sexta-feira, 11 de julho de 2025

População na Europa supera 450 milhões de pessoas graças à imigração, FSP

 

Berlim

A população dos 27 países da União Europeia alcançou 450,4 milhões de pessoas em 1° de janeiro de 2025. A marca só foi alcançada graças à admissão de imigrantes, já que o balanço entre mortes e nascimentos no bloco segue no campo negativo, inaugurado em 2012. Desde então, é a chegada de estrangeiros que sustenta o crescimento da população europeia, tendência que se intensificou em 2022 graças aos movimentos pós-pandemia.

Em 2024, mortes superaram nascimentos em 1,3 milhão, enquanto o saldo líquido de entrada e saída de imigrantes foi de 2,3 milhões. No total, cerca de 10% da população europeia é estrangeira e dois terços desse contingente estão distribuídos por quatro países: Alemanha (16,9 milhões), França (9,3 milhões), Espanha (8,8 milhões) e Itália (6,7 milhões). O acúmulo fica ainda mais evidente quando se nota que os mesmos quatro países respondem por 57,8% da população da UE.

A imagem mostra uma área de areia com marcas de pegadas. No centro, há um colete salva-vidas laranja parcialmente dobrado e um objeto azul, possivelmente uma boia ou caixa, ao lado. O fundo é composto por areia com ondulações e mais pegadas visíveis.
Colete salva-vidas e pegadas são registradas em praia de Dunquerque, na França, nesta sexta-feira (11); tentativas de travessias do Canal da Mancha por imigrantes irregulares provocou 33.215 detenções na primeira metade deste ano - Phil Noble/Reuters

Não à toa, o debate em torno do assunto domina o cenário político europeu, com a questão sobre a necessidade crescente de trabalhadores qualificados quase sempre sendo obliterada pelo noticiário relativo à chegada irregular de imigrantes —em tendência de queda desde o ano passado, com o registro de 20% menos detenções na primeira metade deste ano.

Também em números do ano passado, além de 44,7 milhões de imigrantes, a UE abrigava 29,9 milhões de cidadãos de países fora do bloco, ou 6,4% do total. Completam o quadro de deslocados 14 milhões de europeus que continuam morando na UE, mas fora de seu país de origem.

Os números divulgados pela Eurostat nesta sexta-feira (11) mostram ainda que apenas seis países tiveram crescimento populacional sem depender da chegada de estrangeiros: Irlanda, França, Chipre, Luxemburgo, Malta e Suécia; o balanço na Dinamarca foi zero. Por outro lado, as nações com mais imigrantes admitidos foram Malta (18,7 por 1.000), Portugal (13,4) e Irlanda (12,8).

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Com 500 mil brasileiros morando em seu território, Portugal experimenta, como diversos outros países europeus, uma ofensiva populista e generalizada contra imigrantes. A votação de um pacote relacionado ao tema, proposto pelo governo Luís Montenegro, foi adiada na semana passada após debates acalorados. Dois deputados do Chega, partido de ultradireita, inflamaram o plenário ao lerem a suposta lista de chamada de uma pré-escola de Lisboa, repleta de nomes de origem árabe ou estrangeira.

Com frequência o assunto extrapola a discussão doméstica e opõe países vizinhos. Na segunda-feira (7), a Polônia instalou postos de controle na fronteira com a Alemanha em medida de reciprocidade, já que a gestão Friedrich Merz intensificou a política inaugurada pelo antecessor, Olaf Scholz, de procurar barrar a entrada de requerentes de asilo e refugiados sem documentos.

A controversa medida, uma afronta ao Tratado Schengen, que determina a livre circulação no continente, foi adotada a partir de um crime cometido por um solicitante de asilo que legalmente não deveria estar na Alemanha. Ainda que vista como inócua por especialistas, a contenção virou bandeira eleitoral do primeiro-ministro conservador.

Na Polônia, a atitude alemã ganhou contornos insuportáveis para Donald Tusk. Além de uma ofensiva da oposição no Parlamento, que busca fazer render a vitória da extrema direita na eleição presidencial, o primeiro-ministro teve que lidar com cidadãos que resolveram controlar a fronteira por conta própria.

O fenômeno já havia sido observado em estradas que ligam Alemanha e Holanda. Ultranacionalistas como Geert Wilders, que derrubou o governo holandês no mês passado ao retirar seu partido da coalizão no poder, estimulam a prática nas redes sociais.

