sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Mauro Calliari - O nó do ônibus, FSP

 Na semana passada, a Prefeitura de São Paulo aumentou a passagem dos ônibus de 5,00 para R$ 5,30. Parece normal, afinal, todo ano há aumento de combustível, salários etc, mas sinto que estamos discutindo a questão errada.

Talvez a questão não devesse ser ‘quanto posso aumentar o preço dos ônibus sem que as pessoas reclamem muito?’, mas sim ‘como posso aumentar a atratividade do ônibus?’

O sintoma é claro: o uso do ônibus despencou nos últimos anos. É 1,7 milhão de viagens a menos por dia útil. Relativamente, também caiu, de 23% para menos de 20% sobre o total dos meios de transporte. Quem pode está trocando o ônibus por automóvel, aplicativo ou até moto. Quem não pode está simplesmente deixando de sair de casa.

Seis pessoas caminham pela faixa de pedestres em ponto de ônibus urbano com ônibus articulado branco parado ao fundo. Edifícios altos e estrutura metálica do ponto são visíveis.
Movimentação de passageiros no terminal Bandeira, no centro de São Paulo - Zanone Fraissat - 6.jan.25/Folhapress

A cidade perde com a opção pelo transporte individual motorizado. Cada pessoa que troca o ônibus pelo carro está contribuindo para aumentar o congestionamento e para multiplicar por dez a sua emissão de CO².

As pessoas não são irracionais. Pelo contrário, a cada vez que escolhemos o meio de transporte, nosso algoritmo interno calcula variáveis como tempo, conveniência, preço, qualidade e segurança.

Portanto, a decisão de trocar o ônibus por outros meios mais caros expõe mesmo uma doença ligada ao próprio transporte. Não há solução fácil para um problema dessa complexidade, mas é possível pensar numa prescrição com vários remédios combinados:

Comodidade dentro e fora do ônibus
As pessoas querem conforto, assentos limpos, ar condicionado, silêncio, alguma delicadeza na condução, viagens rápidas. Cadeirantes querem elevadores que funcionem.

Tão importante quanto o que acontece dentro do ônibus é o que acontece fora. Ninguém gosta de esperar, ainda mais em pontos de ônibus desconfortáveis e perigosos, especialmente mulheres. A confiabilidade de horário é tão importante quanto a frequência.

A Prefeitura diz que aplica milhares de multas por ano aos concessionários por desrespeitarem horários ou falta de manutenção dos carros, mas isso evidentemente não está funcionando.

Hoje há apenas mil ônibus elétricos, melhores e silenciosos, para uma frota de perto de 13 mil. Daria para acelerar muito essa transição.

Vias exclusivas
Os corredores de ônibus sinalizam a prioridade que a cidade dá para o transporte público. Infelizmente, a atual gestão deixou de lado a meta de novos corredores no ano passado e vai ser preciso recuperar o atraso.

Tarifas e remuneração
As tarifas pagas pelos usuários cobrem hoje apenas 50% de todos os custos do sistema de ônibus. Na prática, a Prefeitura já está subsidiando o transporte, com mais de R$ 7 bilhões anuais para as concessionárias. Já que é assim, por que não discutir os custos atuais, aumentando o peso do nível de serviço e qualidade nos contratos?

Não dá para fugir da discussão da Tarifa Zero, que já é praticada por mais de 150 municípios brasileiros. Em São Caetano do Sul, com transporte gratuito, o movimento mais que dobrou. Em São Paulo, a tarifa zero aos domingos aumentou em 30% o número de passageiros.

Reorganização de linhas e integrações
Idealmente, o transporte de pequena e média capacidade deve se subordinar ao transporte de massa. Assim, a cada nova estação de metrô, deveria haver uma reorganização das linhas de ônibus. Como isso não tem sido feito, há trajetos redundantes e deficitários. As integrações entre as diversas cidades são erráticas e caras.

Andar a pé ou bicicleta até o ponto mais próximo também deveria ser mais incentivado. Muitas vezes, as pessoas deixam de andar distâncias curtas pelo inconveniente de atravessar uma avenida ou encarar uma passarela escura.

Estrutura metropolitana
Municípios gerem os ônibus, o Governo Estadual gere o Metrô, cada um com seus preços e políticas. Falta uma instância de decisão para a Grande São Paulo, que, na prática é uma região urbana só.

Cultura
Talvez a grande questão do ônibus é que ele é invisível a quem não usa e relegado historicamente a quem não consegue acessar outro meio de transporte.

Não dá para não lembrar de Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, para quem a boa cidade não é aquela onde todos têm carro, mas aquela onde mesmo quem tem carro usa o transporte público.

