Um vagão ferroviário fabricado na década de 1950 que estava abandonado foi resgatado, restaurado e apresentado pela ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária) no último final de semana.
Fabricado pela FNV (Fábrica Nacional de Vagões) em 1957, o vagão chegou à ABPF há cinco meses, de acordo com o diretor administrativo da associação, Helio Gazetta Filho, e escapou do destino que outros da mesma linha tiveram no passado.
Vagão I 711, que no passado pertenceu à Companhia Mogiana de Estradas de Ferro e foi restaurado pela ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária) - Vanderlei Antonio Zago/ABPF
Com assoalho de madeira e revestimento interno também em madeira, o vagão I 711 foi restaurado com sua pintura original, nas cores da Companhia Mogiana de Estrada de Ferro e, segundo o diretor, mais que um simples vagão ele era um ícone representativo da extinta companhia ferroviária.
O trabalho de restauro contou com um mutirão de associados da ABPF e voluntários, que limparam, lixaram e pintaram o vagão, além de lavar e lubrificar os truques, reformar engates e freios e fazer as inscrições na lataria como na época em que foi produzido.
"Era vagão para sacarias e transportou muito café, açúcar e cimento, nos últimos tempos. Era um vagão para carga geral, não era direto na chapa, pois tinha o assoalho de madeira para permitir esse tipo de serviço", disse Gazetta Filho.
Depois que passaram a ser utilizados vagões graneleiros, esse tipo de vagão foi encostado com o passar do tempo, especialmente na década de 1990, que marcou o fim da era Fepasa (Ferrovia Paulista S.A.) nos trilhos.
"Ficaram ociosos e foram sendo adaptados para outras finalidades, muitos viraram pranchas ou foram transformados em ‘vaca verde’ [para o transporte de celulose]."
Ainda há muitos vagões do tipo espalhados pelo país, mas a maioria está encostada. No auge, foram utilizados para transportar cargas de Mato Grosso para o Porto de Santos.
A ABPF administra cinco antigas estações ferroviárias entre Campinas e Jaguariúna, num trecho de 24 quilômetros no qual opera uma ferrovia turística com passeios aos finais de semana e feriados.
Em tese, não haveria muito como não apoiar a iniciativa. Trata-se, afinal, de uma norma perfeitamente racional e com a perspectiva de ampliar a oferta de órgãos, salvando ou melhorando a vida de milhares de indivíduos e reduzindo gastos do SUS. É o regime vigente em vários países europeus.
O apresentador Fausto Silva, no hospital, antes do transplante de coração - Instagram - @faustosilvaofcial no Instagram
O problema é que, não muito tempo atrás, entre 1997 e 2001, vigorou no Brasil a doação presumida e os resultados foram opostos aos esperados. Houve corrida de cidadãos aos postos de emissão de documentos para mudar o registro para não doador. Também aumentaram os casos de famílias que se opuseram à retirada dos órgãos. Ainda que a lei a permitisse, os hospitais não iriam iniciar uma guerra com parentes enlutados e eventualmente ter de chamar a PM. O remédio foi emendar a legislação, deixando a decisão para as famílias.
Efeitos rebote como esse não são incomuns na literatura da economia comportamental e da psicologia social. Se nos anos 1990, quando rumores e paranoias eram mais raros, a reação foi essa, não é absurdo imaginar que ela seria ainda mais exacerbada em tempos de redes sociais e fake news. Não digo que não devamos passar a um regime de doação presumida, mas é preciso proceder com calma, testando cada passo antes de torná-lo definitivo.
A chave para o sucesso é que as equipes médicas encarregadas de abordar as famílias conquistem sua confiança. Sem confiança, nada dá certo. Antes da pandemia, alguns estados brasileiros, que investiam em grupos especializados para esse primeiro contato, conseguiam índices equiparáveis aos dos países europeus que mais transplantam. A Covid, porém, deixou sequelas também aí.
Depois de dois anos, retornei ao paraíso. Sempre me lembrei do dia, décadas atrás, em que Ernst Keller, empresário suíço radicado no Peru que tinha uma fundação educativa, nos esperava a Patricia e a mim com um pacote de ingressos para os eventos dofestival de verão que se celebra em Salzburgodesde o final de julho até o último dia de agosto. “É meu presente para vocês, por ter se lançado à candidatura à presidência da República. Prometi e cumpri”.
Era uma coleção de entradas para todos os eventos do festival fundado em 1920 e celebrado nesta cidade todos os verões, coroando nesta terra prodigiosa as orquestras, diretores e cantores mais afamados. Foi o único resultado positivo daquela campanha eleitoral – da qual tenho uma lembrança penosa. Desde então, todos os verões Patricia e eu aparecemos aqui para tomar um banho de boa música e ver as melhores óperas. E também desde então leio os jornais e revistas, as críticas especializadas e as informações musicais, embora não tanto quanto gostaria, devido à falta de tempo.
A rotina que estabeleci na primeira vez que vim graças a Ernst Keller é sempre a mesma: acordar bem cedo, tomar café da manhã e dar um passeio ao longo do rio Salzach, que funciona como fronteira natural entre a Áustria e a Alemanha. Se não chover, a viagem demora cerca de uma hora e meia. Depois, chegam os compromissos musicais matinais e, nas manhãs em que não há concertos, as leituras intensas, geralmente de romances que fui acumulando ao longo do ano. É uma verdadeira felicidade ler esses livros pendentes, entre os quais há sempre alguma obra-prima que desperta inveja e várias que são de tirar o chapéu.
