terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Viver sem trabalhar?, Michael França. FSP

 Durante grande parte da história da humanidade, viver foi sinônimo de trabalhar. A sobrevivência exigia esforço contínuo, do nascimento até a morte. O tempo livre era escasso e, quando existia, costumava ser para poucos.

Com o tempo, algumas instituições começaram a alterar essa lógica. O trabalho infantil foi sendo abandonado. Crianças deixaram de ser vistas como força produtiva em miniatura e passaram a ser reconhecidas como sujeitos em formação. A escola substituiu o trabalho precoce, criando um intervalo da vida protegido da lógica produtiva imediata.

aposentadoria surgiu. Pela primeira vez, uma parcela da população passou a ter reconhecido o direito de envelhecer sem a obrigação de seguir trabalhando. Ainda assim, durante algum tempo, isso permaneceu restrito e apenas uma minoria conseguia acumular riqueza suficiente para viver sem depender do próprio esforço diário.

Então surgiram os milionários. Depois, os bilionários. Paralelamente, continua crescendo o número de pessoas que, com ou sem herança, alcançam cedo um nível de renda que lhes permite escolher se querem ou não continuar trabalhando. Contudo, o que acontecerá quando houver cada vez mais gente para quem o dinheiro trabalha pelo dinheiro? No final, quem trabalhará pelo dinheiro?

Não sei se esse movimento será forte o suficiente para exigir algum tipo de rearranjo mais profundo. Tampouco está claro quais serão seus efeitos agregados em um contexto marcado pelo envelhecimento da população e pela rápida transição tecnológica. Essa pergunta deixo para meus colegas macroeconomistas da Folha, como Samuel Pessôa, com quem costumo dividir alguns almoços e boas conversas, ou Bernardo Guimarães, que costumo encontrar em eventos da Sociedade Brasileira de Econometria e da Anpec, muitas vezes já na pista de forró.

Mas vale prestar atenção a algo mais básico. Dinheiro trabalhando é uma simpática metáfora para uma relação de poder. O dinheiro compra tempo. Compra escolhas. Compra o direito de receber uma parcela do que outros produzirão. Renda passiva, no fundo, é renda extraída da atividade de alguém, da exploração de um recurso, da produtividade de uma tecnologia ou da arrecadação de um Estado.

Todos poderão exercer esse poder? Quem seguirá produzindo o que sustenta essas rendas? Renda passiva para alguns sempre exigirá trabalho ativo para outros? Ou será substituído pelos ganhos do progresso tecnológico? Ou então o efeito mais provável mesmo será a ampliação das desigualdades?

Muitas perguntas, não? Mas percebam: o que temos de mais tangível é que trabalhar a vida inteira em ocupações que restringem drasticamente a autonomia, a flexibilidade e o controle sobre o próprio tempo vem sendo progressivamente contestado. O debate sobre a CLT passa por aí. Em essência, a discussão não é apenas sobre as regras trabalhistas, mas sobre quem controla a vida de quem.

Nesse contexto, cresce o desejo por algo que nossos antepassados dificilmente conseguiam formular. Mais propriedade sobre o próprio tempo. Mais margem de escolha sobre quando, como e por que trabalhar. No fundo, cresce o desejo por uma espécie de alforria da submissão integral ao trabalho como destino único da existência humana.

O texto é uma homenagem à música "Construção", de Chico Buarque.

A combinação rara que deu à Venezuela as reservas de petróleo consideradas as maiores do mundo, BBC News FSP

 Cristina J. Orgaz

BBC News Mundo

petróleo venezuelano ocupou as manchetes da imprensa internacional nos primeiros dias de 2026, após a captura do presidente da VenezuelaNicolás Maduro, por tropas dos Estados Unidos e as declarações de Donald Trump sobre a riqueza petrolífera do país sul-americano.

Os 300 bilhões de barris de petróleo de reservas "comprovadas" da Venezuela representam quase um quinto do total mundial. No entanto, esse número autodeclarado é alvo de questionamento de especialistas, que argumentam que ele possa estar inflado.

O país realmente possui vastas reservas de petróleo bruto, em grande parte graças à Faixa Petrolífera do Orinoco. Mas existe uma diferença entre a produção potencial e a real na Venezuela.

