quarta-feira, 22 de julho de 2026

Democracias repetem erro ao ignorar ameaça autoritária - Rui Tavares, FSP

 Há 90 anos por estes dias, Barcelona se preparava para receber os Jogos Olímpicos operários e antifascistas em alternativa aos Jogos Olímpicos organizados pelos nazistas em Berlim. Não aconteceu porque eclodiu a Guerra Civil da Espanha.

Em vez do grande evento esportivo, os trabalhadores e os seus sindicatos, nos quais predominavam os anarquistas, saíram às ruas para impedir a tomada de poder pelos fascistas. Durante uma década e meia tinham visto país após país cair em ditadura —Itália, Alemanha, Portugal mesmo ali ao lado, a própria Espanha na década anterior com Primo de Rivera, e desta vez disseram: "¡No pasarán!" ("Não passarão").

Homem de cabelos grisalhos e terno azul com gravata vermelha observa para o lado direito enquanto confetes dourados caem ao seu redor. Fundo desfocado em tons vermelhos e azuis.
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante cerimônia de premiação da Copa do Mundo, no estado de Nova Jersey - Lee Smith - 19.jul.26/Reuters

É difícil ter hoje em dia uma noção da enormidade que foi esse grito de coragem. Não só pela primeira vez os trabalhadores reagiram em defesa da democracia pegando em armas como, em muitos casos, tomaram conta de uma economia que, nos centros urbanos, era complexa, sofisticada e industrializada.

Conseguiram fazê-lo e ainda organizar uma resistência que durou três anos. E conseguiram fazê-lo não numa ditadura, mas num ambiente pluralista e diverso.

Tudo isso era demais não só para os fascistas, salazaristas e nazis, que apoiaram Franco, mas também para Stálin, que preferiu perder a guerra atacando a esquerda pelas costas a ver nascer do outro lado da Europa uma alternativa socialista que lhe fugisse ao controle autoritário.

Mas isso estaria ainda no futuro. Veio a guerra e perdeu-se a guerra, e depois veio a Guerra Mundial. Ao passo que os regimes autoritários apoiaram Franco, os democratas deixaram abandonada a República Espanhola.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Será que Trump vai respeitar as eleições? - Joel Pinheiro da Fonseca -FSP

 Trump há de aprontar alguma nas eleições de meio de mandato. O que ele fará ninguém sabe, mas os sinais estão aí. A aprovação do presidente nunca esteve tão baixa. A chance de perder a maioria em ao menos uma casa do Congresso é real, o que deixaria seu governo enfraquecido. Sabemos como Trump lida com derrotas. Com essa não deve ser diferente.

Na quinta passada, ele deu um discurso em rede nacional em que afirma que as eleições americanas são inseguras e passíveis de fraude, inclusive por inimigos externos como a China. Tudo, é claro, em conluio com o "Estado profundo", os servidores públicos que conspiram contra seu governo.

Donald Trump participa da cerimônia de premiação na final da Copa, em Nova Jersey, no domingo (19) - Evan Vucci/Reuters

Quando olhamos para os atos de seu mandato, contudo, a segurança das eleições não figura como uma prioridade. Muito pelo contrário: ele já cortou cerca de um terço dos funcionários da Agência de Cibersegurança e Segurança da Infraestrutura, que —entre outras atribuições— ajuda os estados a garantir a segurança nas eleições. Além disso, desmantelou o painel bipartidário da Comissão de Assistência às Eleições, que também presta assistência logística e de segurança nas eleições aos estados. Tudo indica que teremos eleições mais inseguras, e portanto mais passíveis de críticas e contestação judicial, exatamente o que favoreceria Trump em caso de derrota.

A acusação, feita por Trump, de que a China interferiu no resultado das eleições americanas em 2020 é completamente sem base, inclusive nos documentos de inteligência citados por ele. Ainda assim, se houvesse interesse real em prevenir uma interferência externa, ele teria fortalecido a Força-Tarefa de Influência Estrangeira, que investigava justamente isso. Ela foi dissolvida no início do mandato.

Outro momento marcante da semana passada foi o discurso de Marco Rubio sobre o "terrorismo de extrema esquerda" e a necessidade de mobilização internacional contra ele. Poucos países devem levar a sério a narrativa que vê organizações internacionais por trás do ato de cada indivíduo desequilibrado que comete atos de violência. Mas a fala serve, mais uma vez, como discurso interno que legitima a perseguição de opositores e, em casos extremos, pode levar a algum tipo de conflagração às vésperas da eleição.

Neste contexto, a coisa mais burra que qualquer americano opositor de Trump poderia fazer é cometer atos de violência ou terrorismo; mas foi exatamente isso que um cidadão fez no domingo ao levar armas e causar um incêndio ao lado de um prédio de escritórios de autoridades imigratórias. Tudo indica ser um indivíduo desequilibrado, mas servirá como uma luva ao discurso de que o governo dos EUA vive um ataque orquestrado "da esquerda".

A tão ameaçada democracia deu sinais de força em abril quando Viktor Orbán perdeu as eleições na Hungria. Mesmo com extenso aparelhamento do Judiciário e controle da mídia, os cidadãos ainda podem tirar um líder impopular. Se tiverem acesso às urnas. Trump não tem nem de longe o poder que Orban tinha sobre a imprensa e o Judiciário. Quem cuida das eleições, ademais, são os estados. Os EUA não deixarão de ser uma democracia tão fácil. Mas a deterioração de seu mecanismo fundamental seria um exemplo preocupante. E que arrastaria.

