sexta-feira, 27 de março de 2026

- OAB debate ética e paga despesa de ministro do STF em convescote, Frederico Vasconcelos- FSP

 A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) tem problemas de legitimidade para propor um código de ética no STF (Supremo Tribunal Federal).

A ideia da seccional paulista enfrenta resistência da OAB nacional. E é contraditório discutir ética e pagar as despesas do ministro Kassio Nunes, do STF, em convescote na Itália.

A OAB não forneceu a programação acadêmica e social do evento.

Sede da OAB em Brasília - Valter Campanato - 10.ago.22/Agência Brasil

O presidente da OAB, Beto Simonetti, afirmou em janeiro, em artigo no jornal O Estado de S. Paulo, que essas discussões só seriam legítimas "se ocorressem de modo despolitizado, respeitando a independência judicial e envolvendo todos os atores do sistema de Justiça —sobretudo a advocacia".

Kassio está na berlinda desde a revelação de que o Master e a JBS pagaram R$ 18 milhões, entre 2024 e 2025, a uma consultoria ligada a seu filho, o advogado Kevin de Carvalho Marques (25).

Em 2008, o então advogado Kassio ajuizou ação que condenou a Toyota do Brasil a pagar R$ 18 milhões a uma concessionária, a título de indenização pela suposta perda de um veículo.

PUBLICIDADE

A indenização correspondia a 212 veículos zero km.

Mais de 80% do valor foi atribuído a danos morais, e R$ 4 milhões foram executados.

Documento jurídico com texto formal solicitando condenação ao pagamento de custas processuais e honorários advocatícios. Valor de R$ 734.277,77 destacado em vermelho. Assinatura de Kassio Nunes Marques com carimbo de advogado e número da OAB, indicado por seta vermelha.
Ação de indenização ajuizada em 2008 pelo então advogado Kassio Nunes Marques que condenou a Toyota do Brasil a pagar R$ 18 milhões a uma concessionária no Piauí pela suposta perda de um veículo - Reprodução TJ-PI

Recurso da Toyota para reverter essa condenação começou a ser julgado na última sexta-feira (20) em sessão virtual no TJ-PI. O processo estava parado desde dezembro de 2020.

Nesta terça-feira (24), o relator, desembargador Manoel de Sousa Dourado, determinou julgamento em sessão presencial, com sustentação oral.

Parecer da ex-corregedora

A ação de Kassio foi identificada pela advogada e ex-corregedora nacional, Eliana Calmon, enquanto ela elaborava um parecer em processo de interesse da Toyota.

Ela constatou que o advogado Marcus Vinicius Coêlho, ex-presidente da OAB, também ajuizou ação contra a empresa, alegando defeitos de fabricação de veículos.

Nessa ação, a Toyota foi condenada a indenizar um casal (R$ 7,7 milhões) por acidente que não provocou "um único arranhão sequer".

A mulher não estava no veículo. O casal alegou "angústia diante da possibilidade da morte".

Em 2012, o juiz José Ramos Dias Filho (morto em 2022) julgou antecipadamente o litígio e condenou a Toyota ao pagamento de indenização por lucros cessantes.

Uma "condenação teratológica", segundo os advogados da empresa.

O juiz respondia a vários processos na corregedoria do TJ-PI e no Conselho Nacional de Justiça.
Foi aposentado compulsoriamente em 2017.

Alpinismo judicial

Esses fatos já eram conhecidos no Judiciário quando, em 2020, o então presidente Jair Bolsonaro articulou a indicação de Kassio para a vaga de Celso de Mello, com apoio de Marcus Vinicius.

Kassio obteve o aval de Gilmar Mendes, Dias Toffoli e da ex-corregedora do TRF-1, Maria do Carmo Cardoso, considerada conselheira jurídica da família Bolsonaro.

indicação de Kassio não esperou a aposentadoria de Celso de Mello, o que não é comum em nomeações do Supremo, em respeito ao ocupante do cargo.

A escolha de Kassio foi influenciada pelos senadores Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e Ciro Nogueira (PP-PI), um dos líderes do centrão.

O ex-presidente da OAB também apoiou, em 2014, a frustrada tentativa de Kassio, seu conterrâneo, para ocupar a cadeira de Gilson Dipp no Superior Tribunal de Justiça.

Havia resistência a magistrados oriundos da advocacia, concorrendo com juízes de carreira.

Em 2023, Marcus Vinicius estava no almoço que reuniu, em Portugal, Gilmar Mendes, o então corregedor nacional, Luis Felipe Salomão, os irmãos Joesley e Wesley Batista, e Sidney Gonzalez, da FGV Conhecimento, no restaurante Porto Santa Maria, na praia do Guincho, região de Cascais.

Outro Lado

Em 2015, Kassio afirmou à coluna:

"Dentre as centenas de processos em que atuei ao longo de 15 anos, subscrevi e assinei petições iniciais, bem como patrocinei duas ações judiciais na defesa de uma ex-concessionária da Toyota em Teresina-PI no ano de 2008 perante a Justiça Comum Estadual.

Em 2011, quando ingressei no TRF-1, substabeleci os poderes para outro escritório de advocacia, não tendo, a partir de então, notícia dos deslindes dos feitos. Até maio de 2011, data final em que atuei nestes processos, nenhuma decisão havia sido proferida."

