quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Aliança pode chegar a 2022 sem dinheiro e sem tempo de TV, FSP

Novo partido de Bolsonaro deve ser lançado nesta quinta em Brasília

BRASÍLIA
O presidente Jair Bolsonaro lança oficialmente nesta quinta-feira (21) um novo partido, a Aliança pelo Brasil, em meio a incertezas sobre a viabilidade da legenda. 
Se não conseguir brechas na Justiça Eleitoral, a nova sigla pode disputar a eleição municipal de 2020 e chegar à corrida presidencial de 2022 sem recursos dos fundos partidário e eleitoral e sem tempo de rádio e TV. 
O presidente Jair Bolsonaro agita a bandeira do Brasil durante partida entre Santos e São Paulo, em Santos (SP), no último sábado (16) - Rahel Patrasso/Reuters
Ainda não há clima nos tribunais superiores para mudar o entendimento atual de que fundo e tempo pertencem ao partido, e não ao deputado. 
Hoje, a distribuição do fundo partidário (que financia, com verbas públicas, o funcionamento das legendas) leva em conta os votos obtidos na última eleição para a Câmara, o que não garantiria esses recursos para a nova sigla de Bolsonaro. 
As divisões do fundo eleitoral e do tempo de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV também são feitas com base nos dados das últimas eleições gerais —determinação tida como uma espécie de trava contra a criação desenfreada de novos partidos. 
Os aliados de Bolsonaro, no entanto, tratam esse cenário com desdém. O grupo que está à frente da empreitada pela Aliança aposta que o presidente tem capilaridade e influência política suficientes para participar das próximas eleições sem dinheiro e televisão, repetindo, assim, o feito que em 2018 o alçou ao Palácio do Planalto.
Em conversas reservadas, o próprio presidente tem dito que pretende fazer da Aliança o maior partido do país. Ele aposta no peso da cadeira presidencial, além da ascendência de seu clã nas redes sociais, para conquistar filiados, com ou sem mandatos.
Além dos cerca de 30 deputados do PSL que pretendem migrar, os aliados de Bolsonaro já trabalham com a possibilidade de atrair ao menos 20 congressistas de outras siglas de centro. 
Dirigentes desses partidos já esperam baixas assim que a Aliança sair do papel e estimam que a legenda de Bolsonaro poderia ter no próximo ano legislativo uma bancada de 50 deputados. Essa previsão tornaria a Aliança a segunda maior da Câmara, ocupando o posto que hoje é do PSL (com 53 deputados). 
A avaliação no Congresso é a de que o eventual sucesso da investida de integrantes do PSL por uma brecha jurídica para mudar de partido sem perder o mandato pode estimular migrações em outras legendas. 
Hoje, a legislação permite determinadas situações de justa causa, em que deputado ou vereador pode mudar de partido sem perder o mandato. Entre os exemplos estão fusão ou incorporação do partido; mudança substancial ou desvio reiterado do programa; grave discriminação política pessoal; e, no último ano de mandato, sair para disputar eleição.
Não perdem o mandato prefeitos, senadores, governadores e presidente.
A expectativa de aliados de Bolsonaro é a de que a Aliança anuncie em breve seu primeiro governador, de Rondônia. O Coronel Marcos Rocha já indicou ao presidente que deve deixar o PSL. 
Segundo líderes partidários, o uso da máquina do governo não deve ser desprezada. Eles afirmam que a caneta da Presidência da República pode ser determinante para que a legenda se torne uma das maiores do país em pouco tempo. 
Nesse cenário, avaliam, vai pesar menos o tamanho dos fundos partidário e eleitoral da Aliança e mais a possibilidade de os integrantes do novo partido passarem a ter influência no gabinete presidencial e a ocupar postos importantes no governo. 
A convenção inaugural da Aliança ocorrerá nesta quinta, em um hotel em Brasília. 
De acordo com aliados do presidente, o novo partido surge com a missão de desfazer a imagem de desagregador de Bolsonaro. Em meio ao clima de intensa polarização no país, o chefe do Executivo se entusiasmou com a ideia de lançar um partido cujo nome remete à união. 
Nesta quinta, será dado o primeiro passo no processo de fundação da legenda, com a assinatura do requerimento de registro partidário. Lei de 1995 que rege os partidos políticos determina que esse documento tem de ser assinado por no mínimo 101 pessoas, de ao menos nove estados.
Deverão ser apresentados ainda o estatuto e o programa partidário. Cumprida essa etapa, começa a coleta de assinaturas para que o registro seja aprovado pela Justiça Eleitoral. São necessários 491.967 apoios. 
Bolsonaro tem pressa, porque o partido tem de estar criado até o início de abril de 2020 para que possa disputar a eleição municipal.
Nesta quarta-feira (20), em uma reação à decisão de Bolsonaro de criar o novo partido, o Conselho de Ética do PSL começou a analisar os processos contra parlamentares bolsonaristas
Congressistas como Bia Kicis (DF), Carlos Jordy (RJ), Filipe Barros (PR), Junio Amaral (MG) e Daniel Silveira (RJ) leram comunicado a jornalistas na Câmara em que afirmam estar sofrendo "perseguição política indevida". 
"Ousamos pedir transparência, o que nos foi negado, e a partir desse pleito justo, passamos a sofrer perseguições, constrangimentos, insultos e ameaças", afirmam.
O texto foi lido pelo líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (GO).
Não há prazo para que o PSL analise se punirá ou não a ala de dissidentes. Na terça-feira (19), o presidente do PSL, Luciano Bivar (PE), afirmou que o colegiado começa a se reunir nesta semana para ouvir as defesas dos congressistas. As punições podem variar de advertência a expulsão. 
O partido alega que os deputados desrespeitaram o estatuto e ofenderam o PSL. 
Segundo Vitor Hugo, são 21 os deputados processados —do total de 53 da bancada do PSL na Câmara. Eles afirmaram que a maioria decidiu não comparecer pessoalmente à reunião do conselho. O grupo terá um advogado.
"Não existe possibilidade jurídica de desfiliar do partido, isso vai ser feito a partir da criação da Aliança e uma representação judicial para possibilitar nossa saída sem perda de mandato", afirmou Vitor Hugo. 
A tese de perseguição política deve ser usada para justificar uma ação judicial.
"Nós repudiamos esse tribunal de exceção e queremos deixar claro que há uma perseguição àqueles que simplesmente manifestaram seu apoio irrestrito ao presidente Bolsonaro", afirmou Bia Kicis.

Consumo puxa PIB e deve voltar em 2020 ao nível pré-recessão, FSP

SÃO PAULO
Responsável por quase dois terços do PIB (Produto Interno Bruto) nacional, o consumo das famílias é apontado como o principal motor da aceleração da atividade econômica neste segundo semestre.
Mantido esse ritmo no próximo ano, a expectativa é que esse seja o primeiro componente da demanda a voltar aos níveis verificados antes da recessão de meados da década.
Outros dois componentes, o consumo do governo e o setor externo, deverão contribuir negativamente para o crescimento neste ano. 
investimento continua a se recuperar, mas ainda está distante do pico registrado em 2013.
Após desacelerar nos dois primeiros trimestres do ano, a economia brasileira apresentou sinais de retomada nos últimos meses, o que levou a uma série de revisões nas expectativas de crescimento para este e, principalmente, para o próximo ano.
A avaliação é que setores mais dependentes do crédito já estão se beneficiando da queda dos juros em algumas linhas de financiamento e que a liberação de recursos do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) dará um fôlego extra às vendas no varejo neste fim de ano. Os setores mais dependentes da renda, por outro lado, têm demorado mais a se recuperar.
A economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Ibre/FGV, estima uma expansão do consumo de quase 2% neste ano e acima desse patamar em 2020, com esse componente voltando aos níveis verificados no último trimestre de 2014.
“A gente vê o consumo das famílias acelerando fortemente. Tem liderado o crescimento da economia brasileira. O investimento está vindo, mas ainda cresce muito pouco diante das perdas [dos últimos anos]. É o consumo que está ditando essa recuperação”, afirma a economista.
Matos afirma que a economia irá terminar o ano melhor do que começou (houve retração no primeiro trimestre), com melhora nas condições financeiras para famílias e empresas. 
O alto nível de incertezas —econômicas, regulatórias e políticas—, no entanto, ainda impede uma recuperação mais rápida dos investimentos.
“As decisões de investimento dependem de previsibilidade, e não sabemos como será a reforma tributária, como será o preço do gás, como vai ser a tributação do trabalho. Além disso, existe essa incerteza na política”, diz a economista.
Em relação aos setores da economia, comércio e outros serviços devem continuar a crescer em ritmo superior aos demais segmentos, a construção pode parar de encolher, e a indústria deve continuar no vermelho, de acordo com as estimativas do Ibre/FGV.
Esse cenário é o que o Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) tem chamado de “um crescimento sem indústria”.
“Quem está mostrando consistência, repetição de desempenhos positivos desde o início do ano, é o comércio, principalmente alavancado pela fração que depende do crédito, os duráveis e também semiduráveis”, diz o economista Rafael Cagnin, do Iedi.
“Isso vem da melhora do crédito das famílias e da redução parcial das taxas de juros, pois os cortes da Selic vieram em uma velocidade rápida e não foram acompanhados pelas taxas dos empréstimos.”
Desde julho, o Copom (Comitê de Política Econômica) do Banco Central reduziu a taxa de juros em 1,5 ponto percentual, de 6,5% para 5% ao ano. Foram três cortes de 0,5 ponto percentual cada um.
Cagnin afirma que a melhora no mercado de trabalho ainda é muito frágil e baseada em empregos de má qualidade, o que dificulta que as famílias voltem a consumir de maneira regular. 
Isso explica, segundo ele, por que o comércio e a indústria de bens não duráveis não recuperaram ainda suas vendas.
Para ele, o cenário de recuperação mais forte da economia não está garantido.
No setor industrial, os dados do IBGE mostram que 60% dos segmentos ainda estão com resultados negativos neste ano. “Uma recuperação sem indústria e com crescimento insuficiente do investimento não tem consistência”, diz o economista do Iedi.
De acordo com Cagnin, a indústria é um ramo importante para difundir crescimento econômico, pois possui cadeias de produção mais longas, que demandam insumos e serviços, além de gerar empregos de melhor qualidade (formais e com salários mais elevados).
Nos nove primeiros meses de 2019, o setor industrial acumula retração de 1,4%, de acordo com o IBGE. Em 12 meses até setembro, a retração é de 1,4%.
Além de questões como ociosidade, mudança na estrutura de financiamento (público para privado) e demanda deprimida, o economista diz que a incerteza que vem da esfera política e fatores externos podem atrapalhar a recuperação da economia no próximo ano. 
Para ele, há o risco de, mais uma vez, as projeções de um PIB avançando em ritmo próximo de 2% se frustrarem.
“Depois de três anos crescendo 1%, não tenho tanta confiança de um crescimento mais forte em 2020. Tem muita coisa em jogo. Podemos chegar perto de um crescimento de 2%, mas é preciso construir esses 2%. Tem de ver o quanto a liberação do FGTS vai dar de impulso econômico, se vai funcionar na mesma intensidade agora.”
A mais recente estimativa de mercado (boletim Focus) para o crescimento do PIB é de 0,92% para 2019 e de 2,17% para para o ano que vem.