terça-feira, 26 de novembro de 2019

Prognóstico reservado, João Pereira Coutinho, FSP

Na Europa, a doença antissemita sobreviveu a 1945

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De vez em quando, nas minhas aulas de história contemporânea, pergunto aos alunos: alguém sabe qual era a porcentagem de judeus na totalidade da população alemã quando Hitler subiu ao poder?
Começam os palpites: 25%? Cinquenta por cento? Setenta por cento? Dou uma ajuda e avanço com um número: falamos de 572 mil pessoas, mais coisa, menos coisa. Mesmo assim, as cifras continuam estratosféricas: 20%? Quinze por cento?
Quando revelo que a porcentagem era de 0,8% o espanto da moçada é tangível.
Ilustração de vários paralelepípedos. No centro da imagem, há vários brancos de tamanhos iguais e alinhados com um espaço vazio de cada lado. No restante do espaço, os paralelepípedos são vermelhos, de tamanhos diversos e posicionados de maneira mais desordenada, mas respeitando a margem da linha central
Angelo Abu/Folhapress
Entendo esse espanto. Se nós ficarmos apenas pelos delírios antissemitas da época (os judeus dominavam governos, negócios, mercados financeiros, indústrias de guerra etc.), até acreditamos que eles eram majoritários.
Não eram. Em 1933, só na Polônia (10%) ou na Hungria (5%) a população judaica se elevava um pouco acima da insignificância. Os judeus eram uma gota no oceano europeu.
O antissemitismo da década de 1930 era apenas mais um capítulo de um história antiga: uma história que, segundo o historiador Paul Johnson em ensaio clássico sobre o tema (“The Anti-Semitic Disease”), começa em Alexandria, no século 3º a.C., e que foi sempre adquirindo novas camadas e feições até os nossos dias.
De assassinos de Cristo a raça inferior e impura, sem esquecer a acusação coletiva que hoje paira sobre todos os judeus quando o assunto é Israel (até sobre os antissionistas!), estamos sempre na presença de uma “doença intelectual”, na definição de Johnson.
É uma doença que existe e persiste sem haver nenhuma razão palpável que a justifique. Ainda nas palavras do historiador, a história do antissemitismo é “um dicionário de non sequiturs e antônimos”, ou seja, meros devaneios ou preconceitos que se anulam mutuamente. 
Exemplifica Johnson: “Os judeus estão sempre a exibir-se; eles são herméticos e sigilosos. Eles não se integram; eles integram-se bem demais. Eles são demasiado religiosos; eles são demasiado materialistas e uma ameaça para a religião. Eles são incultos; eles têm demasiada cultura. Eles evitam o trabalho manual; eles trabalham em demasia. Eles são avarentos; eles são gastadores. Eles são capitalistas incorrigíveis; eles são comunistas natos”.
Lembrei tudo disso quando lia o mais recente estudo da Anti-Defamation League, a ADL, sobre a presença de antissemitismo no mundo. A ADL confrontou 18 países, Brasil incluso, com 11 proposições clássicas do antissemitismo “soft” e “hard”.
Na primeira categoria estão afirmações aparentemente anódinas de que os judeus se acham melhores do que os outros ou, em alternativa, de que só se preocupam com os seus.
Na segunda categoria está, mais uma vez, a litania da dominação judaica global —da política à mídia, da economia à indústria de guerra.
Só uma das asserções seria impensável em 1933: a de que os judeus falam demasiado do Holocausto. Em 1933, lógico, esse Holocausto ainda estava em preparação.
Os resultados são tristes  e, à sua maneira, banais, porque o antissemitismo virou banalidade: 24% dos europeus adultos continuam a navegar essas águas infectas. Isso na Europa Ocidental. Quando viajamos para leste, o número sobe para os 34%.
Mas é sobretudo quando olhamos para alguns países da região —a Polônia, a Hungria— que o retrato adquire cores sinistras. Na Polônia, o antissemitismo conquista 48% da população adulta. Na Hungria, 42%.
E, quando olhamos para as respostas dos inquiridos, parece que poloneses e húngaros são particularmente sensíveis ao tema do Holocausto: para eles, os judeus dedicam demasiada atenção ao assunto.
O que permite conjecturar que, se o Holocausto fosse esquecido, talvez o mundo se esquecesse também do papel que poloneses e húngaros “gentios” tiveram no processo.
E o Brasil?
Poucas razões para festejar, bom povo: a situação é semelhante à europeia (25% partilham opiniões antissemitas). Pode parecer pouco, sobretudo quando olhamos para a vizinha argentina (30%, uma surpresa para mim). Mas é um crescimento de 9% quando comparamos os resultados de 2019 com uma enquete anterior de 2014. O que explica essa subida? Responda você, leitor.
Comecei com uma pergunta, termino com outra: qual a porcentagem de judeus na população total europeia em 2019?
Não perca tempo, eu respondo já: uma estimativa realista não ultrapassa os 0,2%.
Saber que um em cada quatro europeus acredita que 0,2% da população controla as alavancas do poder é a prova definitiva de que a doença antissemita sobreviveu a 1945.
João Pereira Coutinho
Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

