domingo, 12 de setembro de 2021

O cafezinho de Rubem Braga, OESP

 Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2021 | 03h00

O capixaba Rubem Braga nasceu em 1913. Cursou Direito em Minas, porém, logo foi atraído para a carreira de jornalista. Ainda adolescente, já publicava textos no jornal da sua cidade, Cachoeiro do Itapemirim. A cidade sempre seria lembrada pelo filho mais conhecido, Roberto Carlos, mas, além de Rubem (e seu irmão Newton), também são cidadãos ilustres de lá os controversos Carlos Imperial e Luz del Fuego. 

Rubem Braga foi preso pelo Estado Novo. Libertado, foi cobrir a ação brasileira na Itália. A carreira profissional de Rubem incluiu escrever em jornais e revistas, traduzir, adaptar histórias, fazer parte do serviço diplomático brasileiro. Em outras palavras: um escritor deve fazer muitas coisas para sobreviver. Cada experiência de Rubem acrescentava dados aos seus textos: a paisagem do Chile, as pontes de Paris, uma aventura amorosa no exterior...

Rubem Braga fez muitas coisas. Em uma, ao menos, ele atingiu a imortalidade: a crônica. Havia uma boa tradição de escritores de jornais e de revistas. Na geração anterior, temos o exemplo fecundo do carioquíssimo João do Rio (1881-1921). De alguma forma, todos os cronistas herdavam a tradição de Machado de Assis: o estilo com humor, a frase curta, o olhar agudo e uma lição de estilo a cada texto. Com Rubem Braga, cada vez mais, ao longo da sua carreira, firmou-se a diferença do articulista (que emitia uma opinião, quase sempre política) e do cronista, que elegia coisas do cotidiano e dava-lhes uma dimensão trabalhada de universo em miniatura. 

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Antonio Candido (1918-2017) defendeu a crônica pela leveza e proximidade com o leitor. Porém, de muitas formas, pespegou uma classificação que seguiria o gênero por muito tempo: “Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse. Portanto, parece mesmo que a crônica é um gênero menor”. O crítico faz elogios entremeados de suspeição aos “temas ligeiros” dos cronistas. Sim, comenta Candido, em um país de tradições bacharelescas, a crônica simplificou a linguagem e a tornou “natural”. Mas... gênero menor. Fico imaginando o que escreveria Antonio Candido se soubesse que o Nobel de Literatura, em 2016, não foi atribuído a um cronista, todavia a um escritor conhecido por fazer... letras de música: Bob Dylan. Pior: o compositor norte-americano decidiu que não era o caso de se deslocar até Estocolmo para receber o prêmio. Seria melhor terem escolhido um cronista?

No livro As Cem Melhores Crônicas Brasileiras do Século XX (seleção de Joaquim Ferreira dos Santos, ed. Objetiva), o primeiro nome da capa é o de Rubem Braga. Se você juntar a esse volume outros dois (organização de Ítalo Moriconi – Os Cem Melhores Poemas e Os Cem Melhores Contos), você terá uma leitura muito agradável para um período de descanso e de reflexão. Os organizadores fazem uma “playlist” muito útil para o leitor que deseja apenas obras-primas. 

Rubem Braga
Rubem Braga Foto: Celio Jr./Estadão

Fazer de cada gesto da vida uma capacidade lírica única; extrair beleza de uma luva esquecida por uma moça, de um lindo pé de álamo que ele indica ser a origem da palavra alameda, contar ao leitor uma cena do Marrocos (onde foi embaixador) ou uma memória das frutas colhidas na sua cobertura na Rua Barão da Torre, em Ipanema: assim transcorrem as narrativas de Braga. Ele prestava muita atenção às mulheres e deixava transparecer sua sensibilidade ao encanto do feminino em termos intensos. Era bastante solitário, a julgar por seus textos e testemunho de amigos. As estações não se alternavam sem que o escritor sentisse cada novo tom no céu ou se o ar estava fino ou denso. Conversava com os porteiros e com os taxistas com entusiasmo. Dos diálogos com tudo e todos surgia uma reflexão quase constante. Avesso a muitos debates sobre limites de gêneros, quando pediam para dizer o que escrevia e o que era o seu fazer literário, ele definia, humorado: “Se não é aguda, é crônica”.

Comentando a irritação de um homem que aguarda em demasia um delegado que alegava ter ido tomar um cafezinho, acaba aconselhando: “Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo: – Ele disse que ia tomar um cafezinho… Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão: – Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí… Ah! fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim. A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não estar. Quando vier a grande hora de nosso destino, nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos, vamos tomar um cafezinho”.

