sábado, 18 de setembro de 2021

TJ-SP corta aumento salarial dado a servidores pelos próprios juízes do tribunal, FSP

 

SÃO PAULO

Com dificuldades em ajustar suas contas desde 2019, o Tribunal de Justiça de São Paulo exonerou 16 funcionários de cargos comissionados após eles terem conseguido um aumento salarial por meio de decisões judiciais de magistrados do próprio órgão.

De um lado, as remoções têm sido consideradas represália pela defesa de outros funcionários que ocupam os mesmos cargos e pedem aumento na Justiça. De outro, o TJ-SP afirma que elas são necessárias para manter a higidez orçamentária.

O caso envolve os chamados assistentes judiciários, que são funcionários de carreira do TJ-SP que passam a exercer a função de auxiliar juízes de primeira instância. Na segunda instância, há os assistentes jurídicos, que não são necessariamente servidores de carreira e auxiliam os desembargadores.

Ambos os cargos cumprem funções como a de realizar pesquisas para os juízes e ajudar em despachos e auxílios em audiência.

Os assistentes judiciários dizem que embora as funções sejam as mesmas, o salário dos assistentes jurídicos é de R$ 5.000 a mais. Enquanto os servidores da primeira instância ganham aproximadamente R$ 7,2 mil, os de segunda instância ganham R$ 12,3 mil.

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Esses assistentes de primeira instância passaram, então, a procurar a Justiça —ou seja, juízes do próprio TJ-SP— para garantir que os salários fossem equiparados, sob o argumento de que uma resolução de 2016 do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) garante isso.

A resolução diz que as carreiras dos servidores de cada TJ do país devem ser "únicas, sem distinção entre cargos efetivos, cargos em comissão e funções de confiança de primeiro e segundo graus".

O CNJ ainda discute a obrigatoriedade do cumprimento dessa resolução em todo o país. Há um procedimento que aguarda decisão no conselho.

Parte dos assistentes judiciários, os 16, ganharam esse aumento em decisões individuais, inclusive com determinação de pagamentos retroativos.

Outros mais de 1.000 entraram com uma ação civil pública por meio da Asjusp (Associação dos Assistentes Judiciários do Estado de São Paulo) na 2ª Vara da Fazenda Pública em Ribeirão Preto, que ainda não tem decisão.

Mas os 16 assistentes que conseguiram aumento foram removidos dos cargos em agosto e tiveram que voltar às suas funções de origem, o que passou a preocupar os outros funcionários com ações na Justiça e também os magistrados que tinham esses auxiliares em seus gabinetes.

Por esse motivo, parte dos integrantes da Asjusp desistiu de integrar o processo.

"Ter uma desistência de mais de 100 pessoas numa ordem de 1.300 assistentes é bem expressivo, isso mostra o receio que eles têm e o que esse ato de nítida represália representa para os assistentes", diz o advogado Joffre Petean Neto, que representa a entidade.

Segundo relatos de envolvidos, as remoções dos assistentes fizeram o clima pesar entre a direção do TJ-SP, servidores e demais magistrados. Tiveram que chamar a Apamagis (Associação Paulista de Magistrados) para mediar o conflito.

Em uma mensagem divulgada internamente no mês passado, a presidente da entidade, Vanessa Mateus, afirma que conversou com a assessoria do TJ e que "nenhum juiz será processado em virtude de decisão proferida a esse respeito" e que "nenhum assistente perderá o cargo por estar afiliado à associação" ou por ter "ajuizado a demanda".

"O que ocorre é que, nos casos em que houve trânsito em julgado de procedência, há determinação para que o TJ equipare o salário ao assistente de segundo grau. Como essas demandas têm efeito multiplicador, calcula-se impacto anual de 423 milhões de reais, valor que o TJ não tem condições de suportar no momento", disse ela.

"Então, a fim de evitar o acúmulo de despesas, nos casos em que há determinação de pagamento equiparado, será cessada a nomeação como assistente, devendo o funcionário retornar ao cargo. Paga-se o que ficou para trás, mas evitam-se novos pagamentos."

