domingo, 23 de agosto de 2020

Samuel Pessôa - Avaliação do Minha Casa Minha Vida, FSP

 Há pressão para que o investimento público se eleve. Há algumas semanas resenhando o livro “As políticas da política”, anotei que o maior problema dele era a baixa preocupação em avaliar os impactos das políticas públicas. O volume tinha um quê de “gasto é vida”.

Resolvi olhar com um pouco mais de cuidado os dados do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV). De 2009 a 2015, foram gastos com subsídios R$ 106 bilhões. No mesmo período foram entregues 1,8 milhão de novas unidades para a baixa renda.

Houve expressiva redução do déficit habitacional? Segundo os relatórios da fundação João Pinheiro, de Minas Gerais, o déficit em 2009 era de 5,1 milhões de unidades. Segundo a mesma fundação o déficit em 2015 se elevou para 5,5 milhões! Ou seja, apesar de enorme expansão de novas unidades, houve elevação do déficit habitacional em 0,5 milhão de unidades.

Vista aérea de casas padronizadas do programa Minha Casa Minha Vida, no bairro Vida Nova Manacá II, no distrito de Padre Nóbrega, na periferia de Marília, região centro-oeste do estado São Paulo
Vista aérea de casas padronizadas do programa Minha Casa Minha Vida, no bairro Vida Nova Manacá II, no distrito de Padre Nóbrega, na periferia de Marília, região centro-oeste do estado São Paulo - Alf Ribeiro - 29.abr.2019/Folhapress

É possível que, no intervalo de seis anos entre 2015 e 2009, a quantidade de famílias vivendo em condições precárias tenha crescido tanto que o esforço da política pública não tenha sido suficiente. Mas não deve ter sido o caso, pois a série histórica da fundação João Pinheiro, que vai de 2000 até 2015, não apresenta nenhuma mudança de comportamento após a criação do programa MCMV.

Mesmo assim, suponhamos que, entre os seis anos de 2009 a 2015, teria havido, na ausência do programa, um crescimento do déficit habitacional em 1,0 milhão de unidades, por volta de 1/5 do déficit total em 2000.

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Essa hipótese já é extremamente forçada, porque supõe um ritmo pelo qual todo o nosso déficit habitacional teria sido construído nos últimos 30 anos.

Basta ler o clássico “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, para saber que isso é implausível.

De qualquer forma, nesse caso, o déficit em 2015 teria sido de 6,1 milhões (5,1+1,0). Como o déficit observado foi de 5,5 milhões, o programa MVMC teria contribuído para reduzir o déficit em 600 mil unidades. Ou seja, das 1,8 milhão de unidades entregues, houve desperdício de 1,2 milhão de unidades, perda de 2/3!

No esforço de enfrentar difícil situação fiscal no orçamento de 2021, o governador João Doria enviou para a Assembleia Legislativa do Estado (Alesp) o Projeto de Lei 529. No 14º artigo, o PL transfere ao Tesouro Estadual o superávit financeiro das Universidades e da Fapesp.

Não parece ser uma boa ideia. As universidades e a Fapesp, por terem sua receita vinculada do ICMS, estão sofrendo todos os efeitos da crise e da queda de receita.

Por outro lado, o superávit financeiro é o instrumento para garantir a autonomia financeira dessas importantes instituições da ciência brasileira. Em particular, a Fapesp deve ser o exemplo para uma futura reforma administrativa: somente 5% de seu orçamento é gasto com atividade-meio.

Em momentos de dificuldades como o atual é necessário apertar o cinto. Todos têm que dar a sua contribuição. Até uma possível redução temporária de salários de servidores pode ser pensada. Não faz sentido, no entanto, mudar a organização do Estado naquelas estruturas que têm dado bons resultados.

Silvio Almeida e Paulo Rossi apresentaram uma leitura crítica à forma pela qual a escola ortodoxa de economia trata o tema do racismo. Uma perspectiva bem diferente, contudo, emerge da leitura do artigo de revisão publicado recentemente no Journal of Economic Perspective: “Race discrimination: an economic perspective” (volume 34, número 2).

Samuel Pessôa

Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV) e sócio da consultoria Reliance. É doutor em economia pela USP.

Elio Gaspari Zema, ou a velhice do novo, FSP

Novo mesmo é coronavírus. O governador mineiro Romeu Zema elegeu-se com 73% dos votos apresentando-se como algo de novo. Afinal, é um empresário bem sucedido. Repete que é "novo na política", mas foi filiado ao Partido Liberal por 18 anos. O doutor notabilizou-se por encaminhar à Assembleia Legislativa um pedido de aumento de 42% para os servidores da área de segurança, a um custo de R$ 9 bilhões em três anos. 

Graças à internet, está na rede a entrevista que ele concedeu a uma equipe da GloboNews no dia 29 de janeiro, quando o mimo estava sendo cozinhado. A conversa durou 56 minutos, e é uma viagem ao novo, ecoando a fala do príncipe de Salinas no romance "O Leopardo": "Tudo isso não deveria poder durar; mas vai durar, sempre; o sempre humano, é claro, um século, dois séculos... e depois será diferente, porém pior”. 

Zema acha que "o Brasil precisa se reinventar". "Parece que tem hora que o mineiro e o brasileiro só enxergam o que dá errado". Nesse ofício, lascou os governos anteriores, sobretudo o do PT: "Somos um Estado quebrado", uma "podridão". Repetiu um bordão apocalíptico: "O Brasil estava caminhando para ser algo semelhante a uma Venezuela." (Quando ele disse isso a repórter Vera Magalhães ainda não havia mostrado a influência das milícias e dos motins de PMs, cunhando a expressão "Bolsochavismo".)

 
 

Depois que o paulista Geraldo Alckmin se recolheu, Zema disputa-lhe o campeonato de platitudes: "Você não consegue fazer tudo ao mesmo tempo", ou "com a matemática não se brinca". (A sério, ele reduziu o custo do Estado em R$ 5 bilhões. Brincando, mandou a mensagem dos bilhões.)

Afora a embromatina, Zema mostra-se um campeão do novo-velho. Orgulhou-se de ter renegociado um contrato de R$ 106 milhões para R$ 2 milhões, mas passou batido quando lhe perguntaram se mandou investigar quem botou o jabuti na árvore.

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Sendo o novo, Zema disse que tem coragem para cometer "sincericídios" e ensinou que "a eleição de 2018 mostrou que o modelo que vigorou no Brasil está falido, aquele político que fica prometendo, que fica dissimulando, aquele político que não quer enfrentar problema de frente, deu no que deu. (...) Parece que no Brasil a classe política sempre teve medo."

No 50º minuto da entrevista deu-se o Momento Zema. O repórter Gerson Camarotti perguntou-lhe o que achava das filas do INSS (1,3 milhão de pessoas) e da balbúrdia do Enem (6 mil estudantes prejudicados). "Há problema de gestão?" Zema respondeu:

"Eu fico muito feliz com esses problemas, porque você não falou em nenhum problema de corrupção."
Camarotti lembrou-lhe que "você tem pessoas necessitando de aposentadorias, numa situação dramática".

Só então caiu a ficha. Zema reconheceu que "há falhas" e que "nisso, concordo plenamente". Concordou plenamente com a dramaticidade da situação lembrada por Camarotti, como se ela não tivesse existido. Afinal, foi-se o tempo daquele político que fica dissimulando, aquele político que não quer enfrentar problema de frente.

O príncipe de Salinas sabia do que falava. Tanto era assim que o velho político Elio Vittorini (comunista) rejeitou o manuscrito do "Leopardo" duas vezes na editora Mondadori.

Elio Gaspari

Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada".