sábado, 9 de março de 2024

A vingança do lixo, Fernanda Mena , FSP (definitivo)

 

Fernanda Mena
Fernanda Mena

Mestre em direitos humanos pela LSE (London School of Economics), doutora em relações internacionais pela USP e repórter especial da Folha

A lixeira é uma invenção mágica do final do século 19: faz desaparecer tudo o que é depositado nela. Longe dos olhos, não é preciso se responsabilizar pelo que acontece dali por diante com os itens descartados.

Essa mágica da modernidade, atribuída ao francês Eugéne Poubelle (1831-1907), cujo sobrenome batizou as latas de lixo na França, se tornou cada vez mais conveniente. A escalada da urbanização e da industrialização, o crescimento da população e o surgimento do consumo de massa fizeram a produção de resíduos explodir.

Saco para lixo em rua de Paris - Divulgação

Em 1900, as cidades concentravam 13% da população global, ou 220 milhões de pessoas, que produziam 300 mil toneladas de lixo por dia, entre embalagens, restos de alimentos, itens domésticos quebrados e peças de vestuário inutilizadas.

De lá pra cá, a população urbana aumentou 20 vezes e bateu 4,4 bilhões de pessoas (ou 56% da população global), e a produção de resíduos cresceu na mesma proporção, chegando a 6,3 milhões de toneladas diárias.

O peso é equivalente a 121 Titanics de lixo todos os dias. E boa parte dele é descartado de maneira inadequada, já que 2,7 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso à coleta regular de lixo, segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

O lixo está mais relacionado às mudanças climáticas e à perda da biodiversidade do que se supõe. Ele polui o solo, os lençóis freáticos, os rios e os mares. Estima-se que em 2050 os oceanos deverão ter mais plástico do que peixes.

Sua decomposição em aterros sanitários também é responsável por cerca de 20% das emissões humanas de metano, o pior dos gases de efeito estufa.

Além disso, o ritmo e a escala com que as pessoas compram e descartam embalagens, roupas, alimentos e tudo mais estão diretamente ligados à quantidade de recursos naturais gastos, de energia consumida e de poluição gerada. Não é pouca coisa.

Se nada mudar, em 2050 a produção anual de lixo terá atingido a marca de 3,8 bilhões de toneladas.

Será difícil esconder dos olhos essa quantidade brutal de lixo como se fazia na Paris de Poubelle.

O gerenciamento de resíduos já é o maior gasto de orçamentos municipais pelo planeta, competindo com outras áreas vitais como saúde e educação. Seu custo direto global foi estimado em US$ 252 bilhões (mais de R$ 1,2 trilhão) e pode chegar a US$ 640,3 bilhões (quase R$ 3,2 trilhões) em 2050.

Por outro lado, também segundo a ONU, o lucro líquido potencial de uma economia verdadeiramente circular é de mais de US$ 100 bilhões ao ano, ou quase R$ 500 bilhões.

A vingança do lixo, desprezado desde sempre, é se fazer notar de duas maneiras opostas: como fonte de destruição e doença, num tsunami malcheiroso de tudo o que se queria fazer desaparecer, ou como a chave para novas oportunidades econômicas.

A escolha é urgente.

Como parte da iniciativa Todas, a Folha presenteia mulheres com dois meses de assinatura digital grátis.

Hélio Schwartsman - Volodimir Zelenski, o showman, FSP

 


Antes da guerra, era difícil olhar para Volodimir Zelenski e não achar que ele fosse uma espécie de piada. Ele, afinal, era um ator que conquistara a Presidência da Ucrânia por ter representado, numa série televisiva, o papel de um cidadão comum que se vê eleito presidente após viralizar ao fazer uma crítica aos políticos tradicionais. "O Showman", de Simon Shuster, é uma biografia que dá densidade psicológica ao personagem.

Zelenski era um candidato improvável a liderar uma Ucrânia em guerra contra os russos. Sua família, judia, não só falava russo (e não ucraniano) em casa como também apoiara o candidato pró-Rússia, Viktor Yanukovich, na eleição de 2010. Profissionalmente, ele e sua trupe sempre se preocuparam em não carregar demais nas piadas, de modo a não alijar nenhum dos grupos linguísticos do país. Mais, na campanha eleitoral, Zelenski defendeu um entendimento com Putin.

Annette Schwartsman

O livro é bem interessante. Narra os bastidores da guerra do ponto de vista de um jornalista russo-ucraniano-americano, com algum acesso a Zelenski ao longo do conflito. Shuster corre riscos ao escrever sobre uma guerra ainda longe do fim. E ele sabe disso.

Achei particularmente interessante o papel de Zelenski como comunicador. Em condições normais, isto é, sem guerra, seu governo dificilmente se destacaria. Mas o conflito colocou o sujeito certo na posição certa. A Ucrânia precisava de alguém que representasse o papel de líder sob condições adversas e que convencesse o Ocidente a armar a resistência. Isso o ator Zelenski soube fazer.

Shuster é simpático a Zelenski, mas não a ponto de tornar-se acrítico. Ele se pergunta se o sucesso inicial da Ucrânia não subiu à cabeça do líder, que passou a interferir cada vez mais em decisões militares. Também se questiona se ele saberá abrir mão dos poderes extraordinários que a lei marcial lhe conferiu. Essa parte da história ainda não foi escrita.

helio@uol.com.br