiu cerca de R$ 500 milhões a quase 2.000 atores políticos. O manual é conhecido, o roteiro é repetido, os personagens apenas trocam de figurino.

O que é efetivamente novo são dois elementos. Primeiro, as denúncias envolvendo membros das instituições superiores da República, como o STF e os tribunais de contas. Segundo, a crescente conexão desses esquemas com o crime organizado —fenômeno já conhecido no plano subnacional, notadamente no Rio de Janeiro, mas que agora alcança o centro do sistema. Não por acaso, um conselheiro de Tribunal de Contas daquele estado encontra-se hoje atrás das grades.

A sociedade e a imprensa estão fortemente polarizadas, o que cria limitações importantes para o exercício de alguma forma de accountability social. A única reação a este estado de coisas veio da imprensa. Ou mais propriamente de jornalistas individuais. Lima Barreto vive.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Virou rotina: Lula veta, oposição derruba, vai para o STF, Alvaro Costa e SIlva, FSP

 Um velho ditado do futebol —"o jogo é jogado e o lambari é pescado"— norteia nossa política. Como prometido à galera, o governo veta o projeto que reduz a pena de Bolsonaro e outros condenados na trama golpista. No mesmo dia, a oposição anuncia que vai derrubar o veto no Congresso Nacional. A disputa tende a acabar no STF. E assim vamos.

Em três anos de Planalto, com uma ou outra bola dentro, Lula perdeu todas as divididas. Ao sancionar a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2026, ele recusou o trecho que ampliava mais ainda o fundo partidário, cuja previsão é de R$ 4,9 bilhões, farra de dinheiro público injustificável sob qualquer ponto de vista.

Homem de cabelos brancos e mulher de cabelos castanhos seguram documento oficial aberto com texto e assinaturas, com bordas coloridas em verde, amarelo e vermelho.
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, segura um veto assinado a um projeto de lei que reduz a pena de prisão de 27 anos do ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto está ao lado de sua esposa, Rosangela "Janja" da Silva. - Jorge Silva - 08.jan.26/REUTERS

De novo, caberá ao Congresso decidir se mantém ou não o veto. A medida que concedia aos partidos cerca de R$ 160 milhões extras, foi aprovada em dezembro, com PL e União Brasil aliando-se a petistas.

O fundo partidário é fichinha se comparado às emendas parlamentares —um total de R$ 44,61 bilhões movimentados no ano passado. Suspensas em setembro pelo ministro Flávio Dino, só as emendas chamadas PIX, cuja artimanha é mandar os recursos direto aos cofres de estados e municípios, sem necessidade de apresentar e detalhar um projeto, somaram R$ 6,77 bilhões ao longo de 2025.

Quem precisa de mais dinheiro para fazer uma campanha tradicional dispondo desse tipo de transação? Não por acaso, a Polícia Federal tem se desdobrado em operações sobre desvios de recursos.

Apesar da marcação de Flávio Dino, hoje o grande vilão de Brasília, superando Alexandre de Moraes no antagonismo a deputados e senadores, a LDO impôs ao governo a obrigação de pagar 65% das emendas impositivas até junho de 2026, cerca de R$ 26,5 bilhões.

O derrame de verbas não garante que Lula conseguirá aprovar, no primeiro semestre, e sem mudanças significativas, duas pautas ligadas à campanha da reeleição: a PEC da Segurança e o PL Antifacção. Além da tramitação da PEC que propõe o fim da escala 6x1. São lambaris bem difíceis de serem pescados.