terça-feira, 5 de março de 2024

Conheça o sebo mais antigo de São Paulo, FSP

SÃO PAULO

Quem entra na Livraria Calil, o mais antigo sebo de São Paulo, com 72 anos de existência, se depara com um espaço aconchegante e sossegado, propício para bibliófilos. Mas, apesar dessa aparente calmaria, o lugar vive um momento de aquecimento dos negócios.

Especializada em livros usados, esgotados e raros, ela tem ampliado seus clientes no mercado externo e mostrado excelente desempenho nas vendas online.

Localizada na rua Barão de Itapetininga, 88, no 9º andar, tem apenas dois funcionários, a proprietária, Maristela Calil Atallah e o filho Murilo, que recebem os clientes com toda atenção e cuidam de um acervo com cerca de 450 mil livros, sendo que 62 mil estão no catálogo da Estante Virtual. Na pandemia, diz Maristela, foi a livraria que mais vendeu livros pela internet.

Livraria Calil
Maristela Atallah na recepção da livraria Calil - Vicente Vilardaga

A Calil foi fundada pelo pai de Maristela, Libano Calil Atallah, que morreu em 1993. Seu primeiro endereço foi na rua Venceslau Brás e, anos depois, a livraria se mudou para a avenida Rangel Pestana.

Em 1968, percebendo a ebulição do centro novo, onde havia dezenas de livrarias e sebos e a população mais intelectualizada circulava, ele instalou uma segunda loja na galeria do térreo da rua Barão de Itapetininga, 88. Um novo passo foi dado em 1976, quando deixou a sede na avenida Rangel Pestana e transferiu o acervo para o lugar onde está atualmente. A loja do térreo foi fechada em 1983.

"Meu pai era um grande admirador de livros e gostava de ler desde pequeno. Falava português, inglês, francês e árabe e estava sempre com um livro na mão", lembra Maristela. "Lá pelos 25 anos, ele começou a pensar naturalmente em formar uma livraria."

Maristela diz que o mercado mudou muito desde os tempos de seu pai, mas a Calil soube se adaptar. "Hoje você não pode falar que vende livro só no Brasil. Com a globalização, ele pode ir para qualquer parte do mundo." Por isso, para quem trabalha com livros raros, a definição de preços não deve levar em conta só o mercado interno, mas a competição internacional.

Livraria Calil
Sebo mais antigo de São Paulo tem acervo de 450 mil livros - Vicente Vilardaga

Segundo ela, há duas semanas foi vendido um pacote grande de livros para a Hungria – o comprador está fazendo um estudo sobre os libaneses no Brasil. Na semana passada, a Calil mandou vários livros para a Itália e para a França. Nesta semana foram dois pacotes para Portugal.

A Calil é especializada em assuntos brasileiros e ciências humanas e não vende livros de ciências exatas e biomédicas. No caso de raridades, porém, muda-se a regra e não se descartam antiguidades de matemática ou medicina.

"Fui para a França e lá os livreiros conhecem a Calil", afirma. "Nossa livraria não é de balcão, é personalizada. A gente gosta de atender o cliente com um trato pessoal."

Um dos segredos da Calil é não ter pressa de vender. Semanalmente, Maristela e Murilo visitam e avaliam bibliotecas em busca de bons títulos. Mas o tempo entre a aquisição da biblioteca e a venda dos livros pode ser de décadas.

Livraria Calil
Maristela e Murilo: livraria está entrando na terceira geração - Vicente Vilardaga

Um exemplo é a compra, há 28 anos, da biblioteca do político Luis Arrobas Martins, secretário da Fazenda do governador Roberto de Abreu Sodré. Dois terços da biblioteca ainda estão guardados em um contêiner. "Já vendi livro dele por US$ 30 mil, US$ 40 mil", diz. "Não trabalho com giro, eu invisto em livro. Só preciso encontrar o cliente certo para vender a obra no momento oportuno."

A Calil tem muitas raridades. Entre elas estão, por exemplo, um "Índice de Livros Proibidos" pela Igreja Católica de 1761, publicado pelo papa Benedito XIV, que veio da coleção Nicolau Duarte da Silva, adquirida em 1969. Há também um livro de Filosofia de 1554 em perfeito estado.

Do Brasil, Maristela destaca uma 2ª edição de "Quarto de Despejo", de Carolina Maria de Jesus, com dedicatória e uma 1ª edição de "Os Sertões", de Euclides da Cunha, de 1902. Há também uma edição comemorativa do centenário da independência de "Uniformes do Exército Brasileiro", de José Wasth Rodrigues, ilustrado com aquarelas e publicado em 1922. O que não falta na Calil são curiosidades e livros raros e interessantes.

Shell insiste com Cade para obter dados de postos que a delataram, FSP

 O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) negou à Raízen, detentora da marca Shell no Brasil, acesso aos dados de postos que a delataram por, supostamente, tentar fixar os preços a serem cobrados do consumidor final.

As informações têm sido mantidas em sigilo, com vistas a proteger os denunciantes e a própria investigação sobre o caso. Mas, mesmo assim, a distribuidora agora pergunta em que municípios ficam os varejistas desse grupo.

Posto Shell em avenida de São Paulo
Posto Shell em avenida de São Paulo - Rivaldo Gomes - 05.mai.22/Folhapress

Como noticiou o Painel S.A, 144 administradores de postos da Shell em nove estados responderam a questionários enviados pelo Cade e informaram que a empresa lhes sugere ou impõe os valores a serem praticados na bomba.

