segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Desemprego, envelhecimento e custo de vida: por que mais brasileiros estão morando com idosos?, OESP

 


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Depois de se separar, a publicitária Thalyta Gomes, de 33 anos, decidiu voltar para a casa em que cresceu e morar com a avó, que tem 84 anos e está com começo de Alzheimer. “Ela não pode mais ficar sozinha”, diz. Na casa, que fica no Jardim São Luís, zona sul de São Paulo, também vivem a filha de Talhyta, de 12 anos, e um tio. A família chegou a cotar o serviço de uma cuidadora, mas desistiu por causa do valor elevado.

Thalyta espera morar com a avó até que seu apartamento – que deve sair pela CDHU – fique pronto no ano que vem. “Eu pude voltar para a casa em que sempre morei”, afirma ela. “Não compensa pagar aluguel. Eu consegui guardar algum dinheiro e já comprei fogão, geladeira e eletrodomésticos menores.”

Hoje, as despesas da casa são divididas entre Thalyta, o tio e a avó, que tem uma aposentadoria e o dinheiro de duas casas alugadas no mesmo terreno em que moram. “A gente vai comprando o que precisa e divide as contas”, afirma a publicitária.

O caso de Thalyta não é isolado no Brasil. Nos últimos dez anos, o percentual de pessoas que moram com idosos acima de 65 anos tem sido crescente. Levantamento feito pela FGV Social, com dados da Pnad Contínua Anual, mostra que, entre 2012 e 2022, essa participação aumentou em todos os Estados da Federação. “Hoje vemos famílias de várias gerações coabitando a mesma residência”, diz o diretor da FGV Social, Marcelo Neri.

Segundo ele, apesar de a classe C representar o maior percentual de pessoas morando com idosos (25,04%), foi a classe AB que teve maior aumento na participação. Subiu de 20,32%, em 2012, para 24,97%, no ano passado. O movimento é explicado por uma série de fatores, como o elevado desemprego dos jovens nos últimos anos, o envelhecimento da população e também o aumento do custo de vida.

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“Quando um país cresce, os filhos tendem a ser mais ‘ricos’ que os pais. Mas o Brasil não cresce (de forma consistente) há algum tempo”, diz Neri. De 2012 até 2022, a economia brasileira viveu períodos de baixo crescimento e até recuo do Produto Interno Bruto (PIB), como ocorreu em 2015 e 2016 (além de 2020 por causa da pandemia).

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Ao mesmo tempo, o custo de comprar uma casa própria, por exemplo, ficou mais alto no período. Segundo dados da FipeZap+, o preço médio do metro quadrado no Brasil subiu 33% de 2012 para cá. Em São Paulo, esse aumento foi mais expressivo, de 66%; e no Rio de Janeiro, 33%. Nesse cenário, é mais confortável continuar com os pais ou com idosos que têm renda garantida da aposentadoria – hoje 15,1% dos idosos acima de 65 anos pertencem à classe AB e 12,5% à classe C.

Ou seja, o crescimento da fatia da população que vive no mesmo domicílio com pessoas de mais de 65 anos pode estar relacionado ao fato de os mais velhos terem mais renda e responderem pelo sustento do domicílio, diz a professora do Insper Laura Muller Machado.

Ela aponta ainda outra possível explicação para o fenômeno: as transformações culturais do Brasil. Hoje os brasileiros estão casando mais tarde e estudando por mais anos e, dessa forma, permanecendo mais tempo na casa dos pais. “É um movimento novo. É algo a ser entendido e descoberto”, diz Laura.

Desigualdade intergeracional

O que se sabe é que o Brasil é um país que aloca um volume maior de recursos para a população mais velha do que para os mais jovens. O País gasta mais do que o Japão, país mais longevo do mundo. Segundo dados da FGV Social, enquanto a nação asiática gasta 10% do PIB com previdência, no Brasil, esse número já está em 13%.

O problema é que, por aqui, o envelhecimento está no começo da curva. Apenas 10,5% da população têm 65 anos ou mais (eram 7,7% em 2012). Portanto, a tendência é que os gastos aumentem ainda mais nos próximos anos diante da expectativa de envelhecimento da população brasileira.

“A gente sabe que há uma desigualdade intergeracional na transferência de recursos públicos no Brasil”, afirma Laura. “Espero que seja uma decisão consciente e que esteja fazendo sentido de alguma forma.”

