sexta-feira, 15 de março de 2024

Comandante do Exército ameaçou prender Bolsonaro, diz ex-chefe da Aeronáutica, FSP

 BRASÍLIA

O ex-comandante da Aeronáutica Carlos Almeida Baptista Júnior afirmou à Polícia Federal que o ex-comandante do Exército Freire Gomes chegou a comunicar que prenderia o então presidente Jair Bolsonaro (PL) caso ele tentasse colocar em prática um golpe de Estado.

A afirmação consta no depoimento de Baptista Júnior, ao qual a Folha teve acesso, no inquérito das milícias digitais, que investiga a tentativa de golpe debatida pelo ex-presidente e seu entorno após o segundo turno das eleições de 2022 para impedir a posse de Lula (PT).

"Depois de o presidente da República, Jair Bolsonaro, aventar a hipótese de atentar contra o regime democrático, por meio de alguns institutos previsto na Constituição (GLO ou estado de defesa ou estado de sítio), o então comandante do Exército, general Freire Gomes, afirmou que caso tentasse tal ato teria que prender o presidente da República", disse o ex-comandante da FAB.

O ex-comandante das Força Aérea Brasilia Carlos de Almeida Baptista Junior durante audiência pública na Câmara dos Deputados
O ex-comandante das Força Aérea Brasilia Carlos de Almeida Baptista Junior durante audiência pública na Câmara dos Deputados - Marcelo Camargo / Agência Brasil

Baptista Júnior (Aeronáutica) relatou a ameaça de Freire Gomes (Exército) no mesmo contexto em que narrou como ele e o chefe do Exército se posicionaram contra o golpe, enquanto o então comandante da Marinha, Almir Garnier Santos, colocou as tropas à disposição ao discutir as minutas apresentadas por Bolsonaro.

Além de indicar que Freire Gomes tentou convencer Bolsonaro a não utilizar as teses jurídicas de GLO (Garantia da Lei e Ordem), estado de sítio e estado de defesa, o então chefe da Aeronáutica disse a PF que ele mesmo avisou o ex-presidente que não apoiaria uma ruptura institucional.

"Em outra reunião dos comandantes das Forças com o então Presidente da República, o depoente deixou evidente a Jair Bolsonaro que não haveria qualquer hipótese do então presidente permanecer no poder após o término do seu mandato. Que deixou claro ao então presidente Jair Bolsonaro que não aceitaria qualquer tentativa de ruptura institucional para mantê-lo no poder", disse ele.

O ex-chefe da FAB também relatou qual foi a reação de Bolsonaro após ele "deixar claro" sobre sua posição a respeito de GLO, estado de sítio e estado de defesa, debatidas nas minutas colocadas na mesa pelo entorno do ex-presidente. "Que o ex-presidente ficava assustado", afirmou.

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As declarações de Baptista Júnior reforçam as de Freire Gomes, que disse à PF que somente Garnier concordou com as ideias propostas nas versões das minutas golpistas discutidas com Bolsonaro.

Freire Gomes disse em seu depoimento que em todos os momentos ele e o comandante da Aeronáutica se mostraram contrários aos planos golpistas.

"Que ele e Baptista afirmaram de forma contundente suas posições contrárias ao conteúdo exposto. Que não teria suporte jurídico para tomar qualquer atitude. Que acredita, pelo que se recorda, que o almirante Garnier teria se colocado à disposição do presidente da República", contou Freire Gomes.

Como mostrou a Folha, Freire Gomes também afirmou à PF que a minuta golpista encontrada na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres é a mesma versão que foi apresentada por Bolsonaro aos chefes das Forças Armadas em reunião em dezembro de 2022.

Procurada, a defesa de Torres preferiu não comentar o teor do depoimento. As defesas de Bolsonaro e de Garnier não se manifestaram.

No depoimento, o general disse que o documento foi apresentado por Bolsonaro em uma segunda reunião entre os chefes militares e o então presidente da República.

"Que confirma que o conteúdo da minuta de decreto apresentada foi exposto ao declarante nas referidas reuniões. Que ressalta que deixou evidenciado a Bolsonaro e ao ministro da Defesa [general Paulo Sérgio Nogueira] que o Exército não aceitaria qualquer ato de ruptura institucional", disse o general, segundo o termo de depoimento.

O ex-presidente já foi condenado pelo TSE por ataques e mentiras sobre o sistema eleitoral, por exemplo, e é alvo de diferentes outras investigações no STF. Neste momento, ele está inelegível ao menos até 2030.

