segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Barbie e Oppenheimer juntos: não existe Missão Impossível no cinema, Becky S. Korich FSP

 "Barbie no mundo real? Isso é impossível", diz a personagem Gloria no filme BARBIE. "Isso é impossível" diz o herói de OPPENHEIMER, quando descobre que cientistas alemães dividiram o átomo.

Não. Não existe nenhuma MISSÃO IMPOSSÍVEL para o cinema. A sessão dupla mais improvável aconteceu semana passada, na estreia dos dois filmes no mesmo dia. Foi uma JOGADA DE MESTRE dos estúdios Paramount e Warner. A questão era "quando", e não "se", assistir a essas HISTÓRIAS CRUZADAS.

Foi uma CONDUTA DE RISCO, que poderia ofuscar um dos dois filmes, mas deu MATCH POINT: rendeu um CASAMENTO ÀS CEGAS e cinemas lotados, enquanto HOLLYWOODLAND está de greve.

Memes que brincam com as estréias de "Barbie" e "Oppenheimer" viralizam nas redes sociais
Memes que brincam com as estreias de "Barbie" e "Oppenheimer" viralizam nas redes sociais - Reprodução/Redes Sociais

O DILEMA DAS REDES: qual assistir antes? Os mais impressionáveis preferiram assistir primeiro "Oppenheimer" e depois "Barbie". Os amantes da ciência inverteram a ordem. Os mais românticos optaram pela DOSE DUPLA e cumpriram a sessão dobrada assistindo duas vezes Barbie. Todos all-in, de rosa choque dos pés à cabeça; no estômago, acarajé e coxinha cor-de-rosa. Foi a maior bilheteria desde a Covid, depois que o PARASITA nos fez viver O FEITIÇO DO TEMPO e acordar dois anos no mesmo dia e hora. Como sempre encontramos UMA SAÍDA DE MESTRE para sobreviver culturalmente e compensamos a falta do ESCURINHO DO CINEMA com séries. Elas até valeram como CORINGA, mas nada substitui a experiência coletiva sem igual do CINEMA PARADISO.

Quem esperava ver A PATRICINHA DE BEVERLY HILLS encarnada numa boneca se desapontou. O mundo cor-de-rosa é interceptado por um sorriso amarelo de uma Barbie deprimida e questionadora. A BELEZA INTERROMPIDA por questionamentos mais filosóficos. No meio de uma crise existencial, Barbie tem duas opções: permanecer na superfície plastificada do seu corpo ou viajar para o mundo real e viver A PELE QUE a HABITA —quase um DÉJÀ VU da sua coleguinha A PEQUENA SEREIA.

Por outro lado, quem esperava ver em Oppenheimer RELATOS SELVAGENS de um MALVADO FAVORITO encarnado no pai da bomba atômica, viu na tela um lado humano e até ingênuo de uma MENTE BRILHANTE. Os cientistas que fizeram parte do estudo, alguns vencedores do Prêmio Nobel, eram OS VINGADORES dos BASTARDOS INGLÓRIOS do regime nazista. Mas será que se o Opp, como o físico era chamado pelos BONS COMPANHEIROS, fizesse uma viagem DE VOLTA PARA O FUTURO e entendesse que sua criação mudaria o mundo, teria prosseguido com o seu intento? Ou, se não fosse ele, outros chegariam CLOSER – PERTO DEMAIS de um invento ainda pior? Mistério que nem SHERLOCK HOLMES conseguiria decifrar. Assim são as COISAS DA VIDA, como ensina O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON: "a vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas só pode ser vivida olhando para frente".

Apesar da BELEZA AMERICANA e loira (e magra) da protagonista de Barbie –a estonteante LINDA MULHER Margot Robbie—, o filme trabalha com a diversidade e faz questão de lembrar isso várias vezes para os espectadores, esbarrando em alguns clichês. Contudo, sabemos, que aqui fora não dá para brincar de A VIDA É BELA: toda pessoa fora dos padrões é vista como UMA ESTRANHA ENTRE NÓS. Já OS HOMENS QUE AMAVAM MULHERES, coitados, são retratados no filme com um só estereótipo: O IDIOTA. Rasos, pouco inteligentes, puxa-sacos, superficiais, acessórios.