Odisseia' de Nolan mostra que Ulisses também foi um destruidor de mundos, João Pereira Coutinho- FSp

 

Que se passa com Homero? Que se passa com Christopher Nolan?

Um extraterrestre que tivesse visitado o planeta Terra por estes dias ficaria abismado com a discussão. De repente, meio mundo acordou para um filme que, segundo os críticos mais duros, não faz justiça à obra de Homero.

Minha primeira reação foi bocejar: não faz justiça? Claro que não: só Homero faz justiça a Homero. Mas o ruído continuou tão ensurdecedor que, temendo e tremendo pelo destino da civilização, fui investigar.

Cena do filme Ulisses em que dois personagens viris, vestidos com seus capacetes de guerra de faces assustadores que contrastam com as plumagens que levam no topo, com as carnavalescas cores do arco-íris, símbolo do movimento gay
Ilustração de Angelo Abu para coluna de João Pereira Coutinho de 21 de julho de 2026 - Angelo Abu/Folhapress

Gostei do filme, aviso já, apesar de alguns diálogos serem manifestamente anacrônicos. É evidente, para quem leu a obra, que a "Odisseia" de Nolan só a ele pertence.

No filme, os feitos heroicos dos gregos em Troia não merecem celebração. A astúcia de Ulisses com o famoso cavalo de madeira não é apreciada pelos deuses —é apresentada, aliás, como um gesto de impiedade.

O rapto de Helena também não é uma violação da hospitalidade que Menelau concedeu a Páris —é um mero pretexto para interesses comerciais vulgares.

Certo, tudo certo. E daí?

Escutando alguns críticos, parece que só Christopher Nolan se inspirou em Homero para apresentar uma versão pessoal desse universo lendário. Será que os puristas leram "As Troianas", de Eurípides, uma condenação da guerra de Troia ainda mais feroz do que a de Nolan?

Será que leram a "Eneida", de Virgílio, com um Eneias ainda mais torturado pelas memórias dessa guerra do que o Ulisses do filme?

E o que dirão de Dante, já num contexto cristão, que reservou para Ulisses um lugar no inferno? Na "Divina Comédia", o rei de Ítaca é um dos "conselheiros da fraude": alguém que, abusando da duplicidade, arrastou os outros para a destruição.

Na versão de Dante, nem o amor por Telêmaco, Laertes ou Penélope bastou para detê-lo: partiu de novo, para novas aventuras, porque sua ambição não tinha limites.

As virtudes de Ulisses, na voz de Homero, pertencem a um mundo próprio. Nesse mundo, a vergonha e a honra são mais importantes do que a consciência individual e a culpa. É um mundo de glória guerreira, não de penitência e expiação.

Mas o nosso mundo já não é esse —afirma Dante, e qualquer autor posterior que tenha usado a "Odisseia" para meditar sobre a natureza anti-heroica da guerra. Era inevitável que Christopher Nolan, depois de "Oppenheimer", também chegasse ao mesmo destino. Ulisses, tal como a bomba atômica, também foi um destruidor de mundos.

Discordo dos críticos de boa-fé, que se afastam do filme por razões literárias ou artísticas. Mas é preciso distingui-los de um outro tipo de críticos que, sobretudo nos Estados Unidos, falam da "Odisseia" e de Christopher Nolan por razões políticas nem sempre compreendidas pelos ingênuos.

Explico melhor: tempos atrás, nesta Folha, dei conta do livro de Laura K. Field sobre a "nova direita" Maga. Intitulado "Furious Minds", o livro dedica um capítulo inteiro ao fascínio que uma parte dessa direita sente pelo mundo homérico e pela Idade do Bronze.

Não é por acaso que uma das obras mais influentes dessa turma se chama "Bronze Age Mindset", um panegírico tosco à suposta virilidade dos heróis de Homero, por contraposição à cultura supostamente efeminada e proto-socialista da Idade do Ferro que a sucedeu.

A ideia, ao que parece, é recuperar o espírito dos gregos em pleno século 21 e deixar para trás a "ginocracia" de um mundo controlado pela sensibilidade feminina.

O leitor, mantendo a sanidade, obviamente ri desses dementes. O problema é que eles não riem. Falam completamente a sério, e suas propostas vêm influenciando a teoria e a prática da nova direita —um desprezo cada vez mais assumido pela democracia liberal, uma defesa cada vez mais aberta de lideranças fortes, absolutas e viris. O fascismo em novos trajes.

Não à toa, a campanha mais barulhenta nas redes contra Nolan tem as digitais desses guerreiros. Não é a infidelidade do filme à obra literária que os perturba —uma discussão que seria legítima. Nem sequer o elenco multirracial que Nolan apresenta —isso é só boi de piranha.

O problema é ter um diretor talentoso que usa os textos sagrados dessa nova religião para mostrar o outro lado da "mentalidade da Idade do Bronze": a crueldade, a destruição e autodestruição a que as "virtudes viris" podem nos levar quando não são temperadas pela prudência, pela compaixão e pela humanidade.

Nada que o homem do século 20 já não conheça: essa virilidade já foi vendida faz mais de cem anos. E, como o Ulisses de Nolan, ainda habitamos as sombras dessas ruínas.