segunda-feira, 7 de julho de 2025

A culpa da crise entre o Planalto e o Congresso é de Lula?Celso Rocha de Barros - FSP

 Em sua coluna no jornal O Estado de S. Paulo de 2 de julho de 2025, o cientista político Carlos Pereira argumentou que a responsabilidade da crise entre o Planalto e o Congresso é de Lula. Em suas palavras, "quem falha hoje é o Executivo, ao não saber jogar o jogo do presidencialismo de coalizão".

É sempre esclarecedor debater com Carlos, um dos grandes cientistas políticos brasileiros. Mas ele está errado: o presidencialismo brasileiro está em crise. Não está muito claro se o jogo ainda tem regras, ou, ao menos, as mesmas regras.

Em discussões anteriores que tivemos nas páginas desta Folha, quando a crise política de dez anos ainda começava, argumentei que o modelo de Carlos subestimava o papel da ideologia na gestão das coalizões presidenciais. Não por acaso, ele só confere notas altas em gestão de coalizão para presidentes de direita.

Um homem de cabelos grisalhos e barba, vestido com um terno cinza e uma camisa azul clara, está sentado em um ambiente formal. Ao fundo, há bandeiras do Brasil e do governo, com as cores verde, amarelo e azul predominando. O homem parece pensativo, olhando para o lado.
O presidente Lula durante a cerimônia no palácio do Planalto - Pedro Ladeira - 23.abr.2025/Folhapress

Ora, o Congresso brasileiro na Nova República sempre foi de direita, por projeto; nossa democracia começou com a classe política da ditadura, da qual a esquerda havia sido praticamente banida. E é inteiramente de se esperar que presidentes de direita aprovem mais coisas em um Congresso de direita.
Mas esses eram os problemas da esquerda quando o presidencialismo de coalizão funcionava. Depois que parou de funcionar, piorou muito.

Em sua obra clássica "Making Brazil Work" (Palgrave, 2013), Carlos e seu coautor Marcus Melo (colunista desta Folhaescreveram, na página 51, que "em termos de impacto político direto e imediato, a principal ferramenta (primary tool) disponível para o Executivo brasileiro é a capacidade de executar emendas orçamentárias para legisladores individuais" (tradução minha).

Bem, foi exatamente esse "principal instrumento" que perdeu tração na última década, à medida que o Congresso passou a controlar uma fatia muito maior do orçamento sem depender do Poder Executivo.
Carlos também argumenta que o presidencialismo de coalizão "nunca foi vertebrado por ideologia" e que era justamente isso que permitia ao presidente montar sua coalizão com emendas, cargos e outras ferramentas. De fato, foi assim que Lula conseguiu o apoio de partidos como o PP e o PL em seus primeiros governos.

Isso também mudou. O bolsonarismo radicalizou o eleitorado de direita, e agora muitos deputados do centrão relutam em se aproximar de um governo de esquerda.

Carlos supõe que a redução do número de partidos deveria ajudar Lula, mas tem acontecido o contrário. Há grandes partidos de direita em formação que ainda não decidiram se querem continuar vendendo apoio a qualquer presidente ou, de maneira mais ambiciosa, disputar a Presidência. No segundo caso, precisam preservar ao menos algumas credenciais ideológicas de direita. Essa crise de identidade do centrão dificulta enormemente a vida de Lula.

É possível que, no sempre incerto longo prazo, tudo isso tenha um final feliz. A política brasileira talvez se organize em grandes máquinas de direita e de esquerda que, pela própria dinâmica eleitoral, moderem umas às outras. Essas máquinas talvez tenham força para devolver o poder da Presidência ou estabelecer algum outro arranjo estável.

Mas, para quem tem que governar nessa transição, como é o caso de Lula 3, a vida é dura.

Ruy Castro A morte em proparoxítonas, Ruy Castro- FSP

 Ouve meu cântico, quase sem ritmo/ Que a voz de um tísico, magro, esquelético/ Poesia ética em forma esdrúxula/ Feita sem métrica com rima rápida.// Amei Angélica, mulher anêmica/ De cores pálidas e gestos tímidos/ Era maligna e tinha ímpetos/ De fazer cócegas no meu esôfago.// Em noite frigida, fomos ao Lírico/ Ouvir o músico, pianista célebre/ Soprava o zéfiro, ventinho úmido/ Então Angélica ficou asmática.// Fomos ao médico de muita clínica/ Com muita prática e preço módico/ Depois do inquérito descobre o clínico/ O mal atávico, mal sifilítico.

"Mandou-me célere comprar noz vômica/ E ácido cítrico para o seu fígado/ O farmacêutico, mocinho estúpido/ Errou na fórmula, fez despropósito.// Não tendo escrúpulo, deu-me sem rótulo/ Ácido fênico e ácido prússico./ Corri mui lépido mais de um quilômetro/ Num bonde elétrico de força múltipla.// O dia cálido deixou-me tépido/ Achei Angélica já toda trêmula/ A terapêutica dose alopática/ Lhe dei em xícara de ferro ágate.// Tomou num fôlego, triste e bucólica/ Essa estrambótica droga fatídica/ Caiu no esôfago, deixou-a lívida/ Dando-lhe cólica e morte trágica.

"O pai de Angélica, chefe do tráfego/ Homem carnívoro, ficou perplexo./ Por ser estrábico, usava óculos/ Um vidro côncavo, e o outro convexo.// Morreu Angélica, de um modo lúgubre/ Moléstia crônica levou-a ao túmulo/ Foi feita a autópsia, todos os médicos/ Foram unânimes no diagnóstico.// Fiz-lhe um sarcófago assaz artístico/ Todo de mármore da cor do ébano/ E sobre o túmulo uma estatística/ Coisa metódica como "Os Lusíadas".// E, numa lápide paralelepípedo/ Pus esse dístico, terno e simbólico:/ ‘Cá jaz Angélica, moça hiperbólica/ Beleza helênica, morreu de cólica.’"

O que é isso? Uma modinha, "O drama da Angélica", de certos Barreto e Lubiti, gravada em 1942 pela famosa dupla sertaneja Alvarenga e Ranchinho. A letra, toda em proparoxítonas, é uma obra-prima. O vídeo está no YouTube —não perca.

Sim, a sofrência das duplas sertanejas brasileiras já foi assim.

Stédile vai entregar propostas da sociedade civil a líderes do Brics, FSP

 Principal nome do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), João Pedro Stédile vai entregar neste domingo (6) na cúpula de líderes do Brics um documento com propostas e recomendações feitas pelo Conselho Popular, que permite a participação da sociedade civil nas discussões do grupo.

Um homem de cabelos grisalhos e barba, vestido com uma jaqueta escura, está falando ao microfone em um evento. Ele está em pé atrás de um púlpito de vidro, com uma apresentação visível ao fundo. O ambiente parece ser uma sala de conferências.
Líder do MST, João Pedro Stédile vai entregar documento com propostas do Conselho Popular na cúpula de líderes do Brics

O documento foi elaborado a partir de reuniões dos participantes do Conselho Popular e fruto das discussões de sete grupos de trabalho formados no Fórum Popular. O material, com cerca de 80 páginas, abordará questões ambientais e climáticas, finanças, educação, cultura e soberania digital.

O Brics tem como membros plenos, além do Brasil, países como Rússia, Índia, ChinaÁfrica do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. A Arábia Saudita, convidada em 2023, nunca oficializou seu ingresso, mas tem escalado representantes para as reuniões.