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Por outro lado, o custo de vida dos idosos também é alto, seja com medicação e planos de saúde ou com a contratação de profissionais. Segundo dados da plataforma de empregos Glassdoor, a média salarial de um cuidador de idosos no Brasil é de R$ 2.995 por mês. “Em dez anos, a importância desse profissional será ainda maior (e o custo também)”, diz Neri.

Contas divididas

O fisioterapeuta Leonardo Cardoso, de 38 anos, optou por trazer os pais para morar com ele, a esposa e os dois filhos. Juntos, eles dividem os custos de locação do apartamento de 150 metros quadrados e de itens básicos do dia a dia. “Eu fico com a parte maior, mas nos ajudamos”, conta Leonardo.

A decisão de trazer os pais – ele com 79 e ela com 69 – para morar no mesmo apartamento foi construída aos poucos. Os pais de Leonardo sempre moraram sozinhos, mas em 2018 um problema financeiro fez com que tivessem de sair do apartamento alugado para morar, pela primeira vez, com o filho. “Eu já era casado, e eles vieram morar comigo”, conta o fisioterapeuta.

Nesse período, Leonardo se tornou pai da primeira filha – hoje com quatro anos –, e os pais, já com o orçamento doméstico organizado, encontraram um novo apartamento – menor do que o que eles moravam antes. “Minha esposa sempre se deu muito bem com a minha mãe, que ajudou com a nossa primeira filha.”

Em 2021, veio o segundo filho – hoje com um ano de idade. Conversando com a esposa, Leonardo decidiu vender o apartamento que tinha para se mudar para um maior e viver novamente com os pais, que são fundamentais para ajudar no dia a dia das duas crianças.

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“Meus pais já estão bem estabilizados (financeiramente), melhoraram, mas a gente decidiu morar juntos. É uma relação boa de convivência e evita que eles fiquem isolados”, afirma Leonardo.

Duas pontas

Nos próximos anos, o Brasil vai viver a intensificação de dois fenômenos. De um lado, haverá o envelhecimento mais acelerado da população e, de outro, uma redução do número de jovens no País. Isso é decorrente da queda da taxa de fecundidade nos últimos anos.

Na década de 70, eram cerca de 5,8 filhos por mulher. Hoje, esse número é de 1,62 filho. Se não houver uma estabilização, o País seguirá uma tendência de queda do ritmo de crescimento da população.

País deverá ver envelhecimento acelerado da população nos próximos anos
País deverá ver envelhecimento acelerado da população nos próximos anos  Foto: MARCOS DE PAULA/AGENCIA ESTADO/AE

Segundo dados do Censo 2022, estimativas mais conservadoras apontam que esse decréscimo pode ocorrer em 2040, mas é possível que ocorra já em 2035, se não houver nenhuma mudança no panorama.

“Isso altera a situação dos jovens, que sofreram muito nos últimos anos, com alto desemprego”, diz Neri. Segundo ele, o número de jovens deve cair de 50 milhões para 25 milhões nas próximas décadas.

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“O cenário cria uma situação em que o jovem vai ser disputado no mercado de trabalho, mas também vai ter de conviver com o peso do desequilíbrio da Previdência.”


Primeira biorrefinaria de etanol do sertão será instalada em 2024. Nova Cana

 Poder360 - Publicado: 04 Set 2023 - 06:02

O sertão brasileiro deve receber sua primeira biorrefinaria para produção de biocombustíveis em 2024. De acordo com seus idealizadores, a usina terá um papel importante no desenvolvimento de uma pesquisa que promete revolucionar o semiárido do país e transformar a realidade socioeconômica de uma região marcada pela escassez de recursos.

O projeto Brave (sigla em inglês para Desenvolvimento do Agave Brasileiro), encabeçado por Shell, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Senai Cimatec, estuda o potencial energético do agave. A planta da espécie das suculentas pode se tornar uma alternativa à cana-de-açúcar e ao milho na produção de etanol e biogás no interior do Nordeste.

O agave tem como uma de suas principais vantagens a capacidade de crescer no terreno semiárido típico da Caatinga, onde outras matérias primas de biocombustíveis não são capazes de se desenvolver.

Ao Poder360, o gerente de tecnologia de baixo carbono da Shell no Brasil, Alexandre Breda, disse que descobriu sobre o agave por meio de conversas com pesquisadores. A planta chamou sua atenção pelo seu potencial energético, mas também pela possibilidade de se criar uma indústria no sertão brasileiro.

