terça-feira, 21 de abril de 2026

Brecha permite que moradia popular vire apartamento comum e até hotel em SP, fsp

 

São Paulo

O funcionamento de hotéis em dois empreendimentos construídos com incentivo para a habitação popular expôs uma brecha legal ainda não discutida no âmbito das denúncias de desvio de finalidade desse tipo de moradia na cidade de São Paulo. Trata-se da mudança de uso legalizada, por meio de alvará de reforma ou de projeto modificativo.

Em resumo: construtoras levantam empreendimentos com benefícios públicos prometendo que os imóveis serão para as classes mais baixas para ajudar a reduzir o déficit habitacional. Com o prédio pronto, entram com um pedido de mudança de finalidade, pagam taxas e legalizam o negócio no ramo de hospedagens.

À reportagem, a prefeitura apontou que a rede de hotéis Cozzy, alvo de protestos na semana passada, ainda não obteve o aval para a mudança. A gestão Ricardo Nunes (MDB) reconheceu, porém, a possibilidade da alteração, destacando a cobrança da outorga onerosa que deverá ser calculada com base no que se deixou de pagar por causa dos incentivos municipais (o que chega a valores milionários), além de outras taxas. Em caso de infração, é prevista também a cobrança de multa.

Especialistas ouvidos pela reportagem destacam, porém, que o desconto ou a isenção de outorga é apenas um dos cerca de 16 benefícios municipais disponíveis para esse tipo de empreendimento. Somente em outorga, a prefeitura teria aberto mão de R$ 1 bilhão em uma década, de acordo com estimativa do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e da Fundação Tide Setubal, calculada até 2024.

Pessoa de costas, vestindo jaqueta jeans e calça azul, entra na porta de vidro de um prédio comercial com placa 'Cozzy' ao lado. Carro cinza estacionado à esquerda e plantas decorativas próximas à entrada.
Hotel da rede Cozzy na rua Cubatão, distrito Vila Mariana; empreendimento foi construído com incentivo para Habitação de Mercado Popular - Eduardo Knapp/Folhapress

Os demais incentivos incluem até mesmo o aval a prédios mais altos ou com maior área construída do que o permitido para as demais em partes da cidade. "A depender da unidade, nem poderia ter sido construída se não fosse HIS [Habitação de Interesse Social]", destaca a pesquisadora Bianca Tavolari, que coordenou o estudo do Cebrap.

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A arquiteta e urbanista Daniela Fajer relata ter sido procurada por empresas do setor para calcular o custo da alteração de uso de apartamentos populares para unidades sem restrição de renda. Isso aconteceu depois que o Ministério Público começou uma caçada às construtoras que não davam a destinação social às moradias construídas para esse fim, em janeiro de 2025. Ela atribui o movimento às crescentes denúncias de "desvirtuamentos", com ao menos 934 empreendimentos sob suspeita.

Em nota, a gestão municipal diz ter intensificado a fiscalização, assim como pontuou decretos e mudanças na legislação para evitar "desvirtuamentos". Também destacou os 24 empreendimentos com multas aplicadas por desvios em habitação popular, que totalizam R$ 7,7 milhões. Ao todo, 159.026 unidades estão ou passaram por processo de análise após denúncias.

De acordo com a legislação municipal, unidades HMP (Habitação de Mercado Popular) podem funcionar exclusivamente como moradia fixa de famílias com renda mensal total de até dez salários mínimos (R$ 16.210 ou R$ 2.431,50 per capita). No Cozzy, segundo a própria rede, as unidades são ofertadas apenas como diárias ou para mensalistas, com serviços típicos de hotelaria e sem a presença de moradores fixos.

Por email, a rede Cozzy Hotéis afirmou à reportagem operar de forma regular e que teria feito uma mudança de uso na prefeitura, a fim de funcionar 100% como hotel. Posteriormente, disse que também disponibiliza "aluguel mensal para HMP" —porém a legislação paulistana considera a curta temporada como hospedagem. As declarações foram feitas pelo empresário Jesse Botaro Junior, responsável pelo empreendimento.

