quinta-feira, 7 de março de 2024

Carnaval com modelo sem calcinha expôs Itamar a risco de golpe e impeachment há 30 anos, FSP

 Angela Pinho

SÃO PAULO

Seja em músicas, seja em fantasias, é provável que nenhum presidente brasileiro tenha escapado de sátiras de foliões. Mas só Itamar Franco (1930-2011) saiu de um Carnaval com um episódio que derrubou ministro, levantou vozes pelo impeachment e motivou até articulação por golpe.

O caso, há 30 anos, envolveu a modelo Lilian Ramos, cuja foto constava de catálogos de agências de acompanhantes de São Paulo e que anos antes havia posado nua descrita como sósia da cantora Fafá de Belém.

A modelo Lilian Ramos, flagrada sem calcinha, e o presidente Itamar Franco no Carnaval de 1994 - Marcelo Carnaval - fev.1994/Agência O Globo

Após desfilar na Viradouro, Lilian conseguiu entrar no camarote presidencial com a ajuda do amigo e então líder do PL Valdemar Costa Neto.

O deputado depois se envolveria em episódios mais graves, sendo preso no mensalão e, na última quinta-feira (8), por posse ilegal de arma. Mas, naquele 1994, foi Itamar quem sofreu as consequências.

O presidente, então com 64 anos, e Lilian, com 27, passaram três horas no camarote da Sapucaí, onde a modelo cochichou em seu ouvido e recebeu carícias. Tudo registrado pelos repórteres fotográficos, que também notaram algo a mais.

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Naquele momento já sem a fantasia da Viradouro, Lilian vestia um camisetão, uma meia calça transparente e… mais nada.

"Combinamos de cada um registrar um rolo de filme, de 36 poses, e, após isso, avisar o segurança presidencial", narrou anos depois o fotógrafo de O Estado de S. Paulo Wilson Pedrosa.

O ângulo mais famoso da imagem foi o registrado por Marcelo Carnaval, então no jornal O Globo. A imagem mostra Itamar e, a seu lado, a modelo de braços levantados, deixando à mostra o que a calcinha esconderia.

Sem a repercussão imediata na internet, o presidente teve 12 horas para aprofundar seu envolvimento na história.

Reportagem da Folha no dia seguinte narra que, na mesma madrugada, Itamar e Lilian seguiram juntos para o Hotel Glória, onde o presidente estava hospedado.

Diante da aglomeração de jornalistas, ele reclamou: "Vocês não percebem que eu preciso conversar com ela?". Não deu certo, e a modelo foi para sua casa, onde recebeu 1 de 4 telefonemas que o presidente lhe faria ao longo do dia.

Ele desmarcou a viagem que faria a Juiz de Fora (MG) e combinaram um jantar, que acabou cancelado depois do Jornal Nacional. O programa mostrou Lilian ao telefone com o presidente, repetindo em voz alta frases dele —como uma em que se dizia apaixonado.

O caso foi parar no noticiário colado na palavra impeachment. O temor era que o presidente fosse afastado por falta de decoro menos de dois anos depois de Collor ter tido o mesmo destino, em meio a acusações de corrupção.

O líder da Fiesp, que havia apoiado Collor, disse que a companhia de uma mulher sem calcinha era sim motivo de afastamento.

Então cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns disse que a cena era chocante. "Não sei, porém se é muito justo o presidente pagar por todos aqueles que exageraram no Carnaval", ponderou.

Entre os que saíram em defesa do político mineiro estava Lula (PT), adversário da chapa de Itamar na eleição presidencial anterior. "Acho que nenhum brasileiro é contra o Itamar namorar", disse o petista, que em seu terceiro mandato brincaria com a promessa de um Ministério do Namoro.

Outro que teve de botar panos quentes diante da crise da (falta de) calcinha foi Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda.

A história foi revelada no livro "A História Real – Trama de uma Sucessão", da Folha e editado pela Ática, com autoria de Gilberto Dimenstein e Josias de Souza. Posteriormente, o relato foi ampliado na publicação dos diários de FHC.

O tucano contou que, à época, foi procurado pelo general Romildo Canhim, então ministro da Secretaria de Administração Federal.

Canhim lhe disse que o episódio do Carnaval tinha pegado muito mal na caserna e que chefes militares queriam saber se, em caso de deposição de Itamar, FHC aceitaria permanecer como ministro da Fazenda.

