domingo, 17 de março de 2024

Sim, a matemática é para você, FSP

Ya Jen Chang

Presidente do Instituto Sidarta

Um estudo recente do Itaú Social revelou números inéditos sobre a contribuição da matemática para o desenvolvimento econômico do Brasil. Pela primeira vez, pesquisadores brasileiros colheram evidências de que o conhecimento matemático abre portas para ocupações mais bem remuneradas e mais seguras em tempos de crise.

"No caso brasileiro, as ocupações intensivas em matemática possuem maior nível de escolaridade e menor taxa de informalidade do que a média geral de todos os trabalhos no país, o que proporciona ocupações com maiores salários e mais resilientes em épocas de crise", afirma o estudo. "Mesmo entre os ocupados de nível superior, os trabalhadores da matemática recebem em média mais do que a média dos trabalhadores de nível superior brasileiro."

Apesar desses dados, para boa parte da população brasileira, especialmente aquela já inserida no mercado de trabalho, fica a sensação de que se "perdeu o bonde" para acessar essas ocupações. Mas qualquer um, independentemente da idade e do nível de escolaridade, pode resgatar sua relação com a matemática e retomar o caminho para acessar essas valorizadas posições no mercado de trabalho, mesmo sem formação na área.

É importante esclarecer de que matemática estamos falando. Não é daquela matemática escolar voltada a infinitas tabuadas e memorização de fórmulas, mas sim da matemática como a ciência dos padrões. Vamos trocar por um instante a palavra "matemática" por "ciência dos padrões". Enxergamos padrões na nossa rotina, no trabalho, na escola, na família.

Em "21 lições para o século 21", Yuval Harari nos lembra que o pensamento matemático está no nosso inconsciente, de tal forma que também é reconhecido como intuição. Ora, intuição é reconhecimento de padrões. Pensamento matemático vai muito além da formalização dos procedimentos. Nossos cérebros, com bilhões de neurônios, já nasceram prontos para calcular probabilidades em frações de segundos sem nos darmos conta disso.

No dia a dia profissional, o que diferencia um profissional mediano de um excelente é sua capacidade de antecipar problemas e traçar um plano de ação —seja para mitigá-los, seja para ganhar eficiência.

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Um bom policial reconhece situações ou locais de maior risco e, a partir da observação, decide aumentar a frequência de presença ostensiva em determinado horário ou melhorar a iluminação em determinadas áreas. Decisões simples que surgem a partir de padrões detectados e, eventualmente, extrapolam para outras situações.

Um ótimo vendedor faz a leitura do perfil de seus clientes —idade, sexo, hábitos de lazer, profissão, estilo de vida, filhos— para oferecer o produto adequado ao padrão de comportamento de cada um. Famílias com recém-nascidos certamente terão, na lista de desejos, objetos diferentes dos demandados por pessoas de terceira idade.

Essa capacidade "intuitiva" de reconhecer os infinitos padrões de comportamento, ocorrências e fenômenos naturais é uma das bases do pensamento matemático e é chave tanto para a vida cotidiana quanto para situações profissionais das mais diversas.

impacto do saber pensar matematicamente na vida profissional foi evidenciado ainda por Andréa Zaitune Cuir e Naercio Menezes-Filho em estudo que revelou que "o desempenho nos exames de matemática de uma geração afeta seu salário cinco anos depois" —um melhor desempenho aponta para a probabilidade de maiores salários. Outra pesquisa publicada pela Federal Reserve de Cleveland, Ohio (EUA), mostrou que quanto mais matemática se estuda, maior a remuneração e menor a chance de se ficar desempregado.

Com tantos dados contundentes, se você ainda acha que não nasceu para a matemática, está na hora de rever esses conceitos. Pode ser cômodo seguir acreditando que não é para você, mas essa crença também pode estar lhe custando muito caro.

TENDÊNCIAS / DEBATES

Borracha no futuro, Muniz Sodré, FSP (definitivo)

 

Um estudo revela que 13 milhões de brasileiros deixaram de passar fome em 2023, o custo alto dos alimentos desacelerou, a economia obtém ganhos, a vida democrática supera os sobressaltos, mas decresce a avaliação positiva de Lula (PT). Algo semelhante ocorre nos EUA, onde esses fatores estão normalizados, porém, cresce nas preferências eleitorais a figura de Trump, um delinquente polimorfo. Na Argentina, 60% da população esfomeia, mas é elevado o índice de aprovação de Milei. Na alucinação, osso é filé.

Apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) durante manifestação na avenida Paulista - Danilo Verpa - 25.fev.24/Folhapress

São anomalias. Começa a ficar claro que elas reabrem de algum modo a noção de política. Por menos práticos que sejam pronunciamentos políticos de filósofos, vale evocar as posições públicas de Jurgen Habermas nos anos 1980 contra o neoconservadorismo irracionalista na Alemanha, assim como a sua especulação de que "se tivesse de apostar qual o próximo país que se tornaria fascista, minha aposta poderia ser: os EUA". Sem bola de cristal, anteviu Trump.

Entre nós, é recorrente a análise de que vivemos numa sociedade de classes com uma esquerda atrasada. Dessa redundância acaciana nada se conclui sobre a subjetividade política dos brasileiros nem sobre a dissonância entre seus comportamentos sociais e a infraestrutura socioeconômica. As massas acordaram para a experiência política, mas sob formas perversas, captadas pela extrema direita, a saber, setor financeiro, agronegócio e coorte de reacionários religiosos.

Acontece que a política parece ter-se deslocado da base normativa das formas democráticas para preocupações populares como anticorrupção e comunitarismo religioso. Da linguagem desses fatores está ausente não só a esquerda, mas também a formação política (sindicalista, social-democrata) de Lula. O que sai da boca do povo não aparece no radar de Brasília.

O fenômeno pertence ao neopopulismo global, com núcleos organizadores regionais, que delegam tarefas. No ato de 25 de fevereiro, na Paulista, mesmo com maioria branca, terceira idade e renda média, os 200 mil aderentes constituíam o estrato inferior de uma divisão de classes nas incumbências visíveis, com as quais o núcleo já não se compromete diretamente. Algo como a camada externa de uma cebola, que oculta outras. Com o mesmo odor.

O decréscimo da popularidade de Lula é da mesma natureza do sinal enviado pela presença de uma multidão daquele tamanho ao redor de uma personagem trêfega e desconexa. Mas no fenômeno das anomalias em pauta, desconexão é coerência: o abilolado que mete a mão no esgoto extremista é o mesmo que depositará o voto na urna da ultradireita, outubro à vista. Um índice resiliente da ideia antipolítica de nação sem democracia nem justiça social: olho no retrovisor e borracha passada no futuro.