Também fonte de tensão, a rota de imigração irregular pelo canal da Mancha ganhou uma proposta do Reino Unido durante visita oficial de Emmanuel Macron a Londres nesta semana. O governo Keir Starmer quer devolver imigrantes à França na mesma proporção em que admite quem está no país vizinho com potencial de admissão no Reino Unido ou em busca de reunificação familiar.

A estratégia, chamada de "um por um" pela imprensa britânica, já foi utilizada entre União Europeia e Turquia no auge da guerra da Síria, na década passada, que produziu milhões de refugiados. Críticos apontam que ela não funcionou à época e não funcionará agora.

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Mauro Calliari - Os livros e a cidade, FSP

 ue os brasileiros leem pouco, parece quase senso comum. Mas estamos lendo cada vez menos. A média de quatro livros por ano é a mais baixa da série histórica. Pela primeira vez, o número de leitores ficou abaixo dos não-leitores. Isso significa não ter nem encostado em nenhum livro nos últimos três meses. Talvez esse dado não seja suficiente para levar uma passeata de protesto à avenida Paulista, mas para mim gera arrepios saber que um terço dos universitários não leu nem um trecho de livro nenhum, físico ou digital nos últimos três meses.

Duas mulheres estão sentadas em cadeiras de praia em um espaço ao ar livre. A mulher à esquerda está vestindo uma blusa preta e uma saia clara, enquanto a mulher à direita usa uma blusa amarela e calças pretas. Ambas parecem concentradas em seus celulares. Ao fundo, há um público e barracas, sugerindo um evento ao ar livre.
Movimentação durante a Feira do Livro realizada na Praça Charles Miller, em São Paulo - Rafaela Araújo - 19.jun.2025/Folhapress

Por isso tudo, causa espécie quando se constata a superlotação dos eventos literários. A Feira da USP leva 50 mil pessoas todo ano, em busca dos 50% de desconto. A Feira de Livro realizada no Pacaembu no mês passado estava bonita com a multidão ouvindo palestras sobre temas algo áridos sentadas no gramado como se estivessem numa praia. A Bienal do Livro do Rio de Janeiro levou 740 mil pessoas –quase dez Maracanãs lotados– para passear num verdadeiro parque do livro. A Flip vem aí e promete lotar a cidade de Paraty.

Como explicar essa aparente contradição?

A primeira constatação é que as feiras vão muito além da venda de livros. Na feira do Pacaembu, eu assisto a palestra do autor canadense que me interessou, pesco alguma história divertida, compro o livro, ganho um autógrafo e quem sabe ainda posto uma foto minha com o sujeito. De quebra, vejo gente bacana, como um pão de queijo, e pronto, o programa durou uma tarde inteira. Se estiver na Bienal do Rio de Janeiro, consigo até andar de roda-gigante.

Isso explica a estratégia das livrarias. Tudo virou experiência. Para concorrer com a compra online (que hoje já abocanhou 32% do mercado de livros no Brasil), a palavra de ordem hoje no varejo é a experiência do consumidor.

Algumas livrarias nasceram para atrair pessoas. El Ateneu, em Buenos Aires, montada num antigo teatro, é uma estrela de primeira grandeza nos guias de turismo. A Cultura do Conjunto Nacional atraía gente do Brasil inteiro, interessados na arquitetura generosa e na oportunidade de sentar perto do dinossauro. Minha preferida sempre foi o Shopping Ática, que tinha a ambição de ter todos os livros em catálogo no Brasil, acabou vendida e o prédio foi ocupado pela FNAC, até ser ocupado pela Prevent Senior.

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As pequenas livrarias conseguem emular apenas parte dessa experiência, mas todas fazem bem para a cidade.

Livraria da Vila, a Megafauna, a Martins Fontes, a Travessa, os sebos e as livrarias de bairro como a Simples, a Bibla, a Zaccara e a NoveSete, e até a Drummond, que ocupou um pedacinho do conjunto Nacional, entregam ambientes agradáveis, cafés, lançamentos, eventos e até clube de leitura.

É saudosismo? Talvez.

Livrarias fazem parte daquela categoria que o sociólogo americano Ray Oldenburg chamou de third place, ou terceiro lugar, aquele lugar privado que funciona como espaço público, onde vizinhos se encontram regularmente, como o cabeleireiro ou boteco. Nesses lugares, nunca falta assunto e as ideias ganham vida própria.

Vender livros é um business arriscado. Que haja mil livrarias e quase 5 mil farmácias no estado de São Paulo não é um acaso.

Num país em que quase 60% dos municípios não têm sequer um ponto de vendas de livros, as cidades deveriam estender o tapete para cada empreendedor que desafia a racionalidade econômica e abre uma nova livraria.