domingo, 11 de dezembro de 2022

É preciso recuperar o país do futebol, não a seleção, PVC FSP

 O dia seguinte à eliminação é sempre triste. Nem tanto pela derrota, porque ganhar e perder é a vida, mas por perceber que não saímos do lugar. A procura é sempre por um vilão, e não pela reflexão do que melhorou ou piorou nos últimos quatro anos.

Desta vez, existe uma medida objetiva, um símbolo.

De Arrascaeta foi o único jogador de um clube sul-americano a fazer gol nesta Copa. Na Rússia, foram dois. Há oito anos, no Brasil, cinco, como na África do Sul.

Jogadores da Croácia correm para comemorar a vaga, enquanto Marquinhos, que perdeu o último pênalti, lamenta no chão - Lan Hongguang/Xinhua

Não é possível mais viver em dois mundos. Um, em que se detecta o abismo entre Europa e América no dia 7 de outubro de 2021, data da virada da França sobre a Bélgica e do sufoco para a seleção ganhar da Venezuela. Outro, do suposto favoritismo do Brasil, criado pelas mesmas pessoas que agora julgam absurdo ser eliminado pela Croácia.

Na véspera da eliminação nos pênaltis, Michel Bastos disse no SporTV que seria fácil para a Argentina explicar uma eventual derrota para a Holanda, mas seria difícil fazer compreender uma desclassificação contra a Croácia. O contra-argumento: a Croácia é vice-campeã mundial.

O técnico do Botafogo, Luís Castro, diz que não perceber a força do adversário é o primeiro passo para não vencer. Disputar cinco Copas do Mundo e não chegar às semifinais em quatro significa estar fora da elite.

PUBLICIDADE

Ainda que este seja um exagero.

O primeiro andar das seleções inclui todas as que possuem jogadores e treinadores que compartilham conhecimentos na Europa. O Brasil ainda está nele, mas o único setor em que vive essa nobreza é entre os jogadores. Nem técnicos, nem dirigentes, nem a imprensa bebem da mesma água.

Daí, amanhecermos o day after buscando apenas a culpa maior: 1. Neymar não bateu o último pênalti; 2. Tite fez substituições erradas; 3. Tomou contra-ataque faltando quatro minutos para o fim da prorrogação.

Tudo é verdade e, também, tem contra-argumento.

A ordem das cobranças, por exemplo.

O Brasil disputou cinco vezes a classificação em cobranças dos onze metros. Perdeu duas. Em 1986, o melhor batedor era Sócrates. Cobrou o primeiro e desperdiçou. Derrota para a França. Em 1994, o melhor cobrador, embora inseguro, era Bebeto. Ficou por último e não precisou bater. O Brasil venceu antes. Em 2014, contra o Chile, Neymar cobrou o quinto. Marcou.

Fazer tudo certo não garante a vitória.

Nosso caso atual é de recuperar o país do futebol, não a seleção, que segue forte, pelos jogadores que possui.

O legado de Tite é mostrar que técnico de seleção trabalha todos os dias, com uma comissão que assiste e estuda todos os jogos no mundo inteiro.

O retorno à elite mais estreita exige a criação da Liga, a construção de um campeonato forte, que só o Brasil tem condição econômica de realizar na América do Sul. Não é mais possível descobrir que o melhor em campo nas finais da Libertadores e Copa do Brasil tropeça na bola, quando entra na Copa do Mundo, como aconteceu com Éverton Ribeiro, contra Camarões.

Não é culpa dele.

O Brasil segue achando que a íntima relação de seus craques com a bola é suficiente. Perguntávamos quando Neymar seria o melhor jogador do mundo e a resposta, óbvia, sempre foi: quando a seleção voltar a ganhar. E quando o Brasil vai voltar a vencer? Quando voltarmos a fazer parte do mundo, que espalha conhecimento sobre futebol na mesma velocidade em que se liga um celular.

Elio Gaspari A vida está mais leve, Elio Gaspari, FSP

 Noves fora a Croácia, passada a eleição e anunciada parte do ministério de Lula, sente-se uma certa leveza na vida nacional. Jair Bolsonaro ficou calado por quase um mês e meio. Esse silêncio foi um dos fatores da paz.

Para que se possa avaliar a importância do ocaso de Bolsonaro, vale a pena revisitar o Brasil do início de novembro aos primeiros dias de dezembro do ano passado. Foram pelo menos dez encrencas, todas inúteis. (No Rio, um açougue vendia ossos de boi a R$ 3,50 o quilo.)

0
O presidente Jair Bolsonaro (PL) em coletiva de imprensa com o jornalista José Luiz Datena no Palácio da Alvorada, dizendo, aos gritos, que a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seria um erro para o país - Gabriela Biló - 7.out.22/Folhapress

No início de novembro, Bolsonaro estava em Roma, onde havia terminado a reunião do G20. Sua participação foi periférica, salvo pela pisada que deu na então chanceler alemã Angela Merkel. Passeando pela cidade, Bolsonaro teve um bate-boca com o repórter Leonardo Monteiro. O jornalista havia sido agredido por um segurança e reclamava:

— Presidente, presidente. O cara tá empurrando, gente. Presidente, por que o senhor não foi de manhã ao encontro do G20?

