quinta-feira, 23 de abril de 2026

Rádio Eldorado vai encerrar atividades e demitir funcionários; grupo estuda realocação, FSP

 

São Paulo

Após quase 70 anos no ar, a Rádio Eldorado fechará suas portas, segundo comunicado enviado, nesta quarta-feira (22), aos acionistas e funcionários da empresa, que serão demitidos.

A emissora deixará a frequência 107.3 FM em 14 de maio. No dia seguinte, ela será ocupada pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação, que passará a operar no dial após negociação direta com a fundação proprietária. O dial é a frequência de emissoras, que permite ao ouvinte sintonizar a rádio —o FM 107.3 era alugado pela Eldorado.

Trabalhador com capacete está no topo de torre de telecomunicações laranja e branca, cercado por prédios altos em área urbana densa de São Paulo sob céu azul com poucas nuvens.
Antena na avenida Paulista, em São Paulo. A cidade possui mais de 30 antenas e torres espalhadas pela cidade, de diversos tamanhos, cores e estilos. - Danilo Verpa/Folhapress

Procurado, o grupo Estado, dono da emissora, confirmou o encerramento das atividades por meio de nota. "Nos últimos anos, sobretudo após a pandemia, observamos mudanças profundas nos hábitos de consumo de áudio. O crescimento acelerado das plataformas de streaming musical e a transformação no uso dos meios lineares têm impactado de forma estrutural o papel das rádios FM tradicionais", diz.

Na nota, o grupo afirma ainda que a decisão acontece "em função do término da parceria com a Fundação Brasil 2000, detentora da frequência 107,3 FM". "Essa decisão se insere em um movimento mais amplo de reposicionamento estratégico do Estadão, que vem ampliando de forma consistente sua presença digital. Nos últimos dois anos, a companhia intensificou sua produção audiovisual, por exemplo, com a contratação de 14 colunistas com atuação multiplataforma, responsáveis por conteúdos em texto e vídeo."

Os primeiros sinais da mudança vieram ainda em janeiro, quando funcionários da rádio leram uma publicação do Portal Tudo Rádio, informando que a Band poderia assumir o dial. Até então, a equipe não havia sido comunicada oficialmente.

A confirmação interna veio apenas depois, em reunião convocada após boatos. Segundo fontes ouvidas pela Folha, diretores já acompanhavam havia meses as tratativas envolvendo a frequência, mas não tinham comunicado os funcionários da equipe.

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Segundo relatos, no fim do ano passado, o grupo Estado teria sido avisado de que deveria desocupar o canal em maio deste ano, após a proposta apresentada pela Band ser aceita pela detentora do dial.

Apesar do prazo de alguns meses e propostas de migração para outras frequências, a empresa optou por encerrar as operações da rádio. A justificativa apresentada aos funcionários foi financeira —manter a emissora em outro dial elevaria custos e não garantiria um retorno compatível.

A Eldorado operava em uma frequência classificada como educativa, o que impõe restrições comerciais, mas também tornava o custo de operação mais baixo. A mudança para um dial comercial implicaria aumento significativo de despesas.

Os funcionários ouvidos pela reportagem afirmam ainda que o Estadão não buscou alternativas comuns no setor, como a venda de "naming rights" ou parcerias com marcas e investidores para sustentar o projeto.

Também dizem que a Eldorado não tinha uma equipe própria especializada na venda de publicidade em áudio. A comercialização ficava a cargo do time do Estadão, voltado principalmente ao mercado de mídia impressa, o que limitaria o potencial de receita da rádio.

A decisão contrasta com resultados recentes de percepção de marca. Uma pesquisa qualitativa encomendada pelo grupo indicou que a Eldorado tinha imagem mais positiva que o próprio Estadão entre ouvintes e assinantes.

O estudo destacou atributos como curadoria musical, identidade editorial e diferenciação no dial — características frequentemente associadas à emissora ao longo de sua trajetória.

Fundada há 68 anos, a rádio construiu reputação como espaço de programação musical selecionada e jornalismo cultural. Ao longo das décadas, contou com a participação de nomes como Jô Soares, Fernanda Young e Rita Lobo.

