domingo, 26 de abril de 2026

Alexandra Moraes - Ombudsman O caso Master e seu estranho efeito nos jornais, FSP

 No último dia 8, o jornal O Estado de S. Paulo publicou a reportagem "Gilmar Mendes viajou para Brasília em avião de empresa de Vorcaro". Republicou-a no dia seguinte, no papel, ao lado de "Master pagou R$ 27 milhões a site de Luiz Estevão; Coaf aponta suspeita". Tal dobradinha colocou o jornal paulistano numa linha de tiro incomum.

Quando a informação sobre a viagem do ministro do STF veio à tona, a Folha a confirmou, publicou e atribuiu o furo ao Estado, seguindo boas práticas jornalísticas: "Gilmar Mendes pegou carona em avião de Daniel Vorcaro". Outros sites fizeram o mesmo.

Nove dias depois, o Estado resolveu se retratar pela reportagem. Numa nota de correção, afirmou que "o título não refletia como deveria o conteúdo integral do texto" e que "a presença de Gilmar Mendes no voo não se deveu ao fato de o avião, à época, pertencer a uma empresa, a Prime You, na qual o banqueiro Vorcaro tinha participação. Gilmar viajou como convidado de Marcos Molina, presidente do Conselho de Administração da MBRF". A MBRF, não custa lembrar, é a gigante fruto da união entre Marfrig e BRF e é dona da Sadia e da Perdigão.

Folha continua a sustentar o que colocou no ar sobre o voo. "Nosso título e texto não continham erro", afirma o jornal, via Secretaria de Redação. "É fato que Gilmar viajou em avião de empresa de Vorcaro, deixamos claro que foi a convite de Marcos Molina, da MBRF, e não fizemos ilação de que isso implicasse favor do banqueiro ao ministro."

Ilustração em preto e branco de uma balança de justiça com dois pratos suspensos, equilibrados, apoiados em uma base central decorada com um ornamento simétrico.
Ilustração de Carvall para coluna da Ombudsman de 26 de abril de 2026 - Carvall/Folhapress

Já o Grupo Estado se viu enredado em mais duas polêmicas. Há uns dias, anunciou o fechamento da rádio Eldorado, emissora tradicional em São Paulo. E, depois da publicação sobre os R$ 27 milhões, virou assunto no portal brasiliense Metrópoles, de propriedade do ex-senador Luiz Estevão. Em uma década, o Metrópoles cresceu e se impôs na paisagem jornalística com apurações e furos importantes, como a recente investigação sobre os descontos do INSS.

Depois que o Estado noticiou os pagamentos do Master ao Metrópoles, tidos como "suspeitos" e "inusitados" pelo Coaf, o portal passou a investigar e a se referir ao jornal como "dos banqueiros".

Horas antes de o Estado se retratar pela reportagem sobre Gilmar, o Metrópoles colocou no ar "quem são os bancos e empresários que aportaram R$ 142,5 milhões em debêntures no Estadão". A captação de recursos havia sido feita em 2024 e divulgada na época pelo jornal, sem detalhar investidores, e por outros veículos, como a Folha.

O Metrópoles afirmou também que o Estado contratou a Trustee, "gestora de Maurício Quadrado, sócio de Vorcaro no banco e na Prime You [a empresa do jatinho], para estruturar" a operação. Ao noticiar a correção feita pelo jornal, o Metrópoles fez uso do novo aposto: "Controlado por banqueiros, Estadão diz que errou ao relacionar Gilmar Mendes a Vorcaro". E voltou à carga informando que o Estado recebeu R$ 1,12 milhão do Master como pagamento por publicidade.

Assim como no caso do jatinho, a Folha publicou depois do concorrente paulistano a informação sobre os R$ 27 milhões, sem grandes consequências. Um detalhe, porém, chamou a atenção do leitor Pedro Marra, 64, de São Paulo.

O jornal informava que Luiz Estevão atribuía os pagamentos "a patrocínios de futebol e ‘divulgação de conteúdo publicitário e marketing das marcas’ do Master e do Will Bank (...). ‘Em meio às negociações com o BRB, que perduraram até setembro de 2025, o grupo Master/Will Bank buscou fortalecer a marca no ambiente local’, disse o ex-senador à Folha em março".

O leitor questionou: "Se a Folha falou com o Luiz Estevão em março, foi antes de o Estadão publicar seu furo. Se a Folha tinha a história antes, por que não publicou? Faltou coragem?". Em resposta, a Secretaria de Redação da Folha informou que "o Estado avançou na apuração e cruzou o pagamento do Master para a Série D com a demora da execução do patrocínio no campeonato. A partir daí, a Folha publicou o dado que tinha, atribuindo [ao concorrente] o furo".

Procurado pela ombudsman, o Estadão enviou nota e informou que "a captação de R$ 157,5 milhões realizada pelo Grupo Estado em 2024, (...) teve como objetivos a reorganização financeira do grupo" e "não resultou em mudança na estrutura societária". "A governança do grupo permanece a definida por seu estatuto social, tendo a linha editorial sob responsabilidade exclusiva da família Mesquita. A operação foi estritamente de crédito de mercado, contratada em condições usuais, e não impõe qualquer restrição ou influência sobre a cobertura diária e crítica que o jornal realiza sobre as instituições envolvidas. O Grupo Estado reafirma seu propósito liberal e republicano de 151 anos e sua missão essencial de informar o público com precisão, independência e responsabilidade."