Bolsonaro:

— É a Globo? Você não tem vergonha na cara...

De volta ao Brasil, o presidente explicou por que não havia comparecido à reunião da COP de Glasgow, atacando a ativista Txai Suruí:

 Estão reclamando que eu não fui para Glasgow. Levaram uma índia para lá, para substituir o Raoni, para atacar o Brasil. Alguém viu algum alemão atacando a energia fóssil da Alemanha? Alguém já viu [alguém] atacando a França porque lá a legislação ambiental não é nada perto da nossa? Ninguém critica o próprio país. Alguém já viu o americano criticando as queimadas no estado da Califórnia?

Dias depois, acusou o Tribunal Superior Eleitoral de ter praticado "um estupro" ao cassar o mandato de um deputado estadual paranaense que divulgava notícias falsas sobre o desempenho das urnas eletrônicas em 2018.

Mudando de agenda, anunciou que queria "se livrar" da Petrobras e explicou por que havia se livrado do ministro Sergio Moro:

"Ele sempre teve um propósito político, nada contra, mas fazia aquilo de forma camuflada. E ele tinha intenção, sim, de ir ao Supremo [Tribunal Federal]. Num primeiro momento eu achei justa a intenção dele, depois eu passei a conhecê-lo um pouquinho melhor".

Bolsonaro entrou para o PL de Valdemar Costa Neto depois de um intercâmbio de palavrões com o cacique. Diante de uma saia justa nas prévias do PSDB, encrencou com o processo eleitoral:

"Viu a confusão ontem? Não vou falar nisso porque não tenho nada a ver com outro partido, mas deu uma confusão em São Paulo ontem. É o tal do voto eletrônico, aí".

Com a filiação de Sergio Moro ao Podemos, voltou a atacá-lo:

"Ele voltou à vida dele. Voltou a advogar para empresas que praticamente quebraram por ações dele. Mas tudo bem. É um direito de ele vir candidato".

No campo dos direitos, foi nomeado para a direção do Arquivo Nacional o funcionário aposentado do Banco do Brasil Ricardo Borda D'Água, ex-chefe da segurança da instituição.

No final de novembro soube-se que a visão diplomática de Bolsonaro levou-o a um vexame. O Brasil retirou a indicação do ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella para a embaixada do Brasil na África do Sul depois de seis meses de silêncio da chancelaria daquele país. Coisa rara, sinalizava que ele não era bem-vindo.

Bolsonaro tinha uma fixação em Moro e voltou a atacá-lo: "Não aguenta dez minutos de debate".

A pandemia já havia perdido fôlego, mas Bolsonaro continuava na sua militância negacionista e arrumou mais uma encrenca com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária:

"Estamos trabalhando com a Anvisa, que quer fechar o espaço aéreo. De novo, p…? De novo vai começar esse negócio?".

A Anvisa nunca havia proposto a medida.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, apoiava o negacionismo do chefe e deu-se a um momento filosófico:

"Às vezes é melhor perder a vida do que perder a liberdade". (Tratava-se da liberdade de não tomar vacina.)

No dia 10 de novembro, Bolsonaro retomou o seu bordão do Apocalipse:

"Ou todos nós impomos limites para nós mesmos ou pode-se ter crise no Brasil".

Revisitados, todos esses momentos de tensão vinham do nada e iam para lugar algum. Em nenhum caso envolviam a sadia discussão de políticas públicas. Serviam apenas para manter o país em clima de tensão.

A maior prova disso está no fato de que Sergio Moro e Jair Bolsonaro reencontraram-se durante os debates da campanha, com o ex-juiz, eleito senador, no cercadinho dos bolsonaristas.

Há tempo, Chico Buarque cantou seu "Vai Passar".

Passará.

Lula só resolveu parte fácil do quebra-cabeça de ministros

Só nas próximas semanas vai-se saber se governo terá arco das forças democráticas que barraram Bolsonaro

Lula anunciou os nomes de cinco ministros. Dois são petistas (Haddad e Rui Costa). Um, Mauro Vieira, é mais do mesmo, pois foi chanceler de Dilma Rousseff.

Faltam os demais. Por enquanto o presidente eleito resolveu a parte fácil do quebra-cabeça. Atendeu (e desatendeu) desejos de seu partido.

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), acompanhado do vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PT) e da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, apresenta seus primeiros ministros no teatro do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), sede do governo de transição, em Brasília - Pedro Ladeira - 9.dez.22/Folhapress

Só nas próximas semanas vai-se saber se Lula está a caminho do terceiro mandato com a ideia de um governo formado pelo arco das forças democráticas que barraram a reeleição de Jair Bolsonaro ou o que se passou a chamar de "frente ampla". As duas coisas parecem ser a mesma coisa, mas não são.

