segunda-feira, 4 de março de 2024

Veny Santos - A fisiologia do corpo desempregado, FSP

 Ao receber a notícia, colocou as mãos diante dos olhos, não tão próximas ao rosto, e esperou. Aos poucos, cobriu-se o corpo com a dormência da aurora no amanhecer de um dia já perdido. Estavam ambas petrificadas. As mãos, por anos encarregadas de trabalhar, agora eram observadas como se função não mais tivessem. Perderam o emprego. Anatomicamente as mesmas. Fisiologicamente desconhecidas.

Quando se passa muitos dos anos vivos em um trabalho, dedicando-se não apenas à sobrevivência mas também ao ofício que confere sentido —dentro da lógica capitalista de exploração da força de trabalho— às habilidades adquiridas, o corpo pode se confundir com o cargo. O conjunto de partes que monta o ser passa a estabelecer uma relação funcionalista com o cotidiano e seus vínculos empregatícios. Opera-se uma máquina, uma tecnologia, uma série de processos administrativos, um comércio, no intuito de sentir que ainda se está funcionando. Que ainda há alguma função. Que presta para algo —ou alguém— o funcionário.

Jardiel Carvalho/Folhapress

desemprego vem, então, como a descaracterização do personagem trabalhador, aquele necessário de ser encenado todos os dias para que seja possível cultivar uma real vida fora da esfera profissional. Tal ruptura, para além das suas supostas bases técnicas e pragmáticas, como justificativas clichês para se dispensar alguém sem justa causa, quebra também o corpo, não só em partes, mas nas funções que cada uma delas parece ter para existir. Quebra-o por inteiro e o faz desconhecer a si enquanto capaz de manter o sustento no dia seguinte. Um corpo desconhecido. É o fim da sensação de utilidade e a causa de seu medo quase paralisante. Uma justa causa para tamanho temor, compreendemos.

Começou ele pelas mãos, mas a tudo sentiu tremer. Os olhos tentavam enxergar saídas de emergência para a situação financeira. A boca seca não dizia, os ouvidos zuniam e voz nenhuma vinha para lhe confortar —o que ecoava em sua mente era a pergunta repetitiva, mania anunciada na mesma velocidade que o desligamento: "Como vou contar para a família e pagar as contas?". Peito mais subia que descia, e no descompasso do respiro, nenhum alívio. Crise disso, crise daquilo, ansiedade e angústia já não mais se distinguiam uma da outra. Acharam um ponto de convergência: a paúra. As pernas inquietas a balançar não sabiam para onde ir, por onde começar a procurar outro carreiro para recolocar o corpo nas trilhas de suas funções que garantiam o sustento.

De que servia a língua agora? E os argumentos? De que servia sua realidade concreta, uma vez que era no abismo da abstração onde se findava o mais sólido dos fatos: sem dinheiro não se dura e duro não se vive. Ainda assim, é com a carne do pescoço rija que ele mira o nada e desenha no horizonte a imaginária linha reta que ilude ao promoter alguma direção e estabilidade. O zunido diminui. Passa a ganhar um ritmo lento, primeiro opressivo, depois desolador, triste. A cor escurecida de sua pele parece ser a única a não ter perdido a função junto com a demissão. Ao encobri-lo, cantou um blues.

A ilustração tem o fundo rosa e a imagem de Tracy Chapman tocando violão e cantando.
Aline Bispo/Folhapress

A depender das posições no tabuleiro do serviço, há quem jogue —por prazer ou horror— com os peões para não comprometer reis e rainhas. Pelas bordas, esmagam feito as torres, condenam como os bispos ou simplesmente saltam de oportunidade em oportunidade montados nos alazões a pisotear o que lhes obriga a fazer curva. Os peões, como se sabe, não jogam, de fato. Os peões são jogados.

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Em 2023, o Instituto Cactus lançou o iCASM (Índice Instituto Cactus — Atlas de Saúde Mental) no intuito de levantar dados sobre os diferentes aspectos da vida social que impactam na psique da população brasileira. Destacou-se um alerta sobre a condição das pessoas desempregadas. Estão elas entre as mais abaladas psicologicamente e, com isso, pode-se supor, suscetíveis às psicopatologias que crescem a cada ano no país.

As mãos, ainda diante dos olhos, seguram-se. No toque, parecem lembrar para que servem. Recobram a função. As mãos servem para carregar o recomeço.

A Minha Versão do Amor / Barney’s Version, filme

 Anotação em 2011: A Minha Versão do Amor/Barney’s Version é um daqueles filmes baseados em romances caudalosos que contam a vida inteira de um personagem, desde sua juventude até a velhice. Para dar maior movimento, para agitar a narrativa, vai e vem no tempo.