Ao menos desde 2019 o Tribunal de Justiça de São Paulo tem enfrentado dificuldades em suas despesas com pessoal, para não ultrapassar os limites previstos na Lei de Responsabilidade Fiscal.

Ano passado, o TCE (Tribunal de Contas do Estado) flexibilizou um acordo que havia feito com o TJ para que o órgão da Justiça reduzisse progressivamente o percentual de suas despesas com pessoal até 2021. O prazo para que esse ajuste chegue ao fim passou para 2023.

Ainda assim, tem havido a autorização de benefícios para magistrados, como a aprovação do pagamento de auxílio-saúde a magistrados da corte em dezembro de 2020.

Na ação, a Procuradoria-Geral do Estado (ou seja, a defesa jurídica do estado) contesta e diz que as funções dos assistentes de primeira e segunda instância não é a mesma e é exercida em locais diferentes.

Menciona, ainda, o impacto orçamentário que a equiparação causaria nos cofres do TJ-SP.

Na ação, os advogados do próprio Tribunal de Justiça também dizem que o presidente da corte teria que enviar um projeto de lei para a Assembleia Legislativa para que esse aumento fosse possível e que um texto com esse impacto orçamentário seria “de uma temeridade que não pode ser patrocinada pela Presidência deste Tribunal”.

O atual presidente do TJ-SP é o desembargador Geraldo Pinheiro Franco.

Já a Asjusp contratou parecer contábil que aponta que existe margem fiscal e orçamentária para que o tribunal suporte os gastos com a equiparação salarial dos assistentes judiciários à dos assistentes jurídicos.

Procurada, a presidente da Apamagis, Vanessa Mateus, diz que atuou nesse caso “no sentido de levar as preocupações dos associados ao nosso órgão máximo, função de uma dirigente de classe e representante de quase 3 mil magistrados”.

O Tribunal de Justiça de São Paulo afirma que as exonerações aconteceram “considerando as graves dificuldades orçamentárias e o acréscimo de custos não planejados neste momento de esforço e restrições econômicas”.

“A cessação dos cargos em comissão desses servidores visa à manutenção da higidez financeira, fiscal e orçamentária do Tribunal de Justiça de São Paulo”, diz a corte. “O impacto anual, com extensão de igual benefício a todos os demais assistentes judiciários, seria de R$ 423 milhões”.


'Na nova era do conhecimento, bilhões são gerados sem a criação de um único emprego', diz economista, FSP

 

BRASÍLIA

O economista Ladislau Dowbor se surpreendeu com o drama financeiro enfrenado por uma amiga. Intelectual, com curso de mestrado, ela pegou R$ 4.000 emprestados de um grande banco de varejo. Até agora, pagou R$ 5.000. Mas ainda está devendo R$ 8.000.

O que poderia ser considerado mais um caso de juros abusivos no mercado brasileiro é, na verdade, um indicativo do quão poderoso se tornou o sistema financeiro mundial. Aliado à tecnologia proporcionada por algoritmos mais precisos e velozes, o mundo das finanças minou o setor produtivo e, consequentemente, o trabalho e a renda, diz Dowbor, professor titular de pós-graduação da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

O que vem agravando a situação do trabalho no mundo é a economia intangível, baseada no conhecimento.

“Antes, o enriquecimento dos grandes grupos na indústria ou nos serviços dependia da geração de empregos”, afirma o economista, que já atuou como consultor de diversas agências das Nações Unidas, governos e municípios, além de várias organizações do sistema “S” no Brasil. Recentemente, suas pesquisas giram em torno das dinâmicas do sistema financeiro nacional e internacional.

Para fazer sapatos, por exemplo, diz ele, o empresário contratava gente, gerava o produto para a sociedade e pagava impostos ao governo, ficando com o lucro da operação.