Rubem Braga faleceu no dia 19 de dezembro de 1990. Tinha acabado de entregar sua última crônica para o EstadãoA Paz de Santa Maria de Maricá. Eu o tinha conhecido pela coleção do Ensino Fundamental: Para Gostar de Ler (ed. Ática). Foi um mestre que adorava pessoas nadando, mulheres e amendoeiras. Morreu? Talvez tenha saído para um cafezinho naquele balcão onde bebericam da rubiácea tantos homens e mulheres de talento. Gostaria, com esperança, de partilhar desse cafezinho.

* Leandro Karnal é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, autor de A Coragem da Esperança, entre outros

Ocaso de um império e ‘À espera dos bárbaros’, OESP

 Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2021 | 08h00

Vinte anos depois, o 11 de Setembro de 2001 ainda não parou de produzir consequências.

A acachapante derrota da maior potência militar do mundo para o Afeganistão – um país pobre, cujo PIB per capita é de pouco mais de US$ 500 por ano – e a desastrada retirada de Cabul pelas forças aliadas tendem a mudar a estratégia de defesa dos Estados Unidos contra os ataques terroristas.

Dia 31 de agosto, em pronunciamento à nação, o presidente Joe Biden avisou que seu país não mais combaterá o terrorismo por meio de guerras territoriais. Embora não tenha dito como seriam guerras assim, pode-se imaginar que a partir de agora será dada prioridade a reconhecimentos de inteligência e a operações táticas.

Mas a percepção geral de ocaso de um império, ou, se não disso, pelo menos de ocaso do exercício de um tipo de poder imperial, se alastrou pelo resto do mundo.

Por toda a parte, a forma democrática de governo vem sendo ameaçada. Permeia tudo não só a sensação de cansaço, mas, também, a de que as fronteiras – não só as físicas, mas também as psicológicas – vêm sendo desrespeitadas por forças até agora distantes e que não se conhecem muito bem.

Ao mesmo tempo, furacões, inundaçõesincêndios florestais e desastres de toda ordem multiplicam os sintomas de que o planeta não apenas está sendo devastado, mas, também, está seriamente doente. E, no entanto, os maiorais dos Estados e das Nações não chegam a um acordo sobre o que fazer nem parecem convencidos de que algo urgente precisa ser feito para evitar o pior.

Konstantínos Kaváfis
O poeta alexandrino Konstantínos Kaváfis é autor de 'À espera dos bárbaro', considerado um dos mai notáveis poemas do século passado. Foto: Reprodução. 

A prática política e o modo de vida vigente até recentemente parecem estar em perigo. Apesar das centenas de milhares de estudos sobre o assunto, esse estado de espírito e de inquietação geral pode ser melhor traduzido pelo cinema, pela literatura e pelas artes plásticas

No início do século 20, o poeta Konstantínos Kaváfis (1863-1933), natural de Alexandria, publicou em grego moderno, um poema que antevê com impressionante acuidade esse estado de espírito prostrante. O maior crítico literário do Brasil, Antonio Candido (1918-2017), dedicou a ele a quarta parte do seu livro O discurso e a cidade (Editora Duas Cidades). Para ele, este é um dos poemas mais importantes do século. Em poucos, mas contundentes versos expressou essa sensação difusa de um inimigo que está para chegar, mas que pode não chegar. Aí vai a transcrição a partir da tradução livre da versão em espanhol (Editora Seix Barral): 

– À espera dos bárbaros

“– O que esperamos todos reunidos nesta praça?

É que hoje chegam os bárbaros.  

 

– Por que há tão pouca atividade no Senado? Por que a paralisia dos senadores? Por que não aprovam novas leis?

Porque hoje chegam os bárbaros.

Que leis poderiam votar os senadores? Quando chegarem, as votarão os bárbaros.  

 

– Por que o imperador levantou-se tão cedo e à porta principal da cidade segue sentado solenemente em seu trono, portando sua coroa?

Porque hoje chegam os bárbaros. 

Nosso imperador está à espera do seu chefe. Inclusive, preparou um pergaminho para ele. E lhe conferiu nomeações e títulos sem conta.  

 

– Por que nossos dois cônsules e os pretores se apresentam hoje com suas togas recamadas de púrpura? Por que esses braceletes e tantas ametistas e anéis de esmeraldas cintilantes? Por que empunham bastões preciosos lavrados maravilhosamente em ouro e prata?

Por que hoje chegam os bárbaros e essas coisas os deslumbram. 

 

– Por que os dignos oradores não vêm, como sempre, proferir discursos e perorações?

Porque hoje chegam os bárbaros e eloquência e arengas os aborrecem. 

 

– Por que, de repente, essa inquietude e essa confusão? Que seriedade nesses rostos! Por que rapidamente ruas e praças se esvaziam e todos voltam para suas casas tão preocupados?

Por que anoiteceu e os bárbaros não apareceram. Algumas pessoas que vêm da fronteira nos contam que não há sinal dos bárbaros. 

