domingo, 10 de março de 2024

Justiça para Messi, o cachorro do filme 'Anatomia de uma queda', Ruy Castro, FSP

  EDIÇÃO IMPRESSA

Em reportagem de Fernanda Talarico, fico sabendo que o grande injustiçado do Oscar deste domingo (10) será um cachorro. Trata-se de Messi, o border collie do filme "Anatomia de Uma Queda", da francesa Justine Triet. É um drama de tribunal em que ele interpreta Snoop, um cão superdotado. O mundo gira e o Oscar não se livra de seu formalismo. Pelo simples fato de ser cachorro, Messi não pode concorrer ao Oscar de melhor ator —talvez para alívio de Ryan Gosling e Jeffrey Wright e certamente de Robert De Niro,
candidatos ao prêmio.

Messi como o cachorro Snoop no filme "Anatomia de uma Queda", de Justine Triet
Messi como o cachorro Snoop no filme "Anatomia de uma Queda", de Justine Triet - Divulgação

Com a avançada idade de oito anos na vida real, Messi estréia na tela e já é considerado a maior revelação animal do cinema desde Flipper, o golfinho que nadava de costas, dava gargalhadas e falava francês. O nome é uma homenagem a Lionel Messi, claro, e os dois ainda não foram apresentados porque o craque teme ser ofuscado por seu xará canino. É um risco que ele pode correr pelo que se viu há pouco numa entrevista coletiva em Cannes, quando Messi deu um baile em seus colegas de elenco.

Por que a Academia não lhe dará o prêmio? Porque, quase 100 anos depois, ela ainda se ressente do Oscar de melhor ator que ia conceder ao fabuloso pastor-alemão Rin-Tin-Tin na primeira cerimônia de todas, em 1929. O sindicato dos atores fez um escarcéu: "O quê? Premiar um cachorro? Nunca!". A Academia, covardemente, retirou o prêmio de Rin-Tin-Tin e o transferiu para Emil Jannings, ator alemão radicado em Hollywood, pelo filme "O Anjo Azul". E ali decidiu nunca premiar um animal.

Para que serviu o Oscar de Emil Jannings? Para que, ao voltar para a Alemanha em 1933 e aderir ao nazismo, tenha usado o Oscar para se defender, em 1945, quando os Aliados bateram à sua porta para prendê-lo. Jannings brandiu a estatueta como se fosse um crucifixo e bradou: "I have Oscar! I have Oscar!".

Não adiantou. Foi levado assim mesmo, pedalando o ar.

Reeleição no Executivo deveria ser mantida, FSP editorial

 

Palácio do Planaldo, sede da Presidência do República, em Brasília (DF) - Sérgio Lima/Folhapress

Recrudesce a movimentação parlamentar para dar cabo da reeleição de prefeitos, governadores e do presidente da República.

O Senado Federal prepara-se para avaliar propostas que proíbem a recondução a um segundo mandato consecutivo. A duração dos governos, em contrapartida, seria estendida de quatro para cinco anos.

Como ocorreu em outras ocasiões, a onda reformista atual se baseia em impressionismos mal assentados e apetites circunstanciais. Alguns políticos gostariam de fazer a roda dos eleitos girar mais depressa, por meio da supressão do bônus conferido a quem, no cargo, concorre pela segunda vez.

O desejo desses parlamentares coincidiria com o interesse público caso houvesse prova de que a regra bloqueie o objetivo democrático da alternância de poder. Mas a reeleição acaba de dar um exemplo nacional de que nem sempre o candidato governante sai vitorioso.

Quem abusar da irresponsabilidade no exercício do cargo, ainda que seja no comando da poderosa máquina administrativa federal, corre o risco de ser rejeitado na urna. Jair Bolsonaro (PL) que o diga.

Derrotas do incumbente são comuns nos pleitos municipais e estaduais, mostra a extensa coleção de casos desde que a reeleição foi permitida no país, na votação de 1998.

Em 2016, menos da metade dos prefeitos que tentaram se reeleger foi bem-sucedida. Quatro anos depois, mais de 60% obtiveram o segundo mandato.

Quando o eleitor quer mudar, não é a reeleição que o impede. Quando deseja premiar um bom governante, a reeleição lhe propicia essa opção. A regra faculta ao cidadão deliberar diretamente sobre o desempenho dos mandatários.

Alterar de tempos em tempos e sem justificativa contundente as balizas do jogo eleitoral ajuda a minar um valor central do regime democrático. A estabilidade e a previsibilidade das condições de disputa do poder político distinguem crianças de adultos nesse terreno.

A melhor abordagem para reformas do sistema político em nações maduras é adotar mudanças pontuais e paulatinas, no sentido de aperfeiçoar os regramentos, não no de virá-los de ponta-cabeça.

