segunda-feira, 7 de julho de 2025

Hélio Schwartsman - Lugares implacáveis, FSP

 Para a esquerda, o crime é resultado de disparidades econômicas. Para a direita, é uma questão moral. Gente ruim, as famosas maçãs podres, é que se mete em comportamentos antissociais.

Não é que as duas visões estejam totalmente erradas. Determinantes sociais estão na origem de parte da criminalidade e psicopatas são uma realidade. Mas ambas explicam pouco. E explicam particularmente pouco do tipo de crime que mais nos incomoda, que são os assassinatos.

Em "Unforgiving Places" (lugares implacáveis), Jens Ludwig (Universidade de Chicago) se propõe a explicar o fenômeno dos homicídios por armas de fogo nos EUA. Com base em dados e alguns experimentos naturais, Ludwig mostra que assassinatos são um tipo particular de crime que não responde muito a estratégias de dissuasão racional, como o clássico aumento de penas.

Ilustração de Annette Schwartsman para a coluna de Hélio Schwartsman - Annette Schwartsman

É que apenas 20% dos homicídios nos EUA têm motivação econômica. São as disputas entre quadrilhas e latrocínios. Os outros 80% são conflitos interpessoais que vão escalando até que alguém puxe a arma e a dispare. É por isso que há muito mais assassinatos no verão, quando há mais gente interagindo nas ruas, do que no inverno (especialmente na gélida Chicago).

E o que podemos fazer para reduzir as mortes? Um experimento natural de Chicago traz pistas interessantes. Great Grand Crossing e South Shore são dois bairros demograficamente muito semelhantes, com as mesmas leis e servidos pela mesma polícia, mas o primeiro ostenta taxas de homicídio bem maiores que o segundo. O que explica a diferença?

Coisas triviais, como a disposição do transporte urbano, a presença de comerciantes e agentes de segurança privada e outros elementos que criem o efeito olhos da comunidade, isto é, que façam com que pessoas que estão nas imediações esfriem as disputas interpessoais antes que elas se tornem uma briga fatal. Em geral, são dez minutos entre o desentendimento e o tiro.

Em muitos casos, as soluções têm mais a ver com urbanismo que com aumento de penas.

Velhas ideias rondam a eleição do PT, editorial - FSP

 Ao surgir em 1980, o Partido dos Trabalhadores distinguiu-se das agremiações tradicionais da história brasileira, em particular da oposição consentida pela ditadura militar agônica de então. De saída, fez da disputa interna entre correntes diversas, ainda que sempre à esquerda, uma marca.

A democracia partidária, todavia, subordinou-se à realidade do poder. Em seu primeiro grande teste, a prefeitura paulistana conquistada em 1988, o assembleísmo petista resultou em balbúrdia administrativa.

Figura de proa da legenda desde a origem, Luiz Inácio Lula da Silva sempre buscou impor sua vontade aos correligionários. Ao chegar à Presidência da República, vencendo o pleito de 2002, sacramentou seu "diktat" —do qual decorreram cismas, como aquele em que foi criado o PSOL.

No maior revés de sua história, o processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, o PT se viu ainda mais dependente do comandante. O período em que Lula ficou preso aprofundou o caráter messiânico de sua liderança.

De 2017 até março deste ano, o PT foi presidido por Gleisi Hoffmann, sob a bênção lulista. Hoje ministra das Relações Institucionais, ela dava vazão às insatisfações do partido com a política econômica de Fernando Haddad —nada que seja estranho ao estilo do presidente em terceiro mandato de gerir partido e governo.

Com a vacância no comando petista, foi aberta a campanha que acaba com o pleito deste domingo (6). Lula ungiu Edinho Silva para o cargo, com algum dissenso na forma da candidatura do ex-chefe da sigla Rui Falcão.

Demais nomes na disputa, Romênio Pereira e Valter Pomar, são a concessão usual às alas radicais. A disputa interna, como não poderia deixar de ser, foi tomada por ataques à política econômica.

Na semana derradeira da refrega, os adversários de Edinho assinaram carta conjunta pedindo mobilização popular contra os juros do Banco Central e a maioria conservadora do Congresso Nacional.