Imagem de satélite mostra a região norte da América do Sul com destaque para a Venezuela, Colômbia, Guiana, Suriname e parte do Brasil. Limites nacionais estão demarcados em branco. Áreas de floresta densa, relevo montanhoso e corpos d'água são visíveis.
Venezuela vista do espaço - Getty Images

Além disso, o conceito de "reserva comprovada" envolve não apenas a existência física do petróleo, mas também a probabilidade de 90% de recuperação econômica e técnica com a tecnologia disponível. Grande parte do petróleo venezuelano, especialmente na Faixa do Orinoco, é pesado e caro de extrair.

Apesar disso, não há dúvida que a Venezuela seja uma potência do petróleo. Sua posição geográfica, a história tectônica, a grande extensão de suas bacias sedimentares e a interação entre clima, relevo e tempo geológico criaram condições únicas para a geração e a preservação de hidrocarbonetos em escala mundial.

Do ponto de vista geológico, o território venezuelano está dividido em duas grandes metades, separadas pela cordilheira dos Andes, que se estende pelo oeste e sudoeste do país, atravessando os estados de Táchira, Mérida e Trujillo. Nessa cadeia montanhosa, destacam-se o Pico Bolívar, com mais de 5.000 metros de altitude, e a Sierra de Mérida.

A presença de grandes cadeias montanhosas em combinação com extensas bacias planas está diretamente relacionada à formação dos campos petrolíferos e à forma como o petróleo bruto se acumulou ao longo de milhões de anos.

E embora as condições do subsolo venezuelano sejam semelhantes às de outras potências petrolíferas —incluindo a vizinha Colômbia—, alguns fatores geológicos extremamente raros foram decisivos para a formação da Faixa Petrolífera do Orinoco, considerada a maior acumulação de hidrocarbonetos do mundo, além dos campos do Lago de Maracaibo.

Essas mesmas características geológicas fizeram com que, ao longo do tempo, o petróleo venezuelano se tornasse extrapesado e ácido, com alto teor de enxofre e difícil de refinar.

"O petróleo pesado —como o da Venezuela— é especialmente importante para a produção de diesel e de combustível de aviação", explica Mauro Ratto, cofundador e diretor de investimentos da Plenisfer Investments, que integra o grupo Generali Investments.

"Não é bom nem ruim; simplesmente tem usos diferentes dos do petróleo leve. É assim que isso deve ser colocado. Trata-se de um produto distinto", afirma à BBC News Mundo o geólogo e professor da Universidade Virginia Tech, Philip Prince.

Navio cargueiro no horizonte com o sol se pondo atrás, céu laranja. Barco pequeno com uma pessoa em primeiro plano navegando sobre o mar.
Os Estados Unidos apreenderam dois petroleiros ligados ao petróleo bruto venezuelano no início de janeiro - Getty Images

Por que a Venezuela tem tanto petróleo?

"Isso se deve à forma como o território está configurado. Além de contar com uma rocha geradora de excelente qualidade e uma rocha reservatório excepcional, tudo se encaixa perfeitamente para a existência desses enormes recursos petrolíferos em terra firme, em volumes extraordinários", explica Philip Prince.

Choque de placas tectônicas

A Venezuela está situada no extremo norte da América do Sul, em uma área de interação complexa entre a placa tectônica Sul-Americana, a placa do Caribe e a placa de Nazca. Esse contexto geológico deu origem a bacias sedimentares profundas, sistemas de falhas, dobras e armadilhas estruturais capazes de reter o petróleo até que ele seja descoberto. São condições geográficas ideais para a sua acumulação.

"As placas tectônicas se empurram umas contra as outras. A borda da placa sul-americana está sendo engolida sob a placa do Caribe, como se fosse uma máquina limpa-neve empilhando rocha com literalmente quilômetros de espessura. É assim que se formam bacias que acabam sendo preenchidas por sedimentos", descreve Prince.

"Esse choque tectônico enterra a rocha geradora, possibilita a formação do petróleo e, depois, o petróleo migra para essas novas camadas de sedimentos, abrindo caminho em direção às áreas mais externas", acrescenta.

O que o professor descreve é que esses choques tectônicos também criam cadeias montanhosas elevadas, que permitem que os sedimentos contendo petróleo se desloquem como se inclinássemos um prato para um dos lados. O ponto em que tudo se acumula acaba sendo, por exemplo, a Faixa Petrolífera do Orinoco ou os campos do Lago de Maracaibo.

