terça-feira, 12 de março de 2024

Oscar prefere concentrar prêmios, apesar de safra de filmes acima da média, FSP

 Leonardo Sanchez

Neste ano, mais do que de costume, o Oscar tomou o caminho do Emmy, em que anualmente seus votantes parecem ter visto as mesmas coisas, concentrando indicações e depois estatuetas em um punhado de títulos –no caso, "Oppenheimer" e "Pobres Criaturas", com 11 dos 23 troféus da noite.

Christopher Nolan com as estatuetas do Oscar de melhor filme e direção, por "Oppenheimer" - Carlos Barria/Reuters

Foram sete estatuetas para o longa-metragem de Christopher Nolan, que biografou a bomba atômica de forma tão eloquente que não apenas fez sucesso entre os votantes e críticos, mas também com o público. Assim, termina sua jornada como a terceira maior bilheteria do ano passado e celebrado pelos clubinhos mais exclusivos de Hollywood.

Além de melhor filme, "Oppenheimer" levou para casa direção, ator –para Cillian Murphy–, ator coadjuvante –para Robert Downey Jr.–, montagem, fotografia e trilha sonora, enquanto "Pobres Criaturas" ficou com atriz –para Emma Stone–, direção de arte, figurino e cabelo e maquiagem, implodindo, juntos, as campanhas de seus concorrentes.

Nolan conseguiu um feito e tanto, ao levar o público para as salas de cinema com um filme tão maduro e autoral. Por outro lado, parece exagero destinar sete estatuetas ao seu filme, num ano em que a safra de títulos estava especialmente acima da média.

Há anos não chegávamos ao Oscar com uma coleção de indicados tão forte. Quase não há obras dignas de desdém nesta cerimônia. É um alívio depois de vermos "No Ritmo do Coração" e "Green Book: O Guia" laureados com o prêmio máximo há não mais do que cinco anos.

Por isso mesmo é uma pena ver "Oppenheimer" excessivamente celebrado. Não que não mereça, embora seu trabalho correto em muitas categorias não tenha chegado ao excepcional.

Seria mais plural por parte dos votantes olhar além do óbvio e do cômodo, em vez de reforçar na surdina o status quo de um cinema masculino, branco e bélico –em suma, bastante americano—, em especial no ano em que as novas políticas de diversidade do Oscar entraram em vigor e em que a perspectiva feminina deu o tom da temporada, de "Anatomia de uma Queda" a "Vidas Passadas".

Por mais que "Pobres Criaturas" seja um filme de tons feministas –apesar da direção masculina–, a surpreendente vitória da diva Emma Stone sobre a ativista Lily Gladstone fez com que "Assassinos da Lua das Flores" voltasse para casa como "Os Fabelmans" no ano passado –de mãos vazias, após meses como favoritos, louvados por serem a síntese do gênio de Martin Scorsese e de Steven Spielberg, respectivamente.

Não que discursos devam se sobrepor à forma, mas Gladstone e Scorsese passaram a maior parte da campanha fortes, quase imparáveis, muitos poderiam argumentar.

Na sem graça corrida de atriz coadjuvante deste ano, por outro lado, o caminho esteve sempre livre para Da’Vine Joy Randolph, de "Os Rejeitados", diante de uma competição insossa, mas que celebrou um trabalho com mais nuances do que uma primeira leitura faz parecer.

Mas as outras indicadas eram fracas, e a Academia decidiu ignorar, por exemplo, nomes como Penélope Cruz, com o timing cômico que rompe com a sisudez de sua personagem em "Ferrari", ou Julianne Moore, que rompe com a fachada de suburbana inocente em "Segredos de um Escândalo". São das melhores atuações de ambas, que por sua vez são das melhores atrizes de sua geração.

Quando se olhou para fora do óbvio, a corrida ficou nas mãos de quem tem a maior máquina publicitária. Assim, "Nyad", da Netflix, emplacou Annette Bening e Jodie Foster nas corridas de atriz e atriz coadjuvante. "Segredos de um Escândalo", picotado para distribuição internacional, não conseguiu nem emplacar Charles Melton, mesmo quando apostas o definiam como grande adversário de Robert Downey Jr.

