segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Análise: Gerando problemas e distribuindo custos, OESP

 setor de energia não é um fim em si nem um meio para resolver os problemas do País

Paulo Pedrosa*, O Estado de S. Paulo
18 de novembro de 2019 | 05h00
Energias renováveis, interconexão e diversidade são o presente e o futuro da energia elétrica. As novas tecnologias deslocam o poder dos governos e dos agentes do mercado para as pessoas.
Muito em breve, um consumidor produzirá sua própria energia com painéis solares. Com ela, poderá abastecer a bateria de seu carro híbrido, que fornecerá energia para a casa em dias sem sol. Os excedentes serão vendidos em momentos em que a energia estiver cara. E as redes interconectarão todos os consumidores, que poderão acionar “Itaipus” virtuais formadas por milhares de pequenos geradores. Do mesmo modo, o consumo será controlado remotamente, reduzindo momentaneamente a demanda de aparelhos de ar condicionado, por exemplo.
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Em breve, um consumidor produzirá sua própria energia com painéis solares Foto: FELIPE RAU/ESTADAO
No Brasil, essa mudança assusta e ameaça muita gente, em especial os que temem perder poder e dinheiro. Falando em nome de consumidores e da sociedade, há vendedores que defendem o futuro com jeito de passado: reservas de mercado, subsídios, cotas, e proteções que marcam a história do setor de energia.
Os que não querem o caminho da competição e da eficiência assumem discursos falsos e constroem alianças para capturar o benefício da inovação que deveria ser dos consumidores. É o caso de geradores de energia incentivada ou da geração distribuída remota, em fazendas solares, que entregam energia a pequenos consumidores por preços até 6 vezes superiores ao do mercado.
A notícia para os governos que consideram inesgotável a capacidade dos consumidores em pagar impostos e encargos que custeiam políticas públicas e para os agentes que alugam ativos e não querem correr riscos é que o modelo que serve a interesses específicos está esgotado. Foi assim que criamos uma conta de energia cara, em que mais da metade está composta por encargos, taxas, subsídios e impostos.
Apegar-se ao passado é caminhar para a ruptura, com consequências imprevisíveis para a economia. O setor de energia não é um fim em si nem um meio para resolver os problemas do País. A agenda de modernização e simplificação deve recuperar a lógica econômica e promover o poder dos consumidores. É necessário cortar privilégios e subsídios e devolver ao Tesouro o custo de políticas públicas, desmascarando assim os movimentos que fazem do Brasil o País da energia barata e da conta cara.
*É PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE GRANDES CONSUMIDORES DE ENERGIA (ABRACE)

Subsídio a painéis solares chegará a R$ 1 bi em 2 anos, OESP

O custo dos subsídios concedidos a usuários de painéis solares chegará a R$ 1 bilhão em 2021, mesmo valor destinado hoje ao programa para bancar tarifas mais baixas no Nordeste. Os cálculos são da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que quer reduzir os subsídios para quem produz sua própria energia.
Os dois benefícios estão embutidos na conta de luz de todos os brasileiros. No ano que vem, os consumidores poderão ter que pagar o valor recorde de R$ 20,6 bilhões para bancar ações e subsídios relacionados ao setor elétrico.
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Benefício a painéis é dividido entre todos que pagam conta de luz Foto: FELIPE RAU/ESTADAO
O programa Tarifa Social concede descontos de até 65%, mas os consumidores precisam comprovar ter baixa renda para recebê-los. No Nordeste, 5 milhões de famílias são beneficiadas. Por ano, cada família recebe, em média, R$ 200 de subsídio.
Já para instalar painéis solares, é o contrário: é preciso ter dinheiro. Um sistema residencial tem custo inicial de cerca de R$ 15 mil. Hoje, há 180 mil unidades de consumo beneficiadas, e cada uma recebe, em média, R$ 2.222 de subsídio ao ano.
Atualmente, o subsídio dado a essa energia é de R$ 400 milhões, e esse custo é bancado justamente pelos consumidores que não têm painéis solares em suas casas. Com um crescimento exponencial nos últimos anos, a previsão da Aneel é que esse número chegue a R$ 4 bilhões em 2027.

