terça-feira, 14 de agosto de 2012

Morreu o diploma, viva o diploma

Por Norma Couri em 14/08/2012 na edição 707, no Observatório da Imprensa


Não sei a faculdade de Jornalismo que Lúcia Guimarães cursou, nem o ano, mas o trabalho com palavras que ela apresentou no final de um curso, soltas dentro de um vidro transparente, pode ser considerado criativo se foi feito na época em que o concretismo estava em alta e a poesia concreta paginava com claros/escuros as páginas dos jornais. Já vi muita coisa parecida com o rótulo de arte moderna. Não digo se gosto ou não gosto, mas tem vários elementos que o Jornalismo necessita: rapidez na produção, criação de última hora, originalidade e a valorização do uso de palavras que andam virando grunhidos no Twitter, como descreveu José Saramago.
Não sei também em que isso desmerece o Jornalismo, porque não sei o que os colegas andam fazendo na faculdade de Física, Química ou Artes Plásticas – e isso não colabora para a tese maléfica de tirar o diploma nem decretar que uma profissão não é uma profissão.
Viadutos caem, prédios desmoronam, artes são inexpressivas ou consideradas degeneradas (como aconteceu com os nazistas em relação ao Expressionismo), advogados são corruptos e juízes inconsequentes, e nem por isso achamos que qualquer um que seja bom em matemática, cálculo e criação pode virar arquiteto ou engenheiro. A arte não vale nada como carreira porque uma criança pode rabiscar como Picasso ou Miró, e o Direito, ora, qualquer um que se debruce atentamente sobre as leis e tenha bom senso saberá julgar diante de um processo.
E os psicanalistas? É preciso ouvir atentamente e deixar o outro falar porque “parece” que é só isso que acontece num consultório, e ainda por cima com as horas mais caras do planeta. Crianças costumam ir ao psicólogo para desenhar, e isso ele não pode fazer em casa? Demite-se a carreira de Psicologia também. Médico? O pai de um menino condenado a viver menos de um ano não conserva o filho vivo com mais de 20 anos porque se debruçou na doença e garante que entende do assunto mais do que qualquer médico? É possível. Depois, pacientes não morrem? Médicos não erram? O doente não é quem sabe sua própria doença? Para que diploma de Medicina? Ainda se morre de Aids, câncer.
A base de tudo
Dizer que Jornalismo não é uma ciência é uma agressão e só colabora com a tese de alguns historiadores, irritados com a similaridade dos métodos de uns e de outros em captar o cotidiano de uma época, embora com cortes diferentes, sendo que a História é uma ciência e o Jornalismo... qualquer um pode fazer. O estudo do Jornalismo é uma ciência.
Jornalista há 40 anos, formada pela PUC do Rio, com mestrado na Columbia University – que Lúcia clama como uma usina de grandes profissionais – e doutorado na USP com tese em Cinema, eu sei o quanto uma boa escola de Jornalismo pode contribuir para o bom Jornalismo e posso garantir que não vi melhora na área depois que a obrigatoriedade do diploma caiu.
Pelo contrário, vi muito político ocupando espaço de profissionais, muito ator e atriz escrevendo e atuando em TV no lugar que caberia a um profissional de Jornalismo, ouvi muita bobagem no rádio e até uma infatilização da profissão por pessoas que não garanto que tenham diploma de Jornalismo, mas acredito que não. O tatibitati hoje é geral e o público privilegiado é agraciado com bobagens porque se supõe que ele não alcance outros padrões.
Concordo que as faculdades proliferaram em geração espontânea e caíram de nível na mesma proporção do que acontece em outras áreas. Porque a universidade que há mais ou menos 40 anos filtrava menos de 1% da população, ou seja, a nata, hoje, democratizada, abre as portas indiscriminadamente enquanto as escolas se multiplicam gananciosamente caras. Pagou, entrou. E a educação nunca foi prioridade no Brasil.