Com uma safra tão reforçada, até categorias outrora desinteressantes causaram emoção. Como escolher quem teve o melhor som, por exemplo, entre a explosão avassaladora de "Oppenheimer", o concerto primoroso de "Maestro" e o terror sonoro de "Zona de Interesse"? O último levou a melhor na batalha.

Outros que apresentaram trabalhos melhores do que muitos dos indicados em certas categorias, mas talvez não tenham nem sido vistos pelos votantes, foram o surpreendente "Garra de Ferro", o sensível "Monster", o arrasador "Todos Nós Desconhecidos", o criativo "Saltburn", o tenso "O Assassino" e o bom contraponto à lenda de um rei feito em "Priscilla".

Eles não precisavam estar na corrida de melhor filme, mas "Priscilla" e "Saltburn", por exemplo, têm trabalhos de direção de arte e figurino superiores ao indicado "Oppenheimer", e "Todos Nós Desconhecidos" tem um roteiro muito mais bem trabalhado, com respeitosa liberdade, do que a pseudo-adaptação "Barbie".

Por outro lado, por mais comentado e indicado que o filme da boneca loira tenha sido, relegá-lo ao prêmio de melhor canção original, para Billie Eilish e "What Was I Made For?", é também frustrante. O Oscar pareceu abraçar seu cinema popular, mas, agora notamos, com ressalvas, não garantindo nem prêmios técnicos a ele.

Ao menos o público se divertiu com o momento mais espalhafatoso, louco e memorável da noite, quando Ryan Gosling entoou "I’m Just Ken" diante de luzes cor-de-rosa e dezenas de homens replicando sua dancinha constrangedora do filme de Greta Gerwig. Exalando um estranho sex appeal, o ator mexeu o corpo, fez carão e nos lembrou o que significa ser uma estrela em Hollywood.

Um respiro bem-vindo em meio à alta voltagem política da cerimônia, que deixou os broches fofos do tapete vermelho para, de fato, assumir posicionamentos —na exibição de um trecho do documentário "Navalny" que ataca a Rússia de Putin, ao não cortar o discurso que condena a mistura que se faz entre o Holocausto e a violência na Faixa de Gaza, pelo diretor de "Zona de Interesse", ou na leitura de um post de Donald Trump criticando o apresentador Jimmy Kimmel, que soube improvisar e fazer graça da situação.

Foi um Oscar que, em termos de festa, tomou o caminho para voltar à boa forma, enquanto, nos prêmios, fez o correto porém cômodo, o que não significa ter escolhido o que era mais interessante.

Na política portuguesa, acabaram os tempos de leite e mel, João Pereira Coutinho , FPS

 Ah, Portugal, essa terra de leite e mel! Me lembro, algures em 2015, quando colegas estrangeiros me perguntavam, admirados e abismados, por que motivo Portugal era imune a fenômenos de direita radical.

Eu sorria. Depois tentava explicar. Somos diferentes. A União Europeia, para nós, não é um problema nem uma ameaça. É um maná vindo dos céus, que garantiu prosperidade e consolidação democrática depois da Revolução dos Cravos de 1974. O euroceticismo que alimenta a direita radical em outras latitudes não teria grande mercado entre os lusos.

Além disso, o regime democrático nasceu à esquerda. Depois de uma ditadura de direita, que durou quase meio século, os portugueses ficaram vacinados contra qualquer experiência extremista de direta.

Se dúvidas houvesse, bastaria olhar para os partidos moderados da direita democrática que, nascidos com a revolução, escondiam o seu perfil ideológico na escolha dos respectivos nomes.

André Ventura, líder do Chega - André Dias Nobre/AFP

O PSD, de centro-direita, intitula-se Partido Social Democrata —uma originalidade onomástica que confunde as mentes sábias: social-democracia não é de esquerda? Nem sempre, gente, nem sempre.

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E o CDS, partido conservador, preferiu o mais modesto Centro Democrático Social.

Moral da história: a orquestra partidária do país começava na extrema esquerda, com um Partido Comunista ortodoxo, e acabava no centro. À direita desse centro só existia uma parede, como afirmou um antigo líder do CDS.

