sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Democracia e crime, Marcos Mendes. FSP

 A democracia brasileira parece estar sendo corroída pelo avanço do crime, que rompe o necessário equilíbrio de poder entre as autoridades eleitas e as nomeadas.

Em uma democracia equilibrada, as autoridades eleitas para os poderes Executivo e Legislativo governam. As autoridades nomeadas exercem mandatos em agências reguladoras, tribunais, banco central e órgãos de controle, para cumprir funções institucionais de Estado, que limitam o poder dos eleitos.

A imagem mostra a fachada do Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil, com uma escultura em primeiro plano representando a Justiça. A escultura é feita de pedra e retrata uma figura feminina sentada, segurando uma balança. O edifício ao fundo possui um design moderno, com grandes janelas e um telhado em forma de asa. O céu está parcialmente nublado, com algumas nuvens visíveis.
Fachada da sede do STF (Supremo Tribunal Federal), na Praça dos Três Poderes, em Brasília - Pedro Ladeira - 21.jun.24/Folhapress

Os dois grupos –eleitos e nomeados– entram e saem do poder com base em regras claras e têm autoridade legal para impor normas dentro dos seus limites de competência. O poder de umas autoridades sobre outras para fiscalizar, decretar impeachment e exonerar precisa ser bem equilibrado. O crime envenena a democracia ao quebrar esses delicados limites e balanços de poder.

No caso do banco Master, em que ilícitos diversos foram identificados pelo Banco Central, vemos um ministro do TCU exorbitando de suas prerrogativas, com uma atuação que contribui para defesa do réu e fragiliza o Banco Central. No STF, um ministro retirou o processo da justiça comum, trancou as informações sob sigilo, colocou o investigado e o Banco Central em pé de igualdade e se sobrepôs à autoridade investigativa da Polícia Federal. Outro ministro do STF está sob suspeita de ter praticado advocacia administrativa, sendo sua esposa remunerada pelo réu.

No Legislativo, já vimos duas tentativas de aprovar projetos de lei para também beneficiar o Master: a ampliação das garantias do Fundo Garantidor de Crédito ao seu passivo e a destituição de diretores do Banco Central pelo parlamento, no momento em que se discutia a liquidação do banco.

Este não é o único caso. Há oito gabinetes de juízes do STJ sob investigação de venda de sentenças (não necessariamente envolvendo os juízes), fato que se repete nas justiças estaduais. Há um sem-número de casos de desvios de emendas parlamentares, que promovem enriquecimento ilícito e desequilíbrio da competição eleitoral. Apurações da Receita Federal sobre incompatibilidade de renda de parentes de ministros do STF levaram à abertura de um interminável inquérito das "fake news", usado inicialmente para censurar divulgação daquelas informações pela imprensa.

As principais forças políticas não parecem capazes de interromper a degradação da democracia. O bolsonarismo já tentou romper regra democrática básica: o respeito ao resultado eleitoral. O PT e seus satélites posam de defensores da democracia, por serem adversários do bolsonarismo, mas dão suporte à corrosão da democracia por outras vias.

Vários de seus políticos foram "descondenados" pelo desmonte da Operação Lava Jato que, a título de corrigir falhas processuais, jogou fora provas explícitas de crime. Em 2023, PSOL e PcdoB questionaram, no STF, acordos de leniência de empreiteiras, ajudando a inocentar criminosos confessos. Atualmente, o PT trabalha para abafar as investigações da CPI do INSS e usa sua tropa digital para atacar jornalistas que apuram indícios de crimes de autoridades no âmbito do caso Master. A Advocacia Geral da União está sendo usada para processar quem exerce seu direito de opinião criticando o governo em redes sociais.

Algumas instituições, como Polícia Federal, Receita e Banco Central resistem. A política partidária parece ter perdido capacidade de estancar a degradação. A sociedade civil precisa se mobilizar para fazê-lo.


Aposentadorias do INSS acima do mínimo sobem 3,90% e teto do INSS deve ir a R$ 8.475,54 em 2026, FSp

 Ana Paula Branco

São Paulo

Aposentados e pensionistas do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) que recebem acima do salário mínimo terão os benefícios reajustados em 3,90% a partir de fevereiro. O percentual corresponde à variação do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) acumulada entre janeiro e dezembro do ano passado, divulgada nesta sexta-feira (9) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O INPC também serve de base para a atualização do teto previdenciário e das contribuições à Previdência Social. Com a correção, o valor máximo dos benefícios deve subir de R$ 8.157,41 para R$ 8.475,54 em 2026. O valor final, porém, ainda será divulgado pelo Ministério da Previdência, que poderá fazer ajustes com relação ao arredondamento.

O reajuste também impacta o valor do desconto da contribuição previdenciária de quem tem um salário acima do teto.

A imagem mostra a fachada do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) em São Paulo. À frente, um ciclista passa em movimento, enquanto vários carros estão estacionados ao lado do prédio. O fundo apresenta edifícios altos e variados, característicos da paisagem urbana da cidade.
Superintendência regional do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), localizada no viaduto Santa Ifigênia, no centro histórico de São Paulo - Rafaela Araújo - 11.jul.25/Folhapress

Com a variação de 3,90%, o reajuste dos benefícios do INSS acima do salário mínimo em será o menor desde o INPC de 2023, quando o índice havia ficado em 3,71%. No ano passado o reajuste foi de 4,77%.