Caso seja processado e condenado pelos crimes de tentativa de golpe de Estado, tentativa de abolição do Estado democrático de Direito e associação criminosa, o ex-presidente poderá pegar uma pena de até 23 anos de prisão e ficar inelegível por mais de 30 anos.

Bolsonaro ainda não foi indiciado por esses delitos, mas as suspeitas sobre esses crimes levaram a Polícia Federal a deflagrar uma operação que mirou seus aliados em fevereiro.

quinta-feira, 14 de março de 2024

'Confie na ciência', diz prefeita de Paris aos fãs de ar-condicionado, FSP

  

Julien PretotElizabeth Pineau
PARIS | REUTERS

Com nações concorrentes divididas sobre entrar no espírito dos "Jogos Verdes" ou investir dinheiro no sucesso, independentemente do custo ambiental, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, disse às nações que planejam instalar ar-condicionado na vila dos atletas para "confiar na ciência" em vez disso.

As temperaturas devem subir novamente no verão europeu, após baterem recordes em 2023, mas não haverá ar-condicionado nos quartos dos atletas em Paris 2024, que se comprometeu a sediar os Jogos "mais verdes de todos os tempos".

Em vez disso, os prédios na vila dos atletas foram projetados com um sistema de resfriamento que retira água do subsolo e fachadas orientadas para receber pouco sol direto.

Prefeita de Paris, Anne Hidalgo, durante conversa com jornalistas na capital francesa
Prefeita de Paris, Anne Hidalgo, durante conversa com jornalistas na capital francesa - Stephanie Lecocq - 6.dez.2023/Reuters

"Esta vila foi projetada para evitar a necessidade de ar-condicionado, mesmo em temperaturas muito altas, a fim de manter temperaturas confortáveis", disse Hidalgo à Reuters na quarta-feira (13).

Com cientistas do clima alertando que o aquecimento global tem produzido padrões climáticos mais extremos em grande parte do mundo, os organizadores de Paris 2024 disseram que desejam reduzir pela metade a pegada de carbono em comparação com os Jogos de Verão do Rio 2016 e Londres 2012.

"Acho que temos que confiar na ciência em dois aspectos. O primeiro é no que os cientistas nos dizem sobre o fato de estarmos à beira de um precipício. Todos, incluindo os atletas, devem estar cientes disso", disse Hidalgo.

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"E em segundo lugar, temos que confiar nos cientistas quando nos ajudam a construir edifícios de forma sóbria que nos permitem prescindir do ar-condicionado."

NEM TODOS OS COMPETIDORES CONVENCIDOS

No entanto, os Comitês Olímpicos da Austrália, Brasil, Canadá e Noruega estão entre aqueles que acreditam que não será suficiente.

"Nosso desejo claro é que haja ar-condicionado em todos os quartos", disse o Comitê Norueguês à Reuters, com o Brasil afirmando que "a previsão de calor" tornava "necessário investir na locação de unidades de ar-condicionado para toda a delegação".

A Chefe de Missão da Austrália, Anna Meares, disse que eles estão "considerando a possibilidade de oferecer condicionadores de ar portáteis aos atletas caso escolham, se ficar quente, se for desconfortável".

O Comitê Olímpico Canadense disse à Reuters que "implementou uma série de estratégias de mitigação do calor em Paris para complementar as medidas adotadas pelo Comitê Organizador de Paris 2024, incluindo unidades de ar-condicionado em alguns quartos de atletas em caso de calor extremo".

O que importa para Hidalgo, no entanto, é que a vila dos atletas, que será lar de cerca de 6 mil parisienses após os Jogos, seja um projeto sustentável.

"Mas então eles fazem o que quiserem, não vou dizer a eles o que fazer", disse ela.

"O que importa para mim é que esses edifícios, esses apartamentos se tornarão um bairro onde pessoas de L'Ile-Saint-Denis, Saint-Ouen e Saint-Denis (nos subúrbios de Paris) viverão. Esses novos edifícios não precisarão de ar-condicionado, então estamos trabalhando para o longo prazo."

Dando apoio à visão dos organizadores, várias outras delegações disseram confiar plenamente que não precisarão de ar-condicionado nos Jogos.

"Visitamos regularmente a Vila Olímpica em Paris nos últimos anos e consideramos o sistema de resfriamento inteligente instalado no piso e teto suficiente para a zona climática", disse o Comitê Olímpico Alemão à Reuters.

"A prevenção passiva adicional vinda das janelas contribui ainda mais para isso. No entanto, perguntamos às nossas federações se desejam ou não alugar o ar-condicionado extra oferecido pelo sistema de tarifas do Paris 2024. A grande maioria de nossas federações considerou isso desnecessário."