O Metrópoles também foi procurado, mas não se manifestou até o fechamento do texto. O espaço continua aberto.


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Estadão faz comunicado sobre Rádio Eldorado, OESP

 A Rádio Eldorado ocupa, há décadas, um lugar singular na vida cultural de São Paulo. Referência em curadoria musical, jornalismo e programação de qualidade, tornou-se um patrimônio afetivo e intelectual de gerações de ouvintes, contribuindo de forma decisiva para a formação de repertório, a difusão de artistas e o fortalecimento da cena cultural da cidade.

Nos últimos anos, sobretudo após a pandemia, entretanto, observamos mudanças profundas nos hábitos de consumo de áudio. O crescimento acelerado das plataformas de streaming musical e a transformação no uso dos meios lineares têm impactado de forma estrutural o papel das rádios FM tradicionais.

Operação de radiodifusão da Eldorado será encerrada em 15 de maio
Operação de radiodifusão da Eldorado será encerrada em 15 de maio Foto: Estadão

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Atento a essas tendências, o Estadão vem revendo sua estratégia no segmento de áudio. Em função do término da parceria com a Fundação Brasil 2000, detentora da frequência 107,3 FM, a operação de radiodifusão da Eldorado será encerrada no próximo dia 15 de maio.

Essa decisão se insere em um movimento mais amplo de reposicionamento estratégico do Estadão, que vem ampliando de forma consistente sua presença digital. Nos últimos dois anos, a companhia intensificou sua produção audiovisual, por exemplo, com a contratação de 14 colunistas com atuação multiplataforma, responsáveis por conteúdos em texto e vídeo. Esse esforço permitiu expandir de maneira significativa a presença do Estadão em suas plataformas próprias — site e aplicativo —, bem como em redes sociais e canais de vídeo.

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aquisição da NZN, em outubro de 2025, reforçou essa trajetória. Os ativos digitais do TecMundo ampliaram a capacidade de distribuição e produção audiovisual, enquanto a sede da empresa foi convertida em um hub de criação na região de Higienópolis — a “Blue House” — dedicado ao desenvolvimento de novos formatos e linguagens.

O encerramento da operação de radiodifusão da Eldorado não representa o fim de sua marca. A Eldorado seguirá presente em projetos especiais e eventos, preservando seu papel como referência cultural. Alguns de seus principais programas, incluindo iniciativas como Som a Pino e Clube do Livro, serão redesenhados e adaptados para novos formatos, com ênfase em vídeo e distribuição digital. Esta transição permitirá ao Estadão oferecer aos seus parceiros comerciais formatos mais segmentados, mensuráveis e aderentes aos novos hábitos de consumo de conteúdo.

Estadão expressa seu profundo reconhecimento a todos os profissionais que construíram a história da Rádio Eldorado, bem como aos ouvintes que, ao longo dos anos, fizeram dela um espaço de encontro, descoberta e valorização da música de qualidade.

Ruy Castro - Flávio Moderado Bolsonaro, FSP

 Flávio Bolsonaro apresenta-se ao eleitorado como um "Bolsonaro moderado". Equivale ao círculo quadrado e ao fato imaginário, especialidades da família Bolsonaro. Um de seus argumentos é que se vacinou contra a Covid. E daí? Se achava a vacina tão importante a ponto de tomá-la, o que fez para sustar a política omnicida de seu pai, que sonegou enquanto pôde a vacina à população, mentiu sobre ela, ridicularizou-a e, como um misto de camelô e curandeiro, vendeu um substituto sabidamente ineficaz? Dos 700 mil brasileiros mortos pela Covid, quantos não terão sido crédulos bolsonaristas? E onde estava Flávio Bolsonaro enquanto seu pai, indiretamente, matava em série?

Flávio Bolsonaro no Planalto será um boneco de engonço do Bolsonaro titular, o qual ressurgirá de repente com notável disposição e não será surpresa se se sentar à cadeira para a qual elegeram o feto. Ou alguém tem ilusões a respeito do conceito dos Bolsonaros sobre democracia? A desfaçatez com que acham normal passar de moto por cima das instituições, demonstrada em quatro anos de um governo que desmoralizou o país, permite qualquer conjetura. E todos sabemos do conceito bem particular, para eles, da família no dístico "Deus, pátria e família".

Mesmo os outros dois termos são duvidosos. Não se conhecem as relações de Flávio Bolsonaro com Deus. Será religioso o suficiente para merecer os votos dos evangélicos? O que eles acham de sua relação com comprovados assassinos de aluguel, a ponto de espetar-lhes medalhas no peito sob a cartucheira?

E o que dizer da pátria, que Flávio Bolsonaro planeja abertamente entregar a Donald Trump, em cujas costas seus aliados se escondem para fugir à lei no Brasil? Falando em Trump, sua guerra contra o Irã custa US$ 2 bilhões por dia. Com esse dinheiro, pode-se salvar da fome 7,2 milhões de pessoas —são números oficiais da ONU. Quase a população do estado de Santa Catarina, acrescento eu.

Numa coisa Flávio Bolsonaro será, com razão, moderado. Não dará um pio sobre corrupção.