domingo, 23 de novembro de 2025

Prisão de Bolsonaro é ponto fora da curva entre democracias em crise, Ana Luiza Albuquerque, FSP

 Jair Bolsonaro é o primeiro dos grandes líderes da leva de autoritários populistas do século 21 a ser preso por atentar contra a democracia. Seus aliados internacionais seguem não apenas livres, mas firmes.

Nos Estados UnidosDonald Trump voltou à Presidência antes que o julgamento de seus processos atrapalhasse seus planos eleitorais. Na HungriaViktor Orbán se prepara para uma difícil eleição, mas os 15 anos que acumula no poder podem ser um trunfo para garantir sua permanência como primeiro-ministro.

Homem de meia-idade com camisa verde de mangas curtas está com os braços cruzados, visto através de persianas horizontais que parcialmente obstruem a visão.
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em frente a garagem de sua residência em Brasília - Sergio Lima/AFP

Enquanto isso, Bolsonaro passará seus dias, ao que parece, em uma sala da Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Cabe perguntar: por que o ex-presidente teve um destino diferente dos seus pares?

Em primeiro lugar, a manutenção de uma Suprema Corte independente foi fundamental para fazer valer a lei e punir a ameaça democrática. Cientistas políticos que estudam a qualidade das democracias costumam identificar o Judiciário como o último bastião frente aos avanços de um autocrata.

Não foi, claro, por falta de tentativas. Bolsonaro e aliados falharam em levar para frente no Congresso a pauta do impeachment dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). Antes do segundo turno das eleições de 2022, vale lembrar, o ex-presidente afirmou que havia recebido projetos para aumentar o número de ministros da corte e que poderia discutir o tema com o Parlamento após o pleito.

Bolsonaro, porém, foi derrotado pelo presidente Lula naquele ano (e não teve apoio da cúpula militar para uma investida golpista). A cooptação do Judiciário não saiu do papel. Essa foi outra diferença fundamental que dividiu os destinos do ex-presidente e de seus aliados globais: Bolsonaro teve um único mandato.

É consenso entre pesquisadores do tema que líderes que tentam minar o sistema democrático pelo qual foram eleitos têm muito mais sucesso na empreitada conforme avançam seus mandatos. Nos primeiros anos, o aspirante a autocrata prepara o terreno. Depois, com a estrutura pronta (geralmente um arcabouço legal que possa dar ares de legitimidade às suas ações), passa a colocar em prática as medidas mais autoritárias.

Assim foi com Trump, que em 2020 não encontrou os 11.780 votos de que disse precisar no estado da Geórgia para vencer as eleições. Até o pleito de 2024, foi processado, mas não julgado, por ter tentado encontrá-los de forma antidemocrática, pressionando o secretário de Estado.

Finalmente, Trump derrotou Kamala Harris e, de novo na Presidência, tem agido de maneira mais autoritária do que no primeiro mandato –tentando preencher órgãos públicos de funcionários leais a ele, desmantelando o Departamento de Justiça, buscando controlar universidades e escritórios de advocacia e caçando imigrantes sem o devido processo legal.

Também prejudicou os avanços antidemocráticos de Bolsonaro não ter tido ampla maioria no Congresso. Nesse sentido, o presidencialismo de coalizão serviu como antídoto contra esses abusos.

Outros líderes, como Viktor Orbán e Nayib Bukele, em El Salvador, tiveram a sorte de chegar ao primeiro mandato com o Parlamento nas mãos. Assim, o húngaro reescreveu a Constituição, dominou o Judiciário e expulsou instituições críticas do país. Também com o Congresso, Bukele cooptou o Judiciário por meio da destituição de ministros (o que permitiu a reeleição, antes proibida) e, no mandato seguinte, garantiu a possibilidade de se reeleger indefinidamente.

Por ser inédita nesta nova fase de ascensão populista autoritária, não se sabe quais efeitos a prisão de Bolsonaro terá sobre a reconstrução da democracia no país.

Por um lado, pode sinalizar o compromisso das instituições com a democracia e inibir novos avanços autoritários. Por outro, não é suficiente (e nem pretende sê-lo) para mudar as condições que permitiram a chegada de Bolsonaro ao poder — um eleitorado que desconfia das instituições, da política tradicional e da capacidade do Estado de atender demandas básicas.

A prisão do ex-presidente deixa um vácuo que pode ser aproveitado por outro político de tendências semelhantes, e as eleições de 2026 estão logo ali.

Lourenço Diaféria preferiu sargento morto a Duque de Caxias e foi preso pela ditadura, Folha 105

 O sargento Sílvio pulou no poço das ariranhas para salvar um garoto de 14 anos que estava sendo dilacerado pelos bichos. O menino sobreviveu. O sargento morreu. Lourenço Diaféria escreveu sobre ele em crônica publicada na Folha, em 1977. E não teve dúvida: "Prefiro esse sargento herói ao Duque de Caxias".