Não sei a ética que se exige de outras profissões, mas sei que a exigida pelo Jornalismo está na base do jogo: sem ética um profissional não vai muito longe. Não sei se um político que ganha uma coluna em jornal, um arquiteto, um artista plástico que pleiteia uma coluna de artes, um advogado, um músico ou qualquer outro profissional de outra área foca sua ética para o mesmo ponto que um jornalista. Porque a ética do político é com a política e seu interesse no momento, a do artista é com a arte, o músico, com a música, e os arrivistas com o interesse pessoal ou financeiro de agradar aqui e ali, receber daqui e dali. A ética do jornalista tece a própria relação com o entrevistado, do começo ao fim – o foco está ali, na coisa sendo feita e nas suas consequências. Um deslize acaba com uma carreira em segundos porque na raiz de tudo está a credibilidade.
Outro nível
Concordo plenamente com o ministro Gilmar Mendes, do STF, em que a profissão equivale a de um chef de cozinha, basta a prática. Um cozinheiro tem de ser criativo, experimentado, preparar a ceia com antecedência, cuidar dos ingredientes, produzir uma cena perfeita com paladar, tato e visão. E pode surpreender, provocar nos temperos. Não desmerece o jornalista ser comparado com um chef de cozinha. Desmerece Gilmar Mendes que não entendeu o espírito da coisa. E agora até os chefes de cozinha – como Alex Atala – reivindicam o reconhecimento da profissão.
Como disse Lúcia Guimarães, qualquer um pode apertar um botão e enviar uma foto de qualquer lugar, qualquer um pode reportar um acontecimento, um assalto, um engarrafamento e tudo pode se resumir a 140 caracteres como no Twitter. Qualquer um pode perguntar, gravar a conversa e reproduzir tintim por tintim. Mas isso não é jornalismo.
Acho que estamos esquecendo o que é uma reportagem, o que é parar para ler uma matéria de cabo a rabo, o que é ser servido com matérias ou entrevistas ou análises que mudam o seu dia, o seu comportamento, a sua forma de ver as coisas, o seu humor, e até mudam o mundo.
Acho que estamos esquecendo que era essa a proposta do Jornalismo e é ela que tem de voltar às escolas, seja na Columbia em Nova York, no Rio, São Paulo ou no Piauí. Acabar com o diploma só favorece o vandalismo na área, a vaidade dos aventureiros assinando matérias e colocando rostinhos bonitos com cabelos escovados na televisão. Estimula o mau funcionamento do ensino de segundo grau e a ideia de que qualquer pessoa pode fazer qualquer coisa. Na verdade, pode. Mas profissão é outro departamento.
Quanto aos salários baixinhos, concordo que não é privilégio dos que não têm diploma, fascinados com o fato de aparecer e caindo na armadilha dos patrões: paga pouco, mas lança na vitrine para receber de outras fontes, a publicidade por exemplo, assessoria política, quem sabe? Com os jornalistas formados já vinha acontecendo essa manipulação, que piorou com a falta de emprego. Mas isso tem a ver com o Doutor Mercado e não com a fibra de uma profissão. Endinheirados hoje e bem aposentados só os trabalhadores públicos, profissionais liberais estão em baixa.
Ninguém aprende jornalismo na escola, mas tenho a certeza de que ninguém se torna um bom profissional só com o título de bacharel. Existe a piada do sujeito que era tão culto, e tinha tantos diplomas, que escreveu no cartão de visitas “bacharéis” sem nunca trabalhar em setor algum. O métier se aprende fazendo, caminhante o caminho se faz caminhando, mas não quebrem a coluna dorsal de um profissional, nem o orgulho de cada vez mais se aprimorar uma profissão. Principalmente num país como o Brasil onde cultura massificada virou moda e aspirar patamares mais altos até pega mal.
Lúcia Guimarães é uma grande profissional que dá prazer ler, mas está impregnada pelo espírito e a cultura nova-iorquina que também experimentei. Talvez ali onde os níveis de profissionalismo atingem a estratosfera – e os patamares de aceitação estão dezenas ou milhares de degraus acima do nosso – seja possível um Jornalismo feito por químicos, físicos, nanotécnicos, gente que teve uma escolarização tão superior à nossa que não dá para comparar. Mas estamos no Brasil, onde nossa meta primeira é impedir o abandono no ensino de primeiro grau porque os meninos e meninas não têm sapatos ou porque o pai precisa de mão de obra na roça. E esse Brasil só melhora com bom Jornalismo, feito por jornalistas de verdade.
***
[Norma Couri é jornalista]