Ainda segundo seu relato, FHC teria recusado e sugerido a demissão do então ministro da Justiça, Maurício Corrêa, que se mostrou embriagado no camarote. Corrêa saiu dois meses depois, a pretexto de disputar eleição, e acabou indicado ao STF (Supremo Tribunal Federal).

Lilian teve a vida escrutinada, posou para a revista Playboy argentina e se mudou para a Itália.

No país, participou de programas televisivos e se disse próxima de personalidades como o premiê Silvio Berlusconi —outro que teve o envolvimento com mulheres misturado ao noticiário político.

A modelo Lilian Ramos atualmente, em período em Fortaleza - @Lilian Ramos no Instagram

Anos depois, Lilian afirmou ter ficado deprimida com a repercussão do episódio do Carnaval. Hoje, aos 59 anos, demonstra alegria. Posta com assiduidade fotos e vídeos em rede social, dançando, com amigos, na praia ou fazendo tratamentos estéticos. A reportagem tentou contato com ela, mas não teve retorno.

Segundo o noticiário da época, Itamar ficou ressentido com a cobertura do episódio. Declarou a jornalistas, no dia seguinte, que não sabia que a modelo estava sem calcinha.

"Ninguém avisou. E, se avisasse, o que eu ia fazer? Emprestar uma calcinha? Eu não tinha."

Campanha presidencial dos EUA se afasta do pensamento mágico, FSP

 É Biden contra Trump de novo. A desistência da pré-candidata republicana Nikki Haley, nesta quarta-feira (6), depois de ampla derrota nas primárias da Super Terça, deixa claro que a turma do pensamento mágico, com seu sonho de candidatos mais jovens nos dois partidos, precisa acordar.

Do lado republicano, os eleitores conhecidos como "Trump nunca" têm que decidir se reconduzir um acusado de dezenas de crimes, que promete desmontar as instituições democráticas e mal consegue enunciar frases coerentes é a alternativa a tapar o nariz e votar num democrata.

Se os eleitores das primárias republicanas que votaram na ex-governadora da Carolina do Sul em protesto contra Trump ficarem em casa na eleição geral, o ex-presidente que tentou um golpe de Estado em 2021, por não aceitar a derrota nas urnas, estará em apuros em novembro, não importa sua vantagem nas pesquisas atuais.

Montagem mostra o presidente dos EUA, Joe Biden, e o ex-presidente Donald Trump - Andrew Caballero-Reynolds e Joseph Prezioso - 6.mar.2024/AFP

Na campanha de 2020, Joe Biden era oposição e estava à frente de Trump em quase todas as pesquisas. Agora, ele tem a chave da Casa Branca e, por motivos que estatísticos e historiadores não conseguem decifrar, a impopularidade de Biden não reflete a lista de realizações desta Presidência. Ou reflete a incompetência na comunicação de Biden. Ou, quem sabe, é também sinal do mal-estar global com as instituições de governo e do descrédito do sistema democrático.

Há uma hipocrisia notável por parte dos democratas que recentemente defenderam a desistência de Biden para unir o partido em torno de um candidato mais vigoroso, com melhores chances de atrair jovens. Talvez esses democratas esperassem um banho de sangue nas eleições legislativas de 2022, quando o velho Joe montaria seu cavalo em direção ao pôr do sol, abençoando um herdeiro ou uma herdeira.

O banho de sangue não aconteceu. Além disso, Biden teria sido ferozmente neutralizado pela oposição trumpista na agenda de governo se confessasse que não pretendia disputar a reeleição.

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Sim, quem não preferia ver um bom candidato, com menos de 81 anos, na disputa?

Mas os que pedem a entrada de um jovem na campanha mentem para o eleitor. Isso porque é tarde demais, por inúmeros motivos. Não há tempo de levantar fundos legalmente ou de registrar pré-candidaturas nos 50 estados.

Para quem indaga sobre uma convenção partidária disputada para escolher o candidato: a última entre os democratas, num outro momento de grande polarização e violência política, em 1968, resultou na eleição do republicano Richard Nixon, com vantagem de menos de 1% dos votos. Os democratas descontentes daquele ano ficaram em casa.

Hillary Clinton pediu aos eleitores nesta semana que aceitem o óbvio: Joe Biden é velho. Aos que o rejeitam pela idade, ela sugeriu assistir a alguns minutos de Donald Trump em campanha. A cada novo discurso, Trump apresenta maior dificuldade de completar frases com a voz pastosa e, pela terceira vez, apontou Barack Obama como o atual presidente, além de ter chamado sua esposa, Melania, de Mercedes.