Todos os anos Mario Vargas Llosa volta a Salzburgo para o festival de música Foto: José Luis da Conceição/Estadão
A vida transcorre pacificamente neste enclave civilizado. Os costumes da cidade não parecem ter mudado muito desde a primeira vez que aqui estive, em 1987. Os restaurantes são os mesmos e, entre eles, meu preferido, que pertence a um amigo, é o Pan e Vin, onde se preparam as melhores receitas desta cidade e onde costumo encontrar rostos conhecidos ou pessoas que vejo pela primeira vez e com quem converso animadamente sobre a ópera que acabei de ver ou sobre o concerto que acabei de ouvir. Ali se serve um vinho italiano, La Villa, mistura de Nebbiolo e Barbera, que é uma delícia e com o qual, se não tivesse a resistência que tenho às bebidas alcoólicas, seria um verdadeiro prazer embebedar-me. Também vou, de vez em quando, ao Café Tomaselli para comer as melhores salsichas da cidade.
Mas as visitas ao restaurante são poucas, porque, além dos concertos, que são numerosos, passo o dia lendo aqueles romances que não tive tempo de ler porque me dedicava a outro trabalho, sempre literário. Parece-me uma aberração que tantas pessoas dediquem a outros assuntos o tempo que dedico à leitura de romances, livros extraordinários que tendem a nos projetar em realidades construídas através de deformações inteligentes e magníficas da vida real. Caso contrário, não vale a pena continuar a lê-los, embora muitos deles nos abram o apetite e nos façam procurar o ponto em que a realidade é uma mera plataforma para explorar céus e infernos, pois há tudo nesse gênero que é e será o ponto de partida da fantasia e da imaginação.
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Entre romances e novelas, os concertos e óperas vão nos atualizando com a música. Quando o festival foi fundado, a programação se centrava em Mozart (afinal, é a cidade onde nasceu) e em Strauss, mas, graças à visão de Herbert von Karajan, que foi diretor artístico durante algumas décadas, o repertório foi ampliado e internacionalizado, uma tradição que não para de crescer.
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Música e livros são a própria felicidade, um prazer simples que está ao alcance de muitas pessoas. As duas semanas que aqui passamos nos compensam as frustrações e os maus momentos do ano, porque são dedicadas à pura irrealidade e às grandes miragens que os seres humanos constroem para escapar ao tempo sujo e insincero e aceder, graças ao sonho, a ordens mais ricas e substanciais do que a realidade.
Tenho certeza absoluta de que um povo com muitas leituras tem uma democracia mais afirmada que os outros, países que desdenham o romance como se fosse um gênero inferior. Que absurdo. O mais inteligente é seguir os caminhos da fantasia, que levam a grandes invenções – caso contrário, estaríamos ainda em trapos, caçando os animais do Senhor.
Evoluímos graças aos romances, que foram o ponto de partida para o ser humano expandir as fronteiras do conhecimento. Claro que a música é um emblema da fantasia, e é por isso que Salzburgo significa para mim as duas coisas: um festival não só de música, mas, de certa forma, também de romances, pois bons concertos estimulam boas leituras e talvez por isso me apeteça ler tanta ficção quando venho aqui.
Os romances são uma fonte de inspiração à qual o ser humano recorre continuamente, em períodos de desânimo ou de crise que certamente não se curam com remédios, mas com livros, como este que estou lendo neste momento, Le mage du Kremlin, ficção que explora as relações de Vladimir Putin com seus subordinados naquele paraíso que ele acredita ter construído com base no terror.
Em Salzburgo, vê-se que ler romances não é uma perda de tempo, como acreditam muitos ingênuos. Sem a fantasia que nos provocam essas histórias deslumbrantes e milagrosas que alimentam sonhos e insatisfações, não teria havido progresso. A nostalgia dos livros não lidos, porém, agrava-se nestas circunstâncias, pois seria maravilhoso passar meu tempo, quando não estou em Salzburgo, a ler incessantemente e, auxiliado pelos romances, a sonhar sempre mais à frente do que a média dos mortais.
Quando não estou lendo ou ouvindo música, caminho por esta cidade que, desde a época de Mozart, não parece ter evoluído muito. De certa forma é um museu, onde todos se portam como se estivessem de botas e viajando a cavalo em vez de carros. Os turistas vêm sempre, em massa, em busca daquele sonho que os romances proporcionam e se mostram nas pousadas e cafés, que estão sempre limpos e arrumados, de uma forma que em nosso mundo pareceria um sacrifício. Mas a ordem parece ser a vocação de todas essas pessoas que aproveitam a modernidade sem abrir mão dos velhos costumes, tão queridos e acarinhados que os visitantes gostariam de ver esses anacronismos repetidos em seus países.
Estas semanas – em que vi uma fantástica produção de Macbeth, a ópera de Verdi, e, pela primeira vez, Les Troyens, a ópera monumental de Berlioz – terminaram, para desespero de todos os caminhantes que chegaram a este canto da Áustria. Faltam doze meses para que reapareçam, com seus volumes de boa e má literatura, com os livros que foram separados dos demais por seus títulos ou parágrafos e que nestes dias esperam para serem devorados. Devorados, sim, esta é a palavra mais precisa.