Revisão

Enquanto a agência se prepara para revisar as regras de incentivo a essa energia, parlamentares trabalham para que eles se tornem definitivos. O presidente Jair Bolsonaro (PSL) já indicou que acompanha o debate de perto. 
Foi a própria Aneel que introduziu, em 2012, os benefícios ao setor. O intuito foi o de incentivar a instalação dos painéis solares – na época, muito caros. Com o ganho de escala, o custo do sistema caiu. Hoje, esses usuários conseguem obter uma redução de 80% a 90% em suas nas contas de luz.
“O modelo não é sustentável. Ele transfere custo para aqueles consumidores que não possuem a geração distribuída em suas residências”, disse o diretor Rodrigo Limp, relator do processo na Aneel. A proposta da agência está em consulta pública, e a intenção é que o novo modelo entre em vigor em 2020.
Para o setor, a revisão da forma como proposta pode inviabilizar sua produção. O receio em comum uniu várias empresas e associações num único movimento, cunhado de “Sou Mais Solar”, que tem a participação da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD) e a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar).
Entre os parlamentares, o slogan da campanha pegou: eles acusam a Aneel de querer “taxar o sol”. Em um mês, a agência já foi chamada a dar explicações no Congresso em pelo menos três ocasiões.
O deputado Lafayette de Andrada (Republicanos-MG) é um dos defensores do setor. “O Brasil é o País do sol. Temos de incentivar o uso dessa energia”, disse. Já o deputado Silas Câmara (Republicanos-AM) apresentou um projeto de lei que institui descontos expressivos na tarifa dos micro e minigeradores de energia.

Bolsonaro

Até mesmo o presidente Jair Bolsonaro entrou na discussão. Em viagem a Pequim, ouviu reclamações sobre a proposta da Aneel do empresário Adalberto Maluf, diretor de marketing da BYD, empresa de tecnologia chinesa com fábrica no Brasil. Segundo Maluf, ele integrou a missão à convite da Apex, agência de promoção a exportações.

No Twitter, em três postagens publicadas em novembro, Bolsonaro disse que o governo está trabalhando com a Aneel para “estimular a geração de energia solar, sem taxar o usuário”. Bolsonaro frisou que a revisão das regras estava prevista pela agência desde 2015, “governo Dilma”. Para Maluf, o recado foi claro. “O que eu li: o presidente está dizendo que quer uma política pública para fomentar a energia solar”, disse.

Nova legislação poderá proibir que água do lençol freático seja descartada na sarjeta em Mogi, O Diário