Vista aérea mostra prédio retangular com piscina azul e área de lazer com espreguiçadeiras no terraço. Ruas e casas cercam o edifício em bairro urbano.
Terreno de empreendimento na rua Cubatão, no distrito Vila Mariana; prédio foi construído com incentivo para habitação popular, mas hoje funciona apenas com serviços de hospedagem - Eduardo Knapp/Folhapress

Professora de Direito Urbanístico da FGV, Tavolari aponta que essas alterações ocorrem no âmbito administrativo. Portanto, restam praticamente desconhecidas da população em geral e até de grande parte dos especialistas até esta semana.

Podem impactar também outros "desenhos de cidade" incentivados pela Lei de Zoneamento. É o caso dos microapartamentos não residenciais construídos com incentivos para uso misto, em que parte das unidades é ofertada como residência permanente, até mesmo em anúncios.

No âmbito administrativo, a Subsecretaria da Receita Municipal passou até mesmo a permitir que "estúdios" não residenciais tenham o IPTU reduzido para o de uma unidade residencial se o morador comprovar permanência por ao menos 90 dias e anuência do síndico. A reportagem encontrou o caso do morador de um empreendimento nas proximidades do Parque do Ibirapuera, no distrito Vila Mariana, que buscou o desconto em 2024.

Como pesquisadora, Daniela Fajer chegou a levantar os dados de todos os alvarás de novas edificações emitidos entre 2017 e 2021, dos quais 32% tinham uso misto. Esses dados também foram utilizados para a estimativa de que somente esse incentivo poderia resultar em um desconto de até 20% da outorga onerosa.

Ela considera que há distorções na legislação, com "desvios" irregulares e outros dentro da lei. "Se formou um grande mercado a partir disso", destaca.

Nesse campo, um dos primeiros foi o decreto de 2016 que classificou os serviços de hospedagem, o que permitiu que resultasse em uso misto quando construído em prédios com apartamentos.

Já a alta de Habitação de Interesse Social começou especialmente desde 2018, quando foi revogado o convênio que envolvia a prefeitura no processo. Dessa forma, na prática, passaram a ser comercializados como qualquer outra unidade, com venda em estande e sem envolver filas habitacionais. Outras portarias e decretos incrementaram a flexibilização ao longo dos anos.

A mudança de uso pode abranger tanto o empreendimento como um todo quanto uma única unidade. A depender da mudança, são necessárias intervenções no condomínio, novo aval do Corpo de Bombeiros e outras autorizações.

Professor da Mackenzie, o urbanista Antonio Claudio Fonseca considera "muito difícil regular por lei a atividade humana" em uma metrópole, exigindo mudanças na lei com frequência. "Não é a fachada ativa que faz a cidade, é a cidade que faz a fachada ativa", avalia.

O desvirtuamento dos apartamentos HMP e HIS (Habitação de Interesse Social) foi denunciado à Justiça pelo Ministério Público no ano passado. Também é alvo de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Câmara Municipal.

Essas unidades são a maioria dos lançamentos do setor, chegando a cerca de 75%, segundo dados compilados pelo Secovi-SP Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo). Com diversos incentivos municipais, são construídas pelo próprio mercado imobiliário, sem envolvimento direto da prefeitura na venda

Prédios do Cine Marrocos e do hotel Esplanada vão a leilão em SP, FSP

 Vicente Vilardaga

São Paulo

O governo do Estado de São Paulo tem o desafio de dar um destino adequado para os prédios ocupados hoje por suas secretarias que serão esvaziados a partir da instalação de nova sede administrativa nos Campos Elíseos até 2030. São ao todo 40 edifícios na região central e na região circundante, com 820 mil metros quadrados de área ocupada por 22 mil a 25 mil funcionários. Das 24 secretarias estaduais, 15 ficam na região central.

"Nós não queremos esperar a mudança final para os Campos Elíseos, mas iniciar o leilão e a requalificação dos imóveis antes disso", diz o secretário de Projetos Estratégicos, Guilherme Afif Domingos.

Fachada de prédio antigo com detalhes arquitetônicos clássicos, janelas alinhadas e varandas. Em primeiro plano, árvores e palmeiras densas sob céu nublado.
Fachada do antigo Hotel Esplanada (Edifício Antonio Ermírio de Moraes), que pode renascer - Eduardo Knapp/Folhapress

"E nossa diretriz, obrigatoriamente, é dar uma destinação de uso misto para os prédios, uso comercial, de lazer e habitacional." Afif fala em trazer mais moradores para a região central, que vira uma cidade fantasma durante a noite.