Quem sabe se vereadores, secretários e prefeitos não estariam mais antenados se deixassem seus carros blindados e usassem o transporte coletivo de vez em quando?


A encruzilhada da democracia: entre a apatia e a ação, FSP

 Ricardo Henriques

Economista, é superintendente executivo do Instituto Unibanco, professor associado da Fundação Dom Cabral

democracia não morre apenas de golpe de Estado. Levitsky e Way argumentam em "Competitive Authoritarianism: Hybrid Regimes After the Cold War" que sua derrocada nem mais prescinde desse ato, muito embora, como testemunhamos há pouco, golpes continuem a ser tramados e executados.

A democracia sucumbe lentamente, sufocada pela indiferença de uma população que deixa de acreditar que o voto muda algo e pela incapacidade de seus líderes de entregar soluções para os problemas que mais importam. Vivemos esse momento.

Vitrine de vidro exibe documentos antigos, incluindo fotografias em preto e branco e um folheto colorido com as cores verde, amarelo e branco. O folheto tem texto em português e destaca um triângulo amarelo sobre fundo verde.
Peças do museu do Senado Federal danificadas após invasão de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro aos prédios que compõem a Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023 - Gabriela Biló - 09.jan.2023/Folhapress

Apesar de o mundo ter registrado recorde de eleições em 2024, com mais de 50% da população global indo às urnas, a democracia global atingiu seu mais baixo índice de vitalidade desde 2006, segundo o Democracy Index da EIU (Economist Intelligence Unit). É o resultado de três fatores interligados que ameaçam as fundações de nossas sociedades abertas.

O primeiro, e mais visível, é o crescimento de forças políticas abertamente autoritárias. Sob a retórica da liberdade, esses movimentos contestam direitos e sabotam o exercício das instituições para que funcionem como democráticas apenas por aparência.

Ainda segundo a EIU, 39% da população mundial vive sob regimes autoritários, e o número de países nessa categoria subiu para 60. Na América Latina, embora o apoio à democracia tenha mostrado leve recuperação, chegando a 52%, um preocupante contingente de 25% da população se declara indiferente ao regime político, como aponta o relatório anual Latinobarómetro 2024. Esse é um terreno fértil para o autoritarismo.

Isso nos leva ao segundo fator: a crescente incapacidade das democracias de entregar o que prometem. Como bem já apontou a cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, a persistência da pobreza e da profunda desigualdade social corrói a adesão ao projeto democrático.

François Dubet, no livro "O Tempo das Paixões Tristes", também alerta para o processo de individualização das desigualdades, com a ampliação dos ressentimentos e das frustrações, capturada por movimentos autoritários. Quando o sistema político falha em proteger direitos, sobretudo de grupos vulnerabilizados, e em gerar prosperidade compartilhada, perde legitimidade. A democracia não pode ser apenas um ideal abstrato. Ela precisa se traduzir em melhorias concretas na vida das pessoas.

Por fim, o terceiro fator é a baixa ambição dos próprios grupos democráticos. Suas propostas, muitas vezes reativas e fragmentadas, não inspiram a sociedade a se preparar para as transformações monumentais em curso. Eles hesitam, às vezes por falso pragmatismo, em estabelecer níveis desafiadores de progresso para todos, de forma inclusiva, plural, criativa e dinâmica.

Desafios como a transição demográfica (que redesenha o perfil de nossas populações e pressiona os sistemas de proteção social), a revolução tecnológica (que concentra poder e riqueza de formas inéditas), e a emergência climática (que exige reestruturação de nosso modelo de desenvolvimento) demandam visão de futuro e capacidade de ação potente e ambiciosa, ausentes hoje no repertório mobilizado pelas forças progressistas e democráticas.

A encruzilhada em que nos encontramos é clara, mas não intransponível. A democracia ainda respira, resiste e oferece a possibilidade de mudança pacífica e consensual. Mas para que não seja apenas resiliente —e para que seja verdadeiramente transformadora— precisamos reconhecer que o problema não é externo. Ele está na nossa incapacidade de construir políticas públicas robustas e inclusivas, que entreguem direitos e oportunidades.

O problema está na falta de ambição em preparar as sociedades para os desafios do século 21. E está, sobretudo, na resignação diante do óbvio: que um regime autoritário é, por definição, incapaz de oferecer as respostas complexas e colaborativas que um mundo em transformação exige. A democracia não precisa de salvadores, mas de cidadãos e líderes dispostos a fazer o trabalho árduo de construir um futuro mais justo e sustentável. Ainda há tempo. A pergunta é: teremos a coragem de tentar?

TENDÊNCIAS / DEBATES