terça-feira, 19 de setembro de 2023

Ross Douthat THE NEW YORK TIMES-O que significa ser 'woke', FSP

 THE NEW YORK TIMES

A escritora conservadora Bethany Mandel teve o tipo de momento que pode acontecer com qualquer pessoa que ganha a vida falando em público: ao promover um novo livro criticando o progressismo, ela foi questionada por um entrevistador que pediu que ela definisse o termo "woke" –uma pergunta razoável, mas que fez seu cérebro congelar e suas palavras tropeçarem.

vídeo viralizou e rendeu uma enxurrada de discussões sobre a palavra: ela pode ser definida de forma útil? É apenas um termo pejorativo usado pela direita? Existe algum rótulo universalmente aceito para o que pretende descrever?

As respostas são sim, às vezes e infelizmente não. Claro que há algo real a ser descrito: a revolução dentro do liberalismo americano é uma transformação ideológica crucial de nosso tempo. Mas, ao contrário de um caso como "neoconservadorismo", em que um termo crítico foi aceito pelo movimento que descrevia, nosso clima de inimizade ideológica dificulta a nomenclatura estabelecida.

Ilustração de Sam Whitney para a coluna de Ross Douthat de 18.mar.23 - Sam Whitney/The New York Times

Pessoalmente, gosto da expressão "Great Awokening" [trocadilho com "Grande Despertar"], que evoca as raízes do novo progressismo no protestantismo –mas obviamente os progressistas seculares o acham condescendente. Eu aprecio como o escritor britânico Dan Hitchens reconhece a dificuldade das definições ao chamar a nova política de esquerda de "a Coisa".

Então, deixe-me tentar um exercício diferente –em vez de um termo ou definição conciso, deixe-me escrever um esboço da visão de mundo "woke", elaborando sua lógica interna como se eu mesmo acreditasse nela. (Para o leitor incauto: estas não são minhas crenças reais.)

O que é a América, no melhor sentido? Igualdade e liberdade. O que é a esquerda, no melhor sentido? Transformar esses ideais em realidades vividas.

Mas esse projeto continua esbarrando em limites, decepções e derrotas. Para onde quer que você olhe, persistem terríveis disparidades. E essa persistência deve nos forçar a olhar mais profundamente, além das tentativas de obter direitos legais ou redistribuir riqueza, para as estruturas culturais e psicológicas que perpetuam a opressão antes que a lei e a política comecem a desempenhar um papel. É isso o que a terminologia acadêmica há muito tenta descrever –a maneira como gerações de poder racista, homofóbico, sexista e heteronormativo se inscreveram não apenas em nossas leis, mas em nossa psique.

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E depois que você vê essas forças em ação não pode deixar de vê-las –você está... ora, "desperto"– e não pode aceitar nenhuma análise que não reconheça como elas permeiam nossas vidas.

Isso significa rejeitar, primeiro, qualquer argumento sobre diferenças de grupo que enfatize alguma força além de racismo, sexismo ou outros sistemas de opressão. (Na verdade, a própria medição da diferença –por meio de testes padronizados, digamos– é inevitavelmente moldada por essas forças opressoras.) Mesmo as diferenças que parecem mais obviamente biológicas, como aquelas entre atletas masculinos e femininos ou os corpos que as pessoas consideram sexualmente atraentes, devem ser presumidas como culturalmente inscritas –porque como podemos saber o que é realmente biológico até que terminemos de libertar as pessoas das restrições esmagadoras dos estereótipos de gênero?

Também significa rejeitar ou modificar as regras do procedimentalismo liberal, porque sob condições de profunda opressão, essas supostas liberdades são inerentemente opressivas. Você não pode ter um princípio efetivo de não discriminação a menos que primeiro discrimine em favor dos oprimidos. Não pode ter verdadeira liberdade de expressão a menos que primeiro silencie alguns opressores.

E tudo isso é necessariamente um projeto cultural e psicológico, razão pela qual a escola, a mídia, a cultura pop e a própria linguagem são os campos de batalha essenciais. Sim, a política econômica é importante, mas os arranjos materiais estão a jusante da cultura e da psicologia. Os socialistas apenas suavizaram o capitalismo, os ambientalistas apenas o regulamentaram. Se você quer salvar o planeta ou acabar com o domínio da ganância, precisa de um tipo diferente de ser humano, não apenas de um sistema que assuma valores patriarcais racistas e tente colocá-los numa coleira.

Você acha isso utópico demais? Considere uma prova do conceito, o que já vimos com os direitos dos homossexuais. Nesse campo, a esquerda derrubou um sistema de profunda opressão heteronormativa ao estabelecer um novo consenso cultural, na academia e na cultura pop e, apenas no final, na política e no direito, usando argumentos, mas também constrangimento, pressão social e outros meios "iliberais".

E veja o que aprendemos: uma vez que a homofobia diminui, milhões e milhões de jovens começam a se definir como o que realmente são, como alguma forma de LGBTQIA+, escapando finalmente das algemas da heteronormatividade. É por isso que a reação contra a disseminação da identificação transgênero entre crianças deve ser derrotada.

