sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Volta à vida num livro o único europeu guilhotinado na Guerra da Argélia, Mario Sergio Conti, FSP

 O torneiro mecânico Fernand Iveton foi tirado da cama pelos guardas pouco antes das cinco horas da manhã e empurrado aos safanões para o pátio da prisão. Seus advogados lhe contaram que o presidente da República negara o indulto. Era segunda-feira, 11 de fevereiro de 1957.

O escrivão perguntou se tinha algo a declarar. "A vida de um homem, a minha, pouco importa", respondeu. "O que importa é a Argélia. Ela será livre amanhã". O capelão indagou se precisava de orações. Iveton ensaiou um sorriso e disse que não.

O rosto de Fernand Iveton aparece em preto e branco centralizado na imagem. O fundo verde é interrompido por  formas finas e pontiagudas em vermelho.
Ilustração de Bruna Barros para coluna de Mario Sérgio Conti de 10 de janeiro de 2026 - Bruna Barros/Folhapress

O carrasco o aguardava ao pé do cadafalso. Espantou-se ao saber que o condenado se chamava, como ele, Fernand. Verdugo e vítima também compartilhavam legados paternos. Um Fernand, o apelidado de Senhor de Argel, era filho de carrasco. O outro, o comunista com os braços amarrados às costas, filho de comunista.

Os advogados buscaram abrigo no corredor que levava ao patíbulo. Um se ajoelhou e levantou ao céu as mãos postas. O outro encostou a testa na parede e chorou.

"São cinco e dez quando a cabeça de Fernand Iveton, número de matrícula 6101, 30 anos,". Termina assim, numa vírgula, o romance "Amanhã Não Ousarão nos Assassinar", de Joseph Andras, recém-lançado pela Mundaréu. A frase abandonada ao meio insinua tanto continuidade quanto interrupção.

Sequência e bloqueio do quê? Fernand Iveton existiu, foi o único europeu decapitado na Guerra da Argélia, de 1954 a 1962 —enquanto os argelinos executados foram 217. Lido hoje, o pano de fundo do livro continua: o belicismo colonial segue firme e forte de Gaza à Venezuela.

O que o romance interrompe é a amnésia a que foi relegado uma das milhões de vítimas da violência imperial ontem e hoje, um pobre diabo chamado Fernand Iveton. Nem sempre foi assim; Sartre e Camus escreveram a seu respeito logo depois da execução.

No ensaio "Somos Todos Assassinos", Sartre disse: "Este homem declarou e provou que não queria a morte de ninguém, mas nós queríamos a sua e a obtivemos".

Em "Reflexões sobre a Guilhotina", Camus registrou: "É tarde demais e só resta se arrepender ou esquecer. Evidentemente, esquecemos. A sociedade, entretanto, não deixa de ser atingida."

Joseph Andras, o escritor que fez com que Iveton voltasse a existir, não existe. É pseudônimo de um homem que não revela o nome nem aparece em público. Em 2016, "Amanhã Não Ousarão nos Assassinar" ganhou o Goncourt de primeiro romance, o prêmio literário mais prestigiado da França. Tinha 31 anos.

Ganhou, mas não levou. Causou pasmo ao recusar o Goncourt. Explicou que "um padeiro faz baguetes, um encanador desentope, um escritor escreve: é simples assim. Está tudo no livro, não vejo o que mais se poderia acrescentar."

"Amanhã Não Ousarão nos Assassinar" é um romance à antiga, com discurso indireto livre —aquele em que a escrita do autor se mescla à consciência dos personagens, a maioria pessoas reais. Sua força vem da concisão, da objetividade com que conta um caso melancólico— e a fraqueza está numa cena de sexo constrangedora, e em imagens de mau gosto do tipo "o rio Marne mostra a língua verde para a paz azul do céu".

Iveton aderiu à Frente de Libertação Nacional, a FLN, que dirigia a guerra contra a França e explodia bombas em cafés, estádios, cinemas e bares frequentados por colonizadores. Mas ele discordava do terrorismo, dos atentados indiscriminados a civis, e era a favor da sabotagem.

Foi para fazer propaganda da FLN e da independência, pois, que pôs uma bomba-relógio numa sala abandonada da usina de gás onde trabalhava, ajustando-a para explodir depois do expediente. Um chefete a encontrou e delatou Iveton. Tomou choques, chutes, pauladas e o afogaram até desfalecer.

