segunda-feira, 22 de junho de 2026

O rolo do Rolex ZECA BALEIRO, FSP (29 out 2007)

 NO INÍCIO do mês, o apresentador Luciano Huck escreveu um texto sobre o roubo de seu Rolex. O artigo gerou uma avalanche de cartas ao jornal, entre as quais uma escrita por mim. Não me considero um polemista, pelo menos não no sentido espetaculoso da palavra. Temo, por ser público, parecer alguém em busca de autopromoção, algo que abomino. Por outro lado, não arredo pé de uma boa discussão, o que sempre me parece salutar. Por isso resolvi aceitar o convite a expor minha opinião, já distorcida desde então.

Reconheço que minha carta, curta, grossa e escrita num instante emocionado, num impulso, não é um primor de clareza e sabia que corria o risco de interpretações toscas. Mas há momentos em que me parece necessário botar a boca no trombone, nem que seja para não poluir o fígado com rancores inúteis. Como uma provocação.
Foi o que fiz. Foi o que fez Huck, revoltado ao ver lesado seu patrimônio, sentimento, aliás, legítimo. Eu também reclamaria caso roubassem algo comprado com o suor do rosto. Reclamaria na mesa de bar, em família, na roda de amigos. Nunca num jornal.
Esse argumento, apesar de prosaico, é pra mim o xis da questão. Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado? Lançando mão de privilégio dado a personalidades, utiliza um espaço de debates políticos e adultos para reclamações pessoais (sim, não fez mais que isso), escorado em argumentos quase infantis, como "sou cidadão, pago meus impostos". Dias depois, Ferréz, um porta-voz da periferia, escreveu texto no mesmo espaço, "romanceando" o ocorrido. Foi acusado de glamourizar o roubo e de fazer apologia do crime.
Antes que me acusem de ressentido ou revanchista, friso que lamento a violência sofrida por Huck. Não tenho nada pessoalmente contra ele, de quem não sei muito. Considero-o um bom profissional, alguém dotado de certa sensibilidade para lidar com o grande público, o que por si só me parece admirável. À distância, sei de sua rápida ascensão na TV. É, portanto, o que os mitificadores gostam de chamar de "vencedor". Alguém que conquista seu espaço à custa de trabalho me parece digno de admiração.
E-mails de leitores que chegaram até mim (os mais brandos me chamavam de "marxista babaca" e "comunista de museu") revelam uma confusão terrível de conceitos (e preconceitos) e idéias mal formuladas (há raras exceções) e me fizeram reafirmar minha triste tese de botequim de que o pensamento do nosso tempo está embotado, e as pessoas, desarticuladas.
Vi dois pobres estereótipos serem fortemente reiterados. Os que espinafraram Huck eram "comunistas", "petistas", "fascistas". Os que o apoiavam eram "burgueses", "elite", palavra que desafortunadamente usei em minha carta. Elite é palavra perigosa e, de tão levianamente usada, esquecemos seu real sentido. Recorro ao "Houaiss": "Elite - 1. o que há de mais valorizado e de melhor qualidade, especialmente em um grupo social [este sentido não se aplica à grande maioria dos ricos brasileiros]; 2. minoria que detém o prestígio e o domínio sobre o grupo social [este, sim]".
A surpreendente repercussão do fato revela que a disparidade social é um calo no pé de nossa sociedade, para o qual não parece haver remédio -desfilaram intolerância e ódio à flor da pele, a destacar o espantoso texto de Reinaldo Azevedo, colunista da revista "Veja", notório reduto da ultradireita caricata, mas nem por isso menos perigosa. Amparado em uma hipócrita "consciência democrática", propõe vetar o direito à expressão (represália a Ferréz), uma das maiores conquistas do nosso ralo processo democrático. Não cabendo em si, dispara esta pérola: "Sem ela [a propriedade privada], estaríamos de tacape na mão, puxando as moças pelos cabelos". Confesso que me peguei a imaginar esse sr. de tacape em mãos, lutando por seu lugar à sombra sem o escudo de uma revista fascistóide. Os idiotas devem ter direito à expressão, sim, sr. Reinaldo. Seu texto é prova disso.
Igual direito de expressão foi dado a Huck e Ferréz. Do imbróglio, sobram-me duas parcas conclusões. A exclusão social não justifica a delinqüência ou o pendor ao crime, mas ninguém poderá negar que alguém sem direito à escola, que cresce num cenário de miséria e abandono, está mais vulnerável aos apelos da vida bandida. Por seu turno, pessoas públicas não são blindadas (seus carros podem ser) e estão sujeitas a roubos, violências ou à desaprovação de leitores, especialmente se cometem textos fúteis sobre questões tão críticas como essa ora em debate.
Por fim, devo dizer que sempre pensei a existência como algo muito mais complexo do que um mero embate entre ricos e pobres, esquerda e direita, conservadores e progressistas, excluídos e privilegiados. O tosco debate em torno do desabafo nervoso de Huck pôs novas pulgas na minha orelha. Ao que parece, desde as priscas eras, o problema do mundo é mesmo um só -uma luta de classes cruel e sem fim.


