sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Biografia comemora os 110 anos do nascimento de Luiz Gonzaga, FSP

 Nesta semana será celebrado em Exu, sertão pernambucano, os 110 anos de um dos maiores artistas da história da música popular brasileira, Luiz Gonzaga, nascido na minúscula cidade em 13 de dezembro de 1912. A data redonda enseja celebrações e uma das mais importantes é o livro lançado pelo pesquisador Paulo Vanderley, intitulado "Luiz Gonzaga 110 anos do nascimento".

O livro é um produto incomum no Brasil. A obra vem inserida numa caixa em que o fã é presenteado com cartazes de shows, capas de todos os LPs e rótulos de todos os compactos gravados pelo rei do baião, além de réplicas de documentos pessoais de Gonzagão.

Financiado por leis de incentivo à cultura e empresas privadas, o livro é magistral. De tamanho grande, com 110 fotos do artista, 110 reportagens históricas sobre Gonzaga e 110 depoimentos do próprio rei do baião, trata-se de uma obra fruto do esmero, paciência e dedicação de um autor-fã.

Cantor e compositor Luiz Gonzaga, durante show - Folhapress

O mais interessante da obra de Vanderley é sua interface digital. Ele coletou entrevistas em áudio que Luiz Gonzaga concedeu ao longo da vida e transformou em texto corrido, como se o próprio Gonzaga contasse sua história.

Em cada página há um QR Code para que o leitor ouça Gonzagão contar sobre sua infância sertaneja no sertão nordestino, o período em que esteve no Exército, a dura vida antes da fama e o sucesso do baião no Rio de Janeiro. Trata-se de uma obra artesanal, mas de qualidade profissional, que não está sendo vendida em livrarias, mas pela internet.

Vanderley é um pesquisador benquisto no meio do forró. Gerente do Banco do Brasil em Fortaleza, é um colecionador de relíquias da família Gonzaga. Nascido em Piancó, na Paraíba, em 1979, era figura conhecida da internet devido aos sites Gonzaguinha.com.br, criado em 1998, e LuizLuaGonzaga.com.br, montado em 2006.

Sua ligação com a família Gonzaga vem desde o fim dos anos 1980, quando seu pai, Paulo Marconi, também gerente do Banco do Brasil, foi transferido para Exu. Como figuras eminentes da minúscula cidade, Marconi e Gonzaga fizeram amizade. Quando o rei do baião morreu, em 1989, Vanderley filmou o velório com uma câmera amadora de seu pai. Já adulto, tornou-se um dos principais amigos e confidentes de Dominguinhos, considerados por muitos o herdeiro de Gonzagão na sanfona do forró.

Chama atenção o fato de que Gonzaga, além de ter tido uma vida muito interessante, conseguiu ter um rol de biógrafos para lá de competentes.

Em 1996 a francesa Dominique Dreyfus, que viveu sua infância no Brasil, publicou "A Vida do Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga". O livro é talvez a melhor biografia musical já escrita no país, não apenas pelo personagem, mas pelo trabalho cuidadoso da pesquisadora. Com uma escrita sedutora e muito sensível, Dominique conseguiu construir um Gonzagão humano, um gênio com defeitos e qualidades, de vida pessoal atribulada e fama inconteste.

Em 2006, a pesquisadora Regina Echeverria escreveu "Gonzaguinha e Gonzagão: Uma História Brasileira", biografia paralela de pai e filho, que viveram uma relação conflituosa. Esta ótima obra serviu de inspiração para o roteiro de "Gonzaga: De Pai pra Filho", lindo filme de Breno Silveira. Bem aceito por público e crítica, Breno Silveira conseguiu, como já havia feito em filmes anteriores, fazer dialogar o Brasil popular dos interiores e os dramas freudianos das classes médias refinadas e cultas, fazendo a ponte entre os diversos países sociais que temos dentro de nosso país.

O livro de Vanderley entra para este rol de grandes trabalhos e engrandece a trajetória de Luiz Gonzaga. Assim como os trabalhos de Dreyfus, Echeverria e Silveira, "Luiz Gonzaga: 110 Anos do Nascimento" servirá de fonte inescapável para todos aqueles que queiram entender o que foi a música brasileira do século 20.