O favorito na eleição tem a reputação de moderado, pelos padrões petistas. É Lula, no entanto, quem hoje ensaia tomar o rumo da radicalização.

Acossado pela impopularidade e pela dificuldade de governar, expressa na crise do IOF, o cacique petista recorreu ao usual "nós contra eles", desta vez propagando que a culpa pelos problemas do país é de um conluio entre parlamentares à direita e super-ricos avessos a impostos.

Edinho, até aqui, não deu sinais de adesão ao confronto, seja com outras forças políticas, seja com a política de Haddad —quando muito, defendeu corretamente a revisão de isenções tributárias e fez uma proposta exótica de novo cálculo da inflação para permitir a queda dos juros.

Se não será capaz de renovar o ideário do PT, sua gestão poderia, na melhor hipótese, contribuir para a pacificação de relações com os demais partidos. Será preciso, entretanto, combinar primeiro com Lula.

editoriais@grupofolha.com.br

Por que Malafaia aceitou ser o vilão em 'Apocalipse nos Trópicos'?, Juliano Spyer - FSP

 Por que um pastor que se tornou a principal voz antiesquerda entre os evangélicos abre sua intimidade e recebe em sua casa, escritório, carro particular e jatinho uma cineasta que, em muitos sentidos, representa a esquerda que ele combate?

Silas Malafaia é o único entrevistado que aparece do início ao fim do documentário "Apocalipse nos Trópicos", de Petra Costa, que estreou nos cinemas na semana passada. Foi entrevistado por ela desde antes da eleição de Bolsonaro até depois da volta de Lula ao poder.

Por que ele, um pastor com décadas de experiência em televisão, que entende de comunicação e usa a internet de modo profissional, aceitou participar de um filme em que seu envolvimento com a política seria criticado e ridicularizado?

A resposta curta: para ser o protagonista. Malafaia se apresenta como a Odete Roitman de "Apocalipse nos Trópicos" —o malvado favorito de quem já não gosta de evangélicos.

Um jornalista evangélico chamou a atenção para o fato de Malafaia ser generoso com a mídia "inimiga". "Ele sabe que vai apanhar da Folha, por exemplo, mas dá entrevistas. E sempre passa mensagens para o público dele", explica esse interlocutor, que pede para não ser identificado.

Malafaia abre as portas de sua mansão para Petra Costa, mostra a família e permite que ela registre seu ataque de fúria no trânsito ao dirigir sua BMW e brigar com um motoqueiro —tudo para enviar mensagens. Esses veículos tornam-se, para ele, cavalos de troia: formas de acessar públicos que normalmente o ignorariam.

Para os não evangélicos, Malafaia se apresenta como o estereótipo do cristão que rejeitam: conservador, truculento, envolvido até os dentes com a política e abertamente rico —alguém que não esconde ter seu próprio jatinho e declara quanto pagou por ele em dólares no documentário.

Para o público de esquerda, essa reação negativa o consolida como o porta-voz dos evangélicos. Mas isso é uma miragem para quem vê de fora. Malafaia é frequentemente contestado e criticado dentro do próprio campo evangélico e agora luta para se manter relevante no cenário de Bolsonaro inelegível.

Quando aparece sendo criticado pela mídia "inimiga", Malafaia se apresenta para seu eleitorado conservador como um herói —ou, no mínimo, como alguém corajoso, que diz o que pensa, mesmo diante de seus adversários.

Ao vocalizar o que muitos evangélicos pensam —que a esquerda não gosta de evangélicos e é contra a família tradicional— e ser atacado por isso, o ataque se converte em apoio.

"Apocalipse nos Trópicos" aborda um tema da maior importância: a influência crescente de algumas igrejas evangélicas —especialmente as corporações da fé— no Estado. Mas, em vez de expor a complexidade do fenômeno, o filme retrata os evangélicos como fanáticos manipulados por pastores ricos.

O que chamará mais a atenção dos evangélicos conservadores no documentário de Petra Costa? O pastor milionário e politiqueiro ou a percepção de que a esquerda faz propaganda política contra eles e contra o cristianismo?

Suspeito que a segunda opção.