quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Na antessala do tribunal


BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo
FLÁVIA TAVARES
Sobem as cortinas. Foi com um sorriso confiante de candidato, e não de quem se defende de acusações graves, que ele chegou à sede da CUT em Brasília naquela noite. Distribuindo abraços e apertos de mão, Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, atravessou a plateia de cerca de 50 militantes e 30 profissionais de imprensa, até ser chamado a ocupar a cadeira central no pequeno palco. Num terno risca de giz preto sobre camisa branca e gravata vinho, figurino formal que tem usado em peregrinação Brasil afora, foi saudado aos gritos de "Delúbio, guerreiro, do povo brasileiro". A guerra que protagoniza é para provar sua inocência, a partir da semana que vem, diante do STF, tentando livrar-se das acusações de ser um dos operadores do esquema conhecido como mensalão.
O evento marcado às vésperas do julgamento foi organizado pela Juventude do PT de Guará, cidade-satélite de Brasília. Inicialmente ocorreria na sede nacional do partido, mas, pelo que se sabe, a cúpula petista tem evitado ceder espaços institucionais ao responsável pela dinheirama que partia das empresas de Marcos Valério para bolsos de políticos endividados após a campanha de 2002. Vale lembrar que Delúbio foi expulso do PT em 2005 e só readmitido em 2011. Neste ato, foi justamente sua trajetória de sindicalista que lhe garantiu abrigo no abafado auditório da CUT, localizado numa região decaída da capital federal - com direito a um telão do lado de fora, que acabou sem público. A imprensa foi abertamente hostilizada antes do início da cerimônia. "Saiam. A gente lê vocês. Mas vocês leem a gente?", bradava aos jornalistas um senhor negro, de barba branca, boina vermelha.
Depois das devidas apresentações e de muito "companheiro" pra cá e pra lá, Delúbio acompanhou atentamente a fala de um de seus melhores amigos, também um de seus advogados, Sebastião Pereira Leite, o Juruna. O amigo discorreu sobre aquilo que a bancada de apoio do ex-tesoureiro considera falho num processo que o acusa de corrupção ativa e formação de quadrilha - o peculato foi derrubado da trilogia pelo próprio STF. "Não há provas de compra de votos de parlamentares", repetiram os integrantes da mesa. A tecla martelada pela defesa é a de que houve o uso de "recursos não contabilizados" para o pagamento de dívidas de campanha. Nas palavras de Delúbio, "caixa dois não tradicional, porque o nosso dinheiro tinha origem". Crime eleitoral, no máximo.
A palavra mensalão só apareceu na boca do ex-tesoureiro 45 minutos depois do início do ato, e com o grifo de que se trata de "nome midiático". Ao mencionar "os crime" de que é acusado, invariavelmente engolindo os esses finais, o tom de voz de Delúbio não é de comício. Ao clamar que seja julgado somente pelo que fez, não inflama os espectadores. Ao contrário, pede calma. "Temos que agir com serenidade e confiar na Justiça." Não lhe cai o papel de vítima, a não ser quando fala da família. "Estamos pagando um preço há sete anos. Fui expulso do PT. A vida do meu pai, da minha mãe, da minha mulher foi vasculhada." Sua companheira, a intransponível Monica Valente, membro do diretório nacional do PT, acena com a cabeça.
Delúbio deixa nas entrelinhas que o veredicto já está definido. "Conversar com a militância não vai influenciar o julgamento. Mas quero que vocês saibam a verdade e contem para todo mundo", diz, enquanto balança a brochura de 80 páginas intitulada A Defesa de Delúbio Soares no STF, escrita por advogados da banca de Arnaldo Malheiros. Devoto que é do partido, o ex-tesoureiro afirma acreditar que as denúncias não foram contra os 38 acusados, mas contra o projeto de país do PT.
Quase duas horas haviam se passado. Delúbio fizera piadas sobre sua idade, em comparação com a juventude do público. Era hora de encerrar. Mas em encontros políticos, ainda mais em ano de eleição, nada termina até que o microfone passe pelos candidatos a vereador, dirigentes dos escritórios nacionais do partido, assistentes da secretária daquele amigo que te apoiou em 1992, lembra? Depois, militantes em série decidiram se manifestar - menos em apoio a Delúbio e mais em ataques à mídia golpista. Para encerrar a sequência, três Chicos discursaram: o Pereira, o Vigilante e o Floresta. Delúbio brincou que a selva estava completa.
Na saída, uma verdadeira caçada: repórteres se amontoam em volta do operador das finanças do PT em seu período mais crítico. Com destreza, Delúbio se livrou de todos, como faz há cinco anos. Sua mulher, Monica, idem: "Nós não falamos com imprensa. Nunca". Mais abraços apertados em alguns correligionários. De mãos dadas, andando lentamente, Delúbio e Monica seguem para o carro importado de um amigo. E se vão, à espera do julgamento.

O novo desenvolvimento e o papel do Estado - 3



Coluna Econômica - 01/08/2012 do Blog do Luis Nassif
País sede da primeira revolução industrial, nos planos científico e tecnológico a Inglaterra não possuía avanços significativos em relação a outros grandes países europeus.
O historiador Eric Hobsbawn define “revolução industrial” como a criação de um "sistema fabril mecanizado que por sua vez produz em quantidades tão grandes e a um custo tão rapidamente decrescente a ponto de não mais depender da demanda existente, mas de criar o seu próprio mercado.
Segundo Hosbawn, “qualquer que tenha sido a razão do avanço britânico, ele não se deveu à superioridade tecnológica e científica.”
Dois fenômenos produziram o milagre inglês: uma indústria que já oferecia recompensas excepcionais para o fabricante expandir rapidamente sua produção (proporcionando mais ganhos do que o comércio); turbinada por um mercado mundial àquela altura monopolizado por uma única nação.
Em suma: deveu-se à criação de mercados.