Abaixo o diploma de jornalismo


Lúcia Guimarães - O Estado de S.Paulo
NOVA YORK - Faltei à formatura da minha faculdade. Fiquei pendurada porque tirei nota baixa em estatística, tive de fazer o crédito em recuperação e colei grau sozinha no meio do ano. Confesso que não me recuperei em estatística. Assim como não aprendi jornalismo na escola de jornalismo. Lembro dos professores complacentes, um lacaniano esquisito (pleonasmo?), um comunista feroz, uma preguiçosa que não preparava nada e flertava com alunos.
Só fui boa aluna até o fim do segundo grau. Faltava muito à aula na faculdade porque já trabalhava como repórter. Aprendi o ofício na redação.
Uma vez, não preparei o trabalho final de uma matéria e só me lembrei na manhã da última aula. Lavei um vidro de geleia, datilografei várias palavras e joguei o papel picado lá dentro. Sacudi e entreguei para o professor, dizendo que era um poema concreto. Tirei nota 8.
Obrigar o jornalista a ter diploma de jornalismo é como obrigar um cantor a tomar aula de voz antes de cantar no palco, uma violação da liberdade de expressão. Não que uma boa escola de jornalismo seja inútil, pelo contrário, a da Columbia University, aqui perto, é uma usina de grandes profissionais. Mas é uma escola de pós-graduação, você só é aceito se já escrever num nível cada vez mais raro na nossa imprensa.
As redações eram a lição de anatomia do jornalista da minha geração. Hoje é indispensável aprender técnicas do jornalismo digital. Jornalista deve estudar, acima de tudo, português e se educar em história, literatura, economia, ciência, filosofia e ciência política. Quem chega à redação passou pelo crivo de editores e competiu com seus pares, mesmo por um estágio.
Não compreendo por que um graduado em economia que escreve bem seria impedido de cobrir o Banco Central e substituído por um foca que pode ser facilmente enrolado, já que não decifra a informação financeira. Não fui capaz de questionar porta-vozes do governo quando tive que substituir colegas na cobertura da negociação da dívida externa em Nova York. Não entendia bulhufas dos comunicados.
O senador paraibano Cícero Lucena declarou, orgulhoso, pelo Twitter, que votou a favor da obrigatoriedade do diploma porque "democracia se faz com jornalismo ético, profissional e técnico". Sua excelência vai me desculpar, mas essa frase não passa pelo copidesque. O que tem a democracia a ver com a profissionalização do jornalista? E com sua capacidade técnica de fazer fotografia com foco? A ética começa ainda na primeira dentição, em casa, é aperfeiçoada durante a educação e é fundamental para qualquer profissão.
A democracia se faz com jornalismo, ponto. Quando Thomas Jefferson disse que era melhor ter um país sem governo do que um país sem jornais, a inspiração era o civismo, não o corporativismo. O baixo nível da maioria das escolas de comunicação é que erode a democracia porque joga milhares de jovens iletrados na vala comum do subemprego, fabrica profissionais despreparados para contestar o poder e investigar a corrupção num mundo cada vez mais sofisticado e falsificado pelo marketing. Não foi coincidência Charles Ferguson, ganhador do Oscar de 2011 por Inside Job, ter conduzido as entrevistas mais reveladoras já feitas sobre o crash de 2008. O homem se formou em matemática e fez PHD em ciência política, sabia o que perguntar.
A desculpa usada pelo senador sergipano Antonio Carlos Valadares - empresas de comunicação se opõem ao diploma porque querem contratar mão de obra barata - é absurda. A epidemia de cursos superiores de jornalismo alimenta a distorção de mercado que baixa os salários. Por que só o senador Aloysio Nunes Ferreira teve coragem de apontar a aberração constitucional do voto? Qual o motivo por trás da esmagadora maioria dos votos a favor?
E o que define para esses parlamentares a tal profissão, numa era em que qualquer um munido de smart phone pode narrar e fotografar um atentado no Afeganistão e apertar "enviar"? A diferença é editorial e o público vota no bom jornalismo selecionando onde deposita sua atenção. As empresas de comunicação que quiserem produzir seu conteúdo com mão de obra medíocre e barata terão na exigência do diploma sua maior aliada.
O jornalismo é um bem social importante demais para ficar nas mãos de jornalistas diplomados.