“O nosso objetivo é desenvolver o agave como uma nova biomassa para produção de biocombustíveis”, afirmou Breda. “Ela tem essa habilidade de crescer onde nada mais cresce. Então imagina o potencial que isso pode ser como geração de renda, como geração regular para a região”.

Além disso, a experiência do Brasil com biocombustíveis facilitou a decisão da empresa em investir no projeto. Com o domínio do país na produção do etanol da cana de açúcar, a Shell procura uma matéria prima que possa ser uma alternativa de produção na Caatinga.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui mais de 84 milhões de hectares de semiárido na Caatinga. Já a produção brasileira de cana-de-açúcar ocupa uma área de 8 milhões de hectares, aponta a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Na avaliação de Breda, o território amplo para o plantio do agave na região coloca a planta em um patamar acima das outras fontes de bicombustíveis. Contudo, Breda pontua que o agave não vem para substituir a cana-de-açúcar, mas para complementar a produção de biocombustíveis no país e trazer desenvolvimento sustentável para o sertão.

“A gente está buscando é mais uma biomassa, para complementar a cana, para somar à cana, ao milho, para somar a outras biomassas que hoje produzem biocombustíveis. Então a cana-de-açúcar vai continuar sendo extremamente importante para São Paulo, Mato Grosso, Goiás; o agave não vem para competir aqui como a cana não vai competir no sertão”, declarou o executivo.

Em relação ao poder transformador econômico para a região, Breda afirmou que do ponto de vista logístico, não existe possibilidade do agave ser refinado em outras regiões do Brasil. Por isso, para explorar o potencial da planta é necessário a construção de biorrefinarias e de infraestruturas associadas à produção de biocombustíveis.

“Essa indústria de biomassa não dá para você colher lá [sertão] e trazer a biomassa para o sudeste. Não tem como. Você tem que plantar lá e gerar uma nova indústria”, declarou Breda.

Desenvolvimento do projeto

O projeto Brave teve início em novembro de 2022 e foi dividido em três etapas. A primeira delas, denominada “Brave Bio”, é liderada pela Unicamp e tem como objetivo selecionar as melhores variedades de agave para a produção de biocombustíveis no Brasil.

A segunda etapa, “Brave Mec”, é responsabilidade do Senai Cimatec e tem foco na mecanização da produção, desenvolvendo maquinários específicos para o plantio e colheita em grande escala. O objetivo é superar a falta de mecanização na cultura do agave.

Já a terceira fase, “Brave Ind”, também está a cargo do Senai Cimatec. O objetivo nesta etapa é cuidar da industrialização dessa biomassa, analisar os melhores processos de tratamento da planta, os processos industriais, o aproveitamento de resíduos e as análises químicas. Ao todo, a Shell está investindo R$ 100 milhões ao longo de cinco anos.

Biomassa e sustentabilidade

Em conversa com o Poder360, o coordenador do Laboratório de Genômica e Bioenergia da Unicamp, Gonçalo Pereira, aprofundou-se nas vantagens sustentáveis da biomassa do agave. De acordo com o especialista, o plantio do agave resolve a disputa que ocorre no Sudeste, onde se debate sobre o plantio de matéria-prima para biocombustíveis ou consumo alimentar.

“Como é a cana-de-açúcar no Sudeste? É uma briga de foice para ver quem planta cana, quem planta soja, quem planta trigo, quem planta milho, é uma guerra. Tanto que você vê que no exterior a maior crítica dos biocombustíveis é essa, a história do ‘food versus fuel’ [comida versus combustível, em inglês], mas quando você fala do agave acabou. É uma área que você não disputa com nada além da miséria”, declarou Pereira.

Durante a entrevista, Pereira compartilhou que está animado com a possibilidade de ver o sertão povoado de biorrefinarias. Segundo o pesquisador, que é natural da Bahia, a instalação dessas unidades de produção trará também escolas técnicas e centros de pesquisa para a região. Embora o programa ainda esteja no início, Pereira afirmou que uma biorrefinaria piloto deve ser instalada no próximo ano.

“Um cronograma específico ainda está em preparação, mas eu acredito que em um ano será um bom número. Eu espero que no ano que vem, em 2024, a gente esteja inaugurando a primeira biorrefinaria do sertão”, disse o pesquisador. A instalação da usina piloto também conta com o apoio da PetroBahia e da Casa dos Ventos.