A comunicação do encerramento, nesta quarta, ocorreu em reunião com 22 dos cerca de 60 profissionais ligados à rádio —entre funcionários fixos, técnicos, produtores e colaboradores. Segundo apuração da reportagem, todos serão desligados, incluindo a direção.

O grupo Estado, porém, afirma que ainda realiza estudos para reaproveitar parte da equipe em outras áreas da empresa. Ainda no comunicado, diz que a marca Eldorado seguirá existindo por meio de projetos especiais e eventos.

"Alguns de seus principais programas, incluindo iniciativas como Som a Pino e Clube do Livro, serão redesenhados e adaptados para novos formatos, com ênfase em vídeo e distribuição digital. Esta transição permitirá ao Estadão oferecer aos seus parceiros comerciais formatos mais segmentados, mensuráveis e aderentes aos novos hábitos de consumo de conteúdo."

Leia o posicionamento do grupo Estado na íntegra:

A Rádio Eldorado ocupa, há décadas, um lugar singular na vida cultural de São Paulo.

Referência em curadoria musical, jornalismo e programação de qualidade, tornou-se um patrimônio afetivo e intelectual de gerações de ouvintes, contribuindo de forma decisiva para a formação de repertório, a difusão de artistas e o fortalecimento da cena cultural da cidade.

Nos últimos anos, sobretudo após a pandemia, entretanto, observamos mudanças profundas nos hábitos de consumo de áudio. O crescimento acelerado das plataformas de streaming musical e a transformação no uso dos meios lineares têm impactado de forma estrutural o papel das rádios FM tradicionais.

Atento a essas tendências, o Estadão vem revendo sua estratégia no segmento de áudio. Em função do término da parceria com a Fundação Brasil 2000, detentora da frequência 107,3 FM, a operação de radiodifusão da Eldorado será encerrada no próximo dia 15 de maio.

Essa decisão se insere em um movimento mais amplo de reposicionamento estratégico do Estadão, que vem ampliando de forma consistente sua presença digital. Nos últimos dois anos, a companhia intensificou sua produção audiovisual, por exemplo, com a contratação de 14 colunistas com atuação multiplataforma, responsáveis por conteúdos em texto e vídeo. Esse esforço permitiu expandir de maneira significativa a presença do Estadão em suas plataformas próprias — site e aplicativo —, bem como em redes sociais e canais de vídeo.

A aquisição da NZN, em outubro de 2025, reforçou essa trajetória. Os ativos digitais do TecMundo ampliaram a capacidade de distribuição e produção audiovisual, enquanto a sede da empresa foi convertida em um hub de criação na região de Higienópolis — a "Blue House" — dedicado ao desenvolvimento de novos formatos e linguagens.

O encerramento da operação de radiodifusão da Eldorado não representa o fim de sua marca. A Eldorado seguirá presente em projetos especiais e eventos, preservando seu papel como referência cultural. Alguns de seus principais programas, incluindo iniciativas como Som a Pino e Clube do Livro, serão redesenhados e adaptados para novos formatos, com ênfase em vídeo e distribuição digital. Esta transição permitirá ao Estadão oferecer aos seus parceiros comerciais formatos mais segmentados, mensuráveis e aderentes aos novos hábitos de consumo de conteúdo.

O Estadão expressa seu profundo reconhecimento a todos os profissionais que construíram a história da Rádio Eldorado, bem como aos ouvintes que, ao longo dos anos, fizeram dela um espaço de encontro, descoberta e valorização da música de qualidade.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Geração solar de casas e pequenos comércios faz rede de energia atingir limite em três estados, FSP

 

Brasília

A instalação de placas solares em residências, pequenos comércios e fazendas por todo o país —muitas vezes sem a permissão de órgãos reguladores— tem testado os limites das redes de distribuição de energia. Em alguns estados, essa saturação já inviabiliza a conexão de novos usuários de painéis solares à rede elétrica.