Bolsonaro diz que excludente de ilicitude em GLO impedirá certo tipo de protestos, FSP

Segundo presidente, Congresso vai decidir se quer que atos terroristas sejam combatidos

BRASÍLIA
O presidente Jair Bolsonaro disse nesta segunda-feira (25) que, se o Congresso aprovar o excludente de ilicitude em GLO (Garantia da Lei e da Ordem), determinado tipo de protesto —comparado por ele a atos de terrorismo— deixará de existir. 
"Vai tocar fogo em ônibus, pode morrer inocente, vai incendiar bancos, vai invadir ministério, isso aí não é protesto. E se tiver GLO já sabe que. se o Congresso nos der o que a gente está pedindo, esse protesto vai ser simplesmente impedido de ser feito", disse o presidente ao entrar no Palácio da Alvorada. 
Segundo Bolsonaro, o Congresso é quem vai decidir se isso vai acontecer. "O Parlamento é quem vai dizer se quer que a gente venha a combater esses atos terroristas ou não."
O presidente Jair Bolsonaro fala em cerimônia do Dia Internacional de Eliminação da Violência contra a Mulher, em Brasília
O presidente Jair Bolsonaro fala em cerimônia do Dia Internacional de Eliminação da Violência contra a Mulher, em Brasília - Lucio Tavora/Xinhua
Na semana passada, o presidente enviou ao Poder Legislativo um projeto de lei que garante o excludente de ilicitude a agentes de segurança pública durante operações de GLO.
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excludente de ilicitude é um dispositivo que abranda penas para agentes que cometerem excessos “sob escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. A iniciativa enfrenta forte resistência na Câmara dos Deputados.
"Se o governador pedir para baixar decreto, a pessoa para de cometer ato terrorista. Protesto é uma coisa, ato terrorista é outra. Você pode protestar à vontade. Está no artigo 5º da Constituição. Protesto é uma coisa, vandalismo, terrorismo, é outra completamente diferente", disse.
O projeto de excludente de ilicitude é uma bandeira de campanha de Bolsonaro. 
Na manhã desta segunda, Bolsonaro disse que enviará ao Congresso um projeto de lei que autoriza o emprego pelo governo federal da GLO para reintegração de posse em propriedades rurais.
As GLOs são operações de segurança autorizadas pelo Poder Executivo que podem ter duração de meses. Elas incluem a participação de agentes de segurança civis e militares, como das Forças Armadas e da Polícia Federal.
Hoje, é papel das gestões estaduais acionarem forças de segurança locais para fazer cumprir decisões judiciais de reintegração de posse. Para o presidente, no entanto, há governadores que têm protelado a retirada de invasores.
Em 1996, uma operação da Polícia Militar do Pará para a desobstrução de uma estrada deixou 19 trabalhadores rurais mortos, o que ficou conhecido como o massacre de Eldorado do Carajás. Um ano antes, dez sem-terra e dois PMs morreram num confronto em Corumbiara (RO).
Desde então, diante da repercussão negativa, inclusive no exterior, governos estaduais têm adotado postura de cautela no cumprimento de decisões judiciais para evitar novas tragédias.
Com o mesmo receio, o governo federal criou, na época, a função do ouvidor agrário, que existe até hoje. O posto foi inaugurado com o propósito de evitar conflitos e impedir embates entre agentes policiais e manifestantes sem-terra.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

É hora de pressionar pelo avanço da tecnologia e de reconstruir o que ela destruiu,

Progredir também envolve cometer erros (às vezes devastadores) e então aprender com eles.