"As vastas reservas do país talvez sejam melhor explicadas quando se reconhece que as bacias atuais são remanescentes de áreas sedimentares muito mais extensas, que provavelmente alimentaram as armadilhas geológicas. Essa história envolveu migração e remigração de petróleo a longas distâncias", escreveu o geólogo K. H. James em um artigo publicado no Journal of Petroleum Geology.

Em termos mais simples, a Faixa Petrolífera do Orinoco funciona quase como o destino final de todo o petróleo gerado nas profundezas da bacia —o ponto para onde ele acabou convergindo ao longo de milhões de anos.

Ingredientes iniciais do petróleo

Desde o início de sua exploração, na década de 1910, até 1975, a indústria petrolífera venezuelana esteve sob o controle de empresas privadas, lideradas por gigantes do setor à época, como Shell, Exxon, Chevron, Mobil, Texaco, Gulf Oil, Sinclair e Phillips, entre outras.

A primeira grande descoberta de petróleo ocorreu em 1914, com o campo de Mene Grande, na Bacia Ocidental do Lago de Maracaibo. Nos anos seguintes, até 1917, vieram à tona diversos outros campos relevantes, incluindo o lendário e gigantesco Campo Costero Bolívar —todos localizados no oeste do país.

Já na Bacia Oriental, a produção comercial de petróleo teve início em 1937, com a descoberta do campo de Oficina. Ao final daquela década, a Venezuela produzia cerca de 560 mil barris por dia e havia se tornado o terceiro maior produtor mundial de petróleo, atrás apenas dos Estados Unidos e da União Soviética.

Ao longo de mais de um século de exploração petrolífera convencional, foram descobertos na Venezuela cerca de 75 bilhões de barris de reservas recuperáveis, distribuídos em aproximadamente 320 campos petrolíferos —entre eles, 28 considerados gigantes.

Essas enormes reservas, no entanto, começaram a se formar centenas de milhões de anos antes, muito antes de qualquer atividade humana.

Montanha com picos rochosos acentuados e áreas de neve nas encostas, iluminada pela luz dourada do entardecer, céu parcialmente nublado ao fundo.
Pico Bolívar com seu pico nevado - Getty Images

"No subsolo venezuelano existe uma espessa sequência de rochas sedimentares de grão fino, depositadas em ambiente aquático e ricas em matéria orgânica. Essa é a origem do petróleo. Elas contêm pequenos organismos —um pouco de plâncton e algas, seres microscópicos que utilizam a fotossíntese na água do oceano para sobreviver. Na prática, esses são os ingredientes iniciais do petróleo", explica Philip Prince.

Em outras palavras, milhões de anos atrás, havia pântanos pré-históricos com grande abundância de algas e fitoplâncton. Esse material orgânico se acumulou, foi soterrado ao longo do tempo e, sob altas pressões e por meio de reações químicas de longa duração, acabou se transformando em petróleo.

Outro elemento indispensável para a formação dos gigantescos campos petrolíferos é a rocha geradora do período Cretáceo, presente em praticamente todo o território venezuelano. Trata-se de uma rocha de altíssima qualidade, com enorme potencial para a geração de petróleo.

"Na Venezuela, a rocha reservatório é um bom arenito. Ela é extremamente eficiente para reter o petróleo no subsolo. Além disso, observamos a presença de inúmeras falhas geológicas, que funcionam como excelentes vias de migração do petróleo até pequenas estruturas geológicas que chamamos de armadilhas —posicionadas justamente para acumulá-lo no subsolo, permitindo que seja perfurado e extraído", conclui o geólogo.

Tarcísio inicia projeto de reeleição em SP em meio a disputas em sua base, FSP

 Bruno Ribeiro

São Paulo

A perspectiva de que a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência tire Tarcísio de Freitas (Republicanos) da disputa nacional levou PP, PL e PSD a disputarem espaço no Governo de São Paulo no período que antecede o início da campanha pela reeleição.

A movimentação dos partidos teve início no começo de dezembro, quando Flávio se lançou pré-candidato após visitar o pai, Jair Bolsonaro (PL), em Brasília. O ex-presidente está inelegível e cumpre pena após condenação pelo STF (Supremo Tribunal Federal) por tentativa de golpe de Estado.