Conforme informações obtidas pela Folha, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) já identificou casos de rejeições de ligações em redes de Mato Grosso, com reflexos no Acre e em Rondônia, que passam por situação de esgotamento. A reportagem apurou com pessoas do setor que Mato Grosso do Sul caminha para o mesmo problema.

O motivo de barrar essas novas ligações ou ampliações é simples: as redes não foram projetadas para suportar todo esse volume de carga ao mesmo tempo e, agora, precisarão se adequar à nova realidade.

Placas solares em Rondônia - Divulgação/Sedam

Em comunicado à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), o ONS sinalizou que, enquanto as condições das redes atuais não mudarem, ou seja, enquanto não tiverem mais capacidade de receber e distribuir energia, novas conexões de geração solar ficarão inviabilizadas, seja para novos usuários, seja para ampliações.

Os casos analisados envolvem diversos portes de consumidores que produzem a própria energia e que são conhecidos no setor elétrico como MMGD (micro e minigeração distribuída). Nesse perfil, estão desde residências com painéis solares no telhado, que são a maioria, até pequenos comércios e propriedades rurais que produzem energia fotovoltaica.

Em comum está o fato de todos estarem conectados à rede de distribuição geral de energia, que recebe a produção de diferentes fontes, incluindo a solar.

As limitações da rede elétrica ocorrem porque a infraestrutura atual não foi projetada para suportar o crescimento desse grupo de consumidores. Como muitos passaram a produzir mais do que precisam em determinados momentos do dia, o excedente é enviado para a rede elétrica e convertido em créditos que podem ser usados por eles posteriormente.

Ocorre que, quando vários produtores fazem isso ao mesmo tempo, a rede local acaba recebendo mais energia do que foi projetada para suportar. Por isso, novos pedidos de conexões passaram a ser negados em algumas regiões, até que a estrutura seja ampliada.

Em 2025, o Brasil ultrapassou a marca de 60 GW (gigawatts) de potência em operação no setor de energia solar, segundo dados da Aneel. O número considera a soma dos pequenos e médios geradores (42,05 GW) e das grandes usinas solares, responsáveis por 17,95 GW.

Atualmente, a energia solar já é responsável por mais de 23% de participação na matriz elétrica nacional, sendo a segunda maior fonte, atrás apenas das usinas hídricas, que detêm 43,3% do volume total.

Em regiões com estresse nas redes, pequenos consumidores residenciais têm conseguido fazer suas conexões, mas, dependendo do tamanho da produção, estão sendo barrados.

A informação foi confirmada à Folha pelo operador. "O ONS avalia que a situação em Mato Grosso, com repercussões operativas para Acre e Rondônia, reflete uma restrição estrutural do sistema. Houve forte crescimento da geração na região, especialmente da micro e minigeração distribuída, e a operação precisa respeitar limites técnicos para preservar a segurança do Sistema Interligado Nacional", declarou.

"No caso de Mato Grosso, esse limite é necessário para evitar risco de instabilidade e desligamentos de grande porte em contingências severas na rede de transmissão."

O operador informou à Câmara Setorial Temática da Energia Elétrica em Mato Grosso que, "enquanto persistirem as condições técnicas, novas conexões de centrais geradoras não serão viáveis na região".

Mato Grosso já soma mais de 2,8 GW instalados e pode ultrapassar 3,5 GW até 2030, volume que supera a demanda máxima prevista para o estado. Esse tipo de situação tem provocado mudanças no perfil de consumo, com redução da carga durante a manhã e excedente que chega a ultrapassar 900 MW (megawatts) por volta das 12h, segundo o operador.

A Aneel também orientou as distribuidoras a fazer um pente-fino nas instalações de geração distribuída já conectadas, para identificar casos que podem estar produzindo mais energia do que a autorizada pelo órgão de fiscalização.

Há casos de um pequeno gerador da CPFL Energia, por exemplo, que tinha autorização para injetar até 75 kW (quilowatts) na rede, um volume de energia que costuma ser gerado por comércios ou fazendas, ou seja, é uma produção superior à média de uma casa simples. Acontece que esse consumidor passou a registrar, de uma hora para outra, volumes frequentes superiores a 140 kW, praticamente o dobro do que tinha autorização.