Assim como vem ocorrendo nos últimos anos, esses beneficiários não terão ganho real no reajuste. A correção será feita apenas pela inflação, sem aumento acima da alta dos preços.

O percentual aplicado aos benefícios acima do piso será menor do que o reajuste concedido a quem recebe o salário mínimo, que teve aumento de 6,79%.

Os pagamentos com os valores corrigidos pelo novo salário mínimo, de R$ 1.621 em 2026, começam a ser feitos a partir de 26 de janeiro para quem recebe o piso nacional. Para os segurados com renda acima do mínimo, os depósitos terão início em 2 de fevereiro.

O índice será integral para aposentados e pensionistas que já recebiam o benefício em 1º de fevereiro de 2025. Quem passou a receber o benefício após essa data terá o primeiro aumento proporcional, equivalente ao número de meses de concessão.

Atualmente, 13,1 milhões de pessoas recebem benefícios do INSS acima do piso nacional. A maioria dos (62,5%) dos 35,15 milhões de benefícios previdenciários e assistenciais pagos mensalmente pelo instituto corresponde a valores de até um salário mínimo.

Hoje, 13,1 milhões de beneficiários do INSS recebem acima do piso nacional. Enquanto teto previdenciário integral é pago para 10,6 mil pessoas. A maioria (62,5%) dos 35,15 milhões de benefícios previdenciários e assistenciais pagos mensalmente pelo INSS ganham até um salário mínimo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Centrismo não é garantia eleitoral nos EUA em 2026, Lúcia Guimarães, FSp

 Números contam histórias. Em política, números de votos, de popularidade ou de defesa de posições podem ser usados para chegar a conclusões opostas. Ofereço dois aqui.

O novo prefeito socialista democrata de Nova YorkZohran Mamdani, recebeu os votos de 60 mil eleitores de Donald Trump —bem mais do que seus adversários, um democrata relativamente próximo ao presidente e um republicano.

Urna de votação com a palavra 'VOTE' em destaque, decorada com estrelas e listras nas cores vermelho, branco e azul. Ao fundo, duas pessoas estão em uma mesa, em um ginásio com arquibancadas amarelas e roxas desfocadas.
Eleitores do Wisconsin votam na Washington High School, em Milwaukee - Stacy Revere - 5.nov.2024/Getty Images via AFP

Com base em várias apurações, podemos estimar que entre 7 e 9 milhões de eleitores de Barack Obama votaram em Trump em 2016. Obama continua a ser o político mais popular dos Estados Unidos. Às vésperas da posse, a popularidade de Mamdani disparou, de 55% no momento da eleição, para 61%.

Já o ocupante do Salão Oval amarga um declínio de aprovação pública neste primeiro ano de mandato —a média entre as principais pesquisas, hoje, não passa de 43%. Não há motivo para nó no raciocínio.

Vamos procurar histórias menos convencionais e não sancionadas pela classe de consultores que sussurra no ouvido de candidatos e políticos eleitos.

Um filósofo político da Califórnia talvez ajude a explicar como alguém pode marcar a cruz ao lado de Barack e de Donald; ao lado de Donald e, apenas 12 meses depois, escolher o ugandense americano Zohran.

Jason Blakely publicou o livro "Lost in Ideology" (perdidos em ideologia, em tradução livre), argumentando que a política contemporânea nos desorienta e que não é possível plantar pessoas em rígidos territórios ideológicos. Ele descreve eleitores que circulam entre direita e esquerda num contexto de "ideologias líquidas." Um eleitor rural de Virginia Ocidental, um estado conservador, pode ser contra o aborto e a favor de uma versão gringa do SUS que o liberte da medicina privada.

Uma história que ganhou impulso recentemente foi a dos candidatos de centro como salvação para os democratas que perderam o controle do Congresso e da Casa Branca em 2024. Nesta narrativa, pouca atenção foi dada à importância do custo de vida através do espectro político. O que pode explicar por que Zohran, o jovem muçulmano esquerdista demais para líderes democratas, quando sua campanha emergiu do nada, empurrou até Donald Trump para se juntar ao desfile da Gaviões da Fiel da acessibilidade.

Medir temperaturas "à esquerda e à direita" dificilmente deve servir de termômetro para a oposição congelada fora do poder neste ano eleitoral americano. Convém evitar clichês como a "maioria silenciosa" que elegeu Richard Nixon no dramático ano de 1968.

Mais números? Analistas de dados apuraram que a importância do centrismo e da moderação para eleitores despencou 80% desde 2000, quando George W. Bush foi eleito de raspão. A balcanização dos americanos é uma realidade que não pode ser enfrentada apenas alinhando itens de agenda no universo de dois partidos.

E os homens jovens que ajudaram a consolidar a vitória republicana na eleição presidencial de 2024? Uma pesquisa considerada de boa qualidade por quem sabe mais do que eu apurou que os rapazes estão profundamente desencantados com o estado das coisas, preocupados com a experiência que vivem, não com arroubos ideológicos.

De acordo com o projeto SAM —acrônimo do inglês "conversando com homens americanos"—, quando consultados sobre política, os jovens "avaliam o desempenho, a justiça e a credibilidade, em vez de posições ideológicas fixas".