Jacqueline Lafloufa

Nov 15 · 10 min read
Por Nicholas Thompson, editor-chefe da Wired
Em 1904, um grupo de trabalhadores canadenses iniciou a árdua tarefa de construir a ponte mais longa do mundo, atravessando o rio São Lourenço, ao sul da cidade de Quebec. Era um projeto muito ambicioso, e não apenas para a população do Quebec: as ferrovias estavam revolucionando o comércio e as comunicações, e a ponte permitiria a circulação de pessoas e de trens entre as cidades de New Brunswick, no leste, até Winnipeg, a oeste.
O rio chegava a ter quase 58 metros de profundidade e, durante o inverno, o gelo se acumulava na superfície da água. Nenhuma das informações sobre a obra dava a entender que a construção dessa ponte seria fácil. Os engenheiros escolheram um complexo design de estrutura cantiléver, uma abordagem inovadora, mas também econômica. Essa ambição criou riscos e sinais de alerta começaram a surgir. Primeiro, as treliças de aço pesavam mais do que o estimado. Depois, algumas das vigas mais baixas da ponte pareciam estar desalinhadas ou emborcadas. Os operários da obra sinalizaram quando detectaram esses pontos de atenção, mas os gestores da construção avançaram apesar dos alertas.
Exatamente 100 anos depois, em fevereiro de 2004, um jovem empresário chamado Mark Zuckerberg fundou o site The Facebook. Sua ambição era nada mais nada menos que reconstruir a internet ao redor dos relacionamentos pessoais, e então fazer com que o mundo girasse em torno do Facebook. Quando a empresa anunciou a abertura de capital, em 2012, Mark publicou uma carta para os futuros potenciais investidores. “O Facebook não foi originalmente criado para ser uma empresa. Ele foi construído para cumprir uma missão social: a de tornar o mundo mais aberto e conectado”, dizia Mark em sua carta. “Não construímos serviços para ganhar dinheiro; ganhamos dinheiro para construir melhores serviços.” Um mundo aberto e conectado, escreveu Mark, tornaria a economia mais forte e melhoraria os negócios. O Facebook estava construindo uma ponte e incansavelmente aumentando o seu alcance.
Um dia, em agosto de 1907, vários anos após a construção da ponte sobre o rio São Lourenço, uma calamidade aconteceu em apenas 15 segundos. Todas as seções principais da metade sul da estrutura da ponte, que estava quase completa, cederam. Operários foram esmagados ou levados pela correnteza do rio. Um grupo de homens chegou a encontrar segurança temporária, mas acabaram se afogando quando a maré subiu. Ao todo, 75 pessoas morreram, incluindo 33 operários siderúrgicos moicanos da reserva Kahnawake, que ficava nas proximidades.


Ponte do Quebec, sobre o rio São Lourenço. Créditos: Sébastien Savard, CC BY-SA 2.5
Se você chegou até aqui, certamente já sabe para onde estou indo com essa história. Em 2016, o Facebook também foi atingido por uma calamidade. O algoritmo central do Feed de Notícias da empresa foi transformado em arma por agentes russos e provedores de notícias falsas. Uma plataforma que tinha sido projetada para conectar as pessoas acabou se tornando um impressionante acelerador de divisões políticas. Independentemente da sua visão política, a eleição foi uma bagunça, e parte da culpa era do Facebook. A filosofia de “agir rapidamente e quebrar coisas” adotada pela empresa não fazia mal quando a única coisa que podia acontecer era sua tia não conseguir se relacionar digitalmente com o ex-namorado da época do ensino médio. No entanto, essa mesma filosofia perdia seu charme malicioso quando o que estava em jogo era a própria democracia. Então, em 2018, o Facebook enfrentou a pior crise de sua curta existência, quando surgiram notícias de que um grupo político obscuro, chamado Cambridge Analytica, havia desviado dados de quase 100 milhões de usuários da plataforma.
Já há alguns bons anos temos vivido em uma época de intensa revolta contra a indústria de tecnologia. Não está claro quando essa reação começou, mas se alguém fosse escolher uma data, bem que poderia ser o dia 8 de novembro de 2016. Passados seis meses da eleição presidencial [nos EUA], os capitães do Vale do Silício passaram a ser alvo de coquetéis molotov vindos de todas as direções — e funcionários das maiores empresas de tecnologia estavam entre os que acendiam os pavios. Desprezada por décadas, a lei antitruste tornou-se repentinamente fascinante. As preocupações que estavam há anos retumbando como uma música de fundo na nossa sociedade — como a privacidade online ou o receio de que a inteligência artificial roubasse empregos — passaram a alcançar tons cada vez mais altos. A segmentação de anúncios passou a ser vista como um capitalismo de vigilância. Os carros autônomos, como armadilhas mortais. A hashtag #DeleteUber se tornou um meme. A reputação de toda uma indústria afundou, exatamente como aconteceu oito anos antes com o setor financeiro. Em 2016, a WIRED publicou uma capa com uma fotografia de Mark Zuckerberg e a manchete “Será que o Facebook vai salvar a sua vida?” Quinze meses depois, a capa trazia uma foto-ilustração de Mark ensangüentado e machucado, e não precisamos nem adicionar uma manchete.


Capas da Wired de 2016 e 2018
Claro que a indústria de tecnologia merecia tudo isso. Ela havia se tornado arrogante. Os nerds ascenderam cultural e socialmente e ficaram encantados com sua própria autoimagem virtuosa. Pregavam ao público como se fossem São Francisco, mas em segredo estavam adorando Mamon. Olhando para trás, a carta cheia de boas intenções da época do IPO do Facebook parece uma piada. No entanto, essa revolta também desferiu alguns golpes desnecessários. Os carros autônomos, por exemplo. Eles não enviam mensagens de texto enquanto dirigem, nem bebem. Se conseguirmos fazer com que eles funcionem, poderão salvar dezenas de milhares de vidas por ano. Por conta de softwares, quase tudo o que fazemos se tornou mais simples, mais fácil e mais eficiente de alguma forma. Até o Facebook merece certa simpatia ao tentar conciliar as prioridades conflitantes de privacidade, transparência e segurança — já que o público exige perfeição em todos os três.
Agora, voltemos à ponte do Quebec. Após a catástrofe, o local tornou-se um foco de peregrinação e, eventualmente, de renovação. O governo canadense precisava daquela ligação ferroviária, e por isso assumiu o projeto e a construção da ponte. Novos planos foram elaborados, envolvendo suportes mais fortes e um novo tipo de armação. Os braços cantiléver de ambos os lados foram içados e fortemente fixados. Em 1916, a única coisa que faltava era conectar os dois lados da ponte com uma extensa peça central, que pesava 5 mil toneladas. A peça foi manobrada via rebocador e logo os trabalhadores começaram a levantá-la com enormes guindastes. Mas mais uma vez, uma nova calamidade aconteceu. O sistema de elevação falhou e a peça gigante afundou no rio, levando com ela 13 operários.
Logo, porém, os engenheiros do governo canadense fizeram uma terceira tentativa. Muitas vidas já tinham sido perdidas, mas conectar as duas margens do rio ainda era essencial para a prosperidade do país. Assim, os operários refizeram a peça central que havia caído e, apenas três anos após o segundo colapso, o príncipe de Gales conduziu a inauguração daquela construção. A ponte se manteve firme. Logo, carros e trens estavam atravessando o mesmo rio em que tantas pessoas haviam morrido. Durante um século, a ponte manteve o título de mais longa estrutura cantilever do mundo. Tanto o Quebec quanto o Canadá prosperaram por isso.
O mais importante, no entanto, é que os colapsos se tornaram uma forma de validação ética. Um professor chamado H. E. T. Haultain decidiu que queria homenagear a história da ponte canadense e pediu ajuda ao poeta e autor Rudyard Kipling, que já havia escrito uma ode aos engenheiros. Haultain trabalhou com Kipling e os líderes das principais universidades de engenharia do Canadá para desenvolver o que “O Ritual da Vocação do Engenheiro”. E por quase um século, os graduados em engenharia passam por uma cerimônia em que recitam suas obrigações com seu ofício: “A partir de agora, não utilizarei, autorizarei uso ou estarei ciente da utilização de Acabamentos Mal Feitos ou Materiais com Defeito, visando sempre garantir a qualidade do meu trabalho como Engenheiro perante a humanidade e a paz da minha Alma perante o meu Criador.”
No final da cerimônia, os graduandos em engenharia recebem anéis de ferro para usar como um lembrete das suas obrigações: Agir calmamente e fazer a coisa certa. De acordo com o mito, o primeiro desses anéis de ferro foi forjado a partir de pedaços da ponte desmoronada. Os anéis são usados no dedo mindinho da mão dominante, de modo que batam na mesa quando o engenheiro assina ou carimba uma planta.
A cultura dos engenheiros civis sempre foi diferente da cultura dos engenheiros de software. Os primeiros são formalmente certificados e regulamentados; os últimos podem aprender sua arte do zero no porão de casa. E há boas razões para os engenheiros civis exigirem mais rigor profissional, na comparação com seus colegas da engenharia de software. Se você cometer um erro em uma linha de código, poderá corrigi-lo diretamente da sua cadeira. Consertar uma viga de aço submersa em um rio gelado é uma questão bem diferente. As empresas de software também crescem, seguindo a lógica dos efeitos em rede e aumentando seus rendimentos por escala. Eles precisam agir rapidamente se quiserem prosperar. Essas regras e lógicas raramente valem (se é que valem) para o mundo físico, porque é preciso pensar no que poderia dar errado, em vez de assumir que vai dar certo.