O ir e vir no tempo realça o maravilhoso trabalho de maquiagem que foi feito para mostrar o ótimo Paul Giamatti muito jovem, maduro, na meia idade e bem velhinho. É de fato um trabalho esplêndido – a maquiagem foi a única indicação que o filme recebeu para o Oscar. Giamatti, que levou o Globo de Ouro de melhor ator em comédia ou musical, está muito bem, com aqueles exageros que o caracterizam – e o personagem que ele interpreta, o Barney do título original, é um personagem exagerado.

Mas, na minha opinião, as melhores coisas do filme são a sensacional, maravilhosa interpretação de Dustin Hoffman como o pai de Barney, e a extraordinária beleza da jovem inglesa Rosamund Pike, que faz o papel de Miriam, a terceira mulher e a grande paixão da vida do protagonista.

Encontro no site da Amazon, na página sobre o livro do escritor canadense Mordecai Richler que deu origem ao filme, uma boa frase que resume muito bem quem é o personagem, e então a reproduzo: “Barney Panofsky fuma charutos demais, bebe uísque demais, e é obcecado com duas coisas: o time de hóquei Canadiens, de Montreal, e sua ex-esposa Miriam”.

Não vejo graça alguma em hóquei, mas bebo quase tanto quanto Barney e não consigo parar de fumar, e, com Rosamund Pike no papel de Miriam, dá perfeitamente para entender por que o cara é obcecado pela ex-esposa.

Às três da manhã, ligando bêbado para a ex-mulher

Quando o filme começa, Barney já está divorciado de Miriam. Às três horas da manhã, bebendo uísque e fumando um charuto, liga para a casa da ex-mulher, quer falar com ela; quem atende é Blair (Bruce Greenwood), o atual marido dela. Educado, Blair não manda o ex-marido da mulher tomar; polidamente, desliga o telefone.

Em seguida vemos Barney, na manhã do dia seguinte, torto, de ressaca, chegar a seu trabalho, uma produtora de filmes e novelas para a TV que tem o fascinante nome de Totally Unnecessary Productions. Há graves problemas na novela de longuíssima duração que a produtora está rodando, e o jornal daquela manhã noticiava o lançamento de um livro – escrito por um investigador de polícia aposentado – afirmando que o bem sucedido produtor de filmes Barney Panofsky assassinou uma pessoa, no passado.

Mas Barney não está nem aí para o livro que o acusa de assassinato, nem para os muitos problemas de sua produtora: ele só consegue pensar na ex-mulher que já está casada há algum tempo com outro homem.

Estamos nos dias de hoje, em Montréal. Miriam está vivendo com Blair em Nova York – e vai demorar bastante para aparecer na tela, na pele linda de Rosamund Pike. Teremos um flashback, o primeiro de tantos – e voltamos para Roma, nos anos 70, em que um Barney jovem, quase hippie, vive farras homéricas com um grupo de amigos, entre eles Boogie (Scott Speedman, à esquerda na foto acima), o amigo mais próximo dele, inseparável.

A namorada de Barney, Clara (interpretada por outra atriz lindíssima, Rachelle Lefevre, na foto acima), dá para todo mundo, mas o tonto acredita que é o pai do filho que ela está carregando na barriga, e então se casam. Quando o filho nasce negro – e um dos amigos da turma é negro –, cai a ficha na cabeça de Barney, e ele abandona a linda Clara.

A segunda mulher é riquíssima – uma chata de galocha

Sua segunda mulher será apresentada a ele por um tio. É uma moça filha de judeus riquíssimos de Montréal, interpretada por Minnie Driver, ótima atriz, ótima cantora (na foto). O personagem dela não tem nome – aparecerá nos créditos finais como a segunda sra. Panofsky –, e é mostrada como uma chata de galocha. Na festa de casamento, uma festa para centenas de pessoas, caríssima, paga pelo pai milionário da noiva, o pai de Barney, Izzy (o personagem de Dustin Hoffman), um ex-policial aposentado, cometerá todos os tipos de inconveniências possíveis e imagináveis. É tão politicamente incorreto quanto o filho.

E é na festa de casamento que Barney pela primeira vez bate o olho em Miriam. É paixão absoluta, total, à primeira vista – dele por ela. Ela não quer saber daquele sujeito todo incorreto, bêbado, que se declara a ela em plena festa de seu próprio casamento.

Barney tentará de tudo possível e imaginável para conquistar Miriam.

E é só lá pelo meio da narrativa que se mostrará o tal crime que o investigador aposentado acusa Barney de ter cometido. O corpo da vítima jamais havia sido encontrado – e, portanto, Barney jamais foi condenado por ele.

