quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Entenda por que Trump quer a Groenlândia; veja infográfico, Igor Gielow - FSP

 Igor Gielow

São Paulo

Obsessão antiga de Donald Trump retomada após a captura do ditador Nicolás Maduro em Caracas, a Groenlândia tem uma trinca de fatores principais a orientar a investida do presidente americano sobre o local, um território autônomo da Dinamarca.

O primeiro motivo são as riquezas minerais que teoricamente poderão ser acessadas com a aceleração do aquecimento global negado por Trump, que afeta cada vez mais a camada que no inverno chega a 3 km de gelo e cobre todo o interior da maior ilha não continental do planeta.

Avião preto com a palavra 'TRUMP' em letras grandes na fuselagem taxiando em pista coberta de neve. Ao fundo, casas coloridas e terreno nevado sob céu claro.
O Boeing 757 de Trump com seu filho, Donald Jr, chega à capital da Groenlândia, Nuuk, no começo de 2025 - Emil Stach/Ritzau Scanpix - 7.jan.2025/AFP

No papel, isso significa a possibilidade de extração de petróleo e gás, mas principalmente de minerais do subsolo groenlandês. Entre os elementos presentes se destacam as famosas terras raras, motivo de cobiça global e outra fixação de Trump —afinal, a sua rival China controla a maior parte das reservas globais.

Esses elementos são vitais para a indústria de alta tecnologia, com amplas aplicações militares. E em dois campos da Groenlândia há 66% das reservas não chinesas das chamadas terras raras pesadas, as mais importantes para essas aplicações.

Além disso, há os já citados hidrocarbonetos, lítio fundamental para baterias, grafite, níquel, cobre e minerais críticos. Tal exploração não é, contudo, garantida: cientistas alertam que o derretimento tornará o solo instável e propenso a desmoronamentos.

Já o gelo do mar, que retrocedeu em torno da ilha em 30% nos últimos 40 anos, leva à segunda razão econômica e geopolítica: o controle potencial de rotas marítimas em caso de conflito.

Passam perto da Groenlândia caminhos que o aquecimento abre mais a cada ano: em 2036, o oceano Ártico só deverá ser intransponível no inverno junto à costa nordeste da ilha, com o resto sendo aberto por quebra-gelos: só a Rússia tem uma frota de seis gigantes com propulsão nuclear.

Moscou há anos tem a iniciativa de usar as rotas, estabelecendo o contato entre São Petersburgo e a costa leste da China. O Canadá, por sua vez, sempre lutou para operar uma rota semelhante de seu lado do polo Norte.

Já a Ponte Ártica, que ligaria rapidamente Rússia e EUA, por ora está morta por motivos políticos, enquanto a Rota Transpolar, por convenientes águas internacionais, ainda não é navegável de forma constante.

Por fim, mas não menos importante, há a questão estratégica. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando tentou comprar pela primeira vez a Groenlândia que ocupou de 1941 a 1945 para evitar que os nazistas que tomaram a Dinamarca chegassem perto dos EUA, Washington dá atenção especial ao local.

A mítica Base Aérea de Thule, hoje Base Espacial de Pituffik, no noroeste da ilha, sedia radares e controla satélites vitais para a proteção da América do Norte contra ataques nucleares. O Ártico, afinal, é o caminho mais curto entre silos terrestres russos e chineses e seus alvos nos EUA.

Hoje a instalação tem 150 militares e civis, alguns groenlandeses. No ano passado, sua comandante foi demitida após criticar a política americana para a região logo depois de uma visita do vice de Trump, J. D. Vance, ao local.

Por óbvio, Trump só fala nessa última questão para enfatizar a importância de controlar a ilha. Diz que ela está exposta a ataques de adversários, ignorando não só os 85% de locais que rejeitam mudar de governante. Ele também esquece da presença americana e do fato de que a Dinamarca, cujo reino é integrado pelo território de 57 mil pessoas, é parte da Otan.

A aliança militar do Ocidente foi criada pelos EUA em 1949 para conter a expansão soviética na Europa. Trump nunca escondeu seu desprezo pela entidade, que na gestão atual reagiu ao mesmo tempo elevando seus gastos militares e adulando o americano.