A curto prazo, o governo está olhando para os chamados prédios icônicos e tombados, como o do antigo colégio Caetano de Campos, na praça da República, hoje Secretaria da Educação, e o do que foi o Hotel Esplanada, na praça Ramos de Azevedo, sede da Secretaria da Agricultura. Há também o Banco de São Paulo, na praça Antônio Prado, onde fica a Secretaria de Esportes, e o edifício Saldanha Marinho, no largo São Francisco, endereço da Secretaria de Segurança Pública.

"Vamos pegar prédio por prédio e começar pelo Banco de São Paulo", afirma Afif. "Ele está em fase bastante avançada de destinação e é um típico edifício para ser de uso de lazer e habitacional, seja em forma de hotel seja em forma de apartamentos menores porque a dinâmica no centro é desse tipo de moradia." Como a Secretaria de Esportes é pequena não haverá problema em mudá-la temporariamente. O governo tem outras construções vazias na região que podem ser utilizadas em um período de transição.

Edifício Saldanha Marinho
O Saldanha Marinho, primeiro edifício em estilo art déco de São Paulo, vai passar por um retrofi - Vicente Vilardaga/Folhapress

O prédio do Hotel Esplanada, segundo Afif, irá a leilão a curtíssimo prazo, junto com o do Cine Marrocos, hoje abandonado, e com um terreno na esquina da rua Conselheiro Crispiniano. No Cine Marrocos, também tombado, a ideia é fazer "um belo conjunto habitacional". O cinema será reabilitado como sala de espetáculos. "Já o Hotel Esplanada tem que recuperar o esplendor, ele foi o Copacabana Palace de São Paulo, e depois abrigou a sede do grupo Votorantim", conta o secretário.

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Outro prédio icônico da cidade que ganhará novo uso antes da conclusão do centro administrativo é o Caetano de Campos. "Esse prédio é intocável, um clássico da cidade, obra de Ramos de Azevedo com uma longa história", afirma. Nesse caso, está descartada a instalação de residências ou escritórios. O plano mais maduro do governo é transformá-lo na sede da Emesp – Tom Jobim (Escola de Música do Estado de São Paulo).

Antigo colégio Caetano de Campos
A Casa Caetano de Campos deve se transformar na sede da Escola de Música Tom Jobim - Vicente Vilardaga/Folhapress

O edifício Saldanha Marinho, projetado por Elisiário Bahiana, também terá novo destino a curto prazo. Considerado o primeiro prédio art déco da cidade, inaugurado em 1933, foi sede da Cpef (Companhia Paulista de Estradas de Ferro). Segundo Afif, o projeto principal para essa construção é fazer um retrofit e transformá-la num conjunto residencial de classe média, mas também se pensa num hotel.

O retrofit está previsto em pelo menos mais dois edifícios do governo no Centro: o Cidade 1 e o Cidade 2, na rua Boa Vista. O primeiro é sede da Secretaria da Habitação e o segundo, da Secretaria de Desenvolvimento Social. Um deles poderá virar hotel e o outro, moradia social.

Uma opção analisada pelo governo é transferir alguns de seus prédios para a prefeitura, que tem interesse em instalar secretarias mais perto de sua sede, no Viaduto do Chá. "O prefeito Ricardo Nunes já me ligou para tratar dessa possibilidade", diz Afif.

Segundo o secretário, o governo vai se beneficiar muito com a venda de seus imóveis. "Nós temos ativos bastante importantes e não precisamos ficar com estoque imobiliário", afirma. "O dinheiro que arrecadarmos vai nos permitir pagar inclusive parte dos custos do centro administrativo."

A política de indignação moral não elegerá Lula - Wilson Gomes, FSP

 Lula e a deputada Erika Hilton não têm o mesmo eleitorado. Parece óbvio, não é? Mas tudo indica que a comunicação política do governo não opera com essa distinção com a clareza necessária. Lula jamais seria eleito se fosse o candidato presidencial do PSOL, partido que hoje protagoniza a agenda moral progressista. Ele, que vem de outra cepa de esquerda, deveria ser o primeiro a saber disso. Os sinais que ele vem emitindo, contudo, sugerem que o presidente está confuso.