 

E agora, o que será de nós sem os bárbaros? Eles eram uma certa solução.”

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA


Indústria e protecionismo, OESP

 Affonso Celso Pastore, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2021 | 05h00

Entre 2007 e 2020 a produção industrial do mundo cresceu 30%, enquanto a do Brasil caiu 10%, permanecendo estagnada desde 2015. É uma diferença chocante, mas para a decepção de alguns não pode ser atribuída nem ao câmbio, que desde 2015 tem sido extremamente competitivo, nem à taxa real de juros, que nunca foi tão baixa. 

Por que a indústria brasileira não cresce? Seu desempenho pífio não é consequência da conjuntura desfavorável de 2008/09 e dos meses iniciais da pandemia. Tem origem em uma doença bem mais grave e duradoura, que é o protecionismo. Inicialmente ele foi benéfico, favorecendo a “indústria nascente” e gerando taxas elevadas de crescimento.

Foi uma consequência dos leilões de vendas de promessas de câmbio, após o término da 2.ª Guerra Mundial, com maior oferta de divisas para as importações de bens de capital, e o estímulo se manteve com a unificação cambial e a criação de uma escala tarifária, em 1953. 

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Assim nasceu a indústria de bens de consumo, mas era preciso fazê-la crescer e competir com os concorrentes ao redor do mundo. Antes de ser um empecilho, a competição contribui para o aumento da produtividade, e um primeiro movimento na direção correta foi a redução de tarifas, no Paeg, mas tudo voltou atrás com o II PND.

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Brasil tem exportação recorde de commodities, mas muito pouco em manufaturados Foto: J.F.Diorio/Estadão

No governo Collor foi feita mais uma tentativa de abertura, mas a mobilização das forças em favor do protecionismo prevaleceu, ampliando o uso de instrumentos como os altos índices de conteúdo nacional combinados com estímulos fiscais a setores específicos.

Qual foi o resultado? Decorridos mais de 70 anos do final da 2.ª Guerra Mundial, ainda temos indústrias que para produzir precisam de proteções efetivas de 70%, como nos casos de caminhões, ônibus, automóveis e carrocerias, e de aproximadamente 40% para os setores têxtil e de vestuário, que foram os primeiros a nascer e estão chegando à velhice sem terem se tornado competitivos. 

Em 1990, antes da tentativa de abertura comercial do governo Collor, a tarifa nominal média no Brasil era de 45%, e a tarifa efetiva era de 32%. Atualmente, nossa tarifa média está em torno de 26%, com uma tarifa efetiva de 12,2%, sendo que 18 setores industriais têm tarifa efetiva igual ou maior do que a média. 

No último ano festejamos o sucesso das exportações de commodities, mas amargamos o péssimo resultado das exportações de manufaturas. Tal fracasso não pode ser atribuído ao câmbio, e sim à ineficiência industrial gerada pelo protecionismo. A ela temos de somar as distorções da tributação de bens e serviços.

Para ser neutro sobre as exportações (e a alocação de recursos), tal imposto deveria ser arrecadado na sistemática de um IVA perfeito, através de débitos e créditos tributários financeiros, com alíquotas uniformes. Há plena consciência de todos os defeitos da atual forma de tributação, mas até aqui tem sido impossível superar os interesses dos governadores e dos empresários beneficiados. 

No livro The Power of Creative Destruction, Aghion e coautores analisam esses problemas sob a ótica da “destruição criadora”. Para crescer é preciso inovar, e as inovações são geradas por empresas com visão moderna, que com isso obtém rents (excessos de lucros) temporários que estimulam os investimentos em novas técnicas, aumentando a produtividade.

Mas tal movimento colide com os interesses das empresas com visão antiga, cujos rents caem. Para defender seus interesses, estas últimas estreitam os laços com políticos – com legisladores e com o próprio governo –, criando barreiras que impedem a entrada dos inovadores e que mantém seu poder de mercado. 

Visões distorcidas como estas prevalecem por algum tempo, mas mudam diante dos fatos. Três líderes industriais modernos, Pedro Passos, Horácio Lafer Piva e Pedro Wongtschowski utilizam argumentos consistentes com o paradigma da “destruição criadora” quando afirmam que há “um desperdício de talentos e oportunidades, fruto de políticas erradas e da falta de coragem na adoção de uma agenda de integração global, que nos colocou distantes da busca prioritária da produtividade”.

Na sua visão, tanto quanto na minha, o problema é que, independentemente da idade cronológica dos industriais, a nossa indústria envelheceu. 

Avaliado pela capacidade de garantir os rents das empresas com visão antiga, o protecionismo tem sido um sucesso. Mas, avaliado pela capacidade de elevar o crescimento em benefício da sociedade como um todo, o resultado é péssimo. 

EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL E SÓCIO DA A.C. PASTORE & ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE