terça-feira, 19 de novembro de 2019

Siemens anuncia cliente para sua nova locomotiva que pode chegar a 160 km/h, RF


Siemens anuncia cliente para sua nova locomotiva que pode chegar a 160 km/h
Apresentada pela primeira vez na InnoTrans em Berlim em setembro de 2018, a locomotiva Vectron Dual Mode da Siemens já tem um cliente de lançamento: A Railsystems RP, empresa alemã em leasing de locomotivas e equipamentos ferroviários. Foram adquiridos dois equipamentos.
O veículo foi projetado para transportar trens de carga podendo operar em linhas eletrificadas, além de trechos sem rede elétrica, já que possui um tanque de diesel com capacidade para 2600 litros. O Vectron Dual Mode pesa 90 toneladas e tem uma velocidade máxima de 160 km/h.
Com o Vectron Dual Mode, a Railsystems RP está adquirindo uma locomotiva que combina o melhor dos dois mundos, diz Sabrina Soussan, CEO da Siemens Mobility. Nas rotas eletrificadas, a locomotiva é movida a eletricidade para economizar combustível e reduzir os custos de manutenção. Em rotas ferroviárias sem cabos aéreos, o Vectron pode mudar para operação a diesel sem que o operador precise trocar de locomotiva.

'Snowflakes' de direita, João Pereira Coutinho, FSP

Se continuarem sabotando autores de esquerda, talvez o Brasil ganhe o seu Nobel

Antigamente, o sonho de um filho era se emancipar da figura paterna. Não falo de Freud e dos desejos de “matar” o pai. Falo de algo mais simples como sair de casa, construir uma vida pelas próprias mãos, sair da sombra do progenitor.
Isso não significa “matá-lo”. Pelo contrário —só por meio dessa emancipação é possível amá-lo realmente, nas suas forças e fraquezas.
Eu tentei. Acho que consegui. Meu pai era advogado. No início, cursei direito, por breves meses. Imagino que, para o meu pai, ter um filho a quem pudesse legar o escritório era uma perspectiva agradável.
Não era para mim. Detestei o curso. Mas detestava ainda mais o futuro previsível, em vários sentidos da palavra “previsível”.
Desisti de direito, mudei de curso, mudei de vida. E até de cidade. O amor pelo meu pai, que aliás me apoiou nessa mudança, aumentou à medida que me tornei adulto. Longe dele e sem precisar de seu nome.
Hoje, a geração “snowflake” (floco de neve) parece deficitária nesse quesito. Sim, todos conhecemos os estudantes que, em contexto universitário ou até laboral, procuram recriar o ambiente seguro da casa paterna.
Desenho metalinguístico, em vermelho e preto, inspirado em cena do filme "Farenheit 451" de François Truffault, onde oficiais do governo queimam livros; em primeiro plano, estáo próprio livro "Farenheit 451" (de Ray Bradbury), no qual o filme foi baseado.
Angelo Abu/Folhapress
Mas há várias formas de ser “snowflake”. Um exemplo: que dizer dos filhos do presidente Trump, que parecem incapazes de ter vida própria longe do pai? E que dizer, já agora, dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, que padecem da mesma moléstia?
Pensei nisso quando lia, divertido, o tuíte analfabeto de Carlos Bolsonaro. O Brasil só terá mudanças rápidas por vias não democráticas?
Ah, pobrezinho. Se ele soubesse alguma coisa de alguma coisa, saberia que foi em democracia que os países ocidentais tiveram os progressos mais notáveis de suas histórias. Os regimes autoritários, com poucas exceções, levaram os respectivos países para o buraco.
Mas divago. Porque o ponto é outro —à primeira vista, nada mais longe de um “snowflake” do que o clã Bolsonaro. Eles usam pistola e falam grosso!
E, no entanto, há a mesma incapacidade de serem adultos por seus próprios meios, sem usarem e abusarem do oxigênio do pai.
Mas existem outras semelhanças entre a nova direita e os “snowflakes” que ela tanto critica. Em matéria de liberdade de expressão, por exemplo.
Sim, também todos conhecemos o desejo histérico dos “snowflakes” de esquerda de censurar as vozes conservadoras incômodas. Mas será que a nova direita é assim tão diferente com as vozes progressistas incômodas?
O Brasil é novamente um caso de estudo com a tentativa do prefeito do Rio em banir uma HQ com um beijo gay. O problema do gesto não está apenas na incompreensão básica de uma sociedade livre e pluralista. Isso é óbvio.
Menos óbvio é que, do ponto de vista estratégico, as tentativas de censura normalmente rebentam na cara de quem as comete. Posso contar uma história a respeito?
Em 1992, em Portugal, um membro do governo de direita vetou o romance “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago, para o Prêmio Literário Europeu. Nas palavras do iluminado governante, o livro de Saramago atacava o patrimônio religioso dos portugueses e não podia ser representante da literatura lusa. Sabe o que aconteceu a seguir?
O caso foi noticiado nos jornais. Espalhou-se pelo mundo inteiro. O romance virou best-seller nacional e internacional. E Saramago emergiu como um escritor “perseguido” na sua própria terra.
Por coincidência ou não, decidiu deixar Portugal e viver na ilha espanhola de Lanzarote. Exato, como um “exilado”. Seis anos depois, o prêmio Nobel de Literatura chegava.
Simplifico? Claro que simplifico: a censura a Saramago não retira o mérito literário da obra, sobretudo 
em grandes romances como “Memorial do Convento” ou “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (o meu preferido).
Mas não é absurdo conjecturar que a censura oficial deu uma preciosa ajuda na consagração de Saramago.
Se a nova direita brasileira persistir na censura e na sabotagem de autores de esquerda, isso pode ser uma derrota para a liberdade de expressão.
Mas, quem sabe, talvez assim o Brasil tenha finalmente o prêmio Nobel com que sonha há vários anos.
João Pereira Coutinho
Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