Hoje com 32 membros, alguns rivais entre si, a Otan nunca viu um de seus integrantes atacar diretamente o outro. Isso daria um curto-circuito no seu papel fulcral, o de defesa mútua em caso de agressão.

A Dinamarca, de todo modo, com seus 15,4 mil soldados, nada poderia fazer contra os 1,3 milhão de militares dos EUA, noves fora seus armamentos.

Na ilha, Copenhague até tenta mostrar serviço. Após as primeiras declarações de Trump no ano passado sobre sua vontade de ter o território, reforçou sua presença com 7 dos 12 barcos-patrulha que tem com uma fragata, além de anunciar o posicionamento de caças F-16 e helicópteros no local.

Na prática, claro, isso é insuficiente. Mas na hipótese de um ataque russo, os EUA e aliados europeus estariam ali do lado para intervir. Por isso a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, não exagera ao dizer que uma ação contra a Groenlândia iria acabar com a Otan.

Lula contraria Congresso e veta redução de penas do 8/1 que beneficiaria Bolsonaro, FSP

 

Brasília

O presidente Lula (PT) vetou de forma integral nesta quinta-feira (8) a redução das penas aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023. A proposta, aprovada pelo Congresso, também beneficiaria o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena por participar da trama golpista.

Homem de cabelos brancos e mulher de cabelos castanhos seguram documento oficial aberto com texto e assinaturas, com bordas coloridas em verde, amarelo e vermelho.
A primeira-dama, Janja, e o presidente Lula (PT) mostram veto ao projeto que reduz penas por golpismo - Jorge Silva/Reuters

"Não temos o direito de esquecer do passado. Por isso não aceitamos nem ditadura civil nem ditadura militar. Viva a democracia brasileira", declarou Lula em discurso. "O 8 de janeiro está marcado pela história como o dia da vitória da nossa democracia. Vitória sobre os que tentaram tomar o poder pela força, desprezando a vontade popular expressa nas urnas."

A cerimônia realizada no Palácio do Planalto, com presença em peso de nomes governistas e de movimentos populares alinhados à esquerda, iniciou com gritos de "sem anistia".

"O dia de hoje, além de estarmos aniversariando três anos do nosso terceiro mandato, é um dia que muita gente desse país pode comemorar. Primeiro pela manutenção do Estado Democrático de Direito desse país", disse ainda.

Alvo de disputa entre governistas e oposição, a redução das penas acabou sendo aprovada na Câmara e no Senado.

O veto à flexibilização das penas já era uma intenção declarada do presidente, que chegou a afirmar, durante café com jornalistas no dia 18 de dezembro, que vetaria a proposta assim que ela chegasse à sua mesa.

Lula tinha até o dia 12 de janeiro para vetar a proposta, mas uma ala do governo defendia que o ato de memória do 8 de Janeiro desta quinta fosse usado como palco para o anúncio.

Os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, faltaram à cerimônia para não se indispor com parlamentares bolsonaristas. Com a ausência dos chefes do Legislativo, Lula optou por ler a lista completa de autoridades presentes no evento, etapa protocolar que não costuma fazer.

Durante a solenidade, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, disse que os crimes do 8 de Janeiro não são passíveis de indulto ou anistia.

"Os crimes cometidos contra o Estado Democrático de Direito, como muitos daqueles praticados naquela época recente do 8 de Janeiro, conforme consta da Constituição Federal e de decisão do STF, são imprescritíveis, impassíveis de indulto, graça ou anistia, sobretudo quando envolvem grupos civis e militares armados", declarou Lewandowski.

Pele sintética imita camuflagem de polvo e muda de cor e textura em segundos, FSP

 

Michael Peel
Londres | Financial Times

Cientistas desenvolveram uma pele sintética, inspirada na camuflagem do polvo, que é capaz de mudar de cor e textura. A expectativa é que o material possa ser utilizado, por exemplo, em robôs.