JOSÉ DE RIBAMAR COELHO SANTOS, 41, o Zeca Baleiro, é cantor e compositor maranhense. Tem sete discos lançados, entre eles, "Pet Shop Mundo Cão".

sexta-feira, 19 de junho de 2026

O segredo da corrupção, Helio Schwartsman, FSP

 Por que não conseguimos nos livrar da corrupção? A resposta curta é "porque ela funciona". Para cada esquema que identificamos e desbaratamos, como o caso Master ou o petrolão, é razoável supor que existam vários outros que permanecem abaixo do radar, satisfazendo as necessidades daqueles diretamente envolvidos, isto é, corruptores e corruptos. Já o dano é coletivo e extrapola os rombos bilionários que os economistas se esforçam para calcular. Há prejuízos também para a eficiência econômica, pela via da redução da competição, e para a própria coesão social, já que muitos cidadãos se sentem, com razão, vilipendiados pela roubalheira com participação de agentes públicos.

Fachada de edifício comercial com grandes janelas espelhadas que refletem outro prédio alto. A entrada tem colunas claras e painéis decorativos, com duas telas digitais coloridas nas laterais. Fios elétricos cruzam horizontalmente em frente ao prédio.
Predio onde funcionava Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro sem identificação e com tapumes - Felipe Iruatã/Folhapress

O mundo, porém, é um lugar mais complicado do que nossas mentes gostam de imaginar. Por mais que amaldiçoemos a corrupção, ela ainda é, como gosto de afirmar aqui, a segunda melhor forma de organização da sociedade que existe. É obviamente inferior a um sistema no qual tudo funcione direitinho, segundo regras impessoais previamente estabelecidas, mas é superior a um regime no qual empreendimentos e a prestação de serviços possam ser bloqueados apenas pelo capricho de autoridades ou, ainda pior, um no qual as "concorrências" e outras disputas se resolvam à bala.

Passar do estágio da corrupção generalizada, que é a marca dos países subdesenvolvidos, para um em que ela seja residual é um processo gradual e que exige a punição a casos identificados, a fim de que os efeitos dissuasórios da aplicação da lei possam se multiplicar. Isso vai acontecer agora?

Reservo-me o direito ao ceticismo. O caso Master é ecumênico. Atinge direita, esquerda e até instituições de controle como o próprio STF. Nenhum dos atores principais tem, portanto, interesse em investigar o escândalo muito a fundo. E isso, obviamente, favorece um acordão, pelo qual as punições ficariam limitadas a alguns bodes expiatórios.

Não frequento bets, mas existem duas apostas em que é difícil perder dinheiro: guerra no Oriente Médio e pizza no Brasil.


Enquanto Joesley e Odebrecht financiavam campanha, Vorcaro distribui apartamentos, OESP

 

Foto do autor Raquel Landim
Atualização:

Doze anos depois do início da Lava Jato, Daniel Vorcaro, do Banco Master, substituiu Marcelo Odebrecht, da antiga Odebrecht, e Joesley Batista, da JBS, no noticiário dos escândalos de corrupção do Brasil.

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Assim como naquela época, as investigações não poupam nenhum lado do espectro político. Atingiram o senador Jaques Wagner (PT-BA), que é amigo próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro.

As suspeitas bateram no senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República. Chegaram na cúpula do Congresso, respingando no presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos -PB), e no presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil - AP).

O banqueiro Daniel Vorcaro quando foi transferido para Brasília
O banqueiro Daniel Vorcaro quando foi transferido para Brasília Foto: Reprodução / PF

Mas há diferenças importantes. Boa parte do dinheiro distribuído por Odebrecht e Joesley era caixa 2 de campanha, principalmente do PT, mas não só. Dizia-se que o financiamento público resolveria o problema.

Em 2026, o fundão eleitoral chega a R$ 4,96 bilhões, com PL, PT e União Brasil abocanhando as maiores fatias. No entanto, a Polícia Federal descobre evidências de que Vorcaro estava distribuindo dinheiro a rodo em Brasília.

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Trata-se de corrupção pura e simples. Para Wagner, a suspeita é de tratativas para a compra de um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador. Já Ciro recebia pagamentos mensais que variavam entre R$ 300 mil e meio milhão.

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São apartamentos para lá e para cá, viagens de luxo na Europa e em resorts caríssimos, caronas em jatinhos, festas nababescas, jantares em restaurantes estrelados com carne embalada a ouro.

Além disso, os valore superam e muito aqueles distribuídos individualmente nas épocas de mensalão ou petrolão, quando poucas vezes passavam da casa do milhão.

Segundo reportagem da revista Veja, Alcolumbre teria recebido a estonteante quantia de R$ 155 milhões - algo ainda a se confirmar. Ele nega que tenha recebido qualquer valor de Vorcaro e disse que vai processar a revista.

Flávio pediu R$ 134 milhões para financiar o filme Dark Horse, a autobiografia do seu pai. Apenas R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos, ainda assim muito dinheiro para um filme.

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Outro ponto que chama a atenção é ter cruzado as fronteiras do Legislativo e atingido o Judiciário. O contrato com o escritório da esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes chega a R$ 129 milhões. Já as transações com as cotas do resort do colega Dias Toffoli atingem R$ 35 milhões.

É tanto dinheiro, em tantas frentes, que espanta como um banqueiro de uma instituição média conseguiu ir tão longe. Seria Vorcaro mesmo o cabeça e beneficiário principal de todo o esquema?

Foto do autor
Opinião por Raquel Landim

Raquel Landim é colunista do Estadão e âncora do SBT News. Jornalista formada pela USP, já passou também pelas redações de Valor Econômico, Folha de S.Paulo e CNN Brasil. É autora de 'Why Not', livro reportagem sobre a delação da JBS.