quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Condomínios descartam água de lençol freático na rua


m condomínio de luxo de São Paulo e um prédio de escritórios vizinho jogam fora, todos os dias, a água retirada de um lençol freático que fica sob os empreendimentos.
O filete de água sai quase continuamente de tubulações dos prédios e escorre pela sarjeta até chegar a uma boca de lobo. Os imóveis ficam na rua Frei Caneca (região central).
O problema ocorre porque, ao erguer a garagem subterrânea, a construção atingiu o lençol freático -um fenômeno comum na cidade, dizem especialistas, e que gera um desperdício não calculado de água.
O que mina do subsolo das edificações está sendo canalizado para a rua. Segundo a Toledo Ferrari, construtora responsável pelo condomínio e pelo prédio de escritórios, o ideal seria jogar essa água em uma galeria pluvial, mas não havia nenhuma ali. A solução foi levá-la até a sarjeta.
A prática não é ilegal, porém: não há lei que impeça o construtor de descartar a água.
Aproveitá-la exige autorização do Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica), órgão estadual que decide sobre a retirada de água subterrânea.
Outro empecilho, segundo especialistas, é o custo, que encareceria o empreendimento.
Como a água é limpa, seria possível reaproveitá-la para descarga, para regar jardins ou limpar o quintal, diz.
Essa prática é cada vez mais comum, por exemplo, em prédios comerciais.
"É um absurdo esse desperdício. Nunca vi coisa igual", afirma a aposentada Neusa Viana, 73, moradora do condomínio Paulista Home Resort, entregue em 2011, com três torres de 28 andares.
Diretora de outorga de recursos hídricos do Daee, Leila de Carvalho Gomes afirma que "jogar fora" é impreciso, uma vez que a água vai parar no rio e, assim, cumprir seu ciclo hidrológico.
O que falta, diz, é conscientização para reaproveitar essa água de maneira correta.
No caso da Grande São Paulo, porém, toda a água que vai parar nas ruas é levada, por meio das bocas de lobo, até o rio Tietê, que é poluído -com isso, seu uso é inviabilizado.
Editoria de Arte/Folhapress
SAIBA MAIS
No Estado de São Paulo, quase 75% dos municípios são abastecidos, pelo menos em parte, por águas retiradas de seu subsolo. Isso representa o abastecimento de uma população de aproximadamente 5,5 milhões de pessoas.
Em todo o Brasil, 2.153 cidades (39% do total de municípios) estão nessa mesma situação, de acordo com ANA (Agência Nacional de Águas), órgão vinculado ao governo federal para gestão dos recursos hídricos brasileiros.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Songdo, a cidade global do futuro