Uma opção de melhoria do instituto da reeleição seria proibir que uma pessoa seja eleita mais que duas vezes para o mesmo cargo no Executivo, independentemente de a recondução ocorrer para um mandato consecutivo ou alternado.

Essa regra, vigente para o presidente dos Estados Unidos, estimularia a circulação de lideranças sem retirar do eleitor o direito de premiar um bom gestor. Tal restrição, como reza a boa prática, não deveria atingir os atuais mandatários. Afetaria apenas os que vierem a ser empossados a partir de 2027.

editoriais@grupofolha.com.br

sábado, 9 de março de 2024

|O florianismo latente, José Renato Nalini, OESP

 O fanatismo não é novidade no Brasil. Quem se propuser a garimpar a história pátria encontrará exemplos de apego excessivo a determinados valores, capazes de fazer desaparecer os demais. O nativismo foi uma dessas páginas, que adquiriram tonalidades distintas ao sabor das tendências. Uma delas desabrochou com o florianismo.

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Floriano Peixoto liderou um golpe contra Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente republicano. Tão aficcionado ao poder, que não queria deixar a presidência. Estimulou tentativa de golpe, que os áulicos apoiaram e, frustrada a aventura, pretendeu ser Vice do Presidente eleito, o ituano Prudente de Morais.

Toda a sorte de dificuldades foi manhosamente tecida para dificultar a Prudente o desempenho de suas funções. Recebido friamente no Rio de Janeiro, sua jornada foi pontilhada de armadilhas. Chegou-se a atentar contra sua vida, em episódio no qual a vítima fatal foi o Marechal Machado Bitencourt.

Todos os fanáticos têm o dom de multiplicar o fanatismo, pois contaminam as mentes frágeis, desejosas de se entregar a uma causa considerada superior, que os liberte de programar a própria vida. O abandono de um projeto pessoal, a pressupor reflexão, meditação e opção, por um ideal já consolidado, é suficiente para os fracos. Aderem apaixonadamente e ocultam, na volúpia entusiástica, a insipidez e mediocridade da própria jornada.

O séquito de seguidores cegos é veemente e corajoso. Expõem-se, assumem posturas enérgicas, sustentam o credo do líder. Sempre existiu essa manada. Em todos os tempos. O florianismo forneceu muitos exemplares. Um deles foi Raul Pompeia, o escritor que escreveu “O ateneu”, crônica de uma educação castradora, mas real.

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Sua visão de Brasil era extremada e intransigente. Considerava Floriano o protótipo do herói de que a nação necessitava. Pode-se hoje dizer que o desaparecimento de seu líder precipitou sua opção predeterminada ao suicídio. Sua exaltação crescia, a despeito da morte do condutor intelectual de seu rumo.

Por ocasião do recolhimento ao sarcófago os despojos de Floriano Peixoto, em 29 de agosto de 1895, Raul Pompeia discursou: “A hora é de esforço e de dissabores. A paz, a paz é impossível antes que se desmonte o eixo da dissolução, antes que seja dominada a capital, antes que a conspiração central se desiluda com o seu comércio cosmopolita, disposta a nivelar os mais sérios interesses nacionais com o plano das imediatas vantagens mercantis; enquanto se não converterem os negadores da Pátria e os portugueses do ocidente, que se arvoraram em mentores do rumo político; enquanto se não transformarem as propagandas jornalísticas, em cujo anonimato hostil se vai descobrir a perícia do enredo lusitano; enquanto não forem vencidas tais adversidades, como as conteve a energia assombrosa do Marechal Floriano”.

Não se desconhecia, à época, o fundamentalismo nativista de Raul Pompeia. Sobre isso chegou a escrever Araripe Júnior: “Raul Pompeia entende que a nossa evolução política tem sido muito morosa e que as vitórias do nacionalismo em parte obscuras e um tanto abstratas, não nos premuniram ainda da ascendência estrangeira. O espírito colonial, a cada derrota, muda de acampamento, mascarando as suas operações e, no fim, é sempre ele que recolhe os despojos e pelas finanças mantém em estado de sítio as consciências. Raul Pompeia classifica esse fato como uma enfermidade social e dá-lhe, por último, um nome que a confunde, na última face, com o próprio sebastianismo”.

Nativismo, florianismo, sebastianismo, os “ismos” se repetem e se transmutam, mas estão presentes em todas as épocas, às quais se adaptam. Ainda hoje, no mundo cada vez menor e mais frágil, existem os que propõem a edificação de “muros morais”, para isolar cada nação, como se houvera a mínima possibilidade de salvação isolada de uma partícula do planeta.

Os riscos que a humanidade corre não se submetem às tolas convenções humanas de fronteiras, etnias, credos e opções políticas e econômicas. Estamos todos, inelutavelmente, na mesma nau. Ora sem comando e rumo ao caos.