Além de oferecer um produto de natureza econômica para o sertão, o pesquisador também afirma que o agave possui uma outra característica que pode beneficiar a região. Através do agave, também é possível produzir biochar, uma espécie de carvão orgânico que deixa o solo mais fértil e absorve grandes quantidades de carbono. “A gente vai muito além de produzir agave, a gente vai conseguir fazer um solo produtivo para qualquer coisa”, declarou Pereira.

Associação com energia eólica

Além de pensar no agave como o futuro da produção de biocombustíveis, Pereira chamou atenção para o potencial que essa nova indústria pode trazer à região se aliada a uma outra vantagem natural do sertão: as jazidas de vento.

Segundo Pereira, a Caatinga tem um potencial enorme para instalação de parques eólicos devido a sua formação geográfica que produz ventos fortíssimos. Para o pesquisador, as torres eólicas podem ser utilizadas para a produção de hidrogênio, que por sua vez pode ser combinado ao CO2 produzido nas biorrefinarias de etanol.

Essa integração seria capaz de produzir qualquer tipo de combustível e transformar para sempre a matriz energética da região e eliminar a necessidade da queima de petróleo.

“Se você juntar esse hidrogênio com o CO2 que advém da fermentação, você produz qualquer combustível que quiser. Você junta o CO2 com o hidrogênio que veio da eletrólise da água e produz, por exemplo, um óleo diesel, uma gasolina, um querosene de aviação, idênticos às moléculas do petróleo, mas de forma totalmente renovável”, concluiu Pereira.

Eric Napoli

O futuro da energia está no agave?, Jornal da Unicamp

 Unicamp estuda potencial de planta típica do Semiárido para produção de biocombustíveis

Por trás de um uso ainda restrito a poucos produtos, como a tequila, destilado típico mexicano, e as fibras de sisal, o agave é uma planta com enorme potencial para a produção de energia limpa e renovável e com grande capacidade de capturar o carbono da atmosfera. Sua cultura pode abrir as portas para um importante ciclo de desenvolvimento no sertão nordestino, com geração de renda e manutenção de famílias no campo.

“O agave reúne um conjunto gigantesco  de oportunidades. É uma planta com produtividade semelhante à da cana-de-açúcar, cultivada em regiões de semiárido, áreas com pouca geração de emprego. Podemos cultivá-la e construir uma cadeia produtiva parecida com a da cana-de-açúcar e, além disso, implantar biorrefinarias baseadas no agave”, afirma Gonçalo Pereira, professor do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e coordenador do Laboratório de Genômica e bioEnergia (LGE).

Foto de um homem que aparece sentado. Ele é branco, careca e usa camisa azul escura.
O professor Gonçalo Pereira, coordenador do LGE: “O agave reúne um conjunto gigantesco de oportunidades” (Foto: Felipe Bezerra)

Por meio de uma parceria entre a  Universidade, a Shell e o Senai Cimatec, na Bahia, as pesquisas sobre o agave integrarão o programa Brave – Brazil Agave Development, lançado no dia 7 de novembro. O programa conta com o investimento de R$ 30 milhões feito pela empresa petrolífera, tendo sido viabilizado pela cláusula de P&D da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Os recursos serão utilizados para o financiamento de  pesquisas biológicas, agrárias e industriais relacionadas à cadeia de produção do agave.

No total, o projeto terá 71 pesquisadores apoiados diretamente com recursos do Brave. O estudo teve início em 2016 com o mestrado de Fábio Raya, hoje doutorando do IB ligado ao LGE. O aluno foi o primeiro pesquisador do laboratório a ser incorporado na pesquisa do agave, que hoje conta com cinco pós--graduandos. “Hoje temos aqui no LGE o maior banco de agaves do hemisfério Sul, com amostras do país inteiro”, conta Fábio. (Leia mais sobre a trajetória de Fábio Raya nesta edição do Jornal da Unicamp).

Originário do México, o agave espalhou-se pelas regiões semiáridas das Américas. Sua biomassa tem um potencial energético comparável à de outras culturas utilizadas para a produção de biocombustíveis, como a cana-de-açúcar e o milho, mas com vantagens que tornam sua produção estratégica na transição para uma economia mais sustentável e para o desenvolvimento de regiões como o sertão brasileiro.

Cultivado em ciclos de cinco anos, o agave rende, por hectare, uma produção de 880 toneladas de biomassa de alta densidade energética, captura 385,4 toneladas de carbono e armazena 617,7 toneladas de água. A planta também depende de menos água.  Enquanto a cana-de-açúcar precisa de 1.200 a 1.800 milímetros de chuva por ano, por hectare, a plantação de agave precisa apenas de 300 a 800 milímetros, sobrevivendo a longos períodos sem precipitação.