Diariamente, uma grande quantidade de litros d’água é liberada diretamente na sarjeta por edifícios construídos no Centro. Por enquanto, a situação não é ilegal, mas o novo Código de Obras exigirá outras soluções para a utilização do líquido de lençóis freáticos rebaixados durante as obras de construção. A intenção da Secretaria Municipal de Planejamento e Urbanismo é coibir o lançamento dos verdadeiros rios de água que não é reaproveitada, pelo menos em futuras edificações.
Como não é algo proibido por lei, não é difícil encontrar ruas inteiras cujas sarjetas são acompanhadas pela água, que, em alguns pontos acumula-se, ficando convidativa para mosquitos como o Aedes aegypti, que transmite doenças como febre amarela, dengue, chikungunya e zika. Além disso, quando corrente, o líquido prejudica a mobilidade dos transeuntes, sem falar do desperdício de um recurso natural finito.
Um desses pontos é na Rua Presidente Rodrigues Alves, no Edifício Villa Lobos, próximo do antigo cartório eleitoral, e outro fica na Rua Major Pinheiro Franco, onde o edifício Amaranto libera água na sarjeta entre uma e duas vezes por dia, pela lateral do prédio. O líquido deveria correr pela própria Major Pinheiro Franco, porém, há, na esquina, uma pequena elevação de concreto, que desvia a água para a Rua Conceição Malloze, para depois chegar à Rua Navajas.
Quem conta as dificuldades enfrentadas nessas ruas é a professora Valéria Melo Freire, 60, que tomou conhecimento do problema há anos, já que seus pais, na faixa dos 80 anos, moram na Rua Navajas. “O prédio em que meus pais moram é antigo, e não tem muitas vagas na garagem. Por isso, há necessidade de estacionar fora, mas é preciso estar grudado na guia, para não ter que pisar na água ao descer”, diz ela.
Essa não é a única reclamação de Valéria, que diz que o acúmulo de água pode levar a acidentes, principalmente queda de idosos e pessoas com mobilidade reduzida. “Além disso, vivemos recentemente uma forte crise hídrica, e temos que continuar poupando, porém ali há o desperdício de muita água limpa”, completa a professora, que revela já ter feito solicitações para a análise da situação pelo menos seis vezes na ouvidoria da Prefeitura, sem obter nenhum retorno.
Para entender o que ocorre no local, e também em outros pontos do Centro que apresentam o mesmo quadro, O Diário conversou com a administração pública e com engenheiros, que explicaram que o procedimento é absolutamente normal. Trata-se de água vinda de lençóis freáticos, rebaixados para a construção no subsolo, situação permitida por lei.
“A presença de lençóis freáticos se dá pela proximidade com o Rio Tietê e outras áreas da várzea dessa bacia. E só tem como encontrá-los ao cavar a terra”, diz o secretário municipal de Planejamento e Urbanismo, Cláudio de Faria Rodrigues. “Lençóis são formados pela infiltração da chuva no solo. A água infiltra-se até atingir uma camada de material impermeável, formando como se fosse um rio subterrâneo. Quando há alguma construção nesse nível, como estacionamentos, o fluxo de água é interrompido, o que é tecnicamente chamado de rebaixamento do lençol freático”, completa o arquiteto e integrante da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Mogi das Cruzes (AEAMC) Paulo Pinhal.
A água proveniente dos lençóis então é bombeada e armazenada, e assim que os reservatórios dos prédios enchem, o líquido é liberado para as sarjetas, “a fim de se misturar com outras águas de chuva ou contaminadas e voltar para o rio, fechando assim o ciclo hidrológico”, como explica Pinhal.
Dessa forma, a água que se vê nas sarjetas não é suja, mas também não é exatamente limpa, sendo imprópria para o consumo. O caminho ideal, na visão do engenheiro Jurandir Bianchi, diretor da construtora J Bianchi, responsável pelo edifício Amaranto, é que “a água que ultrapassa o limite do tanque de retardo vá para sarjeta, e depois para uma boca de lobo, e depois para um córrego, retornando então à natureza”.
No edifício Amaranto, Jurandir garante que parte da água é reutilizada, mas embora reconheça a existência da elevação de concreto que desvia a água da Major Pinheiro Franco para a Conceição Malloze, nega que ela tenha sido feita pela construtora. “Não sei quem fez o desvio, mas não fomos nós”. Por outro lado, a assessoria da Prefeitura também desconhece a autoria da pequena lombada, que indigna a professora Valéria Mello Freire. E assim segue o mistério.
Para além dessa questão, porém, há nessa história outro impasse, já que não cabem multas e quaisquer penalizações para edificações antigas que apresentam o quadro. A solução, para o secretário de Planejamento, é que as adequações sejam feitas pela administração de cada prédio. “Vai do grau de consciência de cada um em tempos em que temos escassez de chuva e a necessidade de água”.
Rodrigues afirma que os técnicos responsáveis pelas obras “já poderiam ter considerado formas sustentáveis para o uso racional da água” durante a execução dos projetos hidráulicos, porém, nos endereços em que isso não acontece, a dica é trabalhar o reuso da água, como para lavar jardins, pátios e outras áreas comuns. “Tanto a sociedade quanto a Prefeitura tem que unir esforços para ações sustentáveis aproveitando os sistemas hidráulicos de cada prédio”, resume ele, ao afirmar que a Secretaria de Planejamento está à disposição para receber as construtoras, condôminos e síndicos para estabelecer soluções para os problemas já existentes.