Os piratas da insurgência, João Pereira Coutinho, FSP


Para Bannon, o populismo é revolucionário e os jovens serão o motor da revolução


O povo é explorado pelos ricos. Os Estados Unidos não são o policial do mundo. As grandes empresas tecnológicas têm demasiado poder sobre as nossas vidas. Quem disse isso? Bernie Sanders? Elizabeth Warren? Alexandria Ocasio-Cortez? 
Errado, errado, errado. O autor dessas frases é Stephen K. Bannon, o estratego que levou Donald Trump ao poder e que representa o novo movimento populista de direita. 
Eu já sabia que o populismo era uma espécie de novo marxismo —tosco, conspiratório, maniqueísta. Mas é preciso ver para crer.

Ilustração em vermelho onde vearias mãos para cima seguram celulares.
Ângelo Abu/Folhapress
Ou, melhor dizendo, ler para crer: sempre fui fã dos Munk Debates, que ocorrem no Canadá e que normalmente juntam duas figuras em confronto sobre um tema quente. Mas tinha perdido o “rendez-vous” entre Bannon e David Frum.
Não mais. Em livro que recomendo —“The Rise of Populism”— lá encontramos Bannon e as suas jeremíadas. E então pasmamos: um progressista de inclinação revolucionária poderia dizer as mesmas coisas que Bannon. Aliás, o próprio mediador do debate, Rudyard Griffiths, faz essa observação. 
A narrativa de Bannon começa com a crise financeira de 2008, causada pelo “partido de Davos” (referência ao Fórum Econômico Mundial que reúne anualmente empresários e políticos nessa localidade suíça). 
Depois, defende o fim do imperialismo americano e, sobretudo, recusa qualquer tentativa de democratizar o mundo pela força (a velha acusação da esquerda contra George W. Bush, por exemplo). 
Finalmente, dedica algumas palavras duras às grandes corporações —tecnológicas, mídia etc.— que não defendem os interesses dos cidadãos. Haverá coisa mais de esquerda? 
É também por isso que, no debate, estou com David Frum. Sobretudo com duas observações de Frum que ganham relevância máxima nos tempos de cólera que vivemos. Para começar, o que é um conservador? 
David Frum, que se apresenta como um, responde: um conservador, no século 21, defende a herança do liberalismo que recebeu do século 20. 
Que o mesmo é dizer: defende o império da lei, a separação dos poderes, a limitação do Poder Executivo, a liberdade de expressão e, já agora, a civilidade social. 
Por outro lado, e sobre a noção de “patriotismo”, concordo com a posição antiutópica de Frum: ser patriota é amar o país que temos, não um país imaginário e expurgado de certos grupos ou minorias. 
Existe um ponto, porém, em que é impossível não concordar com Bannon: se o populismo é uma força revolucionária —e o próprio diz que sim, o que só aprofunda o seu esquerdismo— são os jovens, os “millennials”, que serão o motor dessa revolução. 
Em metáfora feliz, esclarece Bannon: os “millennials” são como os servos na Rússia do século 18. Estão melhor alimentados, têm melhor educação, estão mais informados — mas não são donos de nada. 
Nem serão. Casa? Carreira? Independência econômica? Os pais tiveram isso. Eles, pelo contrário, não podem olhar para o futuro com a mesma confiança. O potencial de revolta que existe neles é gigantesco. 
É uma grande verdade. Que, instintivamente, me fez recordar as “Memórias do Conde de Rambuteau”. 
Conta o conde que, anos antes da Revolução de 1848, um prefeito de Paris teria dito ao rei de França: cuidado com os “déclassés”; eles são “os médicos sem pacientes, os arquitetos sem edifícios, os jornalistas sem jornais, os advogados sem clientes”. 
Por outras palavras: havia uma classe mais letrada, mais preparada, com grandes expectativas sociais e econômicas —mas o sentimento de bloqueio era asfixiante.
E o prefeito avisou ainda: esses jovens serão “os artífices das revoluções, os sacerdotes da anarquia, os piratas da insurgência”. 
Com a típica estupidez dos Bourbon, o rei Luís Felipe só percebeu o aviso quando Paris estava em chamas —e ele, a grande promessa dos reformistas liberais, a caminho do exílio inglês. 
Não sei se Stephen Bannon leu o conde de Rambuteau. Mas Bannon percebeu algo de essencial: os “piratas da insurgência” não acabaram em 1848. 
Sem perspectivas de uma vida decente, ou pelo menos tão decente como a dos seus pais, esses jovens letrados e depenados sempre foram o combustível do radicalismo. 
Só para termos uma dimensão do problema: 9 em cada 10 americanos nascidos em 1940, quando chegaram aos 30 anos, ganhavam mais do que os progenitores quando tinham a mesma idade.
Hoje, informa o cientista político Yascha Mounk, 1 em cada 2 americanos nascidos em 1980 pode dizer o mesmo. É um padrão que se estende às economias do Ocidente. 
A sério: alguém pensa que essa história vai ter um final feliz?
João Pereira Coutinho
Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.