domingo, 12 de agosto de 2012

O corpo não mente


2/08/2012 - 03h18

Por Tostão, na FSP

PUBLICIDADE
 
Termina hoje a Olimpíada. Mesmo que ganhe mais de 15 medalhas, será pouco para o Brasil, pelos enormes gastos. Em Pequim, foram 15. Os dirigentes dizem que, no Rio, em 2016, o Brasil deve chegar a 30 medalhas. Será? Sugiro a ida de especialistas à China para aprender como se transforma, rapidamente, investimentos em medalhas.
Ainda não aprendi as regras e os detalhes técnicos do badminton, do taekwondo e de outros esportes. Assim como Antônio Prata, que lamentou "ter ficado muito tempo peregrinando de prova em prova, sempre com a angustiante sensação de que o melhor acontecia justo onde não estava", eu não deveria ter trocado tanto de canal. Estou cansado. Ainda bem que terminou.
O comportamento das pessoas, diante da televisão, em uma Olimpíada, é bastante variável. Há os que assistem a tudo, mesmo se não gostarem ou compreenderem. Querem apenas passar o tempo.
Existem também os que gostam e entendem e que tiram férias para ver tudo. Os mais numerosos são os que veem apenas a tabela de medalhas.
Pelos noticiários, Londres ficou mais vazia que o habitual. O número de turistas foi menor do que se previa, e muitos londrinos saíram da cidade. O mesmo ocorreu em Paris, na Copa do Mundo de 1998. Na época, encontrei uma torcedora brasileira, desesperada, decepcionada e surpresa. Para ela, haveria carnaval todos os dias na Avenida Champs-Élysées.
Para o Barão Pierre de Coubertin, um homem romântico e idealista, os Jogos Olímpicos deveriam ter funções educativas, morais e de união dos povos. Ele era bastante otimista. A maioria das pessoas que assiste aos Jogos quer apenas se divertir e/ou torcer.
Os atletas quase só pensam nas medalhas. A confraternização dos atletas de vários países é muito mais uma obrigação simbólica e bem educada.
Se no cotidiano, com tempo para pensar e racionalizar, o cidadão, com frequência, tenta levar vantagem em tudo, imagine um atleta, na emoção de uma disputa e tendo de decidir, em uma fração de segundos, entre a postura ética e o orgulho e o desejo de ficar rico, famoso e de ser um herói. Por isso, alguns atletas ainda se dopam, mesmo com o enorme risco de serem flagrados.
Existe um preconceito com o esporte, de que seria algo menor, não intelectual, instintivo e corporal. Não é por aí. O esporte é uma disputa técnica, científica, criativa e rica de emoções.
Os sentimentos, antes de chegarem à consciência, passam pelo corpo, por meio de gestos e olhares. O corpo fala primeiro. O corpo não racionaliza nem mente.
"O corpo é a sombra da alma" (Clarice Lispector).
Tostão
Tostão, médico e ex-jogador, é um dos heróis da conquista da Copa do Mundo de 1970. Afastou-se dos campos devido ao agravamento de um problema de deslocamento da retina. Como comentarista esportivo, colaborou com a TV Bandeirantes e com a ESPN Brasil. Escreve às quartas e domingos na versão impressa de "Esporte".