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Apesar dos ENCONTROS E DESENCONTROS, Barbie representa a complexidade feminina, que não se resume apenas em unhas e HAIR; e Oppenheimer representa uma sociedade indiscutivelmente patriarcal, mas com uma certa beleza, provando que OS BRUTOS TAMBÉM AMAM (título mal traduzido do original SHANE). Aliás, palmas para a tradução do nome de ambos os filmes que, finalmente, foi acertada, provando que O SEGREDO é só não inventar.

Com ELEMENTOS tão distintos, "Barbie" e "Oppenheimer" nos mostram como, nas profundezas das realidades mais sombrias, nunca deixamos de tropeçar em fantasias.

Mea-culpa Becky S. Korich, advogada e dramaturga, na Folha

 Mea-culpa

Becky S. Korich, advogada e dramaturga, na Folha

Voltando a outubro de 2018: 55% dos votos; quantos idiotas, incluindo eu

Foi um ato de puro impulso. Um ato insano. Faço aqui a minha confissão e a torno pública: tenho a minha parcela de culpa!

Aconteceu em outubro de 2018. Vai ver que mudando, as coisas melhoram, pensei. Constrangimento.

Vontade de mudar de assunto.

Todavia, me apoio na minha dignidade para ter a coragem de prosseguir com a assunção do meu erro, talvez assim eu durma melhor esta noite.

Cena do crime. Olhei para os dois lados, dei um dane-se e apertei. Primeiro o 1, depois o 7, formando o terrível 17.

Em seguida, o tiro derradeiro: a tecla verde de confirma. Pronto, estava consumado o ato político mais estúpido que eu poderia ter cometido na vida.

Saí da sala de votação a passos rápidos, olhando para baixo para não esbarrar com nenhum conhecido. Nem desconhecido eu tinha coragem de encarar.

Cheguei em casa e instintivamente fui para o banho. Meu marido me perguntou: “E aí?”.

Repeti a escusa que tinha dito a mim, vai ver que mudando as coisas melhoram, e acrescentei: “Aparentemente ele tem uma boa equipe de ministros”.

Enquanto formalizo a presente confissão, meus batimentos cardíacos se apressam. É vergonha com raiva, com arrependimento, com sentimento de culpa. Raiva de mim, muita raiva dele.

Voltando a outubro de 2018: 55% dos votos. Quantos idiotas, incluindo eu. Não fiquei feliz, a verdade é que eu estava torcendo para ninguém vencer o pleito. Mas ele ganhando, quem perdeu foram os 100%.

Raiva dele, muita raiva de mim. Respiro fundo para conseguir continuar.

Peço-lhes apenas que não me julguem. Leio jornais, sou mulher direita, mãe de família e não estava sob efeito de drogas no fatídico outubro de 2018. E é justamente isso que agrava a minha culpa.

Eu não podia adivinhar, sussurro para mim mesma, na tentativa de me absolver e ficar livre, também, dessa dolorosa confissão. Mas logo volto a me acusar.

Não tenho como negar: suas manifestações, em 2018, já revelavam uma mente pequena.

Ocorre-me agora: quem sabe foi por causa da facada? Mulheres são seres instintivamente protetores. Mas não, nem cheguei a sentir pena.

Até porque ele se mostrava forte e invencível quando sorria da cama do hospital, coisa que hoje entendo melhor: para ele machos não adoecem e não se abatem, isso é coisa de maricas. Raiva. Nojo.

Ao meu pecado, o merecido castigo: dor na consciência, que cresce exponencialmente. E agora, com a quebra do silêncio, o vexame nacional.

Mais palpitação. Enjoo. Enjoo de ato estragado é pior do que enjoo de comer coisa estragada, pois esta o corpo expele; o outro, o corpo retém.

Pesa ainda contra mim que o contemplado tinha uma qualidade. Sim, ele nunca mentiu sobre suas intenções autoritárias.

Nunca escondeu sua personalidade controversa e seu temperamento colérico. Ingênua, portanto, eu não fui. Não posso, pois, usar em meu favor, desconhecimento como fator atenuante.