Ele recorreram a técnicas de corrosão de semicondutores para recriar a capacidade do molusco marinho de alterar sua aparência para se assemelhar ao ambiente.

Além disso, analisaram como tornar superfícies mais ásperas ou lisas pode fazer com que a luz que elas refletem pareça diferente para um observador, criando uma paleta visual que vai além das variações de cor.

Polvos utilizam a camuflagem tanto para caçar presas quanto para evitar predadores - Dario Spagnolo/ Adobe Stock

"Pela primeira vez, podemos imitar aspectos-chave da camuflagem [de polvos, chocos e lulas] em diferentes ambientes: especificamente, controlando texturas complexas e de aparência natural e, ao mesmo tempo, alterando padrões independentes de cor", afirmou Siddharth Doshi, da Universidade de Stanford (Estados Unidos), autor principal de um artigo em que o achado é descrito e que saiu nesta quarta-feira (7) na revista Nature.

Os polvos utilizam a camuflagem tanto para caçar presas quanto para evitar predadores. As mudanças de aparência do bicho são mais rápidas e mais sofisticadas do que as do camaleão, animal terrestre famoso por sua capacidade de se misturar ao ambiente.

Doshi disse que ele e seus colegas se inspiraram em características das espécies de cefalópodes de corpo mole, que incluem polvo, choco e lula. A equipe usou um filme polimérico que era fácil de remodelar e foi dividido em duas camadas para permitir que a cor e a textura fossem variadas separadamente uma da outra.

O grupo alcançou o detalhe textural desejado por meio de uma técnica conhecida como litografia por feixe de elétrons, que pode ser aplicada na fabricação de semicondutores. Ela pode esculpir padrões na escala de bilionésimos de metro.

A aparência da pele sintética mudou em cerca de 20 segundos após a aplicação de água em qualquer uma das camadas ou em ambas, com o material voltando à forma original conforme secava.

Imagem microscópica com faixa de cores que vai do laranja ao amarelo, passando por tons de rosa, roxo, verde e azul. Apresenta padrão de pontos circulares distribuídos principalmente nas áreas verdes e amarelas. Escala indica 50 micrômetros.
Processo de mudança da pele sintética, em registro feito com microscópio - Siddharth Doshi, Neerav Soneji, Katie Richards

Foram criados cinco estados de cor diferentes misturando um composto de álcool em várias concentrações com a água. Os pesquisadores foram capazes de controlar continuamente a rugosidade da textura do material.

O próximo passo é desenvolver controles digitais para versões futuras da pele. Isso poderia ser usado em conjunto com algoritmos de visão computacional para fornecer informações sobre o ambiente ao redor.

Segundo os cientistas, a pele sintética poderia ser usada para aplicações que se beneficiam de uma "miríade de estados complexos de aparência visual", incluindo criptografia, obras de arte dinâmicas e displays. Poderia ainda "permitir camuflagem verdadeiramente semelhante à dos cefalópodes" em robôs.

O biólogo Alex Cagan, da Universidade de Cambridge (Reino Unido), afirmou que a pele sintética é um "lembrete de que a evolução é um extraordinário processo de design" e uma rica fonte de ideias para avanços tecnológicos.

"Ao observar os cefalópodes, organismos que passaram centenas de milhões de anos aperfeiçoando a camuflagem dinâmica, os autores mostram como a engenhosidade biológica pode orientar soluções de engenharia genuinamente inovadoras", disse Cagan.

"Em vez de copiarem a natureza diretamente, eles abstraem seus princípios e os traduzem em materiais programáveis com capacidades que seriam difíceis de projetar apenas a partir de princípios fundamentais."

Para o professor de química e ciência naturais Francisco Martin-Martinez, do King's College London, a pesquisa pode um dia permitir que "peles inteligentes" se adaptem instantaneamente a qualquer situação, "aproximando-se da capa de invisibilidade de Harry Potter".

"Além da camuflagem, a capacidade de criar padrões poderia levar a novos tipos de telas sensíveis ao toque que formam botões elevados ou caracteres em braille sob demanda e depois se achatam completamente", avaliou o docente.