Nesse grupo, ao menos 40 contaram ainda que a empresa retalia aqueles que não seguem suas indicações, aumentando o valor de custo dos produtos fornecidos.

Os comerciantes que atendem à vontade da companhia, por outro lado, conseguem adquiri-los a valores mais baixos ou ganham descontos, segundo declararam 38 administradores de postos. A distribuidora tem exclusividade na entrega aos seus bandeirados.

O conteúdo das respostas aos questionários e as identidades dos varejistas constam de anexos sigilosos ao inquérito conduzido pelo Cade para apurar se a Shell adotou práticas anticompetitivas no mercado.

A empresa, no entanto, pediu acesso a esses e todos os demais dados protegidos, alegando serem necessários para exercer seu direito de defesa.

O Cade se negou a entregar o material solicitado pela empresa, justificando estar respaldado na Lei de Concorrência.

"É mister destacar que todas as informações necessárias para que a representada [Shell] possa prestar os devidos esclarecimentos foram conferidas no parecer emitido pelo DEE [Departamento de Estudos Econômicos], tendo sido mantidas restrições somente sobre informações sensíveis que possam gerar prejuízos à dinâmica do mercado e à investigação", diz parecer que analisou o pedido.

O órgão salientou que "não há que se falar em ampla defesa e contraditório", uma vez que a empresa ainda está sendo investigada, não é formalmente acusada.

"O pedido ora apreciado deve ser indeferido, assegurando que, no atual inquérito administrativo, o tratamento restrito e sigiloso de documentos ou informações está dentro do estritamente necessário à elucidação do fato e em cumprimento ao interesse social", acrescentou.

A Shell, contudo, não se deu por vencida e, numa nova petição, requereu ao Cade que lhe dê acesso às respostas dos comerciantes que a delataram, desta vez revelando apenas os municípios em que estão localizados.

"Tendo em vista que o acesso às respostas se mostra essencial para que a Raízen possa identificar e afastar equívocos e interpretações enviesadas que possam estar prejudicando o esclarecimento desta autoridade sobre os fatos investigados, a requerente propõe que seja concedido acesso às respostas ao questionário sem que conste a identificação do revendedor (ou seja, tarjando-se a razão social e o CNPJ do posto revendedor), mas se mantenha a informação sobre o município onde está localizado para que seja possível estimar minimamente os custos de frete/logísticos que afetem o seu fornecimento, dado que poderá ser importante para esclarecer a dinâmica do mercado de cada revendedor", disse.

Esse pleito ainda será analisado, uma vez que, a depender da quantidade de postos em um local, pode ser fácil deduzir quem é o denunciante. Dos 144 que implicaram a empresa, 111 estão em cidades de São Paulo, dez no Paraná, nove no Rio de Janeiro, cinco em Minas, quatro em Santa Catarina e dois no Pará. Pernambuco, Distrito Federal e Alagoas têm um posto cada.

Em nota, a Raízen disse que não comenta casos em andamento e disse que o "pedido de acesso às informações é natural em qualquer processo judicial ou administrativo e visa assegurar o exercício do direito constitucional à ampla defesa".

"A companhia reafirma que prima pela ética e lisura em suas operações, sendo uma defensora da concorrência leal obedecendo aos mais rigorosos princípios técnicos, operacionais e de governança."

Com Diego Felix


segunda-feira, 4 de março de 2024

Hélio Schwartsman - Paz sabotada, FSP

 A guerra em Gaza continua e vai deixando um número absurdo de civis palestinos mortos. No plano internacional, quaisquer simpatias que Israel tenha atraído após os ataques terroristas de 7 de outubro já se esgotaram ou estão em vias de esvair-se, inclusive por parte de aliados próximos como os EUA. Não é para menos. O hemoclismo em Gaza se faz acompanhar de medidas que parecem criminosamente cruéis.

Não vejo como justificar, por exemplo, que Israel impeça a entrada das quantidades necessárias de comida e de medicamentos para os palestinos.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu - via REUTERS

No plano interno, a contestação ao governo de Binyamin Netanyahu também é crescente. A chance realista de libertar os reféns é por meio de um cessar-fogo e uma troca de prisioneiros, mas há motivos para suspeitar que Netanyahu relute em fazê-lo, porque sabe que, assim que as operações militares de maior escala cessarem, ele terá de responder politicamente por seus erros. Não só os serviços de inteligência falharam em detectar a ameaça do 7 de outubro como sua estratégia de manter com o Hamas um antagonismo administrável (e com isso dispensar-se de negociações de paz) revelou-se um fracasso.

O governo talvez não sobreviva a um cessar-fogo e por isso Netanyahu pode estar esticando a guerra.

Gostaria de poder dizer que, sem essa administração de extrema direita em Israel, a solução de dois Estados fica mais próxima. No médio prazo isso talvez até ocorra. EUA, Europa ocidental e alguns governos árabes vão pressionar bastante para tal desfecho. Mas, no curto prazo, caiu o apoio dos israelenses a uma saída negociada. Israelenses viram o 7 de outubro como uma ameaça existencial. E a inversa também é verdadeira. Em meio à carnificina, cresceu o apoio dos palestinos ao Hamas.

Há algo de irônico aí. O grupo terrorista sai semidestruído de seu confronto militar com os israelenses, mas foi vitorioso em seu objetivo de radicalizar a região.