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No início, a base de sua economia era a lã de ovelhas. O país vendia lã em estado bruto para a Bélgica, onde eram tingidos e trabalhados. Sob o reinado de Carlos I e Jaime I houve proteção à produção inglesa. Em breve, a indústria têxtil se consolidou, a Inglaterra passou a exportar tecidos finos, de valor agregado, e a importar pouquíssimo.
A indústria da lã motivou a mineração do carvão que, por sua vez, deu origem ao extenso comércio pesqueiro e à pesca, os dois últimos servindo de base à montagem do poderia naval britânico, consolidados nas Leis de Navegação, que reservaram aos navios ingleses a pesca e o transporte do carvão.
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A obra de arte diplomática foi o Tratado de Mehuen com Portugal.
Havia quatro blocos de países em jogo.
* A Inglaterra, com sua manufatura em expansão e o domínio do comércio do Atlântico, com as Índias Orientais e Ocidentais.
* Portugal tinha metais que interessavam a Inglaterra, e uma indústria de vinhos.
* A Índia tinha uma indústria têxtil poderosa, mais articulada que a inglesa, e outras manufaturas desenvolvidas. Mas tinha carência de ouro.
O acordo com Portugal, firmado pelo embaixador britânico Paul Methuen previa os seguintes pontos:
1. A Inglaterra permitiria a importação de vinhos portugueses com tarifas alfandegárias equivalentes a 1/3 das tarifas de países concorrentes.
2. Portugal consentiria em importar tecidos e roupas inglesas com taxas alfandegárias de 23%, mesma alíquota cobrada antes de 1684, quando Portugal se tornou protecionista.
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Imediatamente após o acordo, houve uma inundação de manufaturas inglesas que praticamente arrebentou com a indústria portuguesa. A Inglaterra recorreu a todos os expedientes, inclusive colocando produtos subfaturados, para pagar menos taxas alfandegárias. Na outra ponta, levou toda prata e todo ouro de Portugal.
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O ouro e prata de Portugal garantiram à Inglaterra acesso aos produtos indianos, com que inundaram a Europa. Todas as colônias portuguesas, especialmente o Brasil, se transformaram em feudos ingleses.
Com essa estratégia, a Inglaterra adquiriu um poder sem paralelo; os demais países, que adquiriram manufaturas mais baratas, ganharam o inverso.

terça-feira, 31 de julho de 2012

A mãe de toda corrupção


Por Luis Nassif
Coluna Econômica - 31/07/2012
Deixo de lado, por um dia, a série sobre modelos de desenvolvimento, para falar de tema central, no combate à corrupção no país: o financiamento privado de campanha.
Nos próximos dias começará o julgamento do “mensalão” – o sistema de financiamento de campanha do PT e partidos aliados, denunciado por Roberto Jefferson. Não há provas de que tenha sido um pagamento mensal por compra de apoio. É mais o apoio financeiro às campanhas políticas de aliados.
Mesmo assim, não deve ser minimizado, desde que se entenda que é algo que ocorre com todos os partidos e todas instâncias de poder.
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O país avançou enormemente na luta contra a corrupção. Dispõe de um conjunto de organismos funcionando, como o TCU(Tribunal de Contas da União), a AGU (Advocacia Geral da União), o Ministério Público, a Polícia Federal. E, agora, a Lei de Transparência, obrigando todos os entes públicos a disponibilizarem suas informações na Internet.
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Mas o ponto central de corrupção – o financiamento privado de campanha – continua intocado.
Por que ele tem essa importância?
O primeiro círculo de controle da corrupção é do próprio partido. São políticos vigiando correligionários.
Com o financiamento público de campanha e o Caixa 2, a contabilidade vai para o vinagre. É impossível controlar o que vai para o partido ou para o bolso dos que controlam as finanças partidárias.
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O mesmo ocorre na administração pública. A sucessão de convênios firmados por Ministérios com ONGs aliadas é efeito direto desse modelo.
Mas não apenas isso. Tome-se o responsável pela aprovação de plantas na Prefeitura de São Paulo. Durante anos e anos prevaricou. Para tanto, desobedecia as posturas municipais. Por que não foi denunciado por subordinados? Justamente por não saber se era iniciativa pessoal sua ou a mando do seu chefe, ou do chefe do chefe. Tudo isso devido ao financiamento privado de campanha.
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Essa prática nefasta acabou legitimando (embora não legalizando) vários tipos de golpe em todas as instâncias administrativas, em todos os quadros partidários.
Liquidou não apenas com a ética partidária mas com a própria democracia interna dos partidos. Na composição dos candidatos ao legislativo, tem preferência quem tem acesso a financiadores de campanha. E a conta será cobrada depois.
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Os desdobramentos se dão não apenas no âmbito da política, mas do próprio crime organizado.
A falta de regras faz com que pululem irregularidades em todos os cantos – desde meros problemas administrativos até escândalos graúdos.
Em parceria com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, por exemplo, a revista Veja montou uma verdadeira máquina de arapongagem em Brasilia, que servia não apenas para vender mais revista, criar mais intimidação, como para outros objetivos ainda não completamente esclarecidos.
Em muitos casos, levantavam-se escândalos com o único propósito de afastar quadrilhas adversárias de Cachoeira.
As revelações de ontem – do portal G1, da Globo – de que a namorada de Cachoeira chantageou um juiz (dizendo que tinha encomendado um dossiê para Veja) é demonstração cabal de como a corrupção entrou em todos os poros da vida nacional.