segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Tarifa zero é política de desigualdade, José Luiz Portella, FSP

 José Luiz Portella

Engenheiro civil, é doutor em história econômica com pós-doutorado em sociologia (USP); atua como pesquisador do IEA-USP (Instituto de Estudos Avançados) e é professor de pós-graduação

Voltando à moda, sobretudo às portas das eleições, a tarifa zero é um símbolo de uma política de desigualdade.

Colhendo os exemplos de cerca de 130 municípios que a utilizam, e somando-os aos dados disponíveis na pesquisa origem-destino, do Metrô -SP, muito mais gente entrará de graça no sistema tendo rendimento para pagar do que eventualmente pessoas sem recursos se beneficiarão.

Mão aproxima cartão vermelho a validador eletrônico amarelo e preto dentro de ônibus. Tela do validador exibe mensagem 'TARIFA ZERO'. Passageiros e bancos desfocados ao fundo.
Passageiro passa por catraca de ônubus no primeiro dia de tarifa zero aos domingos na capital de São Paulo - Zanone Fraissat - 17.dez.2023/Folhapress

E a conta se estenderá a todos: os que saem de casa para deslocamentos permanentes (trabalho, educação, saúde, lazer, principalmente) e os que não saem. O todo pagará pela parte, além de onerar os mais velhos que vivem de aposentadoria e não se deslocam cotidianamente.

Sairia mais barato proporcionar um bilhete, um "voucher" para quem precisa se deslocar e não tem recursos, como hipótese. Melhor do que isso: seriar um programa de renda básica verdadeiro.

Estranha e inexplicavelmente em 2004, com patrocínio amplo de Eduardo Suplicy (levou até ao Papa), o Congresso aprovou a Lei 10.835, Renda Básica de Cidadania. Ela até agora não foi cumprida integralmente, mesmo com 14 anos de governo federal do PT depois de sua aprovação —inclusive atualmente. Com uma renda básica real, o cidadão poderá pagar o transporte.

PUBLICIDADE

Tarifa zero necessita de cobertura orçamentária. As fontes propaladas pelos defensores da ideia deveriam financiar outras coisas mais efetivas para mitigarmos a imensa desigualdade existente no Brasil, como erradicar a extrema-pobreza. Cerca de 7,4 milhões de brasileiros vivem na condição mais crítica de qualidade de vida, sem necessidade. E 48,9 milhões na pobreza.

Duas coisas podem financiar a extinção da extrema-pobreza e da pobreza que está no limite de ser extrema: esses recursos do Tarifa Zero e o corte de no mínimo 20% das isenções e estímulos dados pelo Governo Federal, sobretudo para quem não precisa e ganhou no lobby (R$ 644 milhões em 2024).

O público de esquerda que luta pela Tarifa Zero, incluindo os populistas de vésperas de eleição, deveria envidar esforços para controlar as planilhas que determinam o preço das passagens do transporte público. Aí está o busílis.

Transporte tem custos, mas como esses custos são apropriados? Como é feita a ponderação? Os ônibus passam na frequência que está determinada no contrato ou economizam viagens sem que a planilha de custos registre isso? As frotas são renovadas exatamente no tempo que a planilha cobra?

Tarifa Zero é exemplo de como políticas públicas no Brasil são feitas por ingenuidade, por populismo ou por esperteza. Prometem melhorar a vida da população; todavia oferecem, na prática, o contrário.

O Brasil é campeão de produzir um sistema de desigualdades. Qualquer gasto público que suscite privilégios é um propulsor de desigualdades. Caso das isenções para setores ou empresas que não precisam —vide indústria automobilística, a mais beneficiada no país, que gera menos empregos do que a economia criativa.

No país que é a décima economia do mundo (já foi a sexta), e está entre os 14 países mais desiguais, quase todos na África, isso é inaceitável. A desigualdade aqui é uma vocação, não uma fatalidade —nem carência de recursos. Falta vergonha em nossas faces.

