A estabilidade do alinhamento eleitoral desde 2018 revela menos um comportamento religioso homogêneo e mais uma clivagem política que o país ainda não compreendeu plenamente
Por Ana Carolina Evangelista*

Foto: Miguel Schincariol / AFP
O Brasil vai para a eleição presidencial de 2026 com as forças partidárias e ideológicas ainda presas a velhos dilemas em relação ao voto evangélico. O primeiro deles é também o mais recorrente: tratar o “voto evangélico” assim mesmo, no singular, como se fosse uma categoria única.
A ideia de um “voto evangélico” homogêneo sempre foi um equívoco analítico. O segmento evangélico é social, denominacional e politicamente diverso. Essa diversidade atravessa renda, escolaridade, território, práticas religiosas e orientações ideológicas. Mas é assim, no meio dessa diversidade, que o segmento tem mudado a cara da política brasileira.
Reconhecer essa multiplicidade, porém, não significa ignorar padrões eleitorais consistentes. Desde 2018, um deles se tornou particularmente visível: quando a disputa envolve o PT ou candidaturas claramente identificadas com o partido, a preferência majoritária entre eleitores evangélicos tem se dirigido ao campo bolsonarista, acompanhada de um alinhamento com pautas ultraconservadoras e simbologias que evocam ameaças morais.
Os dados das últimas eleições presidenciais ajudam a dimensionar essa tendência. Eles sintetizam estimativas das pesquisas do Datafolha, Ibope e Ipec, realizadas na véspera do 2º turno das disputas presidenciais:

Como se vê, foi a partir de 2018 que essa clivagem se tornou especialmente marcada. No segundo turno daquele ano consolidou-se o número que ficou conhecido como o “70 a 30”: cerca de 70% dos eleitores evangélicos declararam voto em Jair Bolsonaro e aproximadamente 30% em Fernando Haddad (PT-SP). Em 2022, houve apenas uma pequena variação, com o padrão permanecendo próximo de 65% para Bolsonaro e pouco mais de 30% para Luiz Inácio Lula da Silva.
Hoje, ao observarmos pesquisas mais recentes de intenção de voto para o primeiro turno presidencial, constatamos que a estrutura geral desse comportamento eleitoral permanece semelhante. Levantamentos que simulam disputas envolvendo nomes associados ao bolsonarismo, como Flávio Bolsonaro (PL-RJ), indicam proporções entre eleitores evangélicos próximas daquelas observadas nas duas últimas eleições presidenciais: 61%-65% para o candidato bolsonarista e 31%-33% para Lula.
Outras pesquisas que recortam especificamente o eleitorado evangélico, como Meio/Ideia, Datafolha e Quaest, ainda mostram níveis elevados de indecisão e variações dependendo do cenário testado, com nomes como Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro ou Tarcísio de Freitas. Ainda assim, um padrão se mantém: candidaturas associadas diretamente à família Bolsonaro ou apoiadas pelo ex-presidente seguem com ampla vantagem nesse segmento.
Em cenários como o que opõe Flávio Bolsonaro a Ratinho Jr. (PSD-PR), por exemplo, Lula tende a manter desempenho mais equilibrado entre eleitores do Nordeste, católicos e pessoas de menor renda e escolaridade, enquanto o candidato bolsonarista se destaca entre evangélicos e eleitores das regiões Sul, Sudeste e Norte/Centro-Oeste, reproduzindo em grande medida o perfil sociodemográfico que sustentou Jair Bolsonaro desde 2018.
Outros indicadores ajudam a compreender essa estabilidade. Segundo pesquisa recente da Quaest, por exemplo, 61% dos evangélicos desaprovam o trabalho do presidente Lula, enquanto 34% aprovam. O perfil desse grupo se aproxima, em grande medida, do eleitorado que sustentou o bolsonarismo nas últimas eleições: maior presença nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, predominância masculina, eleitores mais jovens e segmentos com renda mais elevada.
Esses dados não indicam uniformidade, mas revelam que, dentro de um segmento plural, existem regularidades que ajudam a compreender seu comportamento político.
Diferentes denominações e lideranças passaram a reivindicar maior presença no debate público e nas instituições políticas
Também é necessário situar esse fenômeno em um processo social mais amplo. O crescimento da população evangélica nas últimas décadas alterou profundamente o cenário religioso brasileiro e ampliou o peso político desse grupo. Ao mesmo tempo, diferentes denominações e lideranças passaram a reivindicar maior presença no debate público e nas instituições políticas.
