terça-feira, 28 de abril de 2026

Bruno Gualano - Vale tudo na ciência?, FSP

 A homeopatia é ciência? E a psicanálise? A pesquisa da polilaminina segue o chamado rito científico? E a da cloroquina, durante a pandemia? Debater seriamente questões como essas pressupõe uma concepção filosófica do que seja ciência. E sobre isso há divergências legítimas.

Tomemos Paul Feyerabend, para quem não existe critério universal capaz de explicar —e menos ainda normatizar— o desenvolvimento da ciência. O filósofo austríaco sustenta que grandes avanços científicos ocorreram não apesar, mas frequentemente em virtude da violação de regras metodológicas.

Diante do que considera a inabilidade das metodologias racionalistas de explicar o progresso científico — crítica sobretudo a Karl Popper, arquiteto da versão mais "popular" do método científico— Feyerabend arremata: na ciência, "vale tudo" (anything goes).

Ilustração para especial de Inteligência Artificial, de 20.fev.2020
Carolina Daffara

A ideia sugere que o valor de uma teoria se decide por seus resultados históricos, não por obediência a cartilhas metodológicas. O heliocentrismo de Galileu enfrentava sérias dificuldades empíricas antes de encontrar, após décadas, sustentação na mecânica de Newton. A evolução de Darwin carecia de um mecanismo hereditário plausível até a redescoberta das leis de Mendel, já no início do século 20. São exemplos de que teorias fortes podem florescer de evidências imperfeitas.

À maneira de Feyerabend, programas de pesquisa como o da polilaminina não se julgam por um sistema único de métodos, mas pelo veredito lento da história: um processo em que a hipótese se revela —ou não— empiricamente fértil, útil na prática e integrada à ciência.

O pluralismo feyerabendiano tem o mérito de frear a pretensão de primazia da ciência e lembrar que o conhecimento humano não se esgota no laboratório.

Saberes práticos, tradicionais e experienciais —desdenhados pelo establishment científico— também iluminam a realidade. É sugestivo que um dos textos mais perspicazes sobre a polilaminina seja assinado por Marcelo Rubens Paiva, um escritor literário.

A postura cientificista fragiliza a democracia ao substituir a deliberação plural pela tecnocracia; rebaixa as humanidades, tratadas como saberes de segunda ordem; e corrói a credibilidade da ciência ao convocá-la a responder perguntas que não lhe cabem, como o sentido da vida ou a existência de Deus.

Mas Paul Feyerabend mina a própria tese ao ancorá-la em maus exemplos. Na ânsia de demolir o método, equipara práticas médicas alternativas, astrologia e até o vodu a teorias científicas consolidadas. Com isso, converte uma crítica legítima à soberba científica em reabilitação de práticas charlatanescas. E ao dissolver distinções cruciais entre pluralismo intelectual e permissivismo cognitivo, acaba por municiar o negacionismo.

Para o filósofo Massimo Pigliucci, o problema não está em submeter a ciência ao escrutínio público, mas em confundir esse exercício com a "democratização da expertise". Pigliucci nos recorda que não decidimos por assembleia como realizar uma cirurgia cerebral, consertar um motor ou projetar uma ponte. Não se trata de elitismo —sociedades complexas dependem de uma divisão do trabalho especializada. Especialistas são falíveis e devem ser criticados, mas seguem sendo nossa melhor aposta. Sem eles, decisões informadas pela ciência cedem lugar a opiniões infundadas, com custos sociais elevados —vide o negacionismo climático e o movimento antivacina.

Como Pigliucci, creio que a melhor ferramenta de que dispomos para compreender o mundo é a ciência. Isso não significa, contudo, que ela esteja imune a considerações morais e políticas. Precisamente pelo prestígio social de que goza, deve ser publicamente responsável, eticamente vigiada e epistemicamente humilde. Nisso Feyerabend, o anárquico, tinha razão.

O futuro do lixo: Musa Tecnologia transforma resíduo em matéria prima com modelo econômico inovador, INfomoney

 Imagine uma empresa que perseguiu um modelo inovador de negócio e com alto impacto social. Para a Musa Tecnologia, o caminho foi simples: o capital vem do lixo. A companhia de gestão de resíduos fundada há dois anos usa a tecnologia para transformar lixo em matéria-prima e está perto do breaking even operacional.

“Na Musa, 100% do resíduo vira produto e serviço, isso traz valoração, inclusão, capital, traz um contexto onde as pessoas querem se relacionar com o tema. Estamos deixando esse assunto mais sexy com a nossa abordagem. A Musa é uma das primeiras empresas a olhar pelo lixo nesse contexto de oportunidade”, diz Fabrício Guimarães, um dos fundadores da empresa.

A companhia conta com 130 funcionários e já coletou mais de 15 mil toneladas de resíduos na Grande São Paulo. Os clientes são bares, restaurantes, indústrias, prédios comerciais, supermercados, em suma, qualquer estabelecimento que produza lixo.

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“Nossa meta é criar uma consciência de consumo e trazer o ESG (Ambiental, Social e Governança, na tradução da sigla em inglês) para a pauta, não importa o tamanho do negócio. Queremos que a coleta de resíduos vire uma experiência”, explica Fabrício.

Ele diz que quando uma pessoa pede comida ela tem uma experiência, pois abre o app, vê as opções, escolhe, consegue pagar online, monitora a entrega. Isso cria uma relação com o ato de pedir comida.

“Queremos replicar a mesma lógica com o resíduo. Quando você contabiliza o volume de resíduo que um restaurante produz, consegue mostrar, por exemplo, que resíduo orgânico é desperdício e consegue saber de onde vem isso, se o prato está muito grande, se o cliente não aprovou. Você consegue mais dados para a tomada de decisão. Isso é uma experiência para seu estabelecimento, uma camada fundamental para a transformação”, avalia.