"O Duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua", escreveu o cronista paulistano. "O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal."

O cronista e jornalista brasileiro Lourenço Diaféria - 1978/Folhapress

Diaféria contrapôs o sargento morto aos heróis de bronze, "irretocáveis e irretorquíveis, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar". O povo, segundo ele, queria "o herói sargento que seja como ele: povo".

O cronista via no gesto do sargento uma lição para o país: "Ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos".

O artigo gerou uma crise com os militares. No dia 15 de setembro daquele ano, Diaféria foi preso em sua casa e levado para um prédio da Polícia Federal na rua Piauí, em Higienópolis. Foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional.

Folha reagiu já no dia seguinte, num ato que tornou ainda mais pesado o clima com os militares. Além de anunciar a prisão no alto da primeira página, tomou a atitude inédita de deixar em branco o espaço dedicado à coluna do colaborador preso.

Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão, que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.

Herói. Morto. Nós (1/9/1977)

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.

O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.

Que nome devo dar a esse homem?

Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.

Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói -como o santo- é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.

O herói redime a humanidade à deriva.

Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.

Está morto.

Um belíssimo sargento morto.

E todavia.

Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.

O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel -onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.

O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.

No instante em que o sargento -apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher- salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.

Esse sargento não é do grupo do cambalacho.

Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.

É apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem- não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.

O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.

Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.

É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.

Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.

Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.

E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis -tarde demais.

Incêndio simboliza fracasso definitivo na COP30, Marcelo Leite, FSP

 Só se decepcionou com o resultado da conferência do clima quem ainda esperava alguma coisa de negociações que se arrastam há um terço de século. Uma tragédia de erros em que os vilões se travestem de bons moços e em que diplomatas, ambientalistas e repórteres fingem acreditar —o show precisa continuar.

A exceção é Donald Trump, que não deu as caras em Belém nem enviou representante. Não poderia mesmo dar certo um processo em que o principal poluidor histórico dá uma banana para nós, chorões que se importam com as vítimas da crise climática no presente e no futuro.

Ninguém vai a uma COP a passeio. A trigésima será lembrada como a peça encenada na amazônia sem roteiro para acabar com desmatamento de florestas tropicais, sem mapa de caminho para se livrar de combustíveis fósseis, sem incluir na conversa o contingente inaudito de indígenas em seu próprio território.

Fumaça densa e chamas alaranjadas saem de um estande em chamas durante evento de educação. Pessoas evacuam o local enquanto o fogo consome a estrutura.
Incêndio no pavilhão Climate Live: Entertainment + Culture Pavillion, na zona azul da COP30, em Belém - 20.nov.25 - Divulgação

Encontra-se nas redes vídeo eloquente do presidente da COP em que ele mostra coragem ao tocar no assunto do incêndio que paralisou a reunião. André Corrêa do Lago falou da reação instintiva de pessoas de todos os países que se lançaram a extinguir o fogo, enxergando ele, aí, um símbolo da COP30 e de sua disposição para promover o bem comum.

Palavras tocantes. Em retrospecto, porém, à luz dos documentos adotados na plenária final, soam descabidas: com o mundo em chamas, em vez de buscar extintores, correm todos para seus bunkers e dão as ordens para extrair da Terra até o último grama de petróleo, carvão e gás cuja queima turbina o efeito estufa.

Países árabes, com Arábia Saudita à frente, Rússia, Índia e China não querem nem ouvir falar da carta do caminho para afastar-se dos fósseis que Marina tirou da manga e Lula trucou. Ficaram falando sozinhos, enquanto calavam sobre a Foz do Amazonas que teve perfurações petrolíferas autorizadas na véspera da COP30.

Diante da omissão escandalosa em mais uma COP, poderá parecer cínico comemorar menções inéditas a questões de gênero, povos indígenas e comunidades afrodescendentes. São grupos hiper-representados nas populações vulneráveis aos eventos climáticos extremos, decerto, mas que não colherão menos vítimas porque um texto diplomático lhes fez reverência protocolar.

Nem mesmo a promessa de triplicar recursos para adaptação dessas populações se qualifica como providência à altura do desafio de reduzir o sofrimento futuro.

Todos os compromissos financeiros de COPs passadas foram descumpridos pelos países desenvolvidos.

Sem corar, impolutos europeus erguem barreiras alfandegárias a produtos intensivos em carbono de ex-colônias subdesenvolvidas. Não admira que países africanos tenham recusado condicionar recursos financeiros ao monitoramento de 60 indicadores de adaptação festejados como conquista de Belém.

Belém era para ser a COP da verdade e da adaptação. Para falar a verdade, o tema da adaptação veio para ficar, sim, e vai dominar a agenda de ora em diante. Mas só porque os suspeitos de sempre conseguiram tirar da mesa a mitigação do aquecimento global reduzindo emissões de carbono —algo que a ciência já apontava consensualmente em 1992, quando a pantomima começou.