Ilustração em estilo “desenho-colagem” sobre fundo de papel envelhecido mostrando céu tempestuoso e chuva. Emergem do solo quatro elementos simbólicos que representam as tensões da política atual: um punho vermelho com o dedo indicador levantado, mostrando o L de Lula, evocando o PT. Ao centro, um triângulo de advertência amarelo com ponto de exclamação, símbolo de perigo ou alerta ao risco eleitoral. Ao lado direito, um sapato de salto muito alto preto brilhante, dele, emerge um arco-íris de cores vivas, associado a Érika Hilton e suas pautas identitárias de gênero.
Ilustração de Ariel Severino para coluna de Wilson Gomes de 22 de abril de 2026 - Ariel Severino

Estamos no final da terceira década do século 21, mas a maior parte da esquerda continua achando que passar da ênfase na opção preferencial pelos pobres —que a distinguia no início do século— para a ênfase na denúncia das opressões morais e nas políticas de reparação foi simplesmente uma progressão necessária. Lula faz parte desse grupo.

Lula, que não se move com desenvoltura nesse registro, aceitou que a política contemporânea existe para resolver as opressões estruturais e simbólicas. O país continua com déficits estruturais severos: saneamento precário, desempenho educacional alarmante, serviços públicos de baixa qualidade e desigualdades persistentes. Mas temos as melhores leis do universo contra o racismo, a transfobia e, se tudo der certo, a misoginia. Se isso basta para os que votarão em outubro não sei, mas tudo indica que não.

Nos últimos meses, contudo, a esquerda tem apostado tudo em pautas simbólicas e morais. Mesmo uma pauta de corrupção econômica, como a do Master, que não deveria envolver o governo, acabou no seu colo porque os petistas correram para transformá-la em uma disputa moral, lendo as denúncias do jornalismo como um ataque neolavajatista ao Supremo Tribunal Federal. Bem, se era uma guerra moral e a esquerda escolheu o lado errado, não deveria se surpreender se o governo aparece como o principal perdedor na percepção pública.

O caso das iniciativas legislativas em torno da misoginia ilustra o ponto. O governo não apenas aderiu a diagnósticos controversos —que a misoginia causa feminicídio, que o feminicídio aumentou—, como também reforçou a ideia de que conflitos sociais e morais devem ser enfrentados por meio de tipificação penal e agravamento de punições. A percepção é de que temos um governo mais atento à regulação do discurso do que à resolução de problemas concretos.

É nesse contexto que a comparação com Erika Hilton se torna instrutiva. Ela está com a vida e a reeleição ganhas, Lula não. O discurso e a performance política dela se dirigem a um conjunto de "vítimas da opressão moral" e aos guerreiros da justiça da elite progressista que consideram que política é luta por desagravos e reparações para um conjunto fixo e seleto de vítimas.

A deputada fala para um público específico: segmentos altamente escolarizados, brancos, bem de vida, concentrados nas grandes metrópoles, inseridos em circuitos culturais e profissionais onde a agenda de reconhecimento moral tem centralidade.

Trata-se de um eleitorado muito vocal, com alta capacidade de influência simbólica —especialmente nas redes sociais, na imprensa e em instituições culturais—, mas numericamente limitado como toda elite. Para ela, é suficiente: bastam 300 mil votos para uma renovação do mandato. Para Lula, não.

Não é questão de nicho, mas de escala. Para vencer uma eleição presidencial, precisa de uma coalizão muito mais ampla, que inclua segmentos populares hoje conservadores em termos morais. A política como performance moral —a exibição de virtudes e a denúncia de opressões morais —mobiliza, engaja e fideliza eleitores, mas funciona de maneira assimétrica.

Essa atitude beneficia mais a direita do que a esquerda. O voto moralmente conservador é certamente muito maior do que o voto moralista dos progressistas, porque na direita ele é base, numeroso, e na esquerda ele é elite, minúsculo. A pirâmide social aqui é fatal. Identitários de direita transformam indignação moral em bancadas enormes nas casas legislativas; identitários de esquerda produzem barulho, não mandatos. Assim, a cada Erika Hilton eleita nos campeonatos morais, corresponderá um monte de Nikolas Ferreira, Pavanatos e Maltas eleitos do outro lado.

O que significa que a pauta pode favorecer mais um candidato presidencial de direita do que de esquerda. O bolsonarismo, por exemplo, conseguiu acoplar uma base conservadora a uma elite hiperliberal, o que lhe dá condições numéricas de vitória. A esquerda não consegue acoplar sua elite progressista a uma base popular tão numerosa. Dá para eleger um Bolsonaro com essa equação, não um Lula.