terça-feira, 19 de novembro de 2019

Alvaro Costa e Silva - Guerra do emprego, FSP

Para dar aos jovens, governo nega aos velhos

Em suas memórias, Adolfo Bioy Casares conta que, ao ver num restaurante um velho de cabelo pintado, pensou em escrever um ensaio sobre a decrepitude. Movida pelas artimanhas da imaginação, a ideia acabou se transformando num relato fantástico, em que jovens atléticos e cruéis perseguem, durante uma semana de insanidade, velhos flácidos e mansos, os quais são chamados por seus algozes de "porcos".
Lançado em 1969, a novela "Diário da Guerra do Porco" é uma espécie de manual do extermínio --jovens pobres matando velhos pobres em uma cidade havida como civilizada: Buenos Aires. Se a ação se desenrolasse no Rio de hoje ou em São Paulo, alguém se espantaria? 
Como notou Antonio Callado num artigo publicado na Folha em 1995, Bioy Casares poupa o leitor ao não descrever os linchamentos. Mas sugere causas possíveis para o horror: "Calcule o número de velhos que se acumularão e o peso morto de sua opinião no manejo da coisa pública. Acabou a ditadura do proletariado para dar lugar à ditadura dos velhos. O que me irrita nessa guerra do porco é o endeusamento da juventude".
A questão não escapa à equipe econômica de Paulo Guedes. A medida provisória que cria o programa Verde e Amarelo (salve o altruísmo patriótico!) reduz a tributação sobre empresas que contratarem jovens de 18 a 29 anos. Mas, à última hora, retirou-se do projeto o trecho que daria as mesmas vantagens para a contratação de pessoas acima de 55 anos. Não satisfeito, o governo apertará o cerco contra as ações na Justiça que ampliam a concessão de benefícios para impedir a pobreza absoluta na velhice.
O mais maluco é que, para financiar o programa de emprego, a MP pretende tirar dinheiro de quem recebe seguro-desemprego. Um incentivo a outras guerras que estão aí: empregados contra trabalhadores informais, e estes contra desempregados. Haja sinal de arminha.
Alvaro Costa e Silva
Jornalista, atuou como repórter e editor. É autor de "Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro".

Cadeia para os corruptos?, FSP

A sociedade não ganha nada encarcerando pessoas que não representem perigo físico a outros cidadãos

Nunca achei que a cadeia fosse lugar para Lula e fico feliz que ele tenha sido solto. Daí não decorre que o considere inocente. Não dá para aceitar como ético o comportamento do líder político que, com forte influência sobre o governo, aceita de empreiteiros presentes no valor de várias centenas de milhares de reais. Se a lei não inibe esse tipo de atitude, é a lei que está errada.
Meu ponto é que o sistema de Justiça precisa ser capaz de identificar situações como essa e dar-lhes uma resposta jurídica, na forma de condenações. Não creio, porém, que a restrição da liberdade seja a pena adequada para casos de corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de influência ou qualquer outro crime cuja execução não envolva o uso ou a ameaça de violência.
A sociedade não ganha nada encarcerando pessoas que não representem perigo físico a outros cidadãos. Mas, se a minha tese é verdadeira, como acho que é, por que tanta gente fica indignada à simples menção da ideia de que corruptos (e traficantes, estelionatários etc.) não devem ir para a cadeia?
Um dos problemas mais graves com os quais grupos que dependem da cooperação entre seus membros precisam lidar é o dos "free-riders", isto é, as pessoas que tentam usufruir dos bens públicos sem dar a sua cota de contribuição. A forma que a evolução encontrou para resolver isso foi instilar em nós uma forte propensão emocional para punir aqueles que identificamos como violadores das normas sociais.
Não dá para dizer que não deu certo. O medo de sofrer sanções do grupo é um dos vetores que levaram à autodomesticação humana, fazendo de nossa espécie uma das mais autocontidas e menos violentas entre os primatas sociais.
É necessário seguir nessa rota civilizacional, o que, no estágio em que nos encontramos, significa refrear nossos impulsos instintivos para abraçar soluções mais racionais, mesmo que pareçam, à primeira vista, fracas demais.
Hélio Schwartsman
Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".