"Essa discrepância comprova a existência no local de uma central geradora com potência instalada superior ao montante autorizado pela distribuidora", diz a Aneel.

Para a Aneel e o ONS, as análises mostram que consumidores de todos os perfis têm ampliado a quantidade de painéis e equipamentos após a aprovação do projeto inicial, sem comunicar formalmente a distribuidora. A intenção inicial pode até ser a de garantir mais produção para consumo próprio, mas o fato de estarem plugados na rede acaba gerando instabilidade generalizada.

Além do risco operacional, a Aneel avalia que essas situações podem levar a "subsídios cruzados indesejados", quando consumidores acabam se beneficiando de vantagens regulatórias destinadas a sistemas menores, enquanto operam com capacidade maior.

Na prática, a agência se refere ao fato de que consumidores que tenham painéis com capacidade superior à autorizada podem se beneficiar de descontos em conta de luz de forma indevida, transferindo parte dos custos da rede para os demais consumidores. Isso acontece porque a rede tem custos fixos, que não desaparecem. Por isso, parte dessa conta acaba sendo redistribuída, fazendo com que os demais consumidores paguem pela infraestrutura que continua a ser utilizada.

Alterações das normas do setor devem ser anunciadas em breve a respeito do assunto, mexendo com as regras de conexão e operação da geração distribuída.

À Folha a Aneel declarou que "tem trabalhado em várias frentes", como mudanças regulatórias e medidas para "evitar conexões clandestinas ou desautorizadas nas redes".

"A Aneel está estudando e colocando em discussão com a sociedade medidas de modernização das tarifas de energia com a possibilidade de inclusão de sinais horários e locacionais de forma a alocar aos consumidores e usuários do sistema, de forma mais precisa, o custo que causam ao sistema", afirmou a agência.

Bárbara Rubim, vice-presidente de geração distribuída da Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), disse que, de fato, há diversos pontos de atenção sobre as redes que precisam ser sanados, mas que o governo também precisa adotar medidas para estimular o armazenamento de energia.

"Não falo só do armazenamento centralizado por meio do leilão, que é muito esperado para o segundo semestre, mas também do armazenamento distribuído para ajudar a solucionar uma sobrecarga das redes de distribuição de pequenos usuários", afirmou Rubim.

Segundo a especialista, as distribuidoras têm feito fiscalização por drone e usado inteligência artificial para entender o que seria a geração esperada do sistema versus o que está sendo efetivamente entregue.

"Há inúmeros relatos de consumidores que têm sido autuados pelas distribuidoras em um contexto de uma expansão irregular. A Absolar, obviamente, é favorável ao cumprimento das normas, mas isso é minoria num universo de mais de 7 milhões de consumidores gerando a própria energia", comentou Rubim.

"É um pouco frustrante para o setor perceber que a agência, as distribuidoras e os órgãos setoriais parecem mais vocais para trazer à luz uma eventual irregularidade pontual do setor do que para cumprir as suas próprias obrigações legais", criticou ela, mencionando as lacunas regulatórias que há anos afetam o segmento.

Quem é quem no jogo solar

Microgeração

- Casas que geram até 75 kW

- Usam painéis solares no telhado

- Produzem energia para uso próprio

- Se sobra energia, vai para a rede e vira crédito na conta de luz

Minigeração

- Empresas, fazendas e comércios que geram de 75 kW até 5 MW

- Usam painéis solares no telhado ou em terrenos

- Produzem energia para uso próprio

- Se sobra energia, vai para a rede e vira crédito na conta de luz

Usinas solares

- Unidades que produzem acima de 5 MW

- Hidrelétricas, eólicas e grandes usinas solares que instalam painéis

- Vendem a energia, que vai direto para o sistema elétrico

- Tem o fornecimento controlado pelo ONS

Onde está o problema

- Muita energia gerada ao mesmo tempo, em horários de baixo consumo

- Resultado é a rede de distribuição sobrecarregada, com risco de instabilidade

- Mato Grosso, Acre e Rondônia registram áreas de esgotamento em suas redes

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