Esse movimento vai além do Brasil. Nas últimas décadas, diferentes democracias têm assistido ao fortalecimento de identidades religiosas na arena pública e eleitoral. No caso brasileiro, esse processo coincidiu com um momento de forte polarização política e de reorganização do sistema partidário. Foi nesse contexto que o bolsonarismo se consolidou como um campo político capaz de articular diferentes demandas conservadoras, muitas delas associadas a disputas morais, culturais e identitárias. A partir de então, esse alinhamento passou a se expressar de forma relativamente estável entre parcelas significativas do eleitorado evangélico.
Uma pista interessante sobre essa dinâmica apareceu nas eleições municipais de 2024. Em capitais onde a candidatura oposicionista era percebida como diretamente vinculada ao campo petista, como no caso de Guilherme Boulos (PSOL) em São Paulo, a clivagem entre eleitores evangélicos permaneceu próxima da proporção observada nas eleições presidenciais.
Já em capitais onde a candidatura em oposição ao campo bolsonarista não era claramente identificada com o PT ou apoiada explicitamente pelo partido, alguns candidatos conseguiram reduzir a altura desse muro entre eleitores evangélicos. Foi o caso de Eduardo Paes (PSD), no Rio de Janeiro, e João Campos (PSB), em Recife. Paes quase empatou com o segundo colocado entre evangélicos, enquanto João Campos praticamente inverteu a proporção de 70 a 30 a seu favor.
Esse tipo de variação levanta uma pergunta relevante: trata-se de um voto predominantemente bolsonarista ou de um voto essencialmente antipetista? Responder a essa questão exige cuidado com simplificações.
Ninguém é apenas evangélico. Assim como ninguém é apenas católico, apenas mulher ou apenas trabalhador. As identidades religiosas coexistem com outras identidades sociais e políticas. Dentro do universo evangélico existem diferenças profundas de renda, escolaridade, pertencimento denominacional e posicionamento ideológico.
Ainda assim, um fato permanece: desde que o bolsonarismo se estruturou como polo político organizado e passou a aglutinar demandas conservadoras em torno da figura de Jair Bolsonaro, a distribuição do voto evangélico em disputas nacionais mudou muito pouco. Ou quase nada.
Ao mesmo tempo, o debate público passou a ser dominado por outra pergunta recorrente: como dialogar com os evangélicos? A formulação virou um mantra que, muitas vezes, reforça estereótipos. Ela acaba nomeando o problema do muro que se consolidou dentro do próprio segmento evangélico entre quem vota em Lula (ou em candidatos da esquerda mais associada ao PT) e quem vota em integrantes da família Bolsonaro ou em nomes do campo bolsonarista.
Repetida desde 2018, essa pergunta – “como dialogar com os evangélicos?” – muitas vezes simplifica mais do que esclarece. Em vez de contribuir para uma análise mais precisa do fenômeno, tende a reforçar estereótipos tanto sobre o campo religioso quanto sobre os campos políticos em disputa.
De um lado, constrói-se a narrativa de uma esquerda incapaz de dialogar com esse eleitorado. De outro, a ideia de que a direita teria simplesmente aprendido a fazê-lo melhor. Ambas as interpretações reduzem um processo social muito mais complexo.
A clivagem eleitoral que se consolidou entre parte do eleitorado evangélico não pode ser compreendida apenas como resultado de estratégias de comunicação ou de disputas morais. Ela também é produto de transformações sociais, institucionais e religiosas que vêm redefinindo as relações entre religião, política e esfera pública no Brasil. Talvez por isso a insistência na mesma pergunta tenha produzido poucos avanços analíticos.
O desafio é compreender as transformações de uma sociedade em que a religião voltou a ocupar um lugar central nas disputas políticas
O problema não é apenas como dialogar com os evangélicos. O desafio é compreender as transformações de uma sociedade em que a religião voltou a ocupar um lugar central nas disputas políticas.
Precisamos mudar as perguntas e os caminhos de análise. É necessário aprofundar a compreensão tanto da política quanto dos campos religiosos, ambos em mutação constante, e ao mesmo tempo realizar as autocríticas necessárias no campo progressista.
Talvez a pergunta precise ser recolocada de outra forma: como a política, entendida como seus agentes e instituições, precisa se adaptar para escutar uma sociedade em transformação?
O muro continua lá. Mas possivelmente a tarefa agora seja menos perguntar como superá-lo e mais entender por que ele foi construído, por que permanece de pé, o que já sabíamos há anos e o que mudou, e quais dinâmicas sociais continuam sustentando sua existência. Isso exige dados mais detalhados sobre um eleitorado de peso crescente e novas perguntas sobre uma sociedade que também está mudando. Enquanto insistirmos nas mesmas perguntas, o muro provavelmente continuará lá.