Homem idoso de óculos
Formado em economia política pela Universidade de Lausanne, Suíça, e doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, Polônia, o professor da PUC-SP, Ladislau Dowbor, 80, observa o aumento dramático da desigualdade no mundo, com a concentração cada vez maior de fortunas no topo da pirâmide social - Divulgação

“Mas na economia imaterial, o enriquecimento não é de quem produz, mas de quem intermedeia o processo”, diz. “O dinheiro que movimenta a economia hoje não é de papel, virou um sinal magnético. Apenas 3% da liquidez vêm das células. Sobre cada operação, existe uma tarifa de 2,5% a 5% paga por todos nós, do rico ao favelado."

Dowbor, cita como exemplo grandes bancos no Brasil que, entre o segundo trimestre de 2020 e o segundo trimestre de 2021, aumentaram seus lucros em mais de 100%. “Isso com a economia parada”.

Ele vai além e destaca os 42 brasileiros que entraram na lista de bilionários da revista Forbes, que tem 315 nomes. “Entre 18 de março e 12 de julho de 2020, um período em que a economia estava em crise profunda com a pandemia, estas pessoas acumularam uma fortuna pessoal de US$ 34 bilhões [R$ 180,5 bilhões]. Com isso, seria possível pagar seis anos de Bolsa Família a 50 milhões de pessoas."

São fortunas que se geram sem empregos, com lucros e dividendos que não pagam impostos, diz o economista. A exceção são os empregados do mercado financeiro voltados à gestão de grandes fortunas que, com a ajuda da tecnologia, fazem girar este sistema.

“Vemos um aumento dramático da desigualdade no mundo, com a concentração cada vez maior de fortunas no topo da pirâmide social”. Enquanto isso, diz, a classe média fica reduzida à “gig economy”, à economia dos bicos, que ganhou impulso na era do conhecimento.

“Parte dos R$ 20 que paguei por uma corrida de Uber da Lapa [zona oeste de São Paulo], onde moro, ao centro, vai para os acionistas da empresa nos Estados Unidos”, diz.

“Todo este sistema gera fortunas espantosas, são os algoritmos substituindo o trabalhador”, diz ele, autor ou coautor de 45 livros, a maioria acessível gratuitamente em seu site. Uma das obras mais recentes é “O capitalismo se desloca: novas arquiteturas sociais” (Edições Sesc), em que aborda a atual transição para outro modo de produção, que deixa para trás a era industrial e inaugura a era do conhecimento.

Corporações como a Alphabet, dona do Google, e o Facebook faturam trilhões de dólares cada uma, mais do que o PIB do Brasil, destaca Dowbor. “E elas fazem apenas a intermediação da comunicação. Não pagamos nada para usar seus serviços, mas elas vendem publicidade. Os anunciantes incorporam estes custos ao preço dos seus produtos ou serviços, pelos quais pagamos."

O especialista lembra que, no Brasil, 31,5 milhões estão empregados em regime CLT, enquanto outros 11,8 milhões são funcionários públicos, o que gera um montante de 43,3 milhões de empregos formais. Mas o país soma 35 milhões de empregos informais, cuja renda atinge, em média, a metade da renda de um empregado.

“Existe uma enorme subutilização da força de trabalho no Brasil”, diz Dowbor. Além dos informais, o país tem 5,6 milhões de desalentados e 14,4 milhões de desempregados.

“São cerca de 55 milhões de pessoas que deveriam estar produzindo e não estão. Ver tantas coisas por fazer e ver tanta gente parada é de uma irracionalidade absurda”, afirma.

Em muitos locais na Europa, conta, as cidades são envolvidas por um cinturão verde, que gera empregos e recursos para os municípios, a partir de políticas locais de desenvolvimento integradas à comunidade.

Dowbor defende que esta subutilização e estrutural e não se trata mais de um desemprego conjuntural. “É uma piada dizer que o mercado de trabalho se resolve sozinho”, diz. “O nível de desemprego dos jovens de 16 a 29 anos já chega a 31%”, afirma.

“Muitos são de classe média e, não por acaso, quase metade deles quer deixar o país, por falta de oportunidades de trabalho."