Condenado à morte, seus advogados pediram ao presidente René Coty que o indultasse. Aconselhado pelo ministro François Mitterrand, da Justiça, o presidente recusou o perdão, fazendo com que o degolassem.

Passaram-se 24 anos e Mitterrand se elegeu presidente. Quando lhe perguntavam por que quis que Iveton fosse guilhotinado, ficava vexado. Segundo Roland Dumas, seu amigo e ministro, o fantasma do operário sem cabeça o atazanava.

O espectro, especula-se, contribuiu para que Mitterrand abolisse, em 1981, a pena de morte, e o enaltecessem por isso. Quanto a Iveton, ninguém o saúda. Quando muito, é um discreto herói literário.

Antes da lâmina oblíqua cair-lhe na nuca, disse que pouco importava a vida de um homem. A morte daqueles que os senhores do mundo massacram, também.

Mídia ocidental arrasta os pés na cobertura da revolta iraniana contra os aiatolás, João Pereira Coutinho, FSP

 Leio na imprensa que os Emirados Árabes Unidos pretendem limitar o número de jovens apoiados pelo Estado que desejam estudar no Reino Unido. Quais as razões?

Irmandade Muçulmana, grupo radical sunita que advoga a islamização da sociedade e do Estado. Os Emirados temem que, chegados a Londres, os estudantes sejam radicalizados pelos "irmãos". Melhor estudar em outras latitudes —ou, então, ficar em casa.

Vários veículos em chamas em área urbana à noite. Fumaça densa cobre parte da cena, com luzes de postes e veículos iluminando o local.
Manifestantes entre veículos queimados em Teerã, capital do Irã, em imagem de vídeo - Redes sociais/Reuters

Confesso que ri ao ler a notícia. Pode haver exagero aqui, "ma non troppo". Qualquer pessoa que acompanhe a vida acadêmica —e cultural— nesta parte do mundo não pode deixar de notar a simpatia que uma parcela da "intelligentsia" radical nutre pelo islamismo político.

À primeira vista, é uma simpatia estranha. Se existe uma encarnação perfeita do reacionarismo em política, ela está nas teocracias do Oriente Médio ou nos movimentos integristas islâmicos, negações absolutas da cartilha emancipatória das esquerdas revolucionárias.

Mas quando raspamos a superfície, encontramos os pontos de concórdia. Dois, para ser preciso —o anti-imperialismo e o culto da alteridade radical.

O anti-imperialismo é anterior às aventuras militares de Donald Trump na América Latina. Funciona segundo a máxima —o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Se o radicalismo islâmico elege o grande Satã (os Estados Unidos) e o pequeno Satã (Israel) como alvos prioritários, isso cria uma cumplicidade programática que seria desperdício não explorar.

proletariado, por sua vez, só trouxe decepções. Ele, o suposto agente revolucionário da história, sucumbiu às ilusões burguesas e abandonou a luta de classes. É preciso buscar fora do Ocidente esse anjo vingador, puro, intocado pelas sereias liberais. E disposto a pegar em armas.

Nesse mundo às avessas, a burca deixa de ser um símbolo de submissão feminina para virar emblema de resistência cultural. A sharia já não aparece como negação do laicismo, mas como expressão autêntica de antiocidentalismo.

Foi com essa "forma mentis" que os herdeiros do Maio de 68 celebraram a Revolução Iraniana de 1979. É fato que o regime do xá Mohammad Reza Pahlavi não se recomendava. Por isso mesmo, a revolução reuniu uma coligação ampla e heterogênea —clero, comunistas, liberais— contra a ditadura.

As ilusões, porém, duraram pouco. Em quatro anos, a teocracia prendeu, torturou ou executou as forças progressistas que haviam ajudado a levá-la ao poder. O amor da esquerda radical pelos aiatolás não era correspondido.

Essas lições devem ser relembradas agora que os iranianos, com coragem inaudita, voltam às ruas para exigir o fim da tirania. A mídia ocidental, sempre rápida na cobertura do Oriente Médio, desta vez demorou a despertar. E, quando despertou, arrastou os pés, como uma criança emburrada que se recusa a ir para a escola.

Pobres crianças! Por mais simpáticos que pareçam os aiatolás, eles nem hesitariam em aplicar a prisão ou a forca aos seus admiradores ocasionais.