sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Cinco países podem adicionar 2,2 milhões de empregos com energia eólica; Brasil está na lista, Diálogos da Transição EPBR

 Relatório divulgado hoje pelo Conselho Global de Energia Eólica (GWEC, na sigla em inglês), aponta que uma recuperação verde movida a energia eólica pode criar mais de 2,2 milhões de empregos em cinco países.


Esses novos postos de trabalho seriam gerados ao longo de uma vida útil de 25 anos de projetos eólicos e quase 20 gigawatts (GW) de instalações adicionais no Brasil, Índia, África do Sul, México e Filipinas.

Ainda de acordo com o documento, os 20 GW seriam suficientes para abastecer cerca de 25 milhões de residências a cada ano a partir de 2026 e potencialmente evitar a emissão de 714 milhões de toneladas de CO2 equivalente durante a vida útil dos parques.

O cálculo é feito sobre quanto poderia ser adicionado além do que está previsto.

No Brasil, o cenário de recuperação verde do GWEC considera que a instalação de 16 GW de capacidade – ante os 11 GW previstos atualmente – entre 2022-2026, poderia criar 1,35 milhão de empregos no país.

No cenário de 11 GW, que considera os contratos assinados atualmente, a previsão é de 750 mil postos de trabalho.

O Brasil fica atrás apenas da Índia. No país asiático, está programada a instalação de 21,5 GW até 2026, mas o GWEC indica um potencial de chegar a 31,2 GW, elevando a quantidade de oferta de trabalho de 1,5 milhão para 2,65 milhões.

A organização calcula que, para alcançar o objetivo internacional de limitar o aquecimento do planeta a 1,5°C até o final do século, o volume anual de instalações de energia eólica deve aumentar cerca de quatro vezes na próxima década.

“À medida que entramos em 2022, estamos vendo a geração a carvão no caminho para atingir um pico recorde, os preços do gás natural em máximas históricas e – como previsto – as emissões se recuperando juntamente com a recuperação econômica”, comenta Ben Backwell, CEO do GWEC.

O executivo afirma que o setor é particularmente atraente para economias emergentes onde a transição energética se torna mais complexa.

É preciso eliminar combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, garantir crescimento econômico e atender à demanda de eletricidade em rápida expansão.

“A recuperação verde, incluindo estímulos e investimentos públicos direcionados, bem como reformas políticas que melhorem o ambiente propício para uma economia verde, podem contribuir muito para colocar o mundo no caminho certo para atingir as metas climáticas internacionais e aumentar a resiliência do sistema energético”, completa.

Embora o relatório inclua apenas cinco estudos nacionais, resultados semelhantes podem ser alcançados por outros países. Veja a íntegra em inglês (.pdf) 

A análise da experiência internacional da indústria descobriu que normalmente uma taxa de instalação de 1 GW/ano ao longo de cinco anos poderia criar quase 100 mil novos empregos e US$ 12,5 bilhões de valor agregado bruto para as economias nacionais ao longo da vida útil dos parques eólicos.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Cemitério de Petrópolis abre novas covas rasas, e mãe e crianças são enterradas juntas, FSP

 Júlia Barbon

PETRÓPOLIS (RJ)

A cada meia hora, uma nova família sobe o morro coberto de mato. Aos poucos, os buracos recém-cavados vão sendo preenchidos. A tarde no Cemitério Municipal de Petrópolis seguiu assim nesta quinta (17), dois dias depois da chuva que arrasou a cidade e matou ao menos 110 pessoas.

Por volta das 15h, foi a vez de um caixão grande marrom e dois pequenos brancos. Era a mãe, Débora Lichtenberger Moreira, 22, e os dois filhos: Gustavo Lichtenberger Rodrigues, 5, e Heloise Lichtenberger Rodrigues, 2.

O pai mancava com a ajuda de uma muleta porque, segundo a amiga Daniele Descheper, 27, havia sofrido um acidente de trânsito alguns dias antes. Soube da morte de toda a família quando ainda se recuperava no hospital.

Debora Listenberger Moreira e seus dois filhos são sepultados no Cemitério Municipal de Petrópolis - Eduardo Anizelli/Folhapress

Débora foi encontrada como se mexesse no celular quando o muro de concreto de sua casa caiu sobre ela com a força de uma tromba d’água, diz Daniele. O menino mais velho ainda chegou a ser levado ao hospital com vida, mas não resistiu. "Estava irreconhecível", afirma a amiga.

Os três foram atingidos juntos por volta das 17h30, enquanto estavam tentando se proteger dentro do único quarto que desabou, segundo o cunhado Gerson Souza contou ao UOL.

Moravam no bairro Moinho Preto, que de acordo com a amiga não é considerado uma área de risco, mas teve uma das ocorrências mais graves registradas pela Defesa Civil naquele dia. Nas redes sociais, Débora exibia fotos com as crianças e se declarava: "Meus filhos, minha vida".

Logo depois, chegava outro carro funerário. Depois outro, num cortejo que se estendia pela rua do cemitério. No imóvel amarelo da esquina, parentes e amigos se abraçavam numa rampa de acesso às quatro ou cinco salas de velório, todas lotadas.

A prefeitura descartou a possibilidade de fazer um grande enterro coletivo, "para respeitar a programação dos familiares", e agendou um a cada cerca de 30 minutos. Reforçou o número de profissionais para exumação e sepultamento e cavou novas covas rasas.

Menos profundos, os buracos recebem os caixões direto na terra, são mais baratos de construir e mais fáceis para eventualmente retirar os restos mortais. Uma via dentro do cemitério chegou a ficar coberta pela lama que deslizou de um dos morros próximos.

Ainda falta muita gente para ser sepultada, diz Daniele com uma lágrima no canto do olho que não cai. Só nesta quarta (16), viu e ajudou a retirar oito corpos de crianças do Morro da Oficina, onde o maior deslizamento da cidade levou cerca de 80 casas.

O enterro de Débora, Gustavo e Heloise foi a única coisa que a fez deixar os resgates nos morros nos últimos dois dias, de poucas horas de sono. Petrópolis continua mobilizada para encontrar os ao menos 116 desaparecidos da tragédia, segundo o último número do Ministério Público.

Corpo de uma das vítimas do Morro da Oficina é enterrado no Cemitério Municipal de Petrópolis - Eduardo Anizelli/ Folhapress

As buscas chegaram a ser paralisadas na tarde desta quinta, quando um forte temporal atingiu novamente o município e fez a Defesa Civil acionar as 14 sirenes do primeiro distrito. A chuva durou cerca de meia hora.

Durante o dia, o cenário na cidade era de moradores limpando suas casas e comércios, sirenes de viaturas e ambulâncias passando de um lado para o outro e voluntários circulando com doações por escolas e igrejas, sob um cheiro forte de lama misturada com lixo.