Errei, e faço o mea-culpa. E vou até o fim nessa confissão, assim como os torturados resistem quando optam pela verdade.

Confesso ainda que conheço pessoas que votaram igual, mas mesmo que esteja aqui sob tortura voluntária, me recuso a mencionar nomes.

Sou hoje coautora de crimes dolosos, por ter sido autora de um crime culposo em 2018. Carrego essa mácula.

Perdoem-me, porque eu ainda não consegui me perdoar.

Glamorizar o passado é se deixar enganar, Becky S. Korich, FSP

 Prefiro a caneta ao teclado —apesar da minha letra, que às vezes nem eu entendo—, o papel à tela, o livro físico ao digital. Não é saudosismo e muito menos uma vilanização dos avanços tecnológicos, que ao mesmo tempo são uma bênção e uma maldição. Não glamorizo o passado como sendo melhor: o melhor vive na nossa imaginação e nas lembranças que permitimos adulterar. Acreditamos no que queremos que a memória nos conte.

Faço parte da geração X, o que significa que tive o privilégio de conhecer da Olivetti ao copy-paste do computador, da Telefunken com botões à TV HDR com controle remoto por voz, do Merthiolate que ardia até a alma ao Merthiolate que faz cócegas, do Neutrox à Kérastase, da agulha na vitrola ao Spotify, do Maverick ao Tesla, da Barsa ao Google. Celebrei com encantamento e valorizei cada vitória da evolução. Hoje a sensação é que tudo vem pronto, que o mundo não existiria sem ter o que temos.

Fita cassete está sobre superfície branca
Fita cassete - Marcelo Justo/Folhapress

Vivi numa época que não existia intolerância a glúten, fotografia se revelava, Crush era um refrigerante de laranja, os Jetsons eram uma alegoria, Monark era marca de bicicleta, plataforma era só nos sapatos, algoritmo era matéria de matemática, K7 era fita para gravar músicas e liberdade era uma calça velha azul e desbotada.

Escrevíamos cartões-postais, postar significava ir ao correio. Tínhamos na mesma semana o Jô às 23h30, TV pirata às terças-feiras, Chico City às quintas. Os bronzeadores reluziam na nossa pele, os pais não se metiam nas regras das escolas, os aviões tinham cinzeiros. Tempos da Telesp, do telefone fixo, do cadeado no telefone fixo, do telefone com sete dígitos, das fichas DDD.

Tomávamos Yakult, não pelos probióticos, mas porque era gostoso. Nos deliciávamos com Farinha Láctea e não engordávamos, porque não pensávamos nisso. Fumávamos chocolate e canetinha Silvapen sonhando em ficar adultos para poder fumar um Marlboro ou um Hollywood que, na primeira tragada, nos transformaria em velejadores e cavalgadores lindos e poderosos.

Não antecipei o meu primeiro sutiã, mas nunca me esqueci dele. O frio chegava à nossa porta, mas não adiantava bater, as Pernambucanas não o deixava entrar. Se não era para a Mesbla, era para o Mappin que corríamos para aproveitar a liquidação. Todos preferíamos lanches Mirabel (o verde era o melhor) que levávamos para a escola na lancheira depois de um sono bom e de escovar os dentinhos. Nos engasgávamos com balas Soft (que eram hard) e cultivávamos cáries nos dentes com caramelos que grudavam neles. Só se salvava do motorzinho do dentista quem sentia o gosto da vitória usando Kolynos —na escova dura, achávamos que quanto mais dura, mais limpava.

Eu sonhava em ser Sonia Braga e usar meias lurex com sandálias, mas ainda não tinha pés para isso. Achava o Zico lindo, mas ainda não tinha idade para isso. Hoje sonho com o Louis Garrel, mas não tenho mais idade para isso.

Mantenho o melhor de antes —que gravei no meu HD apertando o rec e o play— e aproveito o melhor de hoje. O que posso escolher escolho, dentro de uma lista nada coerente entre o antigo e o novo, com a vantagem de carregar comigo o passado. A nossa história é um caminho irreversível, saber viver o presente é o melhor dos mundos.