As eleições de domingo acabaram definitivamente com esse mito. Sim, a vitória pertence a uma coligação de direita onde o PSD, o CDS e o Partido Popular Monárquico (uma excentricidade sem relevância) fazem as honras da casa.

Mas o Chega, partido de direita radical e antissistema, quebrou o bipartidarismo que dominava o país havia 50 anos. Em 2019, elegeu um deputado. Em 2022, 12. Em 2024, 48. O futuro do novo governo, que nasce cercado à esquerda e à direita, não é inspirador.

Como explicar tudo isso?

Clichê: o povo é fascista/burro/antidemocrático (pode escolher). O doutor Salazar, pelos vistos, deixou milhares de órfãos (agora, 1 milhão) que perderam a vergonha e saíram dos seus buracos. Essa foi a melodia analfabeta que os outros partidos e alguns comentadores martelaram nos últimos anos.

Nunca subscrevi essa versão. O cientista político Larry Bartels também não. Em obra incontornável para entender o fenômeno populista na Europa ("Democracy Erodes from the Top"), Bartels analisa os inquéritos do European Social Survey entre 2002 e 2019 para concluir: em todos os países europeus existe um "reservatório de sentimentos populistas" mais ou menos constante ao longo do tempo.

A diferença, porém, está nos fatores que levam esse reservatório a transbordar. Três, em especial: o fracasso dos partidos tradicionais em responderem aos anseios da população; a histeria da mídia com os movimentos populistas; e, finalmente, a existência de uma liderança carismática.

Esses três fatores assentam no Chega como uma luva.

Sim, há certos temas que foram explorados pelo Chega perante a deserção ou o silêncio dos outros partidos, como a corrupção e a segurança.

Sim, a histeria foi dominante nos últimos cinco anos, contribuindo assim para insuflar um partido residual em 2019.

O Partido Socialista, nesse quesito, foi de uma irresponsabilidade sem limites: para o PS, quanto mais o Chega crescesse, menos espaço teria a direita moderada para ser alternativa de governo.

Essa foi a estratégia de François Mitterand na França com a Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen. Deu no que deu.

E, sim, André Ventura é um político talentoso na exploração dos medos e dos ressentimentos da população mais vulnerável —os esquecidos dos subúrbios e do Alentejo, por exemplo, que não votavam ou votavam no velho Partido Comunista. Não mais.

A juntar a tudo isso, temos as redes sociais, claro, onde o partido leva vantagem sobre todos os restantes, conquistando, em particular, os mais jovens.

O líder da coligação vencedora, Luís Montenegro, espera formar um governo minoritário, mantendo a sua promessa de que não haverá qualquer entendimento com o Chega. É uma atitude corajosa, que segue o ensinamento europeu: casamentos entre a direita moderada e a direita radical são prejudiciais para a primeira e só beneficiam a segunda.

Mas os portugueses sabem, ou pelo menos intuem, que a solução será frágil: quando for necessário separar as águas (na discussão do Orçamento do Estado para 2025), os socialistas (que perderam por pouco) e o Chega (assim rejeitado pela centro-direita) farão contas para ajustar contas.

Na política portuguesa, acabaram-se os tempos de leite e mel.

Polarização embaralha cartas da eleição em São Paulo, FSP

 Igor Gielow

MOSCOU

A nova pesquisa do Datafolha sobre a corrida eleitoral em São Paulo mostra a extensão do impacto da polarização que assola o Brasil desde que a centro-direita se organizou em torno do polo radicalizado encarnado em Jair Bolsonaro (PL) em 2018.

As cartas estão bastante embaralhadas, mas sua disposição na mesa sugere um cenário hoje mais favorável em termos de condições puramente eleitorais para o prefeito Ricardo Nunes (MDB).

Os candidatos a prefeito líderes da pesquisa do Datafolha, Guilherme Boulos (esq.) e Ricardo Nunes
Os candidatos a prefeito líderes da pesquisa do Datafolha, Guilherme Boulos (esq.) e Ricardo Nunes - Marlene Bergamo/Folhapress

De certa forma, o empate registrado entre o alcaide e o postulante Guilherme Boulos (PSOL) mostra na pesquisa o que as ruas mostraram no dia 25 de fevereiro, quando milhares de apoiadores de Bolsonaro foram à avenida Paulista: eles estavam lá não só pelo enrolado ex-presidente, mas pelo conservadorismo tornado antipetismo.