O arco foi simbolizado por Simone Tebet quando ela anunciou, em junho, que no segundo turno estaria no palanque da democracia. A chamada frente ampla formou-se depois e engordou até chegar à obesidade da cena desta segunda-feira, na cerimônia da diplomação.

O arco e a frente diferenciam-se pela extensão da pluralidade. Tebet pensa diferente de Lula em muitas questões. Já muitos dos matriculados na frente pensam cada vez mais como ele (e os seus sucessores).

O arco permitiu a formação do ambiente que derrotou Bolsonaro. Foi o alicerce da frente que elegeu Lula.

Como não se sabe quais serão os novos nomes, tudo o que se pode querer é que passem por um teste. Basta tentar lembrar a qualificação do novo ministro para o cargo em que será colocado. Quando não houver explicação, virá o cheiro de queimado.

PIADA PRONTA

Câmara produziu uma triste piada. Aprovou a prorrogação do incentivo dado a quem instala painéis de energia solar. Um passo no estímulo à geração de energia limpa.

No mesmo projeto, enfiaram um jabuti que incentiva a instalação de usinas térmicas, fonte de poluição.
Nada em segredo, tudo às claras.

A PROMESSA NO MURO

Durante a campanha eleitoral, Lula prometeu várias vezes criar uma Autoridade Climática para tratar as várias questões do meio ambiente. Seria um organismo que cuidaria do que se poderia chamar da grande política climática, livre do varejo das licenças, garimpos e queimadas.

A ideia era boa, mas está subindo no muro, por motivos ruins e banais.

Muniz Sodré - A síndrome de Onoda, FSP

 

O senso comum pode estar sendo exposto à "síndrome de Onoda". É um fenômeno esdrúxulo, semelhante ao "gaslighting", por sinal eleita a palavra inglesa do ano. Remonta a 1945, quando Onoda Hiroo, tenente do Exército Imperial japonês, negou-se a reconhecer o fim da Grande Guerra. Não foi caso único. Em São Paulo, também a "Shindo Renmei", uma organização terrorista, não admitiu a derrota do Japão.

Onoda comandava um pelotão na ilha de Lubang, nas Filipinas, com a missão de assegurar terreno para o desembarque de tropas. Escondeu-se trinta anos na selva, rejeitando evidências e sobrevivendo graças ao roubo de arroz, bananas e vacas. Odiado pelos camponeses, matou trinta dos que tentaram combatê-lo. A Shindo Renmei assassinou 23 e feriu 147 compatriotas da colônia nipo-brasileira, aos quais chamava de "corações sujos", por não compactuarem com a mentira delirante.

A "síndrome de Onoda" é uma hipótese viável para a atual mobilização golpista em frente a quartéis. Por um lado, há uma alcateia de financiadores, espécie sorrateira de lobo terrorista, acoitada nos desvãos retrógrados do agronegócio, no comércio atrasado e em obscuros escritórios da corrupção brasiliense. De outro, o rebanho em que ecoa a mentira lupina da fraude nas urnas. São ovelhas balindo estupidamente em aquiescência.

0
Manifestação antidemocrática de bolsonaristas golpistas em frente ao Quartel do Comando Militar do Sudeste, no bairro do Ibirapuera, zona sul da capital paulista O grupo pede intervenção federal e a anulação do pleito que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) presidente da República - Mathilde Missioneiro - 3.nov.22/Folhapress

O que há de comum à maioria dos afetados é a materialização de uma irracional obediência militarista. Onoda tinha feito um curso de comando cujo protocolo exigia assimilação total da doutrina imperialista japonesa. Ele falaria depois em "ideias fixas que nos faziam incapazes de aceitar qualquer coisa que não se encaixasse nelas". A Shindo Renmei tinha um fundo alucinatório semelhante, que culminava no fanatismo homicida. Na prática, uma iconografia ativa do ódio, de fácil propagação em comunidades suscetíveis ao extremismo, antes como hoje, com trágica incidência entre jovens.

Entretanto, fanáticos prosperam também na hipocrisia: eles podem fingir que não veem ou que não sabem. Onoda via passar aviões americanos, ouvia rádio e mensagens de compatriotas que tentavam fazê-lo regressar, mas permanecia inabalável. Os dirigentes da Shindo Renmei negavam-se a aceitar informações factuais.

Sob o mesmo manto de acomodação fascista, a chusma envolvida na atual conspirata antidemocrática adequa-se hipocritamente à síndrome negacionista. Aliás, ao ser resgatado da selva e anistiado, o já paisano Onoda Hiroo passou a viver como fazendeiro no Mato Grosso do Sul, cultuado como herói. Morto em 2014, o espírito parece continuar vagando, mas é outro o tempo. Nos EUA, esse "terrorismo do não" tem dado cadeia. Entre nós, as leis apontam na mesma direção.