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Os caminhos dos resíduos

A Musa atua desde a fase de separação dos resíduos. “Somos responsáveis por fornecer as embalagens, identificar as lixeiras e fazer o treinamento dos responsáveis. Depois atuamos na separação e na coordenação da matéria-prima”, explica o executivo.

O lixo se transforma. O resíduo orgânico vira adubo mineral a partir da proteína do mosquito. Funciona assim: a digestão das moscas vira adubo e a larva vira proteína, que é usada para substituir soja na ração de gado, cachorro e gato. A matéria-prima tem índice um protéico muito forte, cerca de quatro vezes maior que a tradicional ração.

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Na parte de recicláveis, a maior parte volta para a indústria, que produz telhas e novas garrafas, por exemplo. Os rejeitos, como papel usado e máscaras de proteção passam por triagem, pois há risco de contaminação. Depois, viram matéria-prima para cimento e asfalto. Já o óleo vira biodiesel para avião, tinta, sabão. São muitos usos possíveis.

Inspiração e parceria

A ideia do negócio nasceu em uma visita à Suíça. Fabrício e seu sócio, o francês Martin Junck, observaram que os restaurantes, bares e hotéis serviam as refeições no mesmo tipo de louça, bem bonita. “Descobrimos que era material de reúso e ficamos impressionados. Daí começamos a buscar referências e descobrimos que esse é um setor não digitalizado, mas capaz de gerar impacto social. Somos empreendedores natos e já notamos que ali havia uma oportunidade”, diz.

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Para que a Musa ganhasse forma, os dois sócios iniciaram um processo de aceleração da Singularity University, no Vale do Silício, nos Estados Unidos. Lá perceberam o potencial do negócio e começaram a desenhar a Musa com capital próprio. Depois disso, já tiveram investimentos do JFC, fundo alemão e do Kaszek, fundo conceituado de América Latina, dos ex-donos no Mercado Livre, que já aportaram em empresas como Nubank e Quinto Andar.

“Além disso, contamos com a XP Empresas como gerenciador financeiro desde o começo. Isso nos ajudou a pensar nas formas de investir e a alavancar o patrimônio. Até hoje a parceria colabora para a dinâmica estrutural do negócio”, afirma.

A XP Empresas atuou ainda no início da primeira captação de recursos da Musa. Sendo responsável pela análise macroeconômica, que naquele momento indicava um sinal de recrudescimento inflacionário e trajetória de alta de juros, que foi a base da alocação do capital.

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A partir daí, foram escolhidos os ativos financeiros, nos indexadores adequados, que permitiram a melhor rentabilidade ajustada à liquidez necessária para o crescimento acelerado da companhia. Em um momento de reforço da mentalidade de eficiência de uso de capital, a estratégia se mostrou competente em gerar valor e alongar o runway (duração do capital da empresa) da Musa. A XP Empresas também participou de estratégias de hedge cambial.

O contexto do lixo

Fabrício explica que, apesar de não ser considerado um assunto sexy por muitas pessoas, o lixo é um tema urgente. São produzidas 89 milhões de toneladas de lixo por ano no Brasil e a taxa de reaproveitamento é de apenas 4%, o resto vai para o aterro sanitário ou para o lixão, que é a céu aberto. “Dos 5 mil municípios do Brasil, pelo menos metade ainda têm lixão a céu aberto. O problema disso, além de não haver reúso, é a contaminação do solo e dessas cidades”.

Olhando para o âmbito global, são cerca de 14 bilhões de toneladas de lixo por ano, com 14% de reuso. “É um problema mundial. E apesar de ouvirmos que na Europa há programas de reciclagem evoluídos, o índice de reúso é muito baixo. Há muitos países com uma dinâmica de recolhimento de resíduos, mas depois não se faz nada efetivo com esse material”, afirma.

Um dado global anunciado pela ONU (Organização das Nações Unidas) afirma que o mundo precisa de 100 bilhões de toneladas de matéria-prima virgem para produzir por ano, e 46% deste total pode ser substituído por matéria de reúso. “Imagina a urgência e o poder disso”, diz Fabrício.

É nesse contexto que a Musa que expandir as operações em 2023, tanto de localidades, quanto de canais de aquisição de matéria-prima. “A expectativa é ter presença em outras capitais. Já atendemos algumas redes de atuação nacional e estamos trabalhando para dar esse suporte 360 graus. Também queremos partir para aquisição de matéria-prima em outros canais, como modelo de descarte voluntário e um trabalho mais próximo com catadores”, finaliza Fabrício.

A Musa Tecnologia foi a empresa convidada para a edição do Zero ao Topo, podcast da InfoMoney. A íntegra do bate papo pode ser conferida aqui.

O programa também está disponível em vídeo no YouTube ou nas plataformas de áudio ApplePodcastsSpotifyDeezerSpreakerGoogle PodcastCastbox e Amazon Music.

Sobre o Do Zero ao Topo

O podcast Do Zero ao Topo traz, a cada semana, um empresário de destaque no mercado brasileiro para contar a sua história, compartilhando os maiores desafios enfrentados ao longo do caminho e as principais estratégias usadas na construção do negócio. O programa já recebeu nomes como André Penha, cofundador do QuintoAndar; David Neeleman, fundador da Azul; José Galló, executivo responsável pela ascensão da Renner; Guilherme Benchimol, fundador da XP Investimentos; Artur Grynbaum, CEO do Grupo Boticário; Sebastião Bonfim, criador da Centauro; e Edgard Corona, da rede Smart Fit.

XP Empresas
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