Composição com duas fotos. Ao fundo há mudas de uma planta com folhas longas e no canto inferior direito da composição há um foto de um rolo de sisal.
O agave e o sisal (destaque), cuja matéria-prima é a planta: produtividade semelhante à da cana-de-acúcar (Foto: Felipe Bezerra)

“São plantas que capturam muita água. As folhas possuem estômatos, pequenas aberturas que se fecham durante o dia e se abrem à noite. Quando isso ocorre, não há uma grande perda de água e acontece a captura do gás carbônico, que é liberado dentro da própria planta durante o dia, formando ácidos no seu interior”, detalha Gonçalo. Outro diferencial do agave é a presença da inulina, um  polissacarídeo da frutose. Diferentemente da sacarose presente na cana-de-açúcar, formada por moléculas de glicose e frutose, a inulina é composta por uma cadeia de moléculas de frutose, o que aumenta seu potencial energético.

Energia limpa e geração de renda

As pesquisas do Brave são divididas em três eixos, que abordam investigações biológicas, agrárias e de tecnologia industrial. Realizados pela Unicamp, os estudos biológicos se organizam em dez frentes: recursos genéticos e caracterização da biomassa; fisiologia e fitotecnia; solos e captura de carbono; análises ômicas e marcadores moleculares; engenharia genética do agave; cultura de tecidos e propagação de mudas; metagenômica, microbiota e indução de crescimento; fermentação direta; conversões; análise de ciclo de vida e integração com o meio ambiente.

As pesquisas agrárias e industriais serão desenvolvidas em parceria com o Senai Cimatec. O objetivo é abranger toda a cadeia de produção e processamento do agave, do campo à biorrefinaria.

Na parte de caracterização das espécies de agave, os pesquisadores pretendem analisar a composição genética das plantas e diferenciá-las por meio de marcadores moleculares, tema do doutorado de Marina Marone. “Queremos verificar se os exemplares são plantas irmãs, se são clones, qual o potencial de cada uma. Para isso, definiremos marcadores moleculares, como uma espécie de ‘código de barras’ molecular”, aponta Marcelo Carazzolle, coordenador do grupo de bioinformática do LGE. Com base nessas informações, será possível propor melhoramentos genéticos para as espécies, como aumentar a velocidade de crescimento do agave e baratear o valor de cultivo de mudas. Hoje, o preço médio de unidades comercializadas no México é de cerca de um dólar. A meta do grupo é reduzi-lo para menos de um real no mercado brasileiro.

Foto de um equipamento de laboratório conhecido como robô pipetador.
Equipamento conhecido como “robô pipetador”, que é utilizado no desenvolvimento de novas cepas de leveduras e em testes de novas moléculas em grande escala (Foto: Felipe Bezerra)

A equipe do Brave também pretende desenvolver leveduras capazes de quebrar as moléculas de inulina, tema do mestrado da bióloga Ana David. A ideia é facilitar seu processamento, algo que as leveduras utilizadas no processamento da sacarose da cana-de-açúcar não conseguem fazer. Outras pesquisas serão focadas nos microrganismos, principalmente fungos, que se concentram nas raízes e favorecem o desenvolvimento das plantas, bem como nos mecanismos de captura e armazenamento do  carbono, garantindo que a produção de biocombustíveis a partir do agave tenha um ciclo de vida positivo do ponto de vista ambiental. 

Para além da produção sustentável de biocombustíveis, o trabalho do Brave terá uma grande importância social por ser uma possibilidade de geração de trabalho e renda no sertão nordestino. A ideia é aliar a tradicional produção de sisal da região com a inovação trazida pela exploração da biomassa para bioetanol, gás natural e outros subprodutos.

Estima-se que, com um hectare de agave, seja possível produzir 7,4 mil litros de etanol de primeira e segunda gerações em um ano. Hoje, o sertão compreende uma área de mais de 100 milhões de hectares, somando o norte de Minas Gerais. “Em menos da metade do sertão da Bahia, é possível aumentar em duas vezes e meia a quantidade de etanol produzida hoje com cana-de-açúcar, que é de cerca de 30 bilhões de litros por ano”, reflete Gonçalo. “Nosso objetivo é gerar empregos e renda preservando o meio ambiente.”