Na ocasião, Marcus Vinicius, comentou:

"Em qualquer lugar do mundo, quando uma empresa coloca a vida de um consumidor em risco, há condenações pedagógicas. No Brasil, sempre que um consumidor é vitorioso, o caso ganha ares midiáticos e se tenta criminalizar a decisão".


São Caetano do Sul (SP) lidera ranking de desenvolvimento sustentável no país, FSp

 Amanda Mota

São Paulo (SP)

São Caetano do Sul (SP), no ABC paulista, alcançou a melhor classificação no Índice de Ecossistemas de Impacto (Indei), que analisou 139 municípios segundo aspectos econômicos, ambientais e socioculturais.

Lançado neste mês, o estudo mapeia como municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes oferecem condições para que iniciativas de impacto socioambiental prosperem, a partir de 63 indicadores públicos.

Desenvolvido pelo Impact Hub —rede global de apoio a empreendedores de impacto— em parceria com o Instituto Sabin, que fomenta inovação social, o índice analisa oportunidades e fragilidades em cada território.

Bairro Santa Paula localizado no município de São Caetano do Sul (SP) - Eduardo Knapp/Folhapress

"Estamos em 14 estados, além do Distrito Federal. Fazemos trabalhos para comunidades, por exemplo, de Blumenau (SC) e Boa Vista (RR), com contextos e desafios socioambientais completamente diferentes. Então, precisamos nos adequar à necessidade de cada território", afirma Gabriel Cardoso, gerente executivo do Instituto Sabin.

A proximidade com a capital paulista, a dimensão territorial compacta e serviços públicos catapultaram São Caetano do Sul para o primeiro lugar do ranking.

"Com território totalmente urbanizado, o município oferece bons serviços de educação e cultura e apresenta soluções para desafios como coleta de resíduos, saneamento básico e transporte público", explica Gabriela Werner, presidente do Impact Hub.

São Caetano do Sul tem 165 mil habitantes e alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): 0,862. "O município transforma proximidade física em acesso a oportunidades, educação e qualidade urbana", completa Werner.

Também se destacaram nos três eixos da pesquisa capitais como Florianópolis (SC), com IDH de 0,847 e 587 mil habitantes, e Vitória (ES) com IDH de 0,845 e 343 mil habitantes, além de cidades como Maricá (RJ), com IDH de 0,765 e 212 mil habitantes, e Nova Lima (MG), com IDH de 70,02 e população de 120 mil habitantes, segundo dados do IBGE.

A metodologia do estudo utiliza indicadores de órgãos públicos —como do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estátistica)MEC (Ministério da Educação)InepPIB IDSC (Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades)— para medir aspectos econômicos, ambientais e socioculturais.

O PIB, por exemplo, corresponde apenas a 14% da composição do Indei. "O desenvolvimento de um território não se explica por um único indicador. Há outros fatores que pesam e que muitas vezes são negligenciados", afirma Werner.

A análise é guiada pelo Índice de Prosperidade, que mede a capacidade de um território equilibrar os três eixos. As notas variam de zero a dez.

A metodologia do estudo adota como referência o melhor desempenho obtido entre os municípios —ou seja, aquele que recebe a nota máxima—, e os demais são avaliados proporcionalmente. "Ao invés de considerar um ideal inatingível, consideramos a melhor prática existente no Brasil", afirma Werner.

Municípios com os maiores índices de prosperidade

Notas de 0 a 10, parametrizada pelo melhor desempenho registrado

  1. São Caetano do Sul (SP)

    4,34

  2. Florianópolis (SC)

    4,28

  3. Vitória (ES)

    4,25

  4. Maricá (RJ)

    4,20

  5. Nova Lima (MG)

    4,12

  6. Curitiba (PR)

    4,06

  7. Barueri (SP)

    4,05

  8. Erechim (RS)

    4,03

  9. Lavras (MG)

    4,01

  10. Botucatu (SP)

    4,00

Os resultados do Indei apontam que municípios de porte médio, com população entre 300 mil e 1 milhão de habitantes, tendem a apresentar maior equilíbrio entre os indicadores.

"A gente vê essa tendência na escolha de pessoas que, cada vez mais, vão morar em municípios médios", acrescenta a presidente do Impact Hub.

O estudo também traça um panorama regional. Nenhum município do Nordeste lidera o eixo econômico-empresarial, embora a região se destaque no âmbito sociocultural, ao lado de Centro-Oeste e Norte.

Já Sul e Sudeste concentram os melhores resultados no eixo econômico-empresarial, mas apresentam os piores desempenhos na categoria sociocultural.

PANORAMA GERAL DO ÍNDICE POR GRANDE REGIÃO

Notas de 0 a 10, parametrizada pelo melhor desempenho registrado

  1. Centro-Oeste

    3,47

  2. Sul

    3,46

  3. Sudeste

    3,44

  4. Nordeste

    3,23

  5. Norte

    3,18

Além do diagnóstico, o índice permite a comparação entre municípios com características semelhantes, o que pode orientar a implementação de políticas públicas eficazes.

"É uma ferramenta para que gestores públicos tomem decisões baseadas em evidências, mas também para que investidores e empreendedores possam criar soluções que ajudem esses municípios a avançar nas áreas que eles mais precisam."

O Indei será atualizado a cada dois anos, com a proposta de acompanhar a evolução dos indicadores ao longo do tempo. A ferramenta é pública e gratuita, disponível para qualquer município e instituição interessada.