A aposta envergonhada de Nunes pelo lado que está sob fogo da Justiça, simbolizada por sua presença muda no palanque da Paulista, deverá dar lugar a um maior cacife do grupo do ex-presidente no pleito municipal.

Por óbvio, o risco para Nunes está dado pelos problemas que Bolsonaro enfrentará, provavelmente sendo réu por atentado contra o Estado democrático de Direito ou algo similar durante a campanha. Mas mesmo isso tem limites.

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O eleitorado que segue os carismáticos, como o presidente Lula (PT) e Bolsonaro, tende a descartar tais acusações como mera perseguição política. Foi assim com o petista, que amargou 580 dias na cadeia com uma claque fiel à porta da Polícia Federal de Curitiba só para voltar ao Planalto na sequência.

Assim, os rolos nada desprezíveis de ex-mandatário podem, ao fim, não respingar tanto em Nunes. A estratégia defendida por seu consultor Michel Temer (MDB) à Folha na semana passada se encaixa aí. "Ele está atrás dos bolsonaristas, não do Bolsonaro", disse o ex-presidente em Dubai.

Resta evidentemente saber como se comportará o eleitorado ante a previsível onda de denúncias de malfeitos da gestão Nunes, mais palpáveis e menos ideológicas. Até aqui, não houve efeito.

Se desenha uma disputa acirrada, mostrando que a divisão do eleitorado entre petistas e bolsonaristas apontada reiteradamente pelo Datafolha segue ditando a política em vários níveis, apesar do evidente apelo de questões paroquiais, o proverbial buraco de rua tapado —a melhoria da avaliação de Nunes corrobora o peso disso.

Para Boulos, o Datafolha é um balde de água fria, particularmente entre seus apoiadores que vinham cantando vitória antecipada dado o engajamento sem precedentes de Lula em sua campanha.

Eles partiam de premissas corretas. Desde que a então petista Luiz Erundina ganhou o pleito de 1988, um biorritmo se instalou na cidade: a cada prefeito de esquerda, dois de centro-direita. Por esse pêndulo, 2024 deveria coroar a volta de um esquerdista ao viaduto do Chá.

Engordava o raciocínio o desenho eleitoral de 2022, quando Lula venceu Bolsonaro no segundo turno na capital por uma margem algo maior do que a sua votação geral, marcando 53,45%.

A alta rejeição ao deputado federal, o preço que ele paga pela imagem de radical, é outra péssima notícia para sua campanha. Não é um índice fatal, aos 34%, mas avançou ante o levantamento anterior, ainda que não seja exatamente comparável devido à cartela diferente de opções ao eleitor.

O já ganhou que se ensaiava em setores da campanha de Boulos terá de ser revisto, assim como o pessimismo de aliados da ampla frente montada em torno de Nunes. O prefeito é visto como um produto eleitoral de difícil vendagem e o temor era o da repetição de um Geraldo Alckmin em 2018, ou de um Rodrigo Garcia em 2022.

Significativo nesse cenário é a anemia das opções de terceira via. A mais promissora na teoria, Tabata Amaral (PSB), ficou para trás na largada, após se mostrar na casa dos dois dígitos no ano passado. Kim Kataguiri (União Brasil) não deverá ter legenda.

É assim didático como o empate entre os líderes segue o mesmo quando ele e a deputada federal deixam a paleta de candidatos. Já o curioso caso do bom desempenho de Marina Helena (Novo), uma provável confusão do eleitor com Marina Silva, necessita de mais tempo para ser analisado.

Tabata, um experimento de Alckmin no seu ensaio de disputar pelo Bandeirantes em 2026, por ora está espremida pelos polos da eleição. Em favor de sua postulação está o fato de que ela nada perde com a exposição, ao contrário: é jovem, produto com potencial "storytelling" e ainda bastante desconhecida.

Nenhum dos dois lados na liderança fará bem, contudo, se acreditar que a sorte está selada, não menos porque surpresas sempre podem ocorrer. Mas a única vitoriosa até aqui é a polarização, para o sorriso de Lula e Bolsonaro, que se mantêm como magnetos de um país cindido.