Já para novas edificações, o cenário deve mudar em breve. Isso porque recentemente foi aprovado na Câmara Municipal o novo Código de Obras e Edificações (COE), dispositivo com normas gerais e específicas para o setor de construção civil, que agora passará para a sanção do prefeito Marcus Melo (PSDB).
No código, que deve entrar em vigor no início deste ano, o secretário afirma que para novas edificações “será vedado o lançamento águas pluviais na sarjeta, terrenos adjacentes ou no passeio publico, devendo a água ser lançada diretamente na rede de drenagem subterrânea, que já leva o líquido para o destino final”.
Por enquanto, porém, resta apenas estabelecer diálogo entre os edifícios e a administração pública. E vale lembrar que os cidadãos podem solicitar fiscalizações em pontos específicos utilizando a ouvidoria geral da Prefeitura, pelo número 156.
Projeto deveria prever o reuso do recurso
Como destaca Paulo Pinhal, arquiteto e integrante da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Mogi das Cruzes (AEAMC), “a água que vem do lençol freático não é própria para o consumo, e seu uso para outros fins deve ter autorização do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE)”. Ele entende que os edifícios que despejam água não estão errados, porém acredita que “os projetos arquitetônicos deveriam prever reuso desta água para lavar pisos e mesmo uso em vasos sanitários”.
Em outras palavras, são necessárias ações sustentáveis. “Se o despejo é inevitável e os custos de reuso são altos, pois exigem instalações hidráulicas distintas de outras, os projetos deveriam prever algum tipo de tubulação que pudesse conectar diretamente as bocas de lobos das águas pluviais, evitando assim o seu despejo sobre a calçada”, sugere Pinhal.
Para o arquiteto, então, a sustentabilidade deve ocorrer na “concepção do projeto arquitetônico”, o que “antecede a própria execução”. Assim, “decisões de rebaixamento de lençol freático devem ser avaliadas caso a caso”.
Uma das saídas, como encontrado por um edifício comercial na Rua Coronel Souza Franco, é reutilizar a água para fins estéticos. Por lá, há um espelho d’água que funciona como aquário, aproveitando o líquido que vem de uma nascente. “Temos um tanque com capacidade para 6 mil litros, mas o volume de água é bem maior: são cerca de 200 mil litros em 24 horas, que utilizamos também para limpeza e outros fins”, conta o proprietário do ponto, Galdino Iague Júnior, 75.
Ausência de bocas de lobo dificulta a solução de casosQuando procurado por O Diário para esclarecer o lançamento de água na sarjeta do edifício Amaranto, o engenheiro Jurandir Bianchi, diretor da construtora J Bianchi, lembrou de um grande problema: “Não temos outro lugar para jogar a água, mas dali deveria ir para uma boca de lobo e voltar para a natureza, e o que acontece é que não tem um bueiro próximo”. Essa ausência é uma verdade, como comenta o Secretário de Planejamento de Mogi, Cláudio de Faria Rodrigues.
“Mogi é uma cidade antiga, que vem sendo modernizada de acordo com a disponibilidade de recursos. Há realmente uma carência no sistema de drenagem da área central, mas existem bairros que ainda não têm o que o Centro tem, e acabam sendo priorizados”, diz o secretário. Para Rodrigues, por mais distantes que as bocas de lobo estejam, no Centro “não há mais pontos tão críticos de inundação”, e por isso outras áreas, afastadas e carentes, têm preferência para “ações de incremento”.
O secretário destaca, porém, obras de modernização na área central, como uma revitalização na Rua Professor Flaviano de Melo, em 2015: “este trecho não atendia toda a necessidade de águas pluviais atuais, então ganhou um sistema de drenagem novo, com tubos de concreto”.
Comerciante tenta minimizar a situaçãoPor conta de um desvio de concreto numa das esquinas da rua Major Pinheiro Franco, a água liberada pelo edifício é desviada para a rua Conceição Malloze, e depois chega à Rua Navajas. Durante o trajeto, o líquido fica empoçado, prejudicando a vida de moradores e comerciantes, como no caso da padaria Esquina dos Pães, que usa a criatividade para minimizar os danos.
Segundo o gerente do estabelecimento, Caique Mana, 44, a água corre pela sarjeta várias vezes ao dia, e por conta do parquímetro que fica na esquina, acaba acumulando em grandes quantidades. “Não tem como passar por ali sem molhar os pés”, resume ele.
Para aproveitar pelo menos parte da água, em toda madrugada, antes de abrir a padaria, ele pega a água com um balde e lava a calçada e a área externa da padaria. “Se não fizermos isso, a fachada fica uma nojeira”.
“Na verdade este é um problema maior, e acontece em vários prédios do Centro. E a água costuma ser cristalina, então acredito que os edifícios poderiam reaproveitá-la”, opina Caique, que afirma que durante a madrugada, o fluxo d’água é ainda maior do que à luz do dia. Ele revela ainda que “vários comerciantes e moradores já fizeram reclamação”, porém, até o momento o problema persiste.
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