Em participações especiais, diversos dos melhores cineastas canadenses

Não li o livro de Mordecai Richler, e por isso não posso saber por que ele é tão endeusado no Canadá, mas que Barney’s Version é endeusado no país natal do escritor, lá isso é verdade, pelo que se vê na internet. Richler – à memória de quem o filme é dedicado – foi chamado de “a grande estrela brilhante da sua geração literária do Canadá”, e Barney’s Version, publicado em 1997, é tido como sua melhor obra, ao lado de The Apprenticeship of Duddy Kravitz.

O filme – a 21ª adaptação de uma obra do escritor para o cinema e/ou TV – conseguiu a proeza de colocar diversos diretores do cinema canadense em pequenos papéis, em participações especiais. Estão lá Atom Egoyan, Ted Kotcheff (como o condutor em um trem), David Cronenberg, Denys Arcand (no papel de um maïtre de restaurante), Paul Gross e Saul Rubinek.

Prestigiado pela nata dos cineastas do Canadá, o filme oferece como brinde ao espectador duas canções do compositor e poeta canadense Leonard Cohen, “Dance me to the end of love” e “I’m your man”. Nossos ouvidos agradecem.

E tem ainda a curiosidade de trazer um filho de Dustin Hoffman, Jake Hoffman, fazendo o papel de filho de Barney – neto, portanto, do personagem interpretado pelo ator.

É um filme inegavelmente bem feito, em todos os quesitos; mistura humor e amargura de uma forma um tanto desbalanceada, na minha opinião – mas é daquele tipo que, quando termina, a gente se pergunta, bem, certo, mas por que é mesmo que quiseram contar esta história?

Vale a pena ver, acho eu – em especial pela fabulosa interpretação de Dustin Hoffman, esse ator fenomenal que fica melhor a cada ano que passa, e, repito, pela beleza fantástica de Rosamund Pike (na foto acima).

A Minha Versão do Amor/Barney’s Version

De Richard J. Lewis, Canadá-Itália, 2010.

Com Paul Giamatti (Barney Panofsky), Dustin Hoffman (Izzy Panofsky), Rosamund Pike (Miriam Grant), Minnie Driver (segunda sra. P.), Rachelle Lefevre (Clara), Scott Speedman (Boogie), Bruce Greenwood (Blair), Macha Grenon (Solange), Anna Hopkins (Kate Panofsky), Jake Hoffman (Michael Panofsky), Mark Addy (detetive O’Hearne). E, em participações especiais, Atom Egoyan, Ted Kotcheff, David Cronenberg, Denys Arcand, Paul Gross e Saul Rubinek

Roteiro Michael Konyves

Baseado no livro Barney’s Version, de Mordecai Richler

Fotografia Guy Dufaux

Música Pasquale Catalano

Produção Serendipity Point Films, Fandango, The Harold Greenberg Fund, Lyla Films. Blu-ray e DVD Califórnia Filmes.

Cor, 134 min

Militares foram arremessados na política por má liderança e fizeram papelão, diz Barroso, FSP

 

SÃO PAULO

O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Luís Roberto Barroso, afirmou nesta segunda-feira (4) em São Paulo que as forças militares foram politizadas por uma má liderança e fizeram "um papelão".

A declaração foi dada durante evento promovido pela Faculdade de Direito da PUC-SP e pelo Centro Acadêmico 22 de Agosto, no teatro Tuca, na zona oeste de São Paulo. O evento tinha como mote a democracia inclusiva.

O presidente do STF, ministro Luís Roberto Barroso
O presidente do STF, ministro Luís Roberto Barroso - Pedro Ladeira/Folhapress

Barroso fez diversas críticas à gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), sem citá-la diretamente, como a não demarcação de terras indígenas, a paralisação do Fundo Amazônia e o negacionismo durante a pandemia. "Nada do que estou falando é uma opinião, tudo que estou falando são fatos objetivos".

Ele definiu a politização das Forças Armadas como "uma das coisas mais dramáticas para a democracia".

"Foram manipulados e arremessados na política, por más lideranças, fizeram um papelão no TSE. Convidados para ajudar na segurança e para dar transparência, foram induzidos por uma má liderança a ficarem levantando suspeitas falsas", disse, o que definiu como deslealdade.

Barroso, em tópico da palestra sobre ameaças à democracia, citou o risco de golpe no Brasil.

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"As investigações vão revelando que tivemos mais próximo do que pensávamos do impensável. Nós achávamos que já havíamos percorrido todos os ciclos do atraso institucional para termos que nos preocuparmos com ameaça de golpe de estado", disse

Entre os pontos citados por ele, estão uso da inteligência para perseguir adversários, incentivo a acampamentos golpistas, desfile de tanques na Praça dos Três Poderes e ataques à imprensa.

"[Isso acabou] culminando no 8 de janeiro [de 2023], que não foi um processo espontâneo, foi uma articulação", disse. O ministro afirmou, porém, que as instituições venceram.