RODRIGO BRANCATELLI - O Estado de S.Paulo
O que faz uma metrópole ser... uma metrópole? Suas ruas, avenidas e vielinhas? Os bancos, o comércio, as igrejas? Os prédios? Va lá, o trânsito? Mais importante ainda, as pessoas, seus moradores? São justamente essas conexões sem muita explicação aparente entre cidadãos e construções, entre dinheiro e oportunidades, entre forma, função e sensação, que fizeram lugares como Londres, Nova York, Tóquio, Sydney, São Paulo e tantos outros florescerem de pequenas vilas em cidades globais - um processo de centenas de anos, que no fundo nunca tem fim.
Será que, além de definir os conceitos de uma metrópole ideal, é possível construir uma do zero, de uma hora para outra, no meio do nada?
Com um investimento de quase R$ 80 bilhões, o governo coreano está tentando responder a todas essas perguntas em um terreno de seis quilômetros quadrados à beira do Mar Amarelo. Ali, a 65 quilômetros de Seul, está sendo erguida a cidade global do futuro, uma metrópole com o que há de mais moderno em tecnologia e noções de urbanismo, onde tudo é planejado para facilitar a vida do cidadão. Trata-se do maior investimento imobiliário privado já realizado. A ideia é criar um novo centro financeiro da Ásia, uma mistura de Paris, Nova York e Dubai, que deve ficar pronta em 2015 com 80 mil apartamentos residenciais, 4,6 km² de escritórios e um parque com 41 hectares.
Songdo quer ser pioneira em absolutamente todos os aspectos. Será uma cidade "verde", com 40% de sua área destinada a parques e praças. Será a cidade sem trânsito, com todo o sistema viário planejado para aumentar a fluidez, além de altos investimentos em metrô, bondes elétricos e até táxis aquáticos elétricos. As ruas têm sensores no asfalto, que ajudam a entender em tempo real os deslocamentos, aumentar o tempo dos sinais em caso de congestionamentos e até diminuir a iluminação das vias quando ninguém estiver passando, para economizar energia.
Também será uma cidade "wireless", totalmente conectada - para se ter ideia, até as garrafas de refrigerante vendidas no supermercado terão uma etiqueta eletrônica; depois de usadas, se as garrafas forem jogadas no cesto de lixo correto para reciclagem, o morador ganhará descontos nos impostos.
Mimos. Outras inovações são invisíveis, mas igualmente surpreendentes. A água das residências, por exemplo, será reutilizada na irrigação. Já o lixo, tanto o orgânico quanto o reciclável, será transportado por meio de canos pressurizados, dispensando a necessidade de coleta. A nova metrópole ainda terá outros "mimos", como uma universidade totalmente tecnológica onde as aulas serão em inglês; uma ponte de 21 quilômetros que liga o centro ao aeroporto; um prédio de 68 andares, o mais alto da Coreia do Sul; um centro de artes que inclui salas de concerto, museus e uma escola de design; um dos maiores clubes de golfe do mundo; e até um hospital que teve o planejamento de empresas como 3M e Microsoft.
Songdianos. "A ideia é ter uma metrópole digital, com o que há de melhor nas outras cidades como Nova York, Dubai ou Londres, mas juntando com o que a tecnologia oferece hoje", diz o inglês David Moore, um dos diretores de incorporação do projeto. "Songdo será uma cidade global da Ásia, a poucas horas da grandes cidades da região, e não apenas um parque de diversões."
Apesar da megalomania do projeto, ele já está saindo do papel - algo em torno de 40% da estrutura da cidade de Songdo está pronta e operante. Cem prédios já foram erguidos, ao custo de R$ 10 bilhões. E interessados em virar "songdianos" não faltam: no início da venda dos primeiros 2.600 apartamentos, apareceram quase 21 mil compradores. Já na segunda leva de apartamentos, 25 mil unidades, que somavam R$ 2 bilhões, foram vendidas em apenas um dia.
Resta saber, no entanto, se todas essas inovações e construções vão de fato se conectar para transformar Songdo de uma ótima ideia em uma metrópole de verdade.
ARQUITETURA MODERNA
Seul, capital da Coreia do Sul, é um dos principais polos da arquitetura moderna no Sudeste Asiático. O Museu Leeum Samsung, projetado pelo holandês Rem Koolhaas em 2004, é um exemplo.

Acumulação, por Delfim


A dinâmica do desenvolvimento é produzida pelas inovações na criação de bens, serviços e processos tecnológicos que estimulam a diversificação do consumo e elevam o bem-estar da sociedade.
Seu indicador mais sintético é um aumento do Produto Interno Bruto per capita. Pôr em prática uma "inovação" significa obter crédito para financiá-la e correr os riscos do investimento.
Marx mostrou, muito antes de Keynes (a quem inspirou ainda que não expressamente reconhecido), que o "investimento", isto é, o aumento da capacidade produtiva derivado da inovação, é feito pelo "investidor" na expectativa de obter lucro.
A alta do consumo é um efeito paralelo e indispensável para a continuação do processo capitalista, mas o seu motor é a tendência do investidor de maximizar a acumulação.
O consumo é a parte maior da demanda global. O seu componente mais instável e que produz as maiores variações na renda e no emprego é o nível do investimento. Este depende, por sua vez, da expectativa da demanda e da sua possível taxa de retorno (o lucro esperado).
Quando a expectativa de retorno desaparece, desaparece o investimento. A demanda global entra em colapso, produzindo uma crise que, em geral, começa no mercado financeiro e termina no mercado de trabalho.
Na organização social apoiada nos "mercados", essas crises são ínsitas ao ajuste entre a demanda e a oferta globais ao qual se soma a ciclotimia normal do agente econômico.
A demanda global tende a flutuar com ciclos de períodos e amplitudes aleatórios impossíveis de serem previstos ou controlados pela política econômica.
Os economistas já deveriam ter perdido a inocência revelada pelo Prêmio Nobel, Robert Lucas, que sonhou ter destruído Keynes. Em 2003, ele decretou na "American Economic Review" que a "macroeconomia foi bem-sucedida: seu problema principal, a prevenção da depressão está, para todos os fins práticos, resolvido e, de fato, resolvido por muitas décadas".
A incerteza do mundo que impacta o investimento, agora, não é do tipo que pode ser compensada atuarialmente. Nesta, os riscos têm uma história à qual podemos aplicar, para nos defender, o cálculo de probabilidades.
Trata-se da incerteza essencial a que se referia Keynes: o que será da Eurolândia daqui a cinco anos? É a incerteza produzida pelo fato de que o passado não tem qualquer informação sobre o futuro.
É bom que entendamos que só o investimento público pode superá-la. E a forma mais eficiente de fazê-lo é cooptar o "espírito animal" dos empresários, dando-lhes a expectativa de taxas de retorno adequadas, garantia dos contratos e uma regulação inteligente.
ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras nesta coluna.