Nos dias seguintes ao anúncio, a articulação dos partidos ficou restrita a conversas de bastidores. Ao longo do mês, conforme o projeto de Flávio ganhou adesão de aliados, as movimentações ganharam intensidade. Após o Natal, quando Tarcísio saiu de férias com a família para os Estados Unidos, o debate veio a público, especialmente por meio do PP.

Homem de terno escuro e gravata verde sorri em estúdio com fundo azul e letras desfocadas.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), no lançamento do canal SBT News nos Estúdios SBT - Ronny Santos - 14.dez.2025/Folhapress

"Com a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, o partido também passou a considerar estratégico ter, no Palácio dos Bandeirantes, um governador mais alinhado ao projeto nacional da sigla. A avaliação interna é de que essa sintonia facilitaria a montagem e a sustentação da chapa de candidatos a deputado federal e estadual em São Paulo, um dos principais colégios eleitorais do país", disse a legenda, em nota distribuída no dia 27.

O presidente nacional do PP, Ciro Nogueira, que foi um dos principais entusiastas da candidatura nacional do governador, disse que ainda prefere estar com Tarcísio no estado em vez de lançar um nome próprio. Segundo interlocutores, o partido passou a pressionar por mais espaço após perder a Secretaria da Segurança Pública no fim de novembro, quando Guilherme Derrite (PP) deixou o cargo para se lançar ao Senado.

No caso do PL, sigla de Bolsonaro, o presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, pressionou Tarcísio durante todo o mandato para que ele se filiasse à legenda, por meio de declarações públicas sobre uma eventual mudança partidária que o governador nunca confirmou.

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O partido tem a maior bancada da Alesp (Assembleia Legislativa), com 20 deputados. O presidente da Casa, André do Prado (PL), disse em dezembro que "é natural a legenda buscar no governo um espaço proporcional", que viria pela indicação de um nome para vice-governador na chapa da reeleição.

Prado era cotado pelo partido para ser lançado como sucessor de Tarcísio caso o governador partisse para uma disputa presidencial. A vaga de vice, contudo, pertence ao PSD, partido presidido pelo secretário de Governo de São Paulo, Gilberto Kassab, considerado um habilidoso articulador político.

Segundo relatos de auxiliares, Tarcísio já atribuiu a ele a construção da campanha eleitoral de 2022, o que garantiu a Kassab a indicação de técnicos ligados a seu grupo político para pastas-chave do governo, como Saúde, Educação e Habitação. Também é do partido o cargo de vice, ocupado por Felício Ramuth, que o governador prefere manter, ainda segundo auxiliares.

De olho no espaço ocupado por Kassab, aliados do governador têm colocado em dúvida o papel do PSD nas eleições de outubro. Em São Paulo, o dirigente tem histórico de atritos com bolsonaristas, diante da aliança que o partido mantém, na esfera federal, com o governo Lula, e aliados questionam se a sigla permaneceria no governo petista em um eventual segundo turno entre o PT e Flávio Bolsonaro.

A reportagem procurou o PSD para saber se Kassab gostaria de comentar, mas não teve resposta.

Tarcísio sempre negou que seria candidato à Presidência, embora tenha participado no segundo semestre do ano passado de eventos com tom eleitoral que o projetavam para a disputa contra Lula. Na disputa pelo Governo de São Paulo, aliados avaliam que ele largaria como favorito em um confronto com um nome do campo petista.

Conforme a Folha mostrou, bolsonaristas próximos a Tarcísio têm se queixado de sua apatia diante da candidatura de Flávio. Embora já tenha dito que apoiará o senador, a falta de empenho alimenta, entre os dirigentes partidários, expectativa de que Tarcísio ainda busque uma maneira de se viabilizar à Presidência.

Desde que se envolveu nas eleições municipais de 2024, quando fez campanha, na capital, para Ricardo Nunes (MDB), o governador vinha dizendo aos aliados que sua preocupação era eleger nomes da centro-direita nas prefeituras paulistas para evitar que partidos da esquerda ganhassem espaço no estado, em uma estratégia de exploração da polarização entre esquerda e direita.

No período de férias, suas redes sociais se mantiveram ativas e publicaram vídeos dele atacando o PT. "A fórmula é simples! Feliz 2026 = Fora PT", diz um dos textos, colocado no ar no dia 2.