Então, sim, as culturas te que ser diferentes, assim como são díspares os problemas. A ponte do Canadá colapsou duas vezes devido a falhas na execução; já o problema do Facebook foi mais uma falta de imaginação e de capacidade de enxergar como a plataforma poderia ser usada para causar danos.
Dito isto, o Vale do Silício e os engenheiros de software de todos os lugares ainda podem aprender algo da cultura dos seus colegas, que pede aos seus adeptos que usem aqueles anéis de ferro. As empresas de tecnologia operam no mundo digital, mas suas ações têm consequências no físico. E quando você constrói coisas, você é responsável pelas pessoas que as utilizam e precisa pensar no que poderia dar errado, em vez de assumir que tudo vai dar certo. Você tem que construir como se usasse um anel forjado a partir de uma ponte quebrada no seu dedo mindinho. Às vezes os sistemas trincam e depois se estilhaçam. Mas de vez em quando as trincas levam às soluções. E é disso que precisamos agora: uma reunião de muitas tribos para consertar a bagunça em que estamos e aprender com os erros que a indústria cometeu.Precisamos que governos, desenvolvedores, usuários, o povo do Vale do Silício e as pessoas que escrevem linhas de código no mundo todo tomem alguma atitude.
O objetivo não é parar o progresso, mas viabilizá-lo. Grande parte da mágica das nossas vidas vem do software: a música que ouvimos, os filmes que assistimos, as histórias que contamos. Vivemos mais, comemos melhor e mantemos em nossos bolsos computadores mais poderosos que os supercomputadores que guiaram as primeiras pessoas até o espaço. Podemos registrar abusos policiais com nossos smartphones e exigir a prestação de conta dos poderosos. A edição genética pode nos ajudar a alimentar o planeta; podemos enviar pessoas para Marte; a perspicácia tecnológica está redefinindo a política global. Milhares de empresas ineficientes foram arrancadas do solo como ervas daninhas, à medida que melhores ideias puderam florescer.
E é disso que se trata esta questão: os desenvolvedores tem que entender as consequências de suas escolhas. Trata-se de fazer com que as pessoas reconheçam a incrível responsabilidade dos poderes tecnológicos que nos são legados por nossos antecessores. Veja Kate Darling, responsável por uma pesquisa que está redefinindo a maneira como pensamos sobre nossas responsabilidades morais para com os robôs. Ou Patrick Collison, que junto com seu irmão criou uma empresa, a Stripe, que facilita a abertura de negócios e o processamento de pagamentos de pessoas do mundo todo, sem desmantelar o sistema financeiro como um todo. Há também Laura Boykin, que está usando o sequenciamento portátil de DNA para salvar a safra de mandioca na África. E ainda Eva Galperin, que está protegendo seus colegas hackers de softwares de espionagem e entidades autoritárias. Ou também Moriba Jah, que está trabalhando para mapear o lixo que orbita nosso planeta.
Essas são pessoas que constroem coisas rapidamente, mas que também estão consertando o que está errado. Elas estão usando a tecnologia para nos levar a novos lugares. Elas pensam profundamente — mas não a ponto de ficarem paralisadas — sobre os problemas que a sociedade enfrenta e as maneiras pelas quais a tecnologia pode ajudar. São pessoas que perceberam que a ponte que estavam construindo pode ter colapsado, mas em vez de abandoná-la, decidiram construí-la novamente com mais planejamento. Ou, como a cerimônia do Anel de Ferro pede a quem se compromete com ela, “não recusarei investir meu tempo; não ressentirei meus pensamentos; não omitirei meu cuidado com a honra, o uso, a estabilidade e a perfeição de quaisquer trabalhos para os quais eu seja convidado a me envolver.”