quarta-feira, 27 de novembro de 2019

A Presidente Vargas de 1984 a 2019, Elio Gaspari FSP

O povo não deve ter medo da polícia, nem a polícia deve ter medo do povo

  • 4
A avenida foi a mesma. Em abril de 1984 ali aconteceu o grande comício das Diretas. Noticiou-se que a multidão passava do milhão de pessoas. Nem chegava a isso, mas deixa pra lá. A festa durou cerca de sete horas, sem um só incidente. No último domingo (24), mais de 1 milhão de cariocas festejaram o Flamengo. A festa terminou com uma pancadaria e 23 feridos nas proximidades do monumento ao Zumbi dos Palmares.
Não se sabe como começou a confusão, mas é elementar que a Polícia Militar não precisava ameaçar o povo com fuzis ou apontando-lhe revólveres. A primeira bomba de gás contra uma multidão parada pode ter sido um exagero. As demais, truculência, sobretudo sabendo-se que na festa havia crianças.
O veículo da Guarda Municipal também não precisava dar marcha a ré em alta velocidade numa pista livre. Acabou atropelando um guarda. Assim como Gabigol fez a alegria dos brasileiros com dois gols em três minutos num final de jogo, a PM do Rio manchou a celebração no fim da festa.
O medo faz mal à alma. O povo não deve ter medo da polícia, nem a polícia deve ter medo do povo. Em 2013, quando o papa Francisco chegou ao Rio, estava protegido por um dispositivo teatral, com soldados e até cães farejadores.
Na Presidente Vargas o carro do papa ficou preso no trânsito e centenas de pessoas cercaram-no, assustando muita gente que via a cena pela televisão. Só Francisco não se assustou e manteve o vidro aberto. Os agentes da Polícia Federal que escoltavam o veículo a pé mantiveram a calma, sem agredir ninguém. Também não se assustaram as pessoas que queriam vê-lo, pois não é todo dia que há um papa na Presidente Vargas. 
O Rio é governado por um bufão que estimula a violência policial na construção de sua própria teatralidade. No gramado do estádio de Lima, ajoelhou-se diante de Gabigol, recebendo um olhar seco, digno dos melhores monarcas da casa de Windsor.
No dia seguinte à pancadaria do fim da festa do Flamengo, o repórter Rafael Soares revelou o áudio de um PM que revelou sua contrariedade diante de um episódio no qual um sargento matou a tiros dois jovens que estavam numa motocicleta.
O caso aconteceu em 2015, soldados da patrulha haviam dito ao sargento para não atirar, mas “ele estava trabalhando com ódio, ficava falando que ia matar, matar”. O sargento matou porque achou que a furadeira carregada por um dos jovens era uma arma.
Já houve casos em que um cidadão foi morto porque carregava um guarda-chuva e outro, uma esquadria de alumínio. O PM que matou o homem do guarda-chuva foi absolvido e o outro caso ainda está sendo investigado. O sargento que ficava falando em matar ainda não foi julgado.
Na tarde de domingo, depois da confusão da Presidente Vargas, uma mulher se referiu aos PMs como “esses milicianos”. É verdade que o pessoal das milícias está em alta, mas nenhuma cidade terá segurança se a sua polícia se comportar de forma a permitir tamanha confusão.
A PM é uma corporação militar que deve trabalhar com normas profissionais e, sobretudo, de forma disciplinada, cumprindo protocolos. O que aconteceu na Presidente Vargas não seguiu protocolo algum. Quanto à disciplina, quem sabe?
Em março do ano passado, durante a intervenção federal na segurança do Rio, um general foi inspecionar o quartel do 18º Batalhão da PM e viu-se diante de uma tropa formada por 20 homens.
À voz do comando, alguns deles não lhe deram continência. Foi preciso que o coronel repetisse: “Todo mundo”. Só então foi obedecido.
Elio Gaspari
Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada".

O problema distributivo, Antonio Delfim Netto, FSP (definitivo)


Em que consiste a igualdade de oportunidades e quem pode produzi-la?



  • 7

Há uma enorme confusão produzida pelos economistas neoliberais (uma contrafacção do liberalismo civilizador) que não reconhecem a existência de dois problemas distintos no processo distributivo: 1º.) a desigualdade de renda entre os homens, que, quando exagerada, cria problemas para a coesão social, e 2º.) a devastadora desigualdade de oportunidades, da qual precisam tomar consciência se quisermos paz.
Analisam a primeira com o índice de Gini, que pensam ser um índice de "bem-estar", quando na realidade mede apenas a "distância" média entre as rendas das pessoas. O índice de Gini pode piorar mesmo quando todos estão melhorando ao mesmo tempo. A fundamental desigualdade de oportunidades, por outro lado, se mede pela mobilidade social (se os filhos têm maior "bem-estar" do que seus pais).
Nos processos de rápido aumento da produtividade geral do trabalho (sinônimo de desenvolvimento econômico), o índice pode crescer, sem indicar piora do bem-estar. Basta perguntar: quem se apropriava do consumo dos bens produzidos no Brasil quando o crescimento do PIB per capita era de 4% ao ano (1947-84)? Todos os brasileiros, ainda que uns mais do que outros. É estranho que oportunistas esclarecidos continuem acreditando que a política econômica objetivava "fazer o bolo crescer para depois distribuí-lo". Trata-se de ignorância econômica, pois isso só é possível em um regime do tipo soviético! Foi, apenas, um slogan construído pela esquerda para o debate político, quando ela ainda não havia perdido a sua inteligência. O que interessa é a mobilidade social, e ela melhorou entre 1970-75 (veja Gibbon, V. "“ "Distribuição de renda e mobilidade social: a experiência brasileira", RBE, jul/set, 1979).
O mal-estar que toma conta de toda a civilização não deriva apenas dos males do capitalismo. Ele é mais profundo. É um "malaise" nascido da tomada de consciência que a virtude social neoliberal vendida como "meritocracia" é uma fraude. A condição necessária para sua existência --a igualdade de oportunidades-- não existe.
Em que consiste a igualdade de oportunidades e quem pode produzi-la? Só uma sociedade reunida em torno de um Estado de direito Democrático forte e consensualmente construído para praticar políticas públicas que darão a todo cidadão, independentemente de sexo, classe, religião, etnia, cor etc., duas pernas e a mesma capacidade cognitiva para a partida na vida adulta. A "justiça social" é a igualdade na saída para a vida. Todos com os mesmos instrumentos! A chegada, essa sim, dependerá de cada um, de sua sorte, diligência e capacidade inovadora, inscritas no seu DNA.
Antonio Delfim Netto
Economista, ex-ministro da Fazenda (1967-1974). É autor de “O Problema do Café no Brasil”.