Se você acha muito dessa narrativa persuasiva –mesmo filtrada pela minha mente conservadora–, então o que quer que seja "woke" provavelmente descreve você. Se você recusar isso, seja bem-vindo às fileiras dos não despertos.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

Sabesp privatizada terá tarifa menor e investirá mais, promete presidente, FSP

 Fernando Canzian

SÃO PAULO

A privatização da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) deve ocorrer no primeiro semestre de 2024. Como resultado, haverá queda nas tarifas cobradas e antecipação em quatro anos da meta prevista no novo marco do saneamento, de entregar água a 99% da população e coletar e tratar o esgoto de 90% até 2033.

A promessa é de André Salcedo, 45, diretor-presidente da Sabesp, em entrevista à Folha. Segundo ele, a venda poderá levar a companhia ao mesmo patamar da Vale do Rio Doce e da Embraer, ex-estatais, que se tornaram empresas globais e referência em suas áreas.

privatização da Sabesp deverá ser feita por meio de "follow-on" (oferta subsequente de ações), em que o estado paulista deixará o controle (hoje de 50,3%) e a companhia terá um acionista de referência. Salcedo afirma que o valor da venda e o perfil do acionista de referência são pontos ainda em avaliação, assim como a participação posterior do estado.

André Salcedo, 45, diretor-presidente da Sabesp, no escritório da empresa em Pinheiros, em SP. - Eduardo Knapp/Folhapress

Por que privatizar


Uma empresa como a Sabesp, com capacidade de entregar bons serviços, tende a melhorar a eficiência e reduzir custos sendo privada. Há liberdade de inovar, de contratação, de trazer elementos mais sofisticados para a gestão da companhia.

No estado, tem todo o ciclo de prestação de contas, via Tribunal de Contas, Lei de Licitações, que temos que seguir. Quando a empresa passa a ser privada, consegue mais flexibilidade na gestão de forma ampla. Tende a ser mais eficiente, prestar o mesmo serviço, eventualmente com melhor qualidade e a um custo menor. E entregar mais antes.

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Este ano já é um bom exemplo, se pegarmos a evolução da geração de caixa da companhia, a rentabilidade, ela vem aumentando trimestre a trimestre, fruto de uma gestão mais focada em eficiência, em modernização. Estamos no meio de um ciclo de reestruturação.

Mas isso tem um limite, que a estrutura estatal nos impõe e que não podemos comparar com uma empresa privada do ponto de vista de flexibilidade e agilidade de contratação, por exemplo. Inclusive para os funcionários, se pensar em uma forma de reconhecer o desempenho e tudo mais, é muito mais rígido numa estatal.

Esses são os principais pontos. Contratação de serviços de terceiros e obras, que têm uma alavanca muito grande para melhorar, e o reconhecimento, o alinhamento com os funcionários via entregas e pacotes de remuneração que possam refletir a evolução da empresa.

Benefícios para o estado

Acelerando a universalização, todo o ecossistema das comunidades se transforma. Há desoneração do sistema de saúde local. É a criança que não fica doente e o pai não deixa de trabalhar.

Os efeitos secundários são muito importantes. O benefício para o estado é que antecipamos muita coisa e o desoneramos de ter que prestar alguns serviços que estão associados à falta de saneamento.

São Paulo está acima da média em saneamento. Mas, com uma estrutura de capital mais robusta, com uma capacidade de expansão, de atração de investimento, tanto de dinheiro de financiamento quanto de dinheiro de novos acionistas, esse processo de aceleração da universalização pode ser aplicado para todos os municípios.

A experiência da Sabesp pode ser executada em outras localidades do Brasil que têm problemas semelhantes. Acho que é uma expertise que a gente não está usando hoje. É como olhar para a Vale do Rio Doce e a Embraer e ver o que se tornaram. A Sabesp pode ser tornar uma referência global do saneamento.

Queremos reduzir as metas do marco em quatro anos, quase metade do tempo para universalizar, e isso é um benefício muito claro para a população.

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Estação de tratamento de água da Sabesp, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo. - Gabriel Cabral/Folhapress - 26.jul.2019

Investimentos adicionais


Nós já temos o compromisso de investir R$ 56 bilhões [na universalização]. Haverá R$ 10 bilhões adicionais, majoritariamente em itens que nós já vínhamos considerando porque eles melhoram a eficiência, aumentam a resiliência hídrica, reduzem o impacto do tratamento de esgoto na devolução da água para os rios e afluentes.

São majoritariamente itens que envolvem a modernização de estações de tratamento de água e esgoto, a instalação de duas plantas de dessalinização no litoral, que são projetos-pilotos. Entendemos que essa jornada de iniciar e diversificar fontes de água tratada, ela beneficia não só o litoral, mas o futuro.


Tarifa vai diminuir


A premissa do modelo de privatização é reduzir a tarifa. Toda a modelagem está sendo feita para que os investimentos sejam antecipados dentro da capacidade da companhia de entregar, do ponto de vista físico, de contratar e mobilizar mão de obra, quanto financeiro. E que isso não impacte na tarifa.

Essa é uma premissa do modelo e do time do IFC [International Finance Corporation, instituição do Banco Mundial voltada para o fortalecimento do setor privado em países em desenvolvimento], que contratou diversas consultorias e está trabalhando exatamente nisso. Se não for dessa forma, foge do que governador [Tarcísio de Freitas] definiu. A redução da tarifa se daria dentro do sistema como um todo.

A forma como vai ser feita não está definida ainda. Mas a redução não vai vir em prejuízo da companhia, ela vai ser neutra para a empresa.

Atendimento a vulneráveis


Para a companhia, é muito melhor ter uma tarifa social ou uma tarifa vulnerável, que são as duas classes que nós temos, numa pessoa que hoje não está na rede formal. Nós temos total interesse em levar a rede de água, de coleta de esgoto, para todas as pessoas, sendo em áreas informais em processo de urbanização ou onde não atendemos hoje.

Hoje, o índice de perdas de água no Brasil é em torno de 40%. Da Sabesp é 27%, sendo que desses 27%, 10% são perdas de água oriundas de gatos [ligações irregulares]. Uma conexão nova que a gente faz, mesmo em área vulnerável, é para uma pessoa que já está usando água, não tem como não usar. Provavelmente nossa água. Então, eu passo a cobrar algo que eu já estava fornecendo sem cobrar nada.

Se você conecta a família, ela entende o valor que aquilo tem. É como um lugar que está limpo. Você não vai pegar um saco de lixo e jogar no meio de uma sala limpa. Agora, um lugar que está cheio de lixo, você não se importa.

Quando você limpa uma área, é meio como dar um reset. Esse é o nosso papel, dar um reset nas comunidades, começar de novo. Aí você cria um ambiente muito mais propício para o desenvolvimento econômico e social. Abre espaço para ONGs trabalharem.

Favela Nazzali, na Vila Nova Cachoeirinha, zona norte de São Paulo, que não tem saneamento básico. - Bruno Santos/Folhapress - 26.mar.2020

Enxugamento de funcionários


Temos 12,3 mil funcionários e acabamos de encerrar um plano de desligamento incentivado, que foi a primeira demanda que chegou para mim pelas associações de funcionários, na primeira reunião que tive em janeiro.

Entendemos a demanda, tanto dos sindicatos quanto das associações, que tivesse esse incentivo. Isso está alinhado com o processo de reestruturação da empresa que estamos fazendo, e vislumbramos um espaço para reduzir o quadro fixo da companhia em até 2.000 funcionários. A adesão foi muito próxima disso, de 1.862 funcionários.

Eles vão ser desligados em prazos que foram combinados entre a chefia e o próprio funcionário, ao longo de 12 meses. Iniciamos o desligamento em julho e isso vai até junho do ano que vem, concatenado com a criação do centro de serviços compartilhados, de racionalização da estrutura, da revisão de processos.

Acionista de referência


Tem que ser um investidor, uma empresa, uma instituição com visão de longo prazo, porque vai ter um ciclo de investimento pesado, mas que depois se remunera em um nível bem adequado quando você pensa em investimentos alternativos.

Conceitualmente é um acionista com um perfil de investimento de longo prazo, que entenda a dinâmica do saneamento, do investimento em infraestrutura, que tem um ciclo de maturidade de negócio que é longo, mas que ao mesmo tempo é um perfil de rentabilidade de um investimento típico em infraestrutura, que rende um ativo fixo, que tem uma rentabilidade muito previsível.


Valor e prazos


Ainda não temos um valor [para a privatização]. O pessoal guarda lá a sete chaves no IFC. O prazo para terminar o processo em 2024 é possível. Estamos trabalhando com o primeiro semestre. E é um prazo factível. Todos os estágios que a gente tem que cumprir estão sendo cumpridos no prazo.

Vários acionistas, tanto locais quanto estrangeiros, vêm mostrando interesse em entender melhor o processo, que se iniciou há poucos meses. Tem um trabalho muito forte da companhia e do estado, por intermédio do IFC, de conversar com esses acionistas.

Nós já fazíamos recorrentemente reuniões com investidores, e essas reuniões têm ficado mais intensas, exatamente para mostrar o que é a empresa hoje e quais são as perspectivas do processo de privatização.

O engajamento dos potenciais investidores vai acontecer naturalmente ao longo do tempo. A medida que o tempo vai passando, esses acionistas vêm com mais apetite.

RAIO-X

ANDRÉ SALCEDO, 45
Graduado em Engenharia Elétrica e de Produção pela PUC-Rio, tem mestrado em Engenharia Elétrica pela mesma universidade e MBA em Parcerias Público-Privadas e Concessões pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Foi diretor-financeiro da Akad Seguros e diretor-executivo de Novos Negócios da Iguá Saneamento.