TENDÊNCIAS / DEBATES

Cratera de Colônia pode virar geoparque mundial da Unesco, FSP

 

São Paulo

No final do ano passado, um grupo de técnicos das secretarias municipais do Verde e do Meio Ambiente e de Relações Internacionais, acompanhado de lideranças comunitárias e empreendedores, visitou a Cratera de Colônia, no distrito de Parelheiros, a 40 km da praça da Sé. O objetivo foi analisar a criação de uma rota turística na região e facilitar a sua inclusão no programa de Geoparques da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

Já existe hoje o Pnmcc (Parque Natural Municipal da Cratera de Colônia), mas ele é fechado ao público por ser uma área de proteção integral com acesso restrito a pesquisadores. Ele faz parte da APA (Área de Proteção Ambiental) Capivari-Monos. A ideia é abri-lo para visitas monitoradas que passem por pontos como o planetário do CEU Parelheiros, o parque Nascentes Ribeirão Colônia e a Escola de Agroecologia e transformá-lo num patrimônio geológico mundial.

Vista aérea mostra extensa área urbana com muitas casas e ruas organizadas em grade, adjacente a densa área de floresta. Céu está coberto por nuvens cinzentas, indicando tempo nublado.
Vista aérea de Vargem Grande, com o parque Municipal da Cratera de Colônia ao fundo - Bruno Santos/Folhapress

A cratera de Colônia é um dos fenômenos mais intrigantes da cidade. Trata-se de uma das duas únicas, entre as 188 dessas depressões circulares existentes no mundo, que é habitada. A outra está localizada em Ries, na Alemanha. A brasileira foi aberta entre 36 e 5 milhões de anos atrás quando um asteroide ou um cometa se chocou com o solo deixando um buraco de 3,6 km de diâmetro, 53 hectares e 400 metros de profundidade, dos quais 100 metros estão na superfície formando sua borda soerguida. Ela tem um formato arredondado.

Os 300 metros do subsolo foram preenchidos durante milhões de anos por sedimentos e restos de vegetação que hoje estão sendo escavados e são uma importante fonte de estudos sobre as mudanças geológicas em São Paulo, a evolução do clima e da biodiversidade e sobre a própria origem da cratera.

Cratera de Colônia
Cratera de Colônia com o bairro de Vargem Grande localizado à esquerda e o de Colônia, à direita - Prefeitura/Divulgação

"Estamos mostrando 1,5 milhão de anos da história climática do Brasil que já datamos por vários métodos", diz a pesquisadora do IRD (Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento) Marie-Pierre Ledru, que encontrou microfósseis vegetais nas suas escavações no local. "Com as análises poderemos reconstruir a evolução da mata atlântica."

PUBLICIDADE

Ela diz que até agora só foram perfurados 52 metros do subsolo e que ainda não foram encontradas rochas queimadas que comprovariam o choque térmico causado por um corpo celeste. "As únicas hipóteses são que a cratera tenha sido aberta por um asteroide ou um cometa, mas para ter certeza científica seria preciso cavar os 300 metros, o que não foi feito por falta de recursos", afirma.

Bairro de Colônia
Paróquia de Santo Expedito no bairro de Colônia, fundado há 200 anos por imigrantes alemães - Vicente Vilardaga

A cratera de Colônia foi avistada nos anos 1960 por meio de imagens aéreas. Posteriormente, fotos de satélites confirmaram seu formato circular, mas ainda não se sabia do que se tratava. Nessa época, o bairro de Colônia, fundado por alemães há 200 anos, já ocupava uma pequena parte de suas bordas. Mais tarde, entre as décadas de 1980 e 1990, se estabeleceu na região a comunidade de Vargem Grande, com cerca de 45 mil habitantes, que invadiu parte do interior da cratera.

Foi só em 2013 que o geólogo da USP Victor Velázquez Fernandez colheu evidências de que teria havido ali o impacto de um corpo celeste e desde então as pesquisas para entender melhor o fenômeno têm prosseguido.

Uma das formas de chegar ao parque geológico é usando a segunda linha de ônibus mais longa da cidade que vai do terminal Vila Mariana até Parelheiros. Na sequência se percorre outro trecho até Colônia ou Vargem Grande. Estive lá. É uma viagem de duas horas e meia que hoje não permite ver muita coisa. Mas percorrê-la vai valer muito a pena se for criada uma rota turística na cratera, como pretende a prefeitura.