Os donos da última palavra, Ruy Castro, FSP

 Militares costumam ser filhos de militares, netos de militares e pais de militares. Estudam em colégios militares, moram em vilas militares, frequentam clubes militares, casam-se com filhas de militares e comparecem às mesmas cerimônias militares. Ouvem a mesma música militar, assistem aos mesmos desfiles militares e absorvem os mesmos discursos militares. A Vila Militar, bairro da zona oeste onde moram 6.000 militares aqui no Rio, fortemente guardado, é um oásis. Há anos não tem um tiroteio. Anda-se por suas ruas a qualquer hora. Que bom.

Os militares se acham melhores do que nós, os paisanos. E devem ser mesmo. Têm crédito imobiliário próprio, direito à aposentadoria mais cedo e sistemas especiais de educação e saúde. Têm também uma Justiça exclusiva para se julgarem uns aos outros, o que lhes faculta infringir suas próprias regras, uma delas a proibição de militares da ativa de fazerem declarações políticas. É proibido, mas fazem. Militares jamais reconhecem que erraram. Qualquer crítica a eles é vista como revanchismo.

Como disse um general: "Todos os militares têm a mesma estrutura mental, o que os leva a, diante de um impulso, reagirem de forma padronizada. Os civis não. Cada um vê o problema por um ângulo diverso." Está vendo? Somos um caos, vemos os problemas por ângulos diversos.

Os militares acreditam que o artigo 142 da Constituição faz deles o poder moderador da República, donos da última palavra. Daí que, na composição de um ministério por um novo presidente, todo cuidado é pouco. A escolha de um ministro da Defesa tem de ser feita na ponta dos pés para não desagradá-los. E só deve ser nomeado depois de aprovado por eles. Enfim, nada de atiçar as fardas.

Aprendi tudo isso sobre os militares no excepcional livro "Poder Camuflado", de Fabio Victor, recém-lançado. Os militares também deviam lê-lo, para aprender sobre os militares.

O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia do Dia do Exército, com a Imposição da Ordem do Mérito Militar e da Medalha Exército Brasileiro - Gabriela Biló/Folhapress

Alvaro Costa e Silva A comadre Beth Carvalho, FSP

 O jogador de futebol Alcir Portella deixou a quadra do Cacique de Ramos, achou um orelhão (você lembra a época em que existia telefone público, utilizado mediante a inserção de fichas?) que por sorte estava funcionando e ligou para Beth Carvalho: "Tudo bem, comadre? Queria que você desse um pulo aqui na rua Uranos para conhecer um negócio. Ninguém vai pedir para você cantar nada. Tem uma comida de que você vai gostar. Vamos jogar um buraco...".

Alcir queria que Beth conferisse uma reunião informal, sempre às quartas-feiras, uma pelada entre amigos, uma galinhada com cerveja e depois uma roda de samba intimista, com o pessoal tocando banjo, tantã e repique de mão, cantando e improvisando versos debaixo de uma enorme tamarineira.

Cena do documentário 'Andança - Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho', dirigido por Pedro Bronz
Cena do documentário 'Andança - Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho', dirigido por Pedro Bronz - Divulgação

Ali nasceu, em meados dos anos 1970, o que mais tarde o mercado fonográfico batizaria de "pagode carioca", tendo à frente o grupo Fundo de Quintal e os compositores e cantores Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Almir Guineto, Luiz Carlos da Vila, Jovelina Pérola Negra. Mas era muito mais do que isso, verdadeira revolução no gênero, semelhante ao que fizeram os bambas do Estácio na década de 1920, formatando o samba da maneira como o conhecemos até hoje.

historiador e sambista Nei Lopes afirma: "O movimento que surgiu no Cacique de Ramos tem o mesmo peso da revolução da bossa nova. E vai além, porque inovou reverenciando a tradição, trazendo para os holofotes a arte e a inteligência do partido alto".

Beth não saiu mais do Cacique, a ponto de Bira, o presidente do clube e do bloco de embalo, sugerir a construção na quadra de um banheiro feminino, que se chamaria Beth Carvalho. A cantora, educadamente, recusou a homenagem. Mas levou aquela vitalidade sonora para seu disco de 1978, "De Pé no Chão", cuja história acaba